quarta-feira, 16 de setembro de 2026

André Mendonça, o cupim do Jair

A atuação do ministro do STF André Mendonça diante do inquérito do Banco Master e o sigilo sobre atores fundamentais parece revelar um conluio jurídico, político e midiático que omite uma série de fatores-chaves:

1) Como ministro da Justiça de Jair Bolsonaro, Mendonça prevaricou em assuntos como interferência na PF em favor de Flávio Bolsonaro, pandemia, queimadas e genocídio indígena.

2) Liderou a Abin paralela e arapongagem de 500 servidores que se diziam antifascistas.

3) Em 2023, arquivou o inquérito das rachadinhas, já como ministro do STF, em favor de Flávio Bolsonaro por suposta irregularidade na obtenção de provas.

4) Recebeu Vorcaro em agenda particular sem avisar ninguém. Pegou terno na alfaiataria onde Vorcaro deixou pelo menos R$ 500 mil, o que sugere amizade pessoal, conforme áudio revelado.

5) Seu instituto particular tem 55 contratos com o poder público, 54 deles sem licitação, em locais administrados por aliados de Jair Bolsonaro. Perguntas: qual a função dessa suposta consultoria? O que acrescentou para a administração pública? Mendonça disse ter saído da sociedade, que segue sendo de sua família.

6) André Mendonça julgou ação que envolvia prefeitura de São Paulo sobre a regulação do serviço funerário privatizado. Logo depois de dar vitória à gestão de Ricardo Nunes, seu irmão foi nomeado para a direção da SP Regula. Ricardo Nunes, um prefeito cuja gestão é repleta de denúncias de corrupção, confeccionou camisas em apoio a Mendonça, exibidas na manifestação bolsonarista de 7 de Setembro, na Avenida Paulista (aliás, o conteúdo político deste ato de campanha é outro fator fundamental ignorado pela mídia de massa).

7) Ainda em SP, de seus aliados Nunes e Tarcísio, voltamos a Vorcaro. Nunes vendeu a Empresa Municipal de Água e Esgoto para o grupo Phoenix, do qual Vorcaro era parte e foi formado apenas para participar deste certame de privatização. A seguir, a EMAE foi revendida para a Sabesp já privatizada. Vorcaro, que deu R$ 2 milhões para o financiamento de campanha de Tarcísio, lucrou R$ 160 milhões nesta transação.

8) Ao pedir demissão do Ministério da Justiça em 2020, Sergio Moro afirmou que exigências de Jair Bolsonaro para impedir a investigação de seu filho sufocavam qualquer investigação de lavagem de dinheiro no país. Alguém lembra de alguma operação contra o crime organizado no período de Jair e sua PF chefiada pelo ministro da Justiça sucessor de Moro, isto é, André Mendonça?

9) Agora, chegamos ao superfoco em Alexandre de Moraes. Por que só ele é exposto e pode ir a julgamento, se Mendonça, Nunes Marques, Toffoli e Fux também têm relações particulares com o ex-banqueiro? Como não interpretar esse superfoco em Moraes, se não como um golpe eleitoral para eleger Flávio Bolsonaro?

10) Agora, só agora, Mendonça diz acatar ordem de Fachin sobre inquérito contra Flávio Bolsonaro e o suspeitíssimo financiamento do filme Dark Horse, quando o filho de Jair recebeu dezenas de milhões de reais de Vorcaro em momento no qual o processo de liquidação do Master já era conhecido pela sociedade. Mas por que não o fez antes? Por que não houve diligências da PF contra Flavio B., com apreensões de celulares e materiais chaves, nos meses que separam a revelação dos áudios de Flávio B. e Vorcaro e esta tardia liberação do inquérito?

11) No mesmo dia desta morosa decisão, veio à tona revelação de que Flavio Bolsonaro compartilha escritórios com o Careca do INSS. Por que nos últimos dias Mendonça libertou da prisão três criminosos identificados nas fraudes do INSS, entre eles o filho do careca, e liberou outros dois do uso de tornozeleira eletrônica?

12) Aonde estão os celulares de Vorcaro? Por que não se fala mais do núcleo evangélico identificado na Operação Carbono Oculto?

13) Como interpretar sua decisão de afastar o Diretor Geral da Polícia Federal que coordenou a maior operação contra lavagem de dinheiro na história do país, a partir de uma liminar solicitada pelo Partido Novo? Como aceitar a acusação de Mendonça, que insiste no afastamento de Andrei, de ter sido vigiado irregularmente, se possui relações pessoais com Vorcaro?

