A evidência mais antiga de uso de droga
psicoativa
Os primeiros traços de consumo de
estimulantes psicoativos por parte do ser humano podem remontar a cerca de 25
mil anos, muito antes do que se supunha, sugerem os restos ósseos de pessoas
que teriam chupado nozes de bétele na Indonésia.
Os restos de dois caçadores-coletores da ilha
indonésia de Sulawesi, provenientes de sítios arqueológicos do Pleistoceno
tardio e do Holoceno médio, foram objeto de um estudo publicado nesta
quarta-feira (09/09) pela revista Science Advances.
<><> A quarta substância
psicoativa mais consumida do mundo
A descoberta pode constituir a evidência mais
antiga conhecida do consumo de substâncias psicoativas e "permitir deduzir
as raízes pré-históricas de um dos estimulantes viciantes mais difundidos do
mundo", indica a pesquisa.
A noz de bétele, também conhecida como noz de
areca, é uma das drogas de origem vegetal mais populares da Ásia e do Pacífico
Sul. Tradicionalmente, ela é mastigada na forma de uma mistura preparada
conhecida como "betel quid" e proporciona uma sensação de leve
euforia e aumento do estado de alerta.
Embora seja pouco conhecida no Ocidente,
"é a quarta substância psicoativa mais consumida do mundo, depois do
álcool, da cafeína e da nicotina", destaca Adam Brumm, autor principal do
estudo e pesquisador da Universidade Griffith, na Austrália.
<><> Marcas dentárias e evidência
neuroativa
Os pesquisadores se concentraram nos dentes
de dois coletores pré-agrícolas, o mais antigo datado entre 25 mil e 16 mil
anos atrás e o outro de entre 7,6 mil e 6,3 mil anos atrás, que apresentavam um
desgaste incomum na forma de sulcos profundos e arredondados.
Os cientistas levantaram a hipótese de que as
marcas eram resultado de chupar repetidamente um objeto duro e arredondado,
como nozes inteiras. A análise dentária posterior revelou traços de arecolina,
o principal composto neuroativo do bétele, em ambos os indivíduos, fornecendo
evidências sólidas de sua ingestão.
<><> Mecanismo de ação e
alteração cerebral
Atualmente, os consumidores de bétele
misturam a semente processada com cal apagada e outros ingredientes para formar
uma pequena bola que é mastigada.
Para testar essa hipótese, a equipe mergulhou
nozes de bétele em saliva artificial e analisou o resultado utilizando
receptores humanos clonados expressos em óvulos de rã.
"Isso demonstrou que simplesmente chupar
nozes de bétele intactas libera arecolina em quantidades suficientes para
produzir um efeito fisiológico que altera a função cerebral", explica
Brumm em um comunicado da universidade australiana.
<><> Alívio imediato, danos
duradouros
Os antigos coletores da ilha costumavam ter
os dentes em más condições. Como a arecolina possui efeitos analgésicos, a
equipe suspeita que uma das razões para chupar as sementes fosse aliviar
desconfortos bucais.
No entanto, chupar essas sementes duras e
abrasivas desgastou tanto a dentição que, em alguns casos, a câmara pulpar
interna ficou completamente exposta.
"Isso teria sido extremamente doloroso,
teria causado dificuldades para se alimentar e aumentado consideravelmente a
taxa de infecções dentárias crônicas", avalia Brumm.
Apesar de esse hábito possivelmente ter
servido como remédio para dor de dente, anos de sucção da noz acabaram
provocando problemas de saúde bucal muito mais graves, criando um ciclo de
consumo habitual e contínuo.
"Imagine colocar uma pedra na boca e
movê-la de um lado para o outro, e fazer isso dia após dia, hora após hora. Com
o tempo, ela acabaria desgastando o tecido dentário, que é extremamente duro,
até formar esses sulcos", diz Brumm, em declarações reproduzidas pelo
jornal The Guardian.
<><> A descoberta que pode
reescrever a história dos estimulantes
Essa descoberta representa "uma mudança
significativa" na compreensão da história do consumo de estimulantes pelos
seres humanos.
A pesquisa permite rastrear o uso da noz de
bétele até o Pleistoceno tardio, o que supera amplamente os períodos de início
considerados anteriormente pela comunidade científica, como registros datados
do Neolítico tardio ou da Idade do Bronze, alguns deles com cerca de 3,5 mil
anos.
Fonte: DW Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário