Enquanto a Operação Condor espalhava terror,
uma rede clandestina levava a voz de Víctor Jara ao mundo
Um
testemunho pessoal que reconstrói o heroísmo anônimo de quem, com lápis e
transmissores, enfrentou o terror.
“Capturam
no Chile militar prófugo pelo assassinato de Víctor Jara. O ex oficial Nelson
Haase Mazzei entrou na prisão para cumprir uma condenação de 25 anos, depois de
ser localizado em uma zona rural da região de Los Lagos”.
A
notícia, no portal de Telesur, me comoveu e a memória de uma gesta
desconhecida, as ações de contraespionagem frente à Operação Condor, voltou a minha
mente. Para resgatá-la e para homenagear seus protagonistas, quase todos tão
heroicos como anônimos.
Foi em
algum momento de outubro ou novembro de 1973, quando, com apenas 21 anos,
recebi uma de tantas cartas que chegavam a um “buzón” (caixa de correio
clandestina) de correio com envios do Chile, a poucas semanas do golpe que
derrubara Salvador Allende.
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Entre
as minhas mãos, datilografadas em um papel tipo manifold, leio uma primeira
estrofe:
Somos
cinco mil aqui.
Nesta
pequena parte da cidade.
Somos
cinco mil.
Estremecido,
estava diante do último poema de Víctor Jara, que como já
sabíamos, fora assassinado no campo de extermínio que o pinochetismo organizou
no Estádio Nacional, em Santiago do Chile.
Muito
depois também saberíamos que em 15 de setembro de 1973 pediu a seu companheiro
Boris Navia um lápis e um papel, e horas antes de ser assassinado conseguiu
entregar-lhe “Somos cinco mil no Estádio Chile”.
Seu
corpo foi identificado dias depois na morgue por sua companheira Joan Turner
Jara: de acordo com posteriores peritagens, recebera 44 tiros e apresentava 56
fraturas ósseas.
DE
BUENOS AIRES A MOSCOU
Semana
a semana, ainda em períodos de legalidade, chegavam a uma sólida e clandestina
cadeia de “buzones” os envios do Chile e de outros países sob ditaduras no Cone
Sul. Algumas vezes a uma caixa postal no antigo Correio Central, neste caso a
Caballito, na rua Emilio Mitre, a casa da família Sosto, mãe e filhos
comprometidos com a solidariedade com o povo chileno.
Um ou
dois dias depois, de forma simultânea por Rádio Moscou, dava a conhecer a morte
de Victor Jara o escritor chileno José Miguel Varas no programa Escuta Chile, e
Arturo Lozza, que conduzia A semana argentina. A repercussão foi imediata em
Rádio Praga, Rádio Berlim e depois em boa parte da imprensa ocidental.
Este
esquema de envios informativos foi vital para desmascarar as ditaduras
regionais, e informar e promover a solidariedade internacional com as vítimas
do chamado “Plano Condor”.
NAS
GARRAS DO CONDOR
O
jornalista e escritor soviético Valentín Mashkin, com quem em 1979 me
entrevistaria em Moscou por intermédio de meu irmão, Rodolfo, foi o primeiro
autor que sistematizou e revelou ao mundo, com fundamentada informação, a
coordenação criminosa das ditaduras do Cone Sul nos anos ’70, a chamada
“Operação Condor”.
Este
trabalho foi aprofundado e completado por Stella Calloni em uma
investigação publicada em 1999, que inclui desde testemunhos do Nunca Mais, até
as provas dos “arquivos do terror“, no Paraguai,
documentos oficiais descobertos graças a uma temerária investigação do
escritor, poeta, advogado e Prêmio Nobel Alternativo Martín Almada.
Pouco
antes, em 1998, apareceram provas contundentes da cumplicidade das ditaduras e
do apoio estadunidense, com a desclassificação parcial de documentos dos
Estados Unidos.
Pouco
conhecida é, no entanto, a contraofensiva realizada clandestinamente contra o
Condor.
Foi um
meticuloso trabalho dos serviços de inteligência da então União Soviética,
alimentados em grande parte pelo que foi chamado “Córdoba 652, 11 E”, rua,
número, andar e apartamento onde, desde os anos 60, coordenaram-se os esforços
de recompilação das denúncias e a solidariedade frente ao cerco de ditaduras
que ia se fechando sobre o Cone Sul.
Os
nomes daquela incrível epopeia? Isidoro Gilbert, correspondente da Agência
TASS, que foi a “cobertura” desta estrutura que agrupou as agências de
notícias dos então “países socialistas”, assim como de matutinos de grande
impacto europeu como L’Unitá, L’Humanité, Neues Deutschland; Arturo Lozza;
Rodolfo Nadra; Adolfo Coronato; e eu mesmo, o “mascote” da equipe, até que me
destinaram a Prensa Latina depois do golpe de 1976, com o que criamos, de fato,
outra agência e outra via de transmissão para o exterior.
