O Supremo sob cerco internacional: a nova
fase da guerra híbrida contra o Brasil
O cerco internacional ao Supremo não começou
em Londres ou Washington. Começou dentro da própria Corte, quando André
Mendonça converteu uma investigação ainda inconclusa em uma sequência de fatos
institucionais de enorme potência política. Ao retirar o sigilo de material
ligado ao caso Banco Master, levar suspeitas envolvendo Alexandre de Moraes ao
centro do debate público e, dias depois, afastar preventivamente o
diretor-geral da Polícia Federal e o diretor de Inteligência da corporação,
Mendonça lançou instituições centrais do Estado umas contra as outras no
momento mais sensível do calendário eleitoral. Parte de suas decisões foi
contestada, Fachin interveio para suspender medidas conflitantes e a própria
Corte passou a discutir quem poderia investigar seus ministros e sob quais
regras. O problema, portanto, deixou de caber nos autos. A instituição
encarregada de arbitrar os conflitos do Estado passou a disputar publicamente
os limites de sua própria autoridade.
Esse deslocamento produz um efeito que a
política conhece melhor do que o direito. O tempo jurídico exige prova,
contraditório, competência e responsabilização individual. O tempo
informacional trabalha com velocidade, associação e percepção. Antes que o
Supremo consiga estabilizar os fatos, cada acusação, vazamento, decisão ou
reação já circula como fragmento de uma história maior, na qual ministros,
Polícia Federal, Procuradoria-Geral da República e sistema financeiro aparecem
presos ao mesmo campo de suspeição. É assim que uma crise sobre condutas
individuais se converte em crise de confiança. A pergunta deixa de ser apenas o
que Moraes fez, ou se Mendonça ultrapassou seus poderes, e passa a atingir a
própria capacidade da Corte de produzir decisões que sejam reconhecidas como
legítimas por uma sociedade polarizada e por uma eleição que ela terá de ajudar
a garantir.
É nesse intervalo que a lógica da guerra
híbrida se torna material. Ela não precisa inventar contradições inexistentes.
É mais eficiente explorar conflitos reais, selecionar seus elementos mais
corrosivos e acelerar sua circulação até que o efeito político ultrapasse o
fato original. Isso não transforma toda cobertura crítica em operação
psicológica, nem autoriza afirmar que Mendonça execute ordens estrangeiras.
Significa algo mais verificável: uma ruptura doméstica pode adquirir
funcionalidade estratégica para atores externos sem que exista uma sala comum
de comando. Quanto mais a instituição perde capacidade de organizar o sentido
público de seus próprios atos, maior o espaço para que outros atores definam o
que aquela crise representa. A vulnerabilidade começa dentro, mas o poder de
interpretá-la já não permanece necessariamente aqui.
Mendonça tampouco é um personagem
politicamente ingênuo lançado ao acaso nesse tabuleiro. Sua trajetória o
conecta a um circuito jurídico e religioso conservador com articulação
internacional documentada. A ANAJURE, que apoiou publicamente sua indicação ao
Supremo, mantém parceria institucional estudada academicamente com a Alliance
Defending Freedom, organização jurídica religiosa sediada nos Estados Unidos e
com atuação transnacional. Em 2020, a Academia ANAJURE apresentou Mendonça
entre seus professores ao lado de Jeffery Ventrella, então dirigente do
Blackstone Legal Fellowship, programa da ADF voltado à formação de juristas
cristãos. O dado não prova coordenação, submissão ou comando externo. Prova
algo mais preciso: Mendonça conhece por experiência direta ambientes em que
direito, religião e política conservadora circulam por redes internacionais.
Tratar seus atos como se fossem produzidos num universo fechado ao significado
externo da crise seria tão imprudente quanto afirmar uma cadeia de comando que as
evidências não demonstram.
É nesse sentido que a metáfora do homem-bomba
institucional encontra seu limite e sua força. Não se trata de atribuir a
Mendonça uma intenção secreta, mas de observar a posição que ocupa e o efeito
objetivo de seus movimentos. Ministro do Supremo, figura pública do
evangelicalismo brasileiro e protagonista de uma crise com efeitos eleitorais,
ele atua num ponto em que Justiça, aparato policial, disputa presidencial e
redes conservadoras transnacionais se tocam. Cada ruptura que amplia dentro da
Corte encontra fora dela um ecossistema que há anos procura transformar Moraes
e o STF em problemas de política externa. A diferença é que agora esse
ecossistema recebe material produzido pela própria instituição, não apenas
acusações formuladas por seus adversários.
