segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Enquanto a Operação Condor espalhava terror, uma rede clandestina levava a voz de Víctor Jara ao mundo

Um testemunho pessoal que reconstrói o heroísmo anônimo de quem, com lápis e transmissores, enfrentou o terror.

“Capturam no Chile militar prófugo pelo assassinato de Víctor Jara. O ex oficial Nelson Haase Mazzei entrou na prisão para cumprir uma condenação de 25 anos, depois de ser localizado em uma zona rural da região de Los Lagos”.

A notícia, no portal de Telesur, me comoveu e a memória de uma gesta desconhecida, as ações de contraespionagem frente à Operação Condor, voltou a minha mente. Para resgatá-la e para homenagear seus protagonistas, quase todos tão heroicos como anônimos.

Foi em algum momento de outubro ou novembro de 1973, quando, com apenas 21 anos, recebi uma de tantas cartas que chegavam a um “buzón” (caixa de correio clandestina) de correio com envios do Chile, a poucas semanas do golpe que derrubara Salvador Allende.

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Entre as minhas mãos, datilografadas em um papel tipo manifold, leio uma primeira estrofe:

Somos cinco mil aqui.

Nesta pequena parte da cidade.

Somos cinco mil.

Estremecido, estava diante do último poema de Víctor Jara, que como já sabíamos, fora assassinado no campo de extermínio que o pinochetismo organizou no Estádio Nacional, em Santiago do Chile.

Muito depois também saberíamos que em 15 de setembro de 1973 pediu a seu companheiro Boris Navia um lápis e um papel, e horas antes de ser assassinado conseguiu entregar-lhe “Somos cinco mil no Estádio Chile”.

Seu corpo foi identificado dias depois na morgue por sua companheira Joan Turner Jara: de acordo com posteriores peritagens, recebera 44 tiros e apresentava 56 fraturas ósseas.

DE BUENOS AIRES A MOSCOU

Semana a semana, ainda em períodos de legalidade, chegavam a uma sólida e clandestina cadeia de “buzones” os envios do Chile e de outros países sob ditaduras no Cone Sul. Algumas vezes a uma caixa postal no antigo Correio Central, neste caso a Caballito, na rua Emilio Mitre, a casa da família Sosto, mãe e filhos comprometidos com a solidariedade com o povo chileno.

Um ou dois dias depois, de forma simultânea por Rádio Moscou, dava a conhecer a morte de Victor Jara o escritor chileno José Miguel Varas no programa Escuta Chile, e Arturo Lozza, que conduzia A semana argentina. A repercussão foi imediata em Rádio Praga, Rádio Berlim e depois em boa parte da imprensa ocidental.

Este esquema de envios informativos foi vital para desmascarar as ditaduras regionais, e informar e promover a solidariedade internacional com as vítimas do chamado “Plano Condor”.

NAS GARRAS DO CONDOR

O jornalista e escritor soviético Valentín Mashkin, com quem em 1979 me entrevistaria em Moscou por intermédio de meu irmão, Rodolfo, foi o primeiro autor que sistematizou e revelou ao mundo, com fundamentada informação, a coordenação criminosa das ditaduras do Cone Sul nos anos ’70, a chamada “Operação Condor”.

Este trabalho foi aprofundado e completado por Stella Calloni em uma investigação publicada em 1999, que inclui desde testemunhos do Nunca Mais, até as provas dos “arquivos do terror“, no Paraguai, documentos oficiais descobertos graças a uma temerária investigação do escritor, poeta, advogado e Prêmio Nobel Alternativo Martín Almada.

Pouco antes, em 1998, apareceram provas contundentes da cumplicidade das ditaduras e do apoio estadunidense, com a desclassificação parcial de documentos dos Estados Unidos.

Pouco conhecida é, no entanto, a contraofensiva realizada clandestinamente contra o Condor.

Foi um meticuloso trabalho dos serviços de inteligência da então União Soviética, alimentados em grande parte pelo que foi chamado “Córdoba 652, 11 E”, rua, número, andar e apartamento onde, desde os anos 60, coordenaram-se os esforços de recompilação das denúncias e a solidariedade frente ao cerco de ditaduras que ia se fechando sobre o Cone Sul.

Os nomes daquela incrível epopeia? Isidoro Gilbert, correspondente da Agência TASS, que foi a “cobertura” desta estrutura que agrupou as  agências de notícias dos então “países socialistas”, assim como de matutinos de grande impacto europeu como L’Unitá, L’Humanité, Neues Deutschland; Arturo Lozza; Rodolfo Nadra; Adolfo Coronato; e eu mesmo, o “mascote” da equipe, até que me destinaram a Prensa Latina depois do golpe de 1976, com o que criamos, de fato, outra agência e outra via de transmissão para o exterior.

