'Inclusão e empoderamento são um discurso
fracassado e adormecedor', diz escritora
Entre as ruas íngremes e sinuosas de La Paz,
na Bolívia, surge uma mulher com as pálpebras pintadas de preto, uma parte da
cabeça raspada, um colar de alho-poró e um anel feito com o olho de vidro que
sua mãe usava.
Ela é conhecida de quase todas as pessoas.
Trata-se de Maria Galindo.
Ela não é política, nem acadêmica, embora
fale as linguagens dos dois setores com fluidez.
Galindo poderia ser chamada de ativista, mas
não fala de igualdade, nem de inclusão. E não tem interesse em reivindicar
direitos ao Estado.
Maria Galindo é grafiteira, radialista,
feminista e "a primeira lésbica pública da Bolívia", segundo ela
própria.
O filósofo espanhol Paul B. Preciado a define
como uma tecnoxamã.
Suas obras já chegaram a museus europeus
famosos. Seus livros foram traduzidos para vários idiomas e ela chegou a ser
sondada para se candidatar à Presidência do país.
Mas, para Galindo, nada representa mais o
espírito do seu trabalho que o coletivo criado por ela há mais de 30 anos,
chamado Mujeres Creando ("Mulheres Criando", em espanhol). Nas suas
próprias palavras, são "índias, putas e lésbicas juntas, misturadas e
irmanadas".
O que começou como um pequeno grupo no seu
bairro, hoje, é referência em termos de feminismo na América do Sul.
Além de escrever sobre o que é a justiça
feminista, o grupo Mulheres Criando serve almoços, oferece orientação jurídica
para mulheres, apresenta shows burlescos e transmite programas de rádio. E
Galindo dirige quase todas estas atividades.
A BBC News Mundo (o serviço em espanhol da
BBC) conversou com Maria Galindo sobre sua vida, seus pensamentos e seu livro
Feminino Bastardo durante as preparações para o Hay Festival Querétaro,
realizado entre 4 e 6 de setembro de 2026 naquela cidade mexicana.
LEIA A ENTREVISTA:
• Você
tem alguma recordação específica, alguma passagem que tenha sido definitiva na
construção do seu pensamento, da sua estética, das suas práticas políticas e
artísticas?
Maria Galindo - Na verdade, não me ocorre um
momento, mas existe algo que acho muito interessante que forma o conceito de
bastardia, um dos eixos do meu pensamento.
Meu pai era um homem de origem quéchua com
fenótipo branco, como eu.
Ele era um homem branco, mas eu o observava
olhando-se no espelho quando era criança e percebia que ele não se sentia
legitimamente branco. Ele se perguntava todos os dias: "Sou realmente
branco?"
Suas credenciais de branqueamento foram a
angústia da sua vida. Ele não conseguia responder com legitimidade à classe
dominante a que ele queria pertencer.
Eu cresci observando todos esses mecanismos
sociais tão tirânicos e tão presentes no nosso continente.
Por isso, quando estou em uma conferência, eu
digo: "Procurem o bastardo da sua família, procurem a bastarda da sua
árvore genealógica."
• Em
Feminismo Bastardo, você conta sobre uma jovem que perguntou qual bibliografia
feminista ela deveria ler e você recomendou que ela começasse lendo as estrias
da sua mãe ou a prisão das mulheres da sua cidade. Por quê?
Galindo - Você precisa se posicionar no
mundo, ler o seu contexto, o dia a dia que o rodeia. Você não irá encontrar
isso nos livros, que valorizo muito, mas são algo diferente.
Não é que eu vá ler a situação das mulheres
no Afeganistão. Não me venha com idiotices.
As mulheres no Afeganistão são capazes de ler
sua própria tragédia. Você precisa ler a sua primeiro.
A leitura do seu dia a dia e do seu contexto
irá forçar você a assumir uma posição frente a você mesma, a sacar as
ferramentas necessárias para a vida que você almeja.
Se você ler as estrias da sua mãe, suas tetas
caídas, seus tiques nervosos, irá observar diretamente suas frustrações. E verá
como irá lidar com as conclusões que você puder tirar dali.
Eu me lembro de que, certa vez, vieram umas
meninas de Barcelona [Espanha] que queriam fazer uma pesquisa sobre a prisão
feminina.
