segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Documentos do caso Master ligam Dark Horse ao PCC

Documentos cujo sigilo foi retirado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) revelam que a produção do filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro (PL), teria sido financiada por meio de um complexo esquema de desvio de recursos públicos e lavagem de dinheiro ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC), informa reportagem do site O Cafezinho. O levantamento do segredo de justiça da Petição 15.556 — investigação principal da Operação Compliance Zero —, assim como de procedimentos conexos sob a relatoria do ministro André Mendonça, ocorreu após cobrança pública do presidente Lula (PT) por total transparência nas apurações da Corte e pedido direto do presidente do Supremo, ministro Edson Fachin.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, sustentava publicamente que os valores destinados ao projeto audiovisual eram 100% privados. No entanto, as investigações do STF e da Polícia Federal indicam a possível presença de verbas originadas de fundos de previdência estaduais e municipais, geridos pelo Banco Master, além de capital proveniente do crime organizado e emendas parlamentares.

<><> Conexão entre o Banco Master, Reag e o PCC

As apurações da Operação Carbono Oculto, conduzida pela Polícia Federal, identificaram a aquisição de créditos de carbono como mecanismo de fachada utilizado pela facção criminosa para movimentar bilhões de reais. A mesma tática foi localizada na estrutura patrimonial do banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master.

Em decisão proferida em 2 de março no Inquérito 5.026, o ministro André Mendonça registrou que o Banco Master movimentou cerca de R$ 2,8 bilhões em operações de câmbio direcionadas a uma empresa suspeita de lavar capitais para o PCC. O montante total das fraudes sob apuração na Operação Compliance Zero pode alcançar R$ 17 bilhões.

O elo entre os recursos do banco e o patrimônio mantido pela família Vorcaro operava por meio da gestora Reag. Em janeiro, na Petição 15.198, o relator detalhou que o Banco Central notificou o Ministério Público sobre indícios de ilícitos envolvendo a gestora e a instituição financeira, acompanhados de um fluxograma dos fundos de investimento utilizados nas transações. O bloqueio judicial solicitado no âmbito desse processo atinge R$ 5,77 bilhões.

Diante do bloqueio, a defesa de Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, requereu ao STF a liberação de contas mantidas na gestora. Conforme registrado na decisão de 29 de maio, os advogados alegaram que os ativos não possuíam liquidez imediata por estarem “vinculados a ativos de créditos de carbono pendentes de realização”. A Procuradoria-Geral da República (PGR) manifestou-se contra a liberação, assinalando que a definição sobre a origem dos valores constitui o objeto central da investigação, o que levou o ministro Mendonça a indeferir o pedido e manter a constrição dos bens.

<><> Negociações para o filme de US$ 24 milhões

O despacho assinado por Mendonça em 12 de julho detalhou as tratativas para o financiamento da produção cinematográfica. Com base em apurações do Intercept Brasil, o magistrado anotou que Flávio Bolsonaro negociou de forma direta com Daniel Vorcaro o repasse de US$ 24 milhões (equivalente a aproximadamente R$ 134 milhões) para a realização da cinebiografia.

Registros obtidos no aparelho celular de Vorcaro revelam “cobranças incisivas por parte do Senador para a liberação dos recursos”. Além dos contatos remotos, o documento aponta que, no final de 2025, enquanto Vorcaro cumpria prisão domiciliar, Flávio Bolsonaro esteve pessoalmente na residência do banqueiro, localizada em São Paulo. A visita, revelada inicialmente pelo jornalista Igor Gadelha, do portal Metrópoles, foi posteriormente confirmada pelo parlamentar ao jornal O Globo.

As notícias-crime relativas ao senador foram autuadas pelo relator em procedimentos separados, a exemplo da Petição 16.292, que permanece sob sigilo. Em outra frente de apuração, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, citou em decisão de 9 de setembro um procedimento sob a responsabilidade do ministro Flávio Dino, destinado a investigar o “suposto direcionamento de emendas parlamentares” para o financiamento da obra “Dark Horse”.

•        Flávio Bolsonaro é alvo de protesto em Manaus:’Cadê o dinheiro do Vorcaro?’

A passagem do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) por Manaus foi marcada por protestos nesta sexta-feira (11). Manifestantes cobraram explicações do senador sobre sua relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e criticaram a mudança de discurso do presidenciável em relação à Zona Franca de Manaus (ZFM).