E,
conosco, paraguaios, como o escritor e poeta Elvio Romero; chilenos, como José
Madlavske, Enrique Martini, e Luis “Lucho” Córdoba; e Nicko Scwartz, anos
depois embaixador uruguaio no Vietnam. Gilbert foi o “responsável político” de
Córdoba 652. Nesse caráter há muitíssimas histórias, dados e diretrizes que
jamais nos contou, nem devia contar. Nós sempre o aceitamos, pois era o chefe.
Curioso
é que ele tampouco soube que alguns de nós também conhecíamos outros dados,
estabelecíamos outras relações e recebíamos outras diretrizes – que
expressamente não contradiziam as que ele recebia, simplesmente eram outras –
mas que se cumpriam em estrito segredo, em primeiro lugar, para o próprio
Isidoro.
Eram,
ainda que não o soubéssemos cabalmente, os anos em que fomos atrás das garras
do Condor.
UM
RASTRO SANGRENTO
Horroriza
hoje – a mais de 40 anos dos fatos – repassar as ações da Operação Condor,
dirigida pela CIA de George Bush (pai) e pelo secretário Henry Kissinger, com
sicários cubanos da antiga OAS francesa ou da Tríplice A nativa, todos a seu
serviço.
O
Chile, mediante o golpe organizado pelos Estados Unidos, se torna peça chave e
se une aos regimes sangrentos de Paraguai, Brasil, Bolívia, Uruguai e – antes e
depois – às distintas ditaduras argentinas.
Sob sua
coordenação, as Forças Armadas do Cone Sul concretizaram o crime do
ex-presidente boliviano Juan José Torres em 2 de junho de 1976; os do ex-chefe
do Exército do Chile, general Carlos Prats, e sua esposa, Sofía Cuthbert – em
30 de outubro de 1974 – e o sequestro, tortura e morte dos ex legisladores
Zelmar Michellini e Héctor Gutiérrez Ruiz, em 21 de maio de 1976. Todos
cometidos en Buenos Aires, durante o governo de Isabel Perón primeiro e sob a
ditadura depois.
Também
planejaram e concretizaram – nada menos do que no território dos Estados Unidos
– o assassinato de Orlando Letelier, ex-ministro e embaixador de Allende, e sua
secretária, com a ativa participação do agente da CIA Michael Townley, em 21 de
setembro de 1976; assim como o brutal atentado contra o voo CU-455 da Cubana de
Aviação, sobre a ilha de Barbados, em que perderam a vida 73 pessoas, em 6 de
outubro de 1976.
Houve
tentativas fracassadas em 1975. Tal é o caso do vice-presidente chileno
Bernardo Leighton na Itália, do socialista Carlos Altamirano e do comunista
Volodia Teitelboim. Há ainda outras mortes suspeitas na lista, não provadas
como assassinatos.
Entre
elas a do presidente do Equador Jaime Roldós, e a do líder
panamenho Omar Torrijos, considerados
“perigosos” pelos Estados Unidos, e ambos vítimas de “acidentes” aéreos em
1981.
Em
outubro de 2011, aberto novamente na Argentina o caminho para a Memória, a
Verdade e a Justiça, Sergio López Burgos – sobrevivente uruguaio da Operação
Condor e ex preso de Automotores Orletti – denunciou penalmente ante a justiça
argentina uma centena de funcionários civis e militares de seu país por sua
participação na coordenação do plano de repressão ilegal.
Todos
eles fazem parte da legião de milhares – milhares – de homens e mulheres
sequestrados, cada um deles com seu nome e sobrenome, sua família, sua
história, que em diferentes terras foram torturados barbaramente, e “remetidos”
a seus países de origem; finalmente foram assassinados em sua maior parte.
O
“rastro sangrento do Condor” – como dizia Mashkin – é impossível de seguir em
algumas linhas, mas pode insinuar-se ao relatar que, em 1992, o juiz paraguaio
José Fernández e o advogado, pedagogo e vítima de Stroessner, Martín Almada,
descobriram os chamados «arquivos do terror.
Desta
forma ficou provado, com documentação de seus autores, o plano sistemático de
perseguição e eliminação dos adversários políticos -comunistas, socialistas e
esquerdistas (com um sentido amplíssimo do termo) – independentemente das
fronteiras nacionais.
