Arqueólogos acham no Egito "porta falsa
que leva ao além"
Alguns governantes do Egito Antigo deixaram
pirâmides como monumentos funerários. Outros integrantes da elite tiveram
sepulturas muito mais discretas, embora nem por isso menos reveladoras sobre
sua posição social.
É o caso de Sekhentiu-Ptah, um alto
funcionário cuja tumba, com cerca de 4 mil anos, acaba de ser descoberta em
Saqqara, a antiga necrópole de Mênfis, ao sul do Cairo.
O achado, anunciado pelo Ministério do
Turismo e Antiguidades do Egito, faz parte de uma escavação realizada na região
do Bubasteion, a oeste da necrópole. Em períodos posteriores, a área ficou
associada ao culto da deusa-gata Bastet.
Segundo o comunicado oficial, os envolvidos
na descoberta seguiram um rigoroso programa científico que incluiu escavação
estratigráfica, documentação arquitetônica e fotográfica, digitalização de
achados e estudos linguísticos. A coordenação ficou a cargo de Hisham Al-Lithi,
secretário-geral do Conselho Supremo de Antiguidades.
Embora a tumba seja a principal descoberta,
ela não foi o único achado do local. Os arqueólogos localizaram vários poços
funerários contendo restos humanos e mais de cem ushabtis de faiança, pequenas
estatuetas colocadas nas tumbas para acompanhar o falecido na vida após a
morte.
<><> "Guardião dos
segredos"
As inscrições hieroglíficas encontradas na
tumba permitiram identificar Sekhentiu-Ptah e reconstruir a extensa lista de
cargos que ocupou.
Segundo o ministério egípcio, ele exerceu
funções como camareiro real, supervisor das obras do rei, supervisor dos
documentos reais, sacerdote da deusa Maat e chefe dos escribas.
Um desses títulos, traduzido como
"guardião dos segredos dos decretos reais", pode soar misterioso. No
entanto, é provável que correspondesse a uma função administrativa bastante
convencional.
Em entrevista ao portal Live Science, a
egiptóloga Ann Macy Roth, da Universidade de Nova York, que não participou da
escavação, explicou que o título era comum entre os escribas reais e
provavelmente apenas indicava que, por lidar com documentos da corte, ele tinha
acesso a informações confidenciais.
Sekhentiu-Ptah viveu durante o Império
Antigo, período em que foram construídas as grandes pirâmides, incluindo as de
Gizé. Roth acredita que os elementos arquitetônicos da tumba datam do final da
5ª dinastia e início da 6ª. Com base nas características, os achados teriam
sido construídos há aproximadamente 4.350 anos.
<><> A falsa porta e o enxoval
funerário
Talvez o elemento mais impressionante da
tumba seja a chamada "falsa porta", um componente comum da
arquitetura funerária egípcia.
Ela não era uma porta funcional nem tinha a
finalidade de impedir a ação de saqueadores. De fato, a tumba foi violada em
algum momento de sua longa história. Mas o significado dessa porta era
religioso: acreditava-se que ela funcionava como um ponto de ligação com o além
e permitia ao espírito do falecido transitar entre os dois mundos.
Diante da porta foram encontrados diversos
objetos funerários. Segundo o comunicado do ministério, os arqueólogos
identificaram uma mesa de oferendas, uma peça destinada ao ritual do qurban, ou
seja, de sacrifício, uma bacia de purificação, um jarro e uma esteira, todos
com inscrições hieroglíficas.
A escavação também revelou outros materiais.
O ministério informou a descoberta de três sarcófagos de pedra que permaneciam
lacrados desde a Antiguidade, além de uma escultura de madeira em forma de
falcão e grandes quantidades de cartonagem funerária colorida.
Sobre a figura do falcão, o Live Science
destaca uma possível associação com Hórus, o deus egípcio representado com
cabeça dessa ave.
O que ainda não foi encontrado, porém, é a
própria múmia de Sekhentiu-Ptah. Segundo Roth, o espaço pode ter sido
reutilizado após o sepultamento original, uma prática comum no Egito Antigo.
Isso explicaria por que alguns dos ushabtis e fragmentos de cartonagem parecem
pertencer a pessoas enterradas ali posteriormente.
<><> Saqqara continua revelando
novos tesouros
Declarada Patrimônio Mundial pela Unesco,
Saqqara é centro de pesquisas arqueológicas desde o século 19 e continua
proporcionando novas descobertas.
A necrópole desempenhou papel central durante
o Império Antigo, aproximadamente entre 2700 e 2200 a.C., quando recebeu
sepultamentos de membros da realeza e da elite egípcia. Seu uso funerário, no
entanto, não terminou nesse período e se estendeu até a época romana.
Em entrevista à revista Smithsonian Magazine,
Campbell Price, curador das coleções de Egito e Sudão do Museu de Manchester,
falou da importância simbólica do local. Segundo ele, Saqqara era o lugar
"onde se queria ser visto morto", devido à sua reputação como porta
de acesso ao além.
Mas Saqqara não abriga apenas tumbas de
funcionários como a de Sekhentiu-Ptah. O sítio arqueológico também reúne
pirâmides reais, incluindo a famosa Pirâmide de Degraus de Djoser, além de uma
vasta necrópole subterrânea dedicada a animais.
Essa diversidade levou o arqueólogo Magdy
Shaker a afirmar, em entrevista ao portal Al-Monitor, que Saqqara reúne boa
parte da história do Egito Antigo, em contraste com o foco mais restrito das
pirâmides da 5ª dinastia em Gizé.
O potencial arqueológico e turístico da
região levou as autoridades egípcias a investirem na melhoria dos acessos e da
infraestrutura para visitantes. Ainda assim, Saqqara continua ofuscada por sua
vizinha mais famosa: as pirâmides de Gizé.
Fonte: DW Brasil

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