Durante anos, o eixo internacional contra
Moraes esteve concentrado em censura, liberdade de expressão, Big Techs e
perseguição a conservadores. Esse enquadramento ganhou força política em
Washington, mas permaneceu fortemente identificado com o bolsonarismo, o
trumpismo e plataformas em confronto direto com decisões brasileiras. A crise
de 2026 altera a matéria-prima. Corrupção, conflito de interesse, neutralidade
judicial, guerra entre ministros e interferência sobre a Polícia Federal
atravessam fronteiras ideológicas com muito mais facilidade. Não exigem adesão
a Bolsonaro, Trump ou Elon Musk. Exigem apenas dúvida sobre a capacidade do
Supremo de arbitrar conflitos que agora o atravessam por dentro.
A mudança já aparece na cobertura
internacional. A Reuters descreveu o episódio como a crise mais significativa
do Supremo em mais de quatro décadas e relacionou a disputa à confiança
pública, ao mercado e à eleição. A Associated Press passou a falar em consequências
para a credibilidade do Judiciário e para a integridade das instituições
democráticas. A Bloomberg colocou no título a possibilidade de a guerra interna
da Corte alterar a corrida presidencial. O Economist foi mais longe ao inverter
a imagem que ajudara a consolidar no exterior: a instituição que havia
resistido à tentativa de ruptura democrática aparece agora como parte do risco
à própria democracia. Não é necessário igualar esses veículos ao Breitbart ou
ao ecossistema MAGA. O ponto é exatamente o contrário. A convergência não
ocorre na linguagem, mas no objeto da dúvida. O questionamento deixa de ser
apenas sobre Moraes e alcança a confiabilidade do Supremo.
Essa diferença é decisiva. Chamar Moraes de
ditador mobiliza sobretudo quem já estava disposto a acreditar nisso. Falar em
integridade, neutralidade, credibilidade e estabilidade institucional alcança
diplomatas, investidores, governos e formadores de opinião que jamais adotariam
a retórica da extrema direita. A suspeita muda de gramática e, ao mudar de
gramática, muda de público. Isso também não significa que exista um consenso
mundial contra o STF. O Guardian, por exemplo, enquadrou a interferência norte-americana
na eleição brasileira como risco central, enquanto a Al Jazeera preservou na
cobertura da crise o contexto da tentativa de golpe e da disputa política. A
pressão semântica mais intensa está concentrada no circuito atlântico de mídia
e poder, não em uma opinião global homogênea. Essa precisão torna a mudança
mais, e não menos, relevante.
O fenômeno central é outro: a
extraterritorialização da legitimidade. O Supremo continua brasileiro,
submetido à Constituição brasileira e formalmente soberano sobre seus
processos, mas uma parte relevante do julgamento político sobre sua
confiabilidade começa a ser produzida fora do país. O mecanismo é circular. Um
acontecimento nasce em Brasília, recebe interpretação em Londres, Nova York ou
Washington e retorna ao debate nacional revestido da autoridade simbólica de
ter sido reconhecido no exterior. A imprensa brasileira noticia o diagnóstico
estrangeiro, atores políticos o incorporam e o sentido internacional volta a
interferir na disputa doméstica. Não é necessária nenhuma conspiração para que
esse efeito exista. Basta uma assimetria real de poder reputacional entre
centros capazes de distribuir legitimidade global e países que ainda consomem
essa certificação como medida de sua própria normalidade institucional.