Eu perguntei a elas: "Alguma vez, vocês
foram à prisão feminina de Barcelona?". A resposta foi não.
Eu me pergunto: Como alguém se atreve a
pretender ir à prisão feminina da Bolívia sem ter tomado contato com a prisão
de mulheres da sua sociedade?
Parece que existe uma escala de opressões
divulgada de forma muito colonial em todo o mundo: como estão mal as mulheres
árabes e as do Afeganistão. E, certamente, nós, bolivianas, também estamos ali,
ocupando algum lugar, para que alguém tenha pena de nós.
• Um
ponto em que você insiste é que o feminismo não se refere aos direitos das
mulheres. Do que se trata, então? Qual é a alternativa que você propõe?
Galindo - Tenho absoluta certeza de que a
luta por direitos se esgotou em todo o mundo. Não só para as mulheres, mas
também a luta pelos direitos LGBTQIA+, a que, é claro, eu pertenço, e todas as
supostas minorias.
Essas lutas identitárias dos anos 1990 e 2000
atingiram um ciclo repetitivo e retórico, no qual você depende de quem é para
poder ter acesso.
Você precisa ser a boa lésbica ou a boa
vítima; e, quanto mais pobre, melhor. E desapareceu o questionamento do sistema
que gera os privilégios.
O que defendo é que os feminismos precisam de
horizontes de mudanças estruturais.
Para onde vamos? Qual é a nossa noção de
utopia?
Proponho que seja o fim do patriarcado, não
os direitos das mulheres que, afinal, são um projeto liberal.
Depois, acredito que esta luta pelos direitos
esquece os sujeitos coletivos. O sujeito dos direitos é sempre individual, uma
pessoa que se chama Cármen ou João.
Mas e o sujeito coletivo, que somos como
povos, como sociedades do sul, como geração, como as violentadas reunidas?
No nosso continente, a principal força
política é não esquecer como se constrói o sujeito coletivo.
No México, por exemplo, é muito interessante
a questão das mães buscadoras.
Não é a mãe que procura João. São as mães que
buscam coletivamente, que constituem um sujeito coletivo. E este exemplo
mexicano encontra correspondência em todo o continente.
Porque não somos a metrópole, somos uma
espécie de periferia da economia capitalista. Vivemos submetidos a processos
coloniais extrativistas, em que a riqueza que produzimos não volta para nós.
E, por isso, os mecanismos de resistência
frente a este dia a dia nos fazem ser capazes de construir, com certa
facilidade, com certa intuição, com certa fluidez, sujeitos coletivos.
• O
que você diz às pessoas que estão convictas sobre o discurso da inclusão, da
diversidade, da igualdade, tão transversal atualmente?
Galindo - Tenho muita pena delas e não
acredite que elas não existam na Bolívia.
Tudo isso da inclusão, do empoderamento, do
discurso sobre os direitos foi introduzido em todo o continente, com muitos
milhões de dólares.
Existem lugares aonde não chegou água
potável, mas chegou a oficina da ONG para gerar autoestima, empoderamento e não
sei qual discurso de igualdade.
Este discurso já recebeu seu exame histórico,
que vai sendo renovado, mas sua matriz liberal tem 20 ou 30 anos de vigência.
Por isso, digo que ele está esgotado.
É um discurso fracassado, retórico e
adormecedor.
As pessoas dizem "vamos empoderar as
mulheres". E, então, os bancos recebem créditos subsidiados (dinheiro
barato, com 10 ou 20 anos de graça) e os emprestam às mulheres a 36% ao ano,
que é o dinheiro mais caro de qualquer sociedade.
Tenho absolutamente comprovado, pois trabalho
todos os dias com isso, que o processo de endividamento das mulheres serviu de
colchão amortizador do modelo neoliberal.
Uma mulher artesã que contrata um crédito
passa de oito para 14 horas de trabalho para poder pagá-lo. Deixa de trabalhar
sozinha para que sua filhinha a ajude.
Muitas mulheres que vendem comida muito
barato, que se deslocam, que não tem previdência social porque estamos falando
de economia informal, acabam subvencionando o sistema.
Não é um processo de oportunidades, mas de
captura. E o economista de Bangladesh Muhammad Yunus, que inventou este conto,
recebeu o Prêmio Nobel da Paz.