“Flávio Bolsonaro, cadê o dinheiro do Vorcaro?” foi uma das cobranças feitas durante a manifestação. Vídeos do ato registraram cartazes e gritos relacionando o candidato ao ex-controlador do Banco Master.

O protesto ocorreu durante a passagem de Flávio pela capital amazonense para uma série de compromissos de campanha. O senador visitou a fábrica da Honda, no Polo Industrial de Manaus, e participou do evento “Grande Encontro da Força da Direita do Amazonas”.

<><> ‘Cadê o dinheiro do Vorcaro?’

O caso Master foi um dos principais motivos do protesto. Documentos de investigações relacionadas ao Banco Master e ao financiamento de “Dark Horse”, filme sobre Jair Bolsonaro, tiveram o sigilo retirado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF) , após solicitação de Edson Fachin. Flávio está entre os políticos citados nos documentos tornados públicos.

O senador foi flagrado conversando com Vorcaro para buscar financiamento para o filme sobre o pai. O ex-banqueiro chegou a repassar o valor de R$ 61 milhões para a produção.

Durante a passagem por Amazonas, Flávio também comentou as investigações. O candidato defendeu a atuação de André Mendonça e afirmou estar tranquilo com as apurações.

<><> De crítico a ‘100% Zona Franca’

Se nas ruas Flávio foi cobrado pelo caso Vorcaro, dentro de sua agenda de campanha o senador tentou se apresentar como defensor da Zona Franca de Manaus.

Vestindo uma camisa com a inscrição “100% Zona Franca”, Flávio classificou o modelo como estratégico para o país e prometeu ampliar investimentos no polo industrial amazonense.

“A Zona Franca agora é do Brasil, 100% orgulho nacional. E nós vamos melhorar ainda mais a Zona Franca de Manaus”, afirmou.

O discurso é bastante diferente daquele adotado pelo próprio Flávio há menos de três anos.

Em novembro de 2023, durante a discussão da reforma tributária na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, Flávio criticou a preservação das vantagens competitivas da Zona Franca e classificou como uma “injustiça” o tratamento dado ao Amazonas em comparação ao Rio de Janeiro.

Na ocasião, o senador chegou a argumentar que os incentivos poderiam deslocar indústrias de outros estados e provocar desemprego no restante do país.

“Manaus tem que ser o novo Vale do Silício e o resto do Brasil uma Argentina, já que as indústrias de todo o país vão para a Zona Franca de Manaus por causa do custo baixo de produção ou serão incentivadas a adquirir matérias-primas no Amazonas. Isso pode causar desemprego no Brasil inteiro, exceto no Amazonas”, afirmou Flávio, em tom irônico, em 2023.

A crítica ocorreu depois que o relator da reforma tributária, Eduardo Braga (MDB-AM), rejeitou uma emenda apresentada por Flávio relacionada à distribuição dos royalties do petróleo e de interesse do Rio de Janeiro. Flávio votou contra o texto aprovado pela CCJ.

Agora, em campanha pela Presidência e diante do eleitorado amazonense, o candidato mudou o tom.

Para Yann Evanovick, professor e presidente do PCdoB no Amazonas, a contradição entre as declarações de 2023 e o discurso atual foi justamente uma das razões para a manifestação.

“O Flávio Bolsonaro tem um histórico de críticas à Zona Franca de Manaus e agora vem a Manaus se apresentando como defensor do modelo, inclusive vestindo uma camisa dizendo ‘100% Zona Franca’. O amazonense tem o direito de conhecer esse histórico e cobrar coerência”, afirmou ao ICL Notícias.

<><> Do ‘Vale do Silício’ irônico à promessa de data centers

Flávio também prometeu atrair empresas de tecnologia e data centers para a Zona Franca, apresentando a proposta como uma forma de gerar empregos e qualificar jovens da região.

A promessa, porém, não veio acompanhada de detalhes sobre impactos ambientais, demanda energética ou contrapartidas para a população. A expansão dos data centers tem provocado preocupação em diferentes países pelo alto consumo de eletricidade e água.

Nos Estados Unidos, a expansão já enfrenta resistência popular. Em julho deste ano, 142 protestos contra data centers ocorreram em 42 estados.

Uma pesquisa Reuters/Ipsos realizada antes dos atos mostrou ainda que apenas 14% dos entrevistados apoiariam a construção de um data center voltado à inteligência artificial em sua própria comunidade.