E, conosco, paraguaios, como o escritor e poeta Elvio Romero; chilenos, como José Madlavske, Enrique Martini, e Luis “Lucho” Córdoba; e Nicko Scwartz, anos depois embaixador uruguaio no Vietnam. Gilbert foi o “responsável político” de Córdoba 652. Nesse caráter há muitíssimas histórias, dados e diretrizes que jamais nos contou, nem devia contar. Nós sempre o aceitamos, pois era o chefe.

Curioso é que ele tampouco soube que alguns de nós também conhecíamos outros dados, estabelecíamos outras relações e recebíamos outras diretrizes – que expressamente não contradiziam as que ele recebia, simplesmente eram outras – mas que se cumpriam em estrito segredo, em primeiro lugar, para o próprio Isidoro.

Eram, ainda que não o soubéssemos cabalmente, os anos em que fomos atrás das garras do Condor.

UM RASTRO SANGRENTO

Horroriza hoje – a mais de 40 anos dos fatos – repassar as ações da Operação Condor, dirigida pela CIA de George Bush (pai) e pelo secretário Henry Kissinger, com sicários cubanos da antiga OAS francesa ou da Tríplice A nativa, todos a seu serviço.

O Chile, mediante o golpe organizado pelos Estados Unidos, se torna peça chave e se une aos regimes sangrentos de Paraguai, Brasil, Bolívia, Uruguai e – antes e depois – às distintas ditaduras argentinas.

Sob sua coordenação, as Forças Armadas do Cone Sul concretizaram o crime do ex-presidente boliviano Juan José Torres em 2 de junho de 1976; os do ex-chefe do Exército do Chile, general Carlos Prats, e sua esposa, Sofía Cuthbert – em 30 de outubro de 1974 – e o sequestro, tortura e morte dos ex legisladores Zelmar Michellini e Héctor Gutiérrez Ruiz, em 21 de maio de 1976. Todos cometidos en Buenos Aires, durante o governo de Isabel Perón primeiro e sob a ditadura depois.

Também planejaram e concretizaram – nada menos do que no território dos Estados Unidos – o assassinato de Orlando Letelier, ex-ministro e embaixador de Allende, e sua secretária, com a ativa participação do agente da CIA Michael Townley, em 21 de setembro de 1976; assim como o brutal atentado contra o voo CU-455 da Cubana de Aviação, sobre a ilha de Barbados, em que perderam a vida 73 pessoas, em 6 de outubro de 1976.

Houve tentativas fracassadas em 1975. Tal é o caso do vice-presidente chileno Bernardo Leighton na Itália, do socialista Carlos Altamirano e do comunista Volodia Teitelboim. Há ainda outras mortes suspeitas na lista, não provadas como assassinatos.

Entre elas a do presidente do Equador Jaime Roldós, e a do líder panamenho Omar Torrijos, considerados “perigosos” pelos Estados Unidos, e ambos vítimas de “acidentes” aéreos em 1981.

Em outubro de 2011, aberto novamente na Argentina o caminho para a Memória, a Verdade e a Justiça, Sergio López Burgos – sobrevivente uruguaio da Operação Condor e ex preso de Automotores Orletti – denunciou penalmente ante a justiça argentina uma centena de funcionários civis e militares de seu país por sua participação na coordenação do plano de repressão ilegal.

Todos eles fazem parte da legião de milhares – milhares – de homens e mulheres sequestrados, cada um deles com seu nome e sobrenome, sua família, sua história, que em diferentes terras foram torturados barbaramente, e “remetidos” a seus países de origem; finalmente foram assassinados em sua maior parte.

O “rastro sangrento do Condor” – como dizia Mashkin – é impossível de seguir em algumas linhas, mas pode insinuar-se ao relatar que, em 1992, o juiz paraguaio José Fernández e o advogado, pedagogo e vítima de Stroessner, Martín Almada, descobriram os chamados «arquivos do terror.

Desta forma ficou provado, com documentação de seus autores, o plano sistemático de perseguição e eliminação dos adversários políticos -comunistas, socialistas e esquerdistas (com um sentido amplíssimo do termo) – independentemente das fronteiras nacionais.