Essa transformação seria apenas simbólica se
encontrasse um Estado norte-americano sem instrumentos para agir. O quadro é o
oposto. A Executive Order 14323, assinada por Donald Trump em 30 de julho de
2025, declarou políticas e ações do governo brasileiro uma ameaça incomum e
extraordinária à segurança nacional, à política externa e à economia dos
Estados Unidos. A ordem determinou que o secretário de Estado monitorasse a
situação brasileira e, em conjunto com Tesouro, Comércio, Segurança Interna,
USTR e estruturas de segurança nacional, recomendasse medidas adicionais. As
tarifas extraordinárias impostas com base na IEEPA foram encerradas em
fevereiro de 2026, mas a emergência nacional e os demais mecanismos foram
preservados. Em julho de 2026, Trump prorrogou formalmente essa emergência por
mais um ano, citando novamente ações do Supremo como justificativa. A
arquitetura de monitoramento, portanto, não é uma hipótese analítica. É
política oficial norte-americana.
Há também capacidade material demonstrada. Em
junho de 2026, o USTR considerou acionáveis pela Seção 301 práticas brasileiras
que, entre outros pontos, incluíam ordens judiciais dirigidas a plataformas
norte-americanas. Em julho, a agência impôs tarifa adicional de 25% sobre
determinados produtos brasileiros. Antes disso, Alexandre de Moraes havia sido
incluído pela OFAC na lista de sanções Global Magnitsky em julho de 2025,
juntamente com medidas posteriores contra sua rede familiar e patrimonial. As designações
foram retiradas em dezembro daquele ano, fato essencial para não falsear o
quadro. O precedente, contudo, permanece: Washington demonstrou disposição e
capacidade de converter sua interpretação sobre atos de uma autoridade judicial
brasileira em instrumentos financeiros, diplomáticos e comerciais. A crise
atual não cria essa capacidade. Ela encontra uma capacidade já testada.
É nesse ambiente que a movimentação de
operadores brasileiros em Washington ganha peso. Segundo reportagem publicada
pela Folha em 11 de setembro, integrantes do governo Trump acompanham a crise
do Supremo e avaliam novas medidas contra Moraes e outros membros da Corte,
enquanto Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo mantêm interlocução com
autoridades e aliados da administração norte-americana. Até aqui, não há nova
sanção formalmente desencadeada pela crise de setembro. Essa ausência é
importante. Ela impede transformar possibilidade em fato consumado. Mas o
encadeamento material já existe: crise interna, transporte político para
Washington, monitoramento estatal formal e instrumentos disponíveis para
eventual coerção. O risco não depende de provar que a imprensa ordena o governo
ou que Mendonça recebe instruções externas. Depende de reconhecer que
estruturas autônomas podem convergir e produzir poder.
Nada disso absolve o Supremo de suas próprias
responsabilidades. A defesa da soberania brasileira seria vazia se funcionasse
como salvo-conduto para ministros. As suspeitas relacionadas ao Banco Master
precisam ser apuradas até o fim, qualquer conflito de interesse deve ser
esclarecido e as decisões de Mendonça precisam ser submetidas ao mesmo controle
de legalidade exigido de Moraes. Fachin já suspendeu decisões conflitantes
sobre a cúpula da Polícia Federal, retirou Moraes da relatoria do inquérito das
fake news e convocou o plenário a enfrentar a crise. Lula passou a defender a
discussão sobre mandatos para ministros do Supremo. Ex-ministros da Justiça de
governos distintos cobraram explicações de Moraes e Mendonça. A crise,
portanto, não é invenção estrangeira. É brasileira, concreta e suficientemente
grave para exigir correção institucional.
É exatamente por isso que soberania e
responsabilização não podem ser apresentadas como opostos. Criticar Moraes não
é atacar o Brasil. Investigar Mendonça não é defender Moraes. Questionar
procedimentos do Supremo não equivale a golpismo. Uma democracia soberana deve
ser capaz de fazer tudo isso com regras públicas, prova, contraditório e
controle institucional. A fronteira é ultrapassada quando a incapacidade de
resolver essas contradições internamente entrega a outro Estado a oportunidade
de convertê-las em sanção, tarifa, pressão diplomática ou cálculo eleitoral.
Nesse ponto, uma crise legítima deixa de produzir apenas debate e passa a
oferecer matéria-prima para tutela.