A proposta também chama atenção pelo contraste com a fala de Flávio em 2023: na época, ele usou de forma irônica a ideia de transformar Manaus em um “novo Vale do Silício” para criticar os benefícios concedidos à Zona Franca. Agora, em campanha pela Presidência, promete justamente ampliar a presença de empresas de tecnologia na região.

•        Libertado por Mendonça era operador de entidade envolvida com R$ 800 milhões em desvios

Uma decisão aparentemente contraditória em relação à conduta esperada do ministro André Mendonça voltou a movimentar os bastidores do Supremo Tribunal Federal (STF) e a suscitar debates no meio jurídico. O magistrado, relator do inquérito do Escândalo do INSS, oriundo da Operação Sem Desconto, atendeu ao pedido da defesa e revogou a prisão preventiva de Samuel Chrisostomo do Bomfim Junior, apontado pela Polícia Federal como operador financeiro e ex-contador da Conafer (Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais do Brasil). Com o despacho, o investigado obteve autorização para deixar o estabelecimento prisional e retornar para sua residência, onde passará a cumprir um conjunto de medidas cautelares.

Samuel Chrisostomo ocupa uma posição central na arquitetura delineada pelos investigadores da Polícia Federal. Longe de ser um personagem periférico no inquérito, o ex-contador é descrito nos relatórios de inteligência financeira como a peça responsável por desenhar e operacionalizar a engenharia de ocultação e dissimulação dos recursos extraídos de aposentados e pensionistas do INSS. As análises patrimoniais elaboradas pelos peritos apontam que Samuel registrou uma evolução patrimonial fulminante de 428% exatamente durante o período em que o esquema de descontos não autorizados atingia seu ápice, resultando na aquisição de imóveis, veículos de luxo e participações em diversos CNPJs.

A Conafer, entidade à qual Samuel prestava serviços contábeis e financeiros diretos, figura no topo da pirâmide investigativa como a principal acusada na apuração. Dados colhidos pelas autoridades indicam que a confederação foi responsável por movimentar mais de R$ 800 milhões por meio da aplicação das chamadas “mensalidades associativas” na folha de pagamento de beneficiários da previdência pública, cobranças efetuadas, em grande medida, sem a devida anuência dos aposentados ou mediante a falsificação de termos de adesão. A estrutura supostamente montada por Samuel utilizava empresas de fachada e uma complexa rede de triangulações bancárias para irrigar contas de terceiros, repassar valores a agentes públicos e lavar a verba extraída de uma população historicamente vulnerável.

Ao fundamentar a decisão que beneficiou o operador financeiro, o ministro André Mendonça argumentou que o avanço das apurações e a conclusão de etapas decisivas da coleta probatória permitiam a substituição da segregação cautelar por medidas cautelares alternativas. O magistrado impôs ao réu a obrigação do uso de tornozeleira eletrônica, a retenção do passaporte para impedir eventuais viagens ao exterior e a proibição absoluta de manter qualquer tipo de contato com outros investigados ou testemunhas do processo. No texto do despacho, Mendonça fez questão de consignar que a concessão da liberdade “não significa absolver o investigado, desconsiderar os elementos já produzidos ou antecipar qualquer conclusão sobre o mérito” da ação penal.

Apesar da fundamentação formal, a determinação chamou a atenção pela disparidade com o padrão de atuação demonstrado pelo relator em outros momentos e frentes das investigações sob sua jurisdição. Observadores das rotinas do STF assinalam que o gabinete de Mendonça tem se notabilizado por uma postura rigorosa e de pronta resposta, decretando buscas, apreensões e quebras de sigilo com extrema celeridade perante a simples presença de indícios ou citações laterais. O benefício concedido justamente ao articulador das finanças da entidade que lidera o volume de recursos desviados acabou por expor contrapontos sobre o emprego das prisões preventivas no tribunal.

Enquanto Samuel Chrisostomo passa a acompanhar o desenrolar das apurações em seu domicílio, os investigadores da Polícia Federal dão prosseguimento ao rastreamento das contas e dos destinatários finais do dinheiro da Conafer. A decisão de Mendonça reconfigura a rotina do processo e coloca sob holofotes a fase de instrução, no momento em que o STF busca delimitar a responsabilidade de dirigentes associativos, contadores e servidores públicos envolvidos no bilionário desfalque contra a previdência social.

