STF: Moraes e Mendonça viram símbolos
políticos enquanto caso Banco Master cobra controle e transparência
Nos últimos anos, no Brasil, temos
presenciado um fenômeno que, a meu ver, nunca deveria ter ocorrido. Refiro-me à
exposição que considero exacerbada dos membros da Suprema Corte do país, o
Supremo Tribunal Federal (STF), bem como a uma espécie de endeusamento de
alguns deles.
Até entendo que, considerando a polarização
do debate político, alguns setores da sociedade busquem personagens que,
segundo suas visões, sejam capazes de apaziguar certas contendas. Porém,
critico veementemente a tentativa de transformá-los em quase “heróis”.
Até porque uma República não necessita de
atos heroicos, mas de ética, de zelo pela coisa pública e, sobretudo, de
respeito às leis (sobretudo à Constituição), este que, aliás, é o principal
dever do STF.
Costumo acompanhar mídias de várias partes do
mundo e não vejo uma exposição dos membros da alta Corte de Justiça como vemos
aqui no Brasil. De fato, não consigo identificar quem são os membros da Suprema
Corte da União Europeia, da Rússia, do México, do Chile, somente para citar
alguns exemplos. Excetuando-se os Estados Unidos — quando algumas notícias dão
conta de certas decisões do Supremo daquele país, como possíveis nomeações, por
exemplo —, não há uma exposição dessas pessoas.
<><> Símbolo da resistência
institucional (?!)
Já li em algum lugar que juízes devem ser
conhecidos por suas sentenças — ou algo parecido. Mas isso não é o que acontece
em nosso país. Volta e meia, nos deparamos com a exposição pública de
magistrados/magistradas, inclusive os ministros (e ministra) do STF brasileiro,
principalmente de Alexandre de Moraes — que se tornou uma espécie de “ídolo”
para muita gente que se autointitula “progressista” ou “de esquerda”.
André Mendonça, embora situado em outro
espectro político e frequentemente apresentado como contraponto a Moraes,
também passou a ocupar esse espaço de protagonismo e personalização da Justiça.
A meu ver, isso é problemático por duas
razões principais.
Primeiro, porque, quando consideramos a nossa
história republicana, deveríamos ter, pelo menos, alguma cautela diante do
personalismo político.
Proclamada em 1889, a nossa República não
significou a imediata construção de uma cultura republicana fundada na
participação política ampla, na igualdade perante a lei e na consolidação de
instituições capazes de limitar o poder, como deveria.
Ao longo da Primeira República, por exemplo,
o Brasil conviveu com práticas oligárquicas, com o coronelismo, com o
mandonismo, com as fraudes eleitorais e também com os mecanismos de exclusão
política.
Mais adiante, no final da década de 1930,
vivemos o Estado Novo de Getúlio Vargas (1937-1945) e, posteriormente, na
década de 1960, conhecemos os terrores do regime instaurado em 1964, estes dois
períodos marcados por regimes ditatoriais.
Os exemplos que citei demonstram o quanto a
história republicana brasileira está marcada por diferentes formas de
concentração do poder e, também, por rupturas. Portanto, não somos (nem de
longe) uma sociedade historicamente imune à tentação de substituir a
institucionalidade pela autoridade de indivíduos ou de grupos que se apresentam
como capazes de restaurar a ordem.
A segunda razão reside no fato de a história
recente também demonstrar os riscos de depositar em indivíduos a esperança de
regeneração da vida pública. Quem não se lembra do “caçador de marajás” das
Alagoas? Fernando Afonso Collor de Mello foi, na década de 1990, o homem que
salvaria o Brasil da corrupção, da inflação, de todas as mazelas.
Após construir, através do marketing
político, a imagem de paladino da moral, o político alagoano — neto e filho das
oligarquias nordestinas, latifundiária e controladora de mídia — foi conduzido
ao poder com status de herói. E vimos os resultados. Quem não viu, poderá ver
lendo os registros históricos.
Saindo do Executivo e adentrando o
Judiciário, temos como exemplo muito emblemático o juiz espanhol Baltasar
Garzón, que ilustra muito bem o fenômeno dos chamados “juízes heróis”.
Celebrado internacionalmente por investigações contra terrorismo, corrupção e
crimes contra a humanidade, Garzón tornou-se, para seus admiradores, símbolo de
uma Justiça disposta a enfrentar poderosos.
Ele foi tão identificado com determinadas
causas que sua figura passou a carregar um significado político que
ultrapassava suas decisões judiciais. Sua trajetória, no entanto, também
mostrou como é arriscado transformar magistrado em personagem público. Acabou
no banco dos réus, acusado de abuso de poder em processos distintos.
Em 2012, foi condenado por ordenar escutas
ilegais e afastado da magistratura — embora o Comitê de Direitos Humanos da
Organização das Nações Unidas (ONU) tenha dito que houve violação das garantias
de independência e de imparcialidade judiciais.