Há duas
maneiras de perceber a magnitude do horror. Uma, pelas -literalmente – quatro
toneladas de fichas de detenção, gravações e fotos de torturas, registro de
prisões e transferência entre os países integrantes.
E
outra, apavorante, porque estas toneladas de documentação permitem provar pelo
menos os casos de 50 mil pessoas assassinadas, 30 mil desaparecidos e 400 mil
encarcerados.
Frente
a esta imensidade de dor, as palavras de Víctor Jara, escritas na véspera de
sua própria morte, soam hoje com uma vigência estremecedora. É o grito dos
cinco mil, que são na realidade, todos.
¨
Kast desmantela mecanismos de direitos humanos no Chile,
denuncia jurista. Por Aldo Anfossi
O
advogado Nelson Caucoto (75),
reconhecido jurista chileno que atuou em mais de 400 processos penais
representando familiares de vítimas de crimes contra a humanidade no Chile e
que obteve centenas de condenações contra agentes do Estado, expressa uma
contundente preocupação com o que se avizinha nessa área durante o governo do
ultradireitista José Antonio Kast.
“Indubitavelmente,
são sombrios os presságios para os direitos humanos com um presidente
pinochetista, com ministros pinochetistas, são pessoas que adoraram Pinochet,
sem dúvida alguma. Então, não podemos nos equivocar em relação ao que vão fazer
em matéria de direitos humanos, sente-se que teremos um retrocesso imenso, e já
há sinais desse retrocesso”, diz em entrevista ao La Jornada.
Na
véspera do 53º aniversário do golpe de Estado que, em 1973, derrubou o
presidente socialista Salvador Allende, Caucoto recebeu
nesta quinta-feira a “Medalha Direitos Humanos e Democracia” 2026, entregue
pela Universidade do Chile, em uma cerimônia marcada pela presença de
familiares de detidos desaparecidos e de executados políticos.
Também
ali, a Universidade entregou postumamente o título de médico-cirurgião à
família de Héctor Ricardo Pincheira Núñez, um estudante de medicina e membro da
equipe de segurança de Allende que, após resistir ao golpe no Palácio de La
Moneda, foi feito prisioneiro junto com várias dezenas de seus companheiros e
levado ao Regimento Tacna, onde foram fuzilados e enterrados.
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Anos
depois, os restos mortais de todos eles foram desenterrados e desapareceram,
possivelmente lançados ao oceano.
Caucoto
detalha que o governo de Kast está retirando recursos e desmantelando a
estrutura do Estado em matéria de proteção dos direitos humanos, busca por
vítimas e reparação a seus familiares.
“É
preciso se mobilizar, ficar atento, porque estão indo contra o Instituto
Nacional de Direitos Humanos, já decapitaram o Programa de Direitos Humanos do
Ministério da Justiça, que é o órgão responsável pela persecução mais
importante contra os crimes contra a humanidade. É muito grave que aqueles que
sustentam as ações contra os genocidas sejam proibidos de apresentar alegações,
apelar ou recorrer; é de extrema gravidade e é uma política premeditada.”
Também
expressa preocupação com uma provável mudança dos integrantes da Câmara Penal
da Suprema Corte, com dedicação exclusiva ao julgamento desses crimes.
“O
Chile é o único país que profere decisões em matéria de direitos humanos apesar
do tempo transcorrido; há aí um grande tesouro, a joia dos Direitos Humanos,
que é a jurisprudência e as decisões da Segunda Câmara Penal.
Isso é
o que temos que proteger, impedir que mude, porque, se chegarem ministros de
direita à Câmara Penal, vão passar uma borracha em tudo. E esse é precisamente
o ponto de contenção que temos; a Câmara Penal da Suprema Corte fez maravilhas,
porque aplica o direito internacional e condena, condena e condena.”
LEIA A
ENTREVISTA:
·
Você se lembra de quantos processos ainda estão abertos
em matéria de direitos humanos?
Nelson
Caucoto: Centenas;
desde 2023, foram proferidas 100 decisões na Suprema Corte. Em 2024, devem ter
sido proferidas 70 decisões. Em 2025, 65, mas todas são decisões condenatórias.
·
Que reflexão lhe provoca o fato de que, no Chile, no fim
das contas, tenha havido justiça? Talvez não toda a que…
É
preciso dividir. Uma coisa é a questão dos crimes da ditadura; nesse caso,
houve justiça, um grande avanço, um enorme progresso, estão sendo proferidas
decisões e as pessoas estão sendo condenadas.
“Onde
existe uma impunidade manifesta é na violação dos direitos humanos durante a
revolta social. Em 2019, o INDH apresentou cerca de 3 mil denúncias e apenas 2
tiveram um resultado positivo. Isso é estranho, é impunidade.