Há duas maneiras de perceber a magnitude do horror. Uma, pelas -literalmente – quatro toneladas de fichas de detenção, gravações e fotos de torturas, registro de prisões e transferência entre os países integrantes.

E outra, apavorante, porque estas toneladas de documentação permitem provar pelo menos os casos de 50 mil pessoas assassinadas, 30 mil desaparecidos e 400 mil encarcerados.

Frente a esta imensidade de dor, as palavras de Víctor Jara, escritas na véspera de sua própria morte, soam hoje com uma vigência estremecedora. É o grito dos cinco mil, que são na realidade, todos.

¨      Kast desmantela mecanismos de direitos humanos no Chile, denuncia jurista. Por Aldo Anfossi

O advogado Nelson Caucoto (75), reconhecido jurista chileno que atuou em mais de 400 processos penais representando familiares de vítimas de crimes contra a humanidade no Chile e que obteve centenas de condenações contra agentes do Estado, expressa uma contundente preocupação com o que se avizinha nessa área durante o governo do ultradireitista José Antonio Kast.

“Indubitavelmente, são sombrios os presságios para os direitos humanos com um presidente pinochetista, com ministros pinochetistas, são pessoas que adoraram Pinochet, sem dúvida alguma. Então, não podemos nos equivocar em relação ao que vão fazer em matéria de direitos humanos, sente-se que teremos um retrocesso imenso, e já há sinais desse retrocesso”, diz em entrevista ao La Jornada.

Na véspera do 53º aniversário do golpe de Estado que, em 1973, derrubou o presidente socialista Salvador Allende, Caucoto recebeu nesta quinta-feira a “Medalha Direitos Humanos e Democracia” 2026, entregue pela Universidade do Chile, em uma cerimônia marcada pela presença de familiares de detidos desaparecidos e de executados políticos.

Também ali, a Universidade entregou postumamente o título de médico-cirurgião à família de Héctor Ricardo Pincheira Núñez, um estudante de medicina e membro da equipe de segurança de Allende que, após resistir ao golpe no Palácio de La Moneda, foi feito prisioneiro junto com várias dezenas de seus companheiros e levado ao Regimento Tacna, onde foram fuzilados e enterrados.

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Anos depois, os restos mortais de todos eles foram desenterrados e desapareceram, possivelmente lançados ao oceano.

Caucoto detalha que o governo de Kast está retirando recursos e desmantelando a estrutura do Estado em matéria de proteção dos direitos humanos, busca por vítimas e reparação a seus familiares.

“É preciso se mobilizar, ficar atento, porque estão indo contra o Instituto Nacional de Direitos Humanos, já decapitaram o Programa de Direitos Humanos do Ministério da Justiça, que é o órgão responsável pela persecução mais importante contra os crimes contra a humanidade. É muito grave que aqueles que sustentam as ações contra os genocidas sejam proibidos de apresentar alegações, apelar ou recorrer; é de extrema gravidade e é uma política premeditada.”

Também expressa preocupação com uma provável mudança dos integrantes da Câmara Penal da Suprema Corte, com dedicação exclusiva ao julgamento desses crimes.

“O Chile é o único país que profere decisões em matéria de direitos humanos apesar do tempo transcorrido; há aí um grande tesouro, a joia dos Direitos Humanos, que é a jurisprudência e as decisões da Segunda Câmara Penal.

Isso é o que temos que proteger, impedir que mude, porque, se chegarem ministros de direita à Câmara Penal, vão passar uma borracha em tudo. E esse é precisamente o ponto de contenção que temos; a Câmara Penal da Suprema Corte fez maravilhas, porque aplica o direito internacional e condena, condena e condena.”

LEIA A ENTREVISTA:

·        Você se lembra de quantos processos ainda estão abertos em matéria de direitos humanos?

Nelson Caucoto: Centenas; desde 2023, foram proferidas 100 decisões na Suprema Corte. Em 2024, devem ter sido proferidas 70 decisões. Em 2025, 65, mas todas são decisões condenatórias.

·        Que reflexão lhe provoca o fato de que, no Chile, no fim das contas, tenha havido justiça? Talvez não toda a que…

É preciso dividir. Uma coisa é a questão dos crimes da ditadura; nesse caso, houve justiça, um grande avanço, um enorme progresso, estão sendo proferidas decisões e as pessoas estão sendo condenadas.

“Onde existe uma impunidade manifesta é na violação dos direitos humanos durante a revolta social. Em 2019, o INDH apresentou cerca de 3 mil denúncias e apenas 2 tiveram um resultado positivo. Isso é estranho, é impunidade.