14) Por tabela, foram afastados delegados envolvidos na elucidação do assassinato de Marielle Franco. A intervenção de Flavio Dino reverteu o ato monocrático. Mas como considerar aceitável um bolsonarista, cuja passagem pelo Ministério da Justiça não moveu uma palha nesta direção, tomar tal decisão?

15) O que falta para se pedir diligências e mandados de segurança contra André Mendonça em relação a tudo que se refira a Daniel Vorcaro e o Banco Master? Só o Partido Novo pode afastar entes indesejados de investigações sensíveis à estabilidade política do país?

16) Dito isso, alguém acha razoável supor que Jair, Mendonça, Flávio e Vorcaro não tenham compartilhado vários momentos juntos durante o governo do capitão? Então, eles mal sabiam quem era o banqueiro da moda e maior doador da campanha à reeleição do Jair?

17) Vorcaro tinha políticos e juízes à sua disposição. Mas o amigo de orgias de Fabio Faria, executivo do SBT casado com uma das proprietárias da emissora, nunca se interessou em cooptar jornalistas?

18) Lula deu entrevista ao SBT na quinta-feira. A frase lapidar da entrevista foi: “Daniel Vorcaro virou banqueiro no governo de Bolsonaro e virou presidiário no meu governo”. O SBT não divulgou tal frase nas horas seguintes em nenhum de seus canais e não divulgou este corte em suas redes digitais. Tal manchete, que não escaparia da lupa de nenhum estudante de primeiro semestre de jornalismo, só foi repercutida em páginas ligadas à esquerda, cuja audiência é incomparavelmente inferior. Uma fraude jornalística indiscutível.

19) Não devemos desconfiar da existência de um trabalho de “agente-duplo”? Isto é, comunicadores de massa fingem denunciar o megaesquema de corrupção, mas na verdade operam um deslocamento do eixo dos debates e investigações sobre toda a natureza do escândalo de roubo de dinheiro público e lavagem de dinheiro (essa operação de confusão informativa foi feita pela mídia empresarial desde o primeiro minuto da revelação de todo o caso Master). Em caso de vitória eleitoral de Flávio Bolsonaro, o objetivo seria garantir uma nulidade generalizada dos processos.

20) Quando lançou sua candidatura, Flávio Bolsonaro declarou a intenção de subir a rampa do Palácio do Planalto junto de seu pai golpista de Estado. Cabe aos analistas famosos e bem pagos conjecturar um pouco sobre o que seria do Brasil daqui a seis meses com Flávio Bolsonaro eleito. Façam esse favor à democracia, caso se interessem de verdade por esse sistema político.

PS:

Cármen Lúcia, em 2022: “O que são esses cupins? O cupim do autoritarismo, o cupim do populismo, o cupim de interesses pessoais, o cupim da ineficiência administrativa. Tudo isso ajuda a construir um quadro que faz com que não se tenha o cumprimento objetivo da matéria constitucional”. Frase dita em contexto de análise pelo STF da política ambiental e dos altos índices de devastação florestal registrados no governo de Jair Bolsonaro.

•        Advogado de Vorcaro foi vice-presidente da CONIB, entidade que financiou viagem de André Mendonça

Em meio às informações que vêm à tona nas investigações da Polícia Federal sobre a fraude do Banco Master, um nome tem aparecido pouco, apesar de sua atuação junto ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, atualmente preso como cabeça do esquema: se trata do advogado Daniel Leon Bialski, que passou a integrar a defesa de Vorcaro em agosto de 2026.

Bialski trabalha no caso ao lado do advogado Sérgio Leonardo. Sua contratação foi noticiada por alguns meios de imprensa como decisiva para a negociar uma delação premiada do ex-banqueiro.

<><> Atuação na CONIB

Antes de assumir o caso de Vorcaro, Bialski se destacou a partir de uma posição de destaque na estrutura jurídica da Confederação Israelita do Brasil (CONIB). A entidade o identifica como advogado e assessor da presidência e, em diferentes momentos, como integrante de seu comitê jurídico.

Bialski foi primeiro vice-presidente da CONIB em novembro de 2020, integrando a chapa liderada por Claudio Lottenberg, tendo sido reconduzido ao cargo após a reeleição da diretoria no final de 2023 para o mandato subsequente.

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Processo contra Breno Altman

Uma das atuações mais conhecidas ocorreu no processo movido pela CONIB contra o jornalista Breno Altman. Em novembro de 2023, a Justiça de São Paulo determinou, em caráter liminar, a retirada de publicações consideradas racistas, injuriosas e discriminatórias feitas por Altman.

A ação foi apresentada pela CONIB e contou com a participação de Bialski, Andrea Vainer, Charles Argelazi