•        Dark Horse: ONG da produtora distribuiu R$ 8,5 milhões entre ‘laranjas’, aponta PF

Um emaranhado de triangulações financeiras, entidades do terceiro setor e empresas com quadros societários sabidamente incompatíveis com as cifras movimentadas veio à tona com o avanço dos relatórios de inteligência da Polícia Federal no âmbito da Operação Dark Horse. O centro da engrenagem aponta para a atuação do Instituto Conhecer Brasil (ICB), entidade sem fins lucrativos presidida por Karina Ferreira da Gama, empresária que também comanda a produtora Go Up Entertainment, responsável pelo projeto cinematográfico sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). De acordo com as apurações levadas ao Supremo Tribunal Federal, o ICB alimentou uma estrutura intermediária utilizada para pulverizar pelo menos R$ 8,5 milhões provenientes de verbas sob suspeita.

O destino primário do montante irrigado pelo ICB foi a conta bancária da Ultra IP Tecnologia e Serviços Ltda. (anteriormente registrada sob a razão social William Silva Ferreira Representações). A movimentação chamou a atenção do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e dos peritos da PF devido à sua velocidade e volume: em um intervalo de menos de três meses, entre o final de julho e o início de outubro de 2024, a conta mantida pela firma registrou um fluxo bruto de R$ 31,6 milhões, divididos em partes idênticas de débitos e créditos. A entidade presidida por Karina figurou como a principal remetente dos valores, respondendo por oito transferências diretas que somaram exatos R$ 8.554.301,14.

Para os investigadores encarregados do inquérito, a Ultra IP exercia o papel de “duto redistribuidor” na cadeia de dissimulação patrimonial. Uma vez aportados no CNPJ da empresa, os recursos de origem pública ou decorrentes de parcerias institucionais eram rapidamente fracionados em favor de outros integrantes da rede. Foi nesse nível do rastreamento que a Polícia Federal identificou a utilização de pessoas físicas interpostas, com perfis socioeconômicos de extrema vulnerabilidade, assumindo a titularidade de pessoas jurídicas dotadas de capitais sociais de centenas de milhares de reais.

Entre os repasses analisados pela inteligência financeira, mais de R$ 1,07 milhão foi transferido para a ABC Logísticas e Serviços Ltda. A firma, cujo capital social declarado chegava a R$ 500 mil, trazia na Junta Comercial como única proprietária Nayara Bianca Silva de Souza. Ao checar os cadastros formais de trabalho e de renda da empresária, os agentes constataram que Nayara exercia a profissão de cuidadora de idosos com rendimento médio mensal de R$ 1.815, figurando inclusive na lista de inscritas e beneficiárias do programa assistencial Novo Bolsa Família.

O padrão de inconsistência societária repetiu-se em outro braço das transferências efetuadas pela Ultra IP. Um montante de R$ 627,4 mil foi direcionado à Fastsoftsolution Mídia Desenvolvimento e Publicidade Ltda., empresa registrada com capital social de R$ 300 mil. O único sócio cotista da firma, Anderson Souza Mendes, apresentava como último vínculo laboral formal na Carteira de Trabalho o cargo de servente de pedreiro, com remuneração fixada entre um e dois salários mínimos. Para a PF, a presença de profissionais de baixa renda à frente de organizações contratadas por valores vultosos constitui indício veemente do uso de “laranjas” para mascarar os reais beneficiários dos recursos.

Além das transferências destinadas às empresas ligadas ao cuidador e ao servente de obras, a Ultra IP encaminhou R$ 1,33 milhão para a Academia Nacional de Cultura (ANC), outra entidade civil gerida e presidida pela própria Karina Gama. A sobreposição de cargos de direção, a navegação de valores entre ONGs paralelas e a contratação de firmas de fachada indicam, segundo os autos, uma estratégia deliberada para ocultar a origem, a localização e a propriedade final de montantes decorrentes de desvios orçamentários.

A confirmação dos repasses milionários e do loteamento de contratos acelerou a tomada de medidas cautelares pelo Judiciário. Na manhã de quinta-feira (10), equipes da Polícia Federal cumpriram mandados de busca e apreensão nos endereços ligados a Karina Gama e às sedes de suas empresas e institutos. Com o cruzamento dos dados colhidos durante a ação policial e a análise do histórico do ICB, que mantém inclusive contratos e termos de parceria com a administração pública, os investigadores trabalham para mapear a extensão do dano ao erário e identificar eventuais apadrinhamentos políticos envolvidos na liberação das verbas sob apuração.

 

Fonte: Brasil 247/Fórum

 

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