E é aí
que se quer começar concedendo indultos aos carabineiros presos pela revolta.
Tentam fazer a distinção como se fossem casos menos graves que os anteriores.
Mas há
um dado que ilustra tudo: em nenhum país houve a sequência de lesões oculares
graves como no Chile, cerca de 400 em 2019; isso não foi visto em lugar nenhum,
nem durante a ditadura. E sobre esses crimes há impunidade, porque não há
decisões judiciais, ninguém foi condenado.”
·
Como você avalia a maneira como a sociedade chilena está
reagindo ou não está reagindo?
“É
preciso dizer o seguinte: somos vítimas de um grande negacionismo, e ele se
sustenta em bases muito concretas. Mais de 70% da população não viveu o golpe;
a juventude que não sabe como é o terrorismo de Estado não se manifesta contra
ele.
“Há um
sistema de comunicação baseado em programas matinais, que ficam falando
banalidades o dia inteiro. Em contrapartida, esses dados que eu apresentei
sobre as pessoas que estão presas, as que foram condenadas, não aparecem em
lugar nenhum; os meios de comunicação não têm ideia disso e a sociedade também
não, pensa que não importa.”
·
E qual é o papel dos partidos políticos nisso?
“Bem,
foi simplesmente pobre. Por isso, sou favorável à ideia de que, para vencer o
negacionismo, temos que fortalecer os mecanismos de comunicação de base. Eu
gostaria que existissem rádios comunitárias, televisão comunitária. Elas
existem, é preciso fortalecê-las. Porque, caso contrário, seremos sempre
vítimas da desinformação. E é na desinformação que o negacionismo opera.”
·
Há a questão dos condenados que estão em estado terminal,
sobre enviá-los ou não para suas casas.
“Se
comprovarem, por meio de diferentes exames, de perícias, que alguém está com
Alzheimer, não faz sentido que esteja preso. Que vá para casa.
“Mas
não me enganem, tragam-me laudos reais, pelo menos cinco laudos, de diferentes
especialidades médicas, com exames de imagem para verificar qual é o estado do
cérebro. É preciso se convencer, porque fomos vítimas de tantos enganos que já
não acreditamos nisso.”
·
Outra coisa que você mencionou foi que não compartilha da
tese do suicídio de Allende.
“O caso
de Allende foi encerrado pela Suprema Corte com um voto contrário, do ministro
Hugo Dolmes, que considera que não há elementos para o arquivamento definitivo.
O que nunca se conseguiu desacreditar é que existem dois… (impactos); vejamos,
existe um disparo pela parte traseira que está comprovado na primeira autópsia
realizada em Allende. Ali descrevem um tiro que poderia ser de uma arma menor,
de calibre 22, mas uma 22 no cérebro também pode matar alguém.
“E o
outro argumento que tenho é que, se ele encosta uma arma aqui no queixo, uma
AK, ao dispará-la, faz com que todo o sangue que esteja no cérebro escorra.
Certo? É uma lei da física. Se eu tenho um vaso cheio de água e quebro o vaso,
a água vai cair.
“Allende
não tinha nenhum vestígio de sangue em suas roupas, em lugar nenhum. E quando
não há vestígio de sangue? Quando alguém está morto e o sangue não circula.
“Há um
médico que afirma isso, que é Luis Rabanal; eu acredito nessa tese.
“Tudo o
que aconteceu depois da morte de Allende é muito estranho. A que horas
encontram o cadáver, para onde o levam, a que horas o retiram, como o retiram.
Nada foi permitido. Tudo isso é muito obscuro. E isso, indubitavelmente,
aumenta as suspeitas. Eu, na verdade, acredito que Allende não se suicidou.
Apesar de ter muito carinho pela família de Allende, a família de Allende
acredita no suicídio.
“Mas
não posso contradizê-los. Simplesmente me guio por essa investigação realizada
por Rabanal, e ele é um médico renomado por esse trabalho.”
·
Você é um homem que há 50 anos vem lutando, saiu da
universidade e foi trabalhar nessa área. Qual foi sua motivação?
“A
motivação foi que havia um golpe e não se pode ficar impassível diante disso.
Eu tinha cerca de 22 anos e quis me juntar imediatamente; vim fazer meu estágio
e fui me oferecer à Vicaria de la Solidaridad, da Igreja Católica, em janeiro
de 1976. Minha grande madrinha foi Fabiola Letelier; ela me incorporou e foi
fundamental para que eu seguisse esse caminho e desse sentido à minha vida
trabalhando nisso.”
Fonte: Por Alberto Nadra, na Prensa Latina - Tradução:
Ana Corbisier, para Diálogos do Sul Global

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