terça-feira, 15 de setembro de 2026

As 7 mentiras de Flávio Bolsonaro no caso Vorcaro/Master

A relação entre Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Daniel Vorcaro mudou de versão ao longo das revelações sobre o financiamento do filme “Dark Horse”, segundo documentos reunidos pela Polícia Federal. Declarações feitas pelo senador sobre o ex-banqueiro passaram a ser confrontadas com registros de mensagens, ligações e encontros identificados na investigação.

A PF aponta que Flávio atuou como interlocutor direto de Vorcaro nas tratativas para obtenção de recursos para a cinebiografia de Jair Bolsonaro. O senador afirma que buscou patrocínio privado para o projeto e nega qualquer irregularidade.

>>> Confira sete pontos em que as versões apresentadas pelo parlamentar entraram em choque com os documentos da investigação:

1. “Não conheço Daniel Vorcaro”

A relação entre os dois passou a ser questionada após a PF encontrar registros de contato direto entre Flávio e o ex-banqueiro. As mensagens analisadas indicam conversas relacionadas ao projeto cinematográfico. Em maio deste ano, o senador negou a um influente banqueiro do mercado financeiro manter qualquer relação com Vorcaro, segundo informações obtidas pela CNN Brasil.

2. “Nunca falei com Vorcaro”

Ainda em maio deste ano, durante coletiva de imprensa, Flávio afirmou nunca ter falado com Vorcaro. Horas depois, o Intercept Brasil revelaria mensagens trocadas entre os dois.

3. “Nunca encontrei Vorcaro”

Além das comunicações digitais, a investigação identificou encontros presenciais entre o senador e o empresário. Flávio também admitiu posteriormente ter se reunido com Vorcaro para tratar do filme. Em 13 de maio, Flávio disse que nunca havia encontrado Vorcaro pessoalmente. No entando, seundo informações obtidas pelo Metrópoles, Flávio encontrou presenciamente Vorcaro na mansão do banqueiro durante prisão domiciliar.

4. “Nunca pedi dinheiro a Vorcaro”

O senador inicialmente negou ter solicitado recursos ao empresário. Depois, confirmou que procurou Vorcaro para captar valores para a produção, mas afirmou que a negociação fazia parte de uma busca privada por patrocínio.

5. “Era apenas dinheiro privado”

A defesa de Flávio afirma que os recursos tinham origem privada. A PF, porém, passou a investigar a origem e o caminho dos valores destinados ao filme, incluindo transferências analisadas no caso Master que vinham da previdências.

6. “Os pagamentos terminaram em maio”

Os registros reunidos pela investigação apontam movimentações financeiras e contatos relacionados ao projeto em outros momentos de 2025, incluindo durante o período de filmagens. Durante entrevista à GloboNews, no entanto, Flávio mentiu, afirmando que o último pagamento de Vorcaro para o filme Dark Horse havia sido feito em maio de 2025.

Segundo relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), porém, foi registrado um novo envio de US$ 1,66 milhão feito pelo banqueiro em setembro do mesmo ano — quatro meses depois da data indicada pelo senador.

7. “Era apenas uma relação de patrocínio”

Embora o senador sustenta que o financiamento de ‘Dark Horse’ tratava estritamente de patrocínio, a PF encontrou elementos de lavagem de dinheiro e corrupção de Flávio Bolsonaro em Dark Horse.

•        Flávio Bolsonaro e Vorcaro: 10 vezes em que a relação foi exposta pela PF

Polícia Federal reuniu, cronologicamente, uma sequência de mensagens, ligações e encontros entre Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Daniel Vorcaro durante as negociações para financiar o filme “Dark Horse”, cinebiografia sobre Jair Bolsonaro.

O relatório da investigação aponta que o senador manteve contato direto com o ex-banqueiro e participou de tratativas envolvendo repasses para a produção.

Os registros foram obtidos a partir da análise do celular de Vorcaro e de informações financeiras reunidas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

Segundo a PF, os contatos indicam uma relação que ultrapassava uma simples apresentação entre as partes, com cobranças de pagamentos, pedidos de reuniões e acompanhamento do andamento do projeto.

A aproximação mais intensa entre os dois ocorreu no segundo semestre de 2025. A investigação traçou uma linha do tempo dos principais episódios envolvendo o senador e o empresário.

Além dos contatos descritos no relatório, Flávio também admitiu ter se encontrado com Vorcaro quando o empresário estava em prisão domiciliar. Segundo ele, a conversa teve como objetivo encerrar as tratativas relacionadas ao filme “Dark Horse”.

>>>> A cronologia abaixo reúne os principais episódios identificados pela PF:

1.       20 de agosto de 2025

Foi identificado o primeiro registro direto de conversa entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. As mensagens indicam a combinação de um encontro presencial entre os dois.

2.       8 de setembro de 2025

O senador enviou um áudio ao empresário cobrando repasses que estavam atrasados. Segundo a PF, Flávio demonstrou preocupação com a possibilidade de inadimplência junto a integrantes da produção internacional do filme, citando o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh. Vorcaro respondeu pedindo desculpas e afirmou que buscaria resolver a situação.

3.       15 de setembro de 2025

O empresário Thiago Miranda informou a Vorcaro que Flávio queria apresentar pessoalmente o material já gravado da produção. A conversa tratava de uma possível reunião na residência do banqueiro, em Brasília.

4.       16 de setembro de 2025

Uma ligação entre Flávio e Vorcaro foi registrada pela PF no mesmo dia em que ocorreu uma transferência internacional de US$ 1,66 milhão identificada pelo Coaf.