E é aí que se quer começar concedendo indultos aos carabineiros presos pela revolta. Tentam fazer a distinção como se fossem casos menos graves que os anteriores.

Mas há um dado que ilustra tudo: em nenhum país houve a sequência de lesões oculares graves como no Chile, cerca de 400 em 2019; isso não foi visto em lugar nenhum, nem durante a ditadura. E sobre esses crimes há impunidade, porque não há decisões judiciais, ninguém foi condenado.”

·        Como você avalia a maneira como a sociedade chilena está reagindo ou não está reagindo?

“É preciso dizer o seguinte: somos vítimas de um grande negacionismo, e ele se sustenta em bases muito concretas. Mais de 70% da população não viveu o golpe; a juventude que não sabe como é o terrorismo de Estado não se manifesta contra ele.

“Há um sistema de comunicação baseado em programas matinais, que ficam falando banalidades o dia inteiro. Em contrapartida, esses dados que eu apresentei sobre as pessoas que estão presas, as que foram condenadas, não aparecem em lugar nenhum; os meios de comunicação não têm ideia disso e a sociedade também não, pensa que não importa.”

·        E qual é o papel dos partidos políticos nisso?

“Bem, foi simplesmente pobre. Por isso, sou favorável à ideia de que, para vencer o negacionismo, temos que fortalecer os mecanismos de comunicação de base. Eu gostaria que existissem rádios comunitárias, televisão comunitária. Elas existem, é preciso fortalecê-las. Porque, caso contrário, seremos sempre vítimas da desinformação. E é na desinformação que o negacionismo opera.”

·        Há a questão dos condenados que estão em estado terminal, sobre enviá-los ou não para suas casas.

“Se comprovarem, por meio de diferentes exames, de perícias, que alguém está com Alzheimer, não faz sentido que esteja preso. Que vá para casa.

“Mas não me enganem, tragam-me laudos reais, pelo menos cinco laudos, de diferentes especialidades médicas, com exames de imagem para verificar qual é o estado do cérebro. É preciso se convencer, porque fomos vítimas de tantos enganos que já não acreditamos nisso.”

·        Outra coisa que você mencionou foi que não compartilha da tese do suicídio de Allende.

“O caso de Allende foi encerrado pela Suprema Corte com um voto contrário, do ministro Hugo Dolmes, que considera que não há elementos para o arquivamento definitivo. O que nunca se conseguiu desacreditar é que existem dois… (impactos); vejamos, existe um disparo pela parte traseira que está comprovado na primeira autópsia realizada em Allende. Ali descrevem um tiro que poderia ser de uma arma menor, de calibre 22, mas uma 22 no cérebro também pode matar alguém.

“E o outro argumento que tenho é que, se ele encosta uma arma aqui no queixo, uma AK, ao dispará-la, faz com que todo o sangue que esteja no cérebro escorra. Certo? É uma lei da física. Se eu tenho um vaso cheio de água e quebro o vaso, a água vai cair.

“Allende não tinha nenhum vestígio de sangue em suas roupas, em lugar nenhum. E quando não há vestígio de sangue? Quando alguém está morto e o sangue não circula.

“Há um médico que afirma isso, que é Luis Rabanal; eu acredito nessa tese.

“Tudo o que aconteceu depois da morte de Allende é muito estranho. A que horas encontram o cadáver, para onde o levam, a que horas o retiram, como o retiram. Nada foi permitido. Tudo isso é muito obscuro. E isso, indubitavelmente, aumenta as suspeitas. Eu, na verdade, acredito que Allende não se suicidou. Apesar de ter muito carinho pela família de Allende, a família de Allende acredita no suicídio.

“Mas não posso contradizê-los. Simplesmente me guio por essa investigação realizada por Rabanal, e ele é um médico renomado por esse trabalho.”

·        Você é um homem que há 50 anos vem lutando, saiu da universidade e foi trabalhar nessa área. Qual foi sua motivação?

“A motivação foi que havia um golpe e não se pode ficar impassível diante disso. Eu tinha cerca de 22 anos e quis me juntar imediatamente; vim fazer meu estágio e fui me oferecer à Vicaria de la Solidaridad, da Igreja Católica, em janeiro de 1976. Minha grande madrinha foi Fabiola Letelier; ela me incorporou e foi fundamental para que eu seguisse esse caminho e desse sentido à minha vida trabalhando nisso.”

 

Fonte: Por Alberto Nadra, na Prensa Latina - Tradução: Ana Corbisier, para Diálogos do Sul Global

 

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