Proteínas no sangue de crianças podem indicar
risco de doenças no futuro
Pesquisadores da Universidade do Texas Health
Houston, nos Estados Unidos, descobriram que os fatores de risco para doenças
cardiovasculares, renais e metabólicas, podem ser identificados na infância, a
partir dos 8 anos de idade. Ao convocar um grupo de 273 crianças, os cientistas
analisaram cinco mil proteínas e identificaram seis assinaturas que influenciam
significativamente em maiores chances de adoecimento na vida adulta. A pesquisa
foi publicada, ontem, na revista Nature Metabolism.
Segundo o trabalho, a mesma assinatura
proteica estava presente em 685 adultos da mesma comunidade que apresentavam
alto risco de doenças cardiovasculares, renais e metabólicas irreversíveis, de
acordo com a equipe. "Compreender o desenvolvimento de doenças
cardiovasculares, renais e metabólicas ao longo da vida é fundamental",
disse Heather Highland, professora assistente de epidemiologia na Escola de
Saúde Pública. "As proteínas que circulam no sangue podem servir como
marcadores de patologias incipientes em todo o corpo. Esses marcadores precoces
podem ajudar a identificar pessoas com maior risco para monitoramento mais
rigoroso e possível intervenção precoce."
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Para confirmar as descobertas, a equipe
avaliou a associação das assinaturas proteicas com desfechos de doenças em mais
de 28 mil adultos participantes do UK Biobank, um banco de dados do Reino
Unido. Segundo os cientistas, indivíduos que apresentavam marcações semelhantes
às encontradas anteriormente tinham maior risco de sofrer um ataque cardíaco ou
apresentar outros desfechos negativos de saúde associados a doenças
cardiovasculares, renais e metabólicas.
O trabalho revela que muitas crianças que
participaram do estudo apresentavam características associadas a doenças
cardiovasculares, renais e metabólicas, incluindo obesidade, função hepática
prejudicada, níveis de colesterol inadequados e resistência à insulina. No
entanto, muitos dos exames de sangue realizados pela equipe não são típicos dos
que uma criança faria em uma consulta médica anual.
<><> Intervenção precoce
Para Kari North, coautora do estudo, os
resultados reforçam a importância da intervenção precoce e da transição para a
medicina de precisão. "Se conseguirmos reverter a desregulação das
proteínas que influenciam o risco de ataque cardíaco mais tarde na vida, na
infância, poderemos reduzir significativamente a carga de doenças
cardiovasculares que vemos hoje em populações adultas em todo o mundo."
Joseph McCormick, professor de epidemiologia
e coautor do estudo, destaca que a população estudada fornece marcadores
silenciosos importantes de características de doenças crônicas que se
manifestam em adultos. "Incluindo alguns pais das crianças, com a doença
clínica. Essas crianças participaram generosamente do estudo em nossa Unidade
de Pesquisa Clínica em Brownsville."
Andreza Andrade, endocrinologista pediátrica
do Hospital Brasília Águas Claras, da Rede Américas, reforça que a infância é
um período muito importante para a construção da saúde. "É nessa fase que
acontecem processos como programação metabólica, formação da saúde óssea e a
construção de hábitos alimentares e de atividade física." Além disso, a
especialista ressalta que muitas alterações cardiometabólicas são silenciosas e
podem estar presentes antes mesmo de a criança apresentar qualquer sintoma.
"Identificar esses fatores precocemente permite intervir antes que eles
evoluam para problemas mais graves na adolescência ou na vida adulta."
A especialista dá ainda algumas dicas para
que os pais e responsáveis fiquem de olho na saúde dos pequenos. "Na
resistência à insulina, um dos sinais clínicos que podemos observar é a
acantose nigricans, aquelas áreas de pele mais escurecida e espessada,
principalmente no pescoço, axilas e virilha. Em relação ao colesterol, sabemos
que o processo de aterosclerose pode começar ainda na infância. Por isso, a
identificação precoce da dislipidemia é importante."
Ela explica que o rastreamento pode ser
direcionado a crianças menores, especialmente quando existem fatores de risco,
como história familiar de doença cardiovascular precoce, diabetes, obesidade ou
exposição ao tabagismo. "Também existe uma recomendação de rastreamento
universal entre 9 e 11 anos, com nova avaliação na adolescência, entre 17 e 21
anos. Já a hipertensão arterial é, na maioria das vezes, silenciosa. Por isso
deve ser aferida rotineiramente nas consultas pediátricas, pelo menos anualmente
a partir dos 3 anos, e com maior frequência quando existem fatores de
risco."
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Palavra de especialista - Thais Milioni Luciano, endocrinologista
Infantil, integrante da plataforma INKI de consultas médicas
# Prevenção é o caminho
"A avaliação do ganho de peso e da
estatura deve ser realizada para todas as idades e todas as crianças. Em
relação à pressão arterial, devemos medi-la pelo menos uma vez por ano, a
partir dos 3 anos, em quem não apresenta riscos, e em todas as consultas para
aqueles que apresentam riscos. Não devemos esquecer que as chances são maiores
quando há excesso de peso. Quanto aos exames laboratoriais, há variações que
devem ser avaliadas individualmente, uma vez que esse risco pode estar
relacionado a condições genéticas específicas, inclusive herdadas. O estilo de
vida saudável será sempre uma recomendação. Isso inclui sono de qualidade,
controle do estresse, atividade física — a recomendação da OMS é de, no mínimo,
300 minutos por semana para todas as crianças a partir dos 5 anos — e alimentação variada, que inclua derivados
lácteos, cereais, leguminosas, hortaliças e proteínas de origem animal, caso a
família tenha esse hábito."
Fonte: Correio Braziliense

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