Jesus foi preso e crucificado como ameaça
política ao poder de Roma
É tudo Sobre Jesus? Suponhamos que, no
púlpito da igreja, na pregação de domingo, o padre ou pastor afirme que “faz X
anos que fulano é presidente do Brasil, beltrano governador de São Paulo,
sicrano governador do Rio de Janeiro…”. Com certeza, alguns dirão que, ao
contextualizar politicamente a mensagem religiosa, o pregador faz
“politicagem”.
Vejamos o que diz o Evangelho de Lucas:
“Fazia quinze anos que Tibério era imperador
de Roma. Pôncio Pilatos governava a Judeia; Herodes, a Galileia; seu irmão
Filipe, a Itureia e a Traconítide; e Lisânias, a Abilene. Anás e Caifás eram
sumos sacerdotes. Foi nesse tempo que Deus enviou a Sua palavra a João, filho
de Zacarias, no deserto.”
Qual a diferença? Nenhuma. Lucas inicia seu
relato evangélico ao contextualizar politicamente a atuação de Jesus. Aliás,
todos nós, cristãos, somos discípulos de um prisioneiro político.
Jesus não morreu de pneumonia na cama nem de
acidente de bigas romanas em uma esquina de Jerusalém. Como tantos militantes
políticos, foi perseguido, preso, torturado, julgado por dois poderes
políticos, o judaico e o romano, e condenado à pena de morte do Império Romano,
a crucificação.
Como afirmar que Jesus nada tinha a ver com
política, sobretudo em uma conjuntura na qual não havia separação entre
religião e política? Na Palestina do século 1 ocupada pelos romanos, quem
detinha o poder religioso controlava também o poder político.
“Não há nada mais político do que dizer que a
religião nada tem a ver com a política”, dizia o bispo sul-africano Desmond
Tutu, prêmio Nobel da Paz.
A figura de Jesus Cristo é encarada com
frequência sob uma ótica exclusivamente religiosa e espiritual. No entanto, uma
análise histórica e contextual do primeiro século da nossa era revela uma
dimensão impossível de ser negada de sua vida e morte: a política.
A condenação de Jesus à crucificação, a pena
de morte mais infame do Império Romano, não foi mero ato de rejeição religiosa,
mas um evento profundamente enraizado na conjuntura política da Judeia ocupada
pelos romanos.
Compreender este cenário é fundamental para
apreender a mensagem do Evangelho em sua integralidade e reconhecer que a
proclamação do “Reino de Deus” era, em si, um ato de contraposição ao “Reino de
César”.
<><> Jesus, uma ameaça
Para entender por que Jesus foi visto como
uma ameaça, é crucial retroceder e analisar o ambiente político e social da
Palestina no século 1. A região era uma província dominada pelo Império Romano,
que exercia seu poder por meio de uma combinação de força militar, cobrança de
pesados impostos e alianças com as elites locais. Essa dominação não era
pacífica; era mantida pela chamada Pax Romana, uma “paz de cemitério,
conseguida por meio de violência, de imposição da dominação”, onde qualquer
foco de resistência era brutalmente esmagado para intimidar futuros rebeldes.
Pesquisas de historiadores indicam que a
região já era convulsionada há muito tempo por crises políticas e opressão.
Para a população mais pobre, a realidade era de desgaste e sofrimento, enquanto
as elites judaicas, como os saduceus, faziam acordos políticos e econômicos com
os dominadores para manter seus privilégios. Este cenário de opressão
alimentava um forte sentimento messiânico enraizado na tradição judaica: a
crença de que um enviado de Deus surgiria para libertar Israel da dominação
estrangeira e restaurar o reino e a dignidade do povo judeu.
É neste ambiente de efervescência que Jesus
iniciou sua missão ao formar uma comunidade militante. Ele não era uma figura
isolada; a Palestina estava cheia de movimentos populares, rebeldes e profetas
que anunciavam um novo tempo. Havia grupos radicais como os zelotes, que
defendiam a revolta armada, e os sicários, que cometiam atos de terrorismo
contra as autoridades.
A mensagem de Jesus era inerentemente
política. Ao proclamar um novo Reino, desafiava a ordem estabelecida. Foi
acusado de “perverter a nação”, incitar a não pagar tributos a César e, o mais
grave, se declarar “Cristo, o Rei”. Em um território instável, a alegação de
realeza, mesmo que espiritual, era vista como uma afronta direta à soberania de
Roma.
<><> A condenação de Jesus
A condenação de Jesus foi um processo
político-religioso, em que as acusações religiosas (blasfêmia) serviram como
pretexto para uma acusação política que interessava a Roma (subversão). Os
líderes religiosos, que viam Jesus como uma ameaça à autoridade deles, o
apresentaram ao governador romano Pôncio Pilatos como um inimigo de César. A
acusação era clara: se ele se declarava rei dos judeus, poderia levar esse povo
a um ato de resistência contra o Império Romano.
Para o Império, a crucificação não era apenas
um método de execução, mas uma ferramenta de propaganda de terror. Era uma
morte brutal, destinada a “apagar a memória” do condenado, pois o corpo era
exposto para ser devorado por aves de rapina e animais selvagens, sem direito a
um sepultamento digno. Além disso, não existiam processos jurídicos formais
para esses “crimes políticos”; indivíduos considerados subversivos eram presos
e imediatamente levados à morte para servir de exemplo. A narrativa bíblica de
Jesus sendo colocado ao lado de Barrabás, um “bandido social” e revolucionário,
reforça a imagem de um agitador político, líder de um “bando” que incomodava o
poder estabelecido.
<><> O Evangelho como crítica
radical
Portanto, negar que Jesus foi um prisioneiro
político é ignorar as evidências históricas de seu tempo. Ele foi condenado não
por um crime moral, mas por representar uma ameaça à ordem política imperial e
à aliança que as elites locais mantinham. Sua mensagem de justiça, amor e um
Reino alternativo era, na prática, uma crítica radical a um sistema de
exploração e opressão.
Essa perspectiva não diminui o significado
teológico da crucificação; ao contrário, a enriquece. Demonstra que o Evangelho
não é uma mensagem de escapismo espiritual, mas uma proclamação que se encarna
nas realidades concretas da história humana.
Jesus, ao ser executado pelo Estado, se
solidarizou com todos os oprimidos e vítimas da injustiça ao longo dos séculos,
fazendo da cruz o símbolo máximo do confronto entre o poder divino de amor e os
poderes tirânicos deste mundo. O convite de Jesus a “dar a César o que é de
César e a Deus o que é de Deus” não era um aval ao status quo, mas uma
demarcação de que a lealdade última do ser humano pertence a Deus, um Deus cujo
Reino subverte todas as lógicas de poder humano.
Assim, nos passos de Jesus, cabe a todos nós,
cristãos, que somos também cidadãos, nos engajar no processo político para
criar uma sociedade de justiça e paz, sem opressores e oprimidos.
Fonte: Por Frei Betto, em Diálogos do Sul
Global

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