E, para ficarmos “em casa”, não devemos nos
esquecer de um certo juiz — hoje senador da República — que, no afã de
encarcerar um adversário político-ideológico, descumpriu as normas dos
processos legais e condenou, sem provas concretas, um Presidente da República à
prisão, um caso que entrou para a história do chamado lawfare, ou seja, uso do
Direito como arma para neutralizar inimigos.
Esse endeusamento lhe rendeu cargo de
ministro e, posteriormente, cargo de legislador, tornando-o tão ávido de poder
que causa até medo (pelo menos a mim).
Voltando à nossa Suprema Corte, no caso que
envolve Moraes e Mendonça, um está sendo celebrado como símbolo de resistência
por um campo político; o outro, como representante de uma Justiça supostamente
capaz de conter excessos. Mas ambos os ministros, quando transformados em
protagonistas de uma narrativa de heróis e vilões, contribuem — ainda que de
maneiras distintas — para a mesma personalização do Supremo que deveria nos
preocupar.
O ministro Alexandre de Moraes passou a
ocupar uma posição análoga à de Collor de Mello, ainda que à frente do
Judiciário e não do Executivo. Há algum tempo ele tem sido um dos centros da
política brasileira, sobretudo a partir dos inquéritos e processos relacionados
aos ataques às instituições democráticas e, posteriormente, aos acontecimentos
de 8 de janeiro de 2023. Para muitas pessoas, Moraes tornou-se símbolo da
resistência institucional. Quase um herói. “Xandão” para muitos.
Para uma parcela da direita brasileira, o
ministro André Mendonça, sobretudo nessas últimas semanas, deixou de ser
simplesmente um ministro indicado por Bolsonaro para assumir o papel de símbolo
de resistência dentro do próprio STF. Se Moraes passou a ser chamado de
“Xandão” por seus admiradores, Mendonça passou a ocupar, para seus apoiadores,
uma espécie de lugar de “herói de toga” do campo conservador.
Mas será que precisamos de heróis?
Procuramos heróis onde deveríamos exigir
regras; procuramos salvadores onde deveríamos exigir controles. Essa disposição
talvez explique a nossa dificuldade histórica, enquanto sociedade, para
construir uma cultura efetivamente republicana. É preciso que entendamos que
defender a democracia (ainda que seja a democracia burguesa) não significa
anular a capacidade de questionarmos os agentes que atuam em seu nome. O que
nos cabe é termos muita cautela. Quanto maior o poder atribuído a uma
autoridade, maior deve ser a nossa exigência de transparência, de
fundamentação, de controle e de responsabilidade.
<><> Culto ao magistrado?
E quero ressaltar que a questão não é ser “a
favor” ou “contra” Alexandre de Moraes. Já basta de polarizações. O que quero
pontuar aqui é que não podemos tolerar que um ocupante de função tão importante
da República (como é o caso de ministro da Suprema Corte) possa estar envolvido
em situações como essas que estamos vendo através dos inquéritos da Polícia
Federal divulgados pelos meios de comunicação.
É possível defender a legitimidade
constitucional da Corte e, ao mesmo tempo, exigir que seus ministros (e
ministra) sejam submetidos à crítica pública. É possível reconhecer o papel
institucional desempenhado por Alexandre de Moraes sem concluir que tudo o que
ele faça esteja automaticamente justificado pela necessidade de combater o
autoritarismo.
As revelações que vêm sendo feitas envolvendo
Moraes e o dono do Banco Master tornam muito difícil sustentar a ideia de que a
crítica ao ministro possa ser reduzida à retórica de setores interessados em
deslegitimar o STF. O presidente da Corte, Edson Fachin, reconheceu (após novas
revelações) que existem “indícios” que reclamam encaminhamento institucional; e
afirmou que a autoridade do cargo não confere privilégios, mas impõe deveres,
limites e responsabilidades.
As questões que dizem respeito ao papel de
André Mendonça na condução do caso Banco Master também tornam difícil tratá-lo
somente como o contraponto institucional de Alexandre de Moraes. Relator das
investigações relacionadas ao caso, Mendonça determinou a prisão de Daniel
Vorcaro e de outros investigados a pedido da Polícia Federal e, posteriormente,
tornou públicos elementos que apontavam para contatos entre o banqueiro e
Moraes.
Entretanto, a atuação do ministro André
Mendonça — do mesmo modo que a de Alexandre de Moraes — passou a ser
questionada. O próprio Moraes pediu que seu colega fosse investigado por abuso
de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade,
alegando, entre outras questões, direcionamento da investigação.