• No
livro, você também problematiza o movimento #MeToo, que teve um papel
importante para inspirar lutas feministas em todo o mundo.
Galindo - Vejo o #MeToo como um movimento
muito distante.
Eu o respeito, mas acredito que a resposta às
violências machistas na Bolívia, por exemplo, é massiva e não foi inspirada no
#MeToo.
Ela vem de um processo de insubordinação
contra o patriarcado. Nós, mulheres, estamos rompendo o contrato sexual herdado
das gerações anteriores.
E acredito que esta denúncia das violências
machistas a partir da insubordinação seja muito mais potente que o discurso de
vítima.
Estamos dizendo que esta violência que,
antes, era lei e aceita, ou seja, o direito de me violentar, me matar, me
assediar ou me manusear para ter um trabalho, para ter um parceiro ou para
poder ir à discoteca, é algo que iremos impugnar.
Fizemos com a clínica da Universidade de
Harvard [Estados Unidos] um estudo sobre os feminicídios na Bolívia e o nosso
interesse era falar sobre o que fazia aquela mulher um dia antes de ser
assassinada.
O resultado é que ela havia decidido se
divorciar, trabalhar, estudar, havia ido a uma festa e estava dançando com
outras pessoas, que não eram o seu marido. Ou seja, é a desobediência que gera
o assassinato.
No livro Justiça Feminina, temos um capítulo
escrito pela mãe de uma vítima de feminicídio que se chama "a vítima
subversiva".
E a vítima subversiva é justamente uma mulher
que deseja romper com o papel de vítima. Porque o papel de vítima pode ser
muito perigoso e destaca a opressão na qual não queremos permanecer.
• Observando
alguns dos seus grafites e episódios da série audiovisual Mamá no me lo Dijo
("Mamãe não me disse isso", em tradução livre), que você dirigiu há
mais de 20 anos, eu me perguntava: Como foi para você e para o coletivo
Mulheres Criando elaborar um conteúdo tão sexual em pleno espaço público, com
tudo o que isso implica em uma sociedade como a boliviana?
Galindo - Por uma cena de Mamá no me lo Dijo,
o Estado me processou diretamente por atos obscenos. Isso porque pintamos de
várias cores os pênis de 12 homens ao meio-dia, em plena Praça do Obelisco, em
La Paz.
Dez ou 15 anos depois, eu ainda encontrava
pessoas que me paravam na rua e me pediam para explicar o motivo.
Acredito que conseguimos instalar no
imaginário social um sentimento de ruptura. Era preciso remover assim, com
força.
Foi um processo superdoloroso, mas me lembro
dele com alegria... Lembro que me colocaram na cela dos homens porque, na visão
do Estado, eu não podia ser mulher. E eu estava totalmente feliz porque
havíamos conseguido filmar a cena antes da intervenção policial.
Acreditamos que um dos horizontes utópicos é
recuperar nossos corpos nus, nossas sensualidades.
Veja a capa de Feminismo Bastardo, que é uma
figura arqueológica. Este é o corpo que perdemos com o colonialismo.
Mas nós somos incompreendidas.
Quando abordamos o tema "corpo",
surge uma ira social. Acredito que seriam capazes de nos matar, não as forças
da ordem, mas os homens comuns.
Há apenas um mês, apareci em uma entrevista
na televisão com um traje amazônico. Foi a roupa com que os missionários
jesuítas taparam a nudez das mulheres.
Por este ato, que não era um nu, quiseram me
pegar e ainda me ameaçam de morte.
Também fizemos nus públicos coletivos e
seguiremos nesta luta porque, sem a recuperação do corpo, também não há
descolonização.
• Você
contou que, nas eleições do ano passado, não aceitou ser candidata à
Presidência. Você consideraria em algum momento?
Galindo - A situação na Bolívia é muito
angustiante. Não sei o que vou dizer se surgir novamente esta possibilidade.
Quando disse que não, eu tinha muita certeza
da minha resposta. Minha política não está no Estado.
Mas, atualmente na Bolívia, existe um vazio
político tão grande que, se for preciso colocar o país sobre os ombros, talvez
o fizesse.
Fonte: BBC News Mundo

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