5.       17 de setembro de 2025

Novas mensagens indicam tentativa de marcar outro encontro presencial entre os dois. A investigação também registrou novas tratativas nos dias seguintes.

6.       22 de outubro de 2025

Com as filmagens já em andamento, Flávio voltou a cobrar uma definição sobre os recursos. Segundo o relatório, o senador afirmou que a produção estava no limite do orçamento e pediu que Vorcaro informasse caso não conseguisse realizar o aporte, para que fosse buscada outra alternativa.

7.       No mesmo dia, o empresário afirmou que iria verificar a situação e teria liberado uma nova parcela. Flávio também convidou Vorcaro para um jantar com integrantes da equipe do filme.

8.       Fim de outubro e início de novembro de 2025

Thiago Miranda, elo entre Flávio e Vorcaro, voltou a cobrar valores pagos que, segundo ele, ainda não haviam chegado aos destinatários no exterior.

9.       7 de novembro de 2025

Flávio enviou a Vorcaro um vídeo da produção e agradeceu o apoio financeiro. Na mensagem, afirmou que o filme só estava sendo realizado em razão da ajuda do empresário.

10.     16 de novembro de 2025

Um dia antes da prisão de Vorcaro, Flávio tentou contato com o empresário por ligação e mensagens. O senador escreveu que precisava de uma orientação sobre a situação.

Após sequência de mensagens, em 17 de novembro de 2025, Daniel Vorcaro foi preso pela Polícia Federal ao tentar embarcar em um avião particular com destino ao exterior. No dia seguinte, a PF deflagrou a primeira fase da Operação Compliance Zero

Flávio Bolsonaro confirmou posteriormente que procurou Vorcaro para obter recursos para o filme, mas afirmou que se tratava de uma captação privada de patrocínio. O senador negou ter recebido valores diretamente ou cometido irregularidades.

•        Peruca de R$ 10 mil e R$ 700 mil de hospedagem: os gastos de 'Dark Horse'

A produção de Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro, gastou R$ 10 mil para alugar uma peruca usada pelo ator americano Jim Caviezel, que interpreta o ex-presidente. A despesa faz parte dos documentos entregues à Polícia Federal pela defesa da Go Up Entertainment, produtora do longa investigado no caso Banco Master. O pagamento foi feito em 5 de dezembro de 2025. No comprovante bancário, a empresa aparece como pagadora e a operação está descrita como “Locação Peruca Jim”.

Os documentos mostram ainda que a Go Up desembolsou pelo menos R$ 700 mil em hospedagem de Caviezel, de seu agente e de integrantes da equipe de segurança no Hotel Unique, em São Paulo. Seis notas fiscais somam R$ 663.165,50 e identificam o ator, cujo nome completo é James Patrick Caviezel, o agente Nathon Lewis e Richard Dobrich. Outras duas notas, de R$ 68.835,60, correspondem à hospedagem de Keith Billiot, identificado como segurança de Caviezel.

Há ainda uma transferência de R$ 298.350,49 para o hotel, realizada em 30 de dezembro de 2025, com a descrição “Hospedagem + gorjetas e massagens Jim”. Não foi localizada nota fiscal referente ao pagamento, e os documentos não detalham quanto foi gasto com cada serviço. Também não esclarecem se essa quantia está relacionada aos valores das notas fiscais.

A passagem aérea de Caviezel custou R$ 54.332,46, incluindo tarifa, taxa de embarque e extras. A fatura considera o período de 1º de novembro a 8 de dezembro de 2025. O valor não está incluído nas despesas do hotel.

<><> Outros gastos

A produção também pagou R$ 2.045 em quatro atendimentos de manicure para as atrizes Lynn Collins e Camille Guaty. Collins, que interpreta uma personagem no longa, gerou despesas de R$ 995. Guaty, que interpreta Michelle Bolsonaro, teve R$ 1.050 em gastos.

Para a caracterização de Michelle, foram desembolsados outros R$ 3.000 pelo aluguel de um conjunto de apliques. A produtora pagou ainda R$ 5.500 por uma peruca para um dublê e um kit de dreadlocks destinado a outra personagem. O contrato não separa os valores dos dois itens.

Os comprovantes foram apresentados à PF em 4 de setembro, em uma entrega de documentos feita pela defesa da Go Up e de sua representante legal, Karina Ferreira da Gama. A documentação respondeu a um ofício da polícia que pedia informações sobre as finanças de Dark Horse, incluindo a origem dos recursos e contratos com profissionais estrangeiros, como Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh.

Karina encaminhou a solicitação ao produtor Michael Davis, que se apresenta como sócio majoritário da Go Up Entertainment LLC, nos Estados Unidos. Davis respondeu que, por orientação de seus advogados, não autorizava o envio ao Brasil de documentos da empresa mantidos nos EUA. Segundo ele, pedidos desse tipo deveriam seguir os canais diplomáticos e de cooperação jurídica internacional e dependeriam de ordem de um juiz americano.

<><> Investigação

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, retirou na sexta-feira (11/9) o sigilo da investigação sobre Dark Horse ao ampliar a publicidade dos processos relacionados ao caso Banco Master. A abertura dos autos havia começado na quinta-feira (10/9), por pedido do presidente do STF, Edson Fachin. A Procuradoria-Geral da República havia pedido que todos os inquéritos do caso fossem tornados públicos.

Dirigido por Nowrasteh, Dark Horse retrata Bolsonaro durante a campanha presidencial de 2018 e o episódio da facada sofrida pelo então candidato em Juiz de Fora (MG). O roteiro tem origem em um texto do deputado federal Mario Frias (PL-SP), intitulado Capitão do Povo. Parte das filmagens foi realizada em São Paulo.

 

Fonte: Fórum

 

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