A Polícia Federal também questionou a maneira
como Mendonça teria acessado e usado determinadas informações. Ademais,
Mendonça reconheceu ter se encontrado uma vez com Daniel Vorcaro, em março de
2025, embora tenha afirmado que o encontro ocorreu por iniciativa do
empresário. São questões seríssimas, merecedoras de apurações igualmente
sérias, visto o teor da gravidade. Não são quaisquer cidadãos brasileiros. São
ministros da Suprema Corte.
Não é de agora que membros do STF aparecem
envolvidos em situações que, digamos, não são as mais indicadas para membros de
um dos Poderes da República.
Antes dos escândalos envolvendo o Banco
Master, a imprensa divulgou muitas questões que envolveram ministros daquela
Corte, tais como uso de jato corporativo e voos particulares, ou atuação de
parentes de ministros do STF em escritórios de advocacia que defendem grandes
empresas em causas que tramitam nas Cortes Superiores.
Enfim, episódios que não deveriam acontecer.
Esses escândalos não tiveram apuração, tampouco a repercussão que o atual vem
tendo. Simplesmente caíram no esquecimento público.
Mesmo que essas questões não tenham sido
levadas a fundo e comprovadas, ficam as máculas. E isso não é bom para a
República. Conforme frase atribuída ao imperador romano Júlio César, “À mulher
de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”.
Em que pese a conotação machista desta frase
— à qual não me aterei aqui neste texto —, podemos dizer o mesmo daquelas
pessoas que representam a República: não basta que sejam honestas; elas
precisam parecer honestas. Isso significa que não deve pairar nenhuma dúvida
sobre sua ética.
Estamos diante de mais um escândalo, o qual
traz à tona duas perguntas, a meu ver, indispensáveis:
Quem controla aqueles que controlam? Quem
fiscaliza aqueles que fiscalizam?
O problema de transformar autoridades em
heróis reside justamente no fato de atribuirmos excepcionalidades. Não
precisamos trocar o culto ao líder político pelo culto ao magistrado. Não
precisamos substituir o personalismo do Executivo pelo personalismo do
Judiciário. Por mais que tenha se destacado na resistência a um projeto
autoritário, como o foi Alexandre de Moraes, ele não deve ser transformado na
personificação da defesa das instituições.
<><> Coerência, controle e
transparência
E não estou dizendo, com isso, que devemos
relativizar a ameaça representada por projetos autoritários. O que afirmo aqui
não deve ser equiparado à defesa daqueles e daquelas que tentaram destruir as
instituições.
Tampouco deve ser interpretado como adesão à
retórica de quem pretende utilizar críticas legítimas ao Judiciário como
instrumento para desacreditar o Estado Democrático de Direito. E muito menos
deve ser entendido como defesa do retorno de certos espectros políticos ao
poder em nossa República. Sob nenhuma hipótese!
Estou afirmando que a República não precisa
de heróis, mas de instituições, de separação de Poderes, de controles, de
transparência, de cidadania capaz de desconfiar do poder — inclusive quando
esse poder parece estar sendo utilizado em defesa das causas nas quais
acreditamos. Estou dizendo que a República precisa, acima de tudo, de
coerência. E digo, ainda, que essa exigência não deve ficar restrita ao Poder
Judiciário, mas precisa alcançar os três Poderes.
No que tange ao Legislativo, significa
compreender que a representação popular não transforma parlamentares em
proprietários do mandato recebido. Tampouco autoriza o Parlamento a abdicar de
suas responsabilidades em nome de interesses circunstanciais.
O Congresso Nacional não pode ser uma arena
de disputas partidárias ou de negociações de ocasião (o Centrão que o diga!).
Um Legislativo forte é aquele que preserva sua autonomia institucional. E,
principalmente, legisla em prol dos interesses da maioria da sociedade.
No que se refere ao Executivo, a mesma
coerência exige que a legitimidade decorrente do voto não seja confundida com
autorização para exercer o poder sem freios. Governos eleitos possuem
legitimidade, mas ela é constitucionalmente limitada. A maioria eleitoral não
elimina direitos das não maiorias e, sobretudo, não suspende os mecanismos de
fiscalização. Estar à frente de um governo requer zelo pelo bem público, requer
sensibilidade para estabelecer e lutar pelas prioridades sociais.
Por isso, quando afirmo que a República não
precisa de heróis (ou heroínas), estou defendendo uma República suficientemente
institucionalizada para que nenhum indivíduo seja indispensável. Para que
nenhum Poder seja absoluto e nenhuma causa — por mais justa que nos pareça —
seja capaz de justificar a suspensão dos limites que deveriam valer
universalmente.
Sendo assim, deixo, nesta reflexão, duas
questões finais para que pensemos acerca do nosso papel enquanto cidadãs e
cidadãos:
Queremos realmente uma sociedade democrática?
Sabemos o que isso, de fato, significa — mesmo considerando as limitações que
possa ter?
Fonte: Por Verbena Córdula, em Diálogos do
Sul Global

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