O problema histórico colocado diante do
Brasil não é, portanto, escolher um ministro para proteger. É preservar a
capacidade de o país corrigir suas instituições sem terceirizar o juízo sobre
sua legitimidade. A guerra híbrida atinge um estágio mais sofisticado quando
não precisa fechar tribunais, ocupar prédios ou interromper eleições. Basta que
atores internos aprofundem a fratura, que centros externos adquiram autoridade
para definir o significado dessa fratura e que uma potência disponha dos meios
para transformar interpretação em pressão. O Supremo pode sobreviver
formalmente a tudo isso e ainda sair politicamente diminuído. A soberania
também pode permanecer escrita na Constituição enquanto parte do poder de
certificá-la já circula fora dela. O perigo não está apenas em quem acende o
pavio dentro do Supremo. Está em quem, do lado de fora, acumula autoridade e
instrumentos para decidir o destino dos escombros.
<><> Fachin entra em campo, mas
Flávio Dino é o “craque do jogo”
Pressionado
pela mídia corporativa durante boa parte do dia, o presidente do Supremo
Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, assumiu o controle da pauta na tarde
desta quarta-feira (9). O objetivo foi reorganizar o “meio de campo” da Corte
após o ministro Flávio Dino suspender os efeitos do afastamento da cúpula da
Polícia Federal na parte da manhã, que havia sido determinado na véspera por
André Mendonça.
Primeiro
é preciso entender o que foi decidido. Em uma das determinações, Fachin revogou
a designação do ministro Alexandre de Moraes na condução do Inquérito das Fake News. A decisão preserva
a validade de todos os atos processuais já praticados, mas determina que
inquéritos, petições e investigações preliminares conexas fiquem sob a
relatoria da própria presidência da Corte. Moraes prossegue à frente
exclusivamente das ações penais já instauradas.
Na
segunda decisão, o presidente do STF acolheu o pedido de suspensão de liminar
ajuizado pela Advocacia-Geral da União (AGU) na terça (8). Com isso, derrubou
oficialmente a decisão de André Mendonça que afastava o diretor-geral da PF,
Andrei Rodrigues, e o diretor de inteligência, Leandro Almada, além de
paralisar os relatórios de inteligência da corporação.
Para
conter o conflito direto aberto pela liminar de Flávio Dino contra a ordem de
Mendonça, Fachin avocou para si a competência exclusiva de conduzir o caso. O
presidente da Corte concedeu prazo de 48 horas para que a direção da PF preste
esclarecimentos, reservando para si a análise preliminar sobre a permanência de
Andrei Rodrigues.
Embora
Fachin vá deliberar sobre a cautelar no curto prazo, a decisão final sobre o
mérito caberá ao conjunto dos ministros. O tema foi pautado
para uma Sessão Plenária Extraordinária em 15 de setembro de 2026, às 10 horas.
No despacho, Fachin registrou que a sequência de ordens monocráticas desenhou
um “quadro de conflitos e sobreposições processuais que configuram grave lesão
à ordem pública e à integridade deste Tribunal”.
<><> Por que Flávio Dino foi o
“craque do jogo”?
Apesar de ter tido sua decisão monocrática
formalmente suspensa por Fachin para evitar a sobreposição de ordens, Flávio
Dino alcançou uma vitória estratégica completa.
Primeiro, porque sua pronta reação na manhã
de quarta-feira expôs a insustentabilidade da ordem de Mendonça e forçou a
Presidência do STF a agir imediatamente. Segundo, porque o objetivo central de
sua decisão, que era anular o afastamento dos diretores da PF e restabelecer os
trabalhos da inteligência policial, foi plenamente garantido pela decisão de
Fachin a favor da AGU.
Mais do que o resultado prático, Dino venceu
no plano tático e institucional. Em sua fundamentação, o ministro sustentou que
temas de tamanha gravidade, envolvendo prerrogativas do Tribunal e a gestão da
PF, jamais poderiam ser decididos por ordens monocráticas isoladas ou perante
Turmas, devendo submeter-se estritamente ao Plenário.
Ao avocar o feito e convocar a sessão
extraordinária do dia 15, Fachin atendeu integralmente à tese jurídica
levantada por Dino. Em tempos nos quais Mendonça jogava sozinho, não é pouca
coisa.
Fonte: Por Reynaldo José Aragon, em Brasil
247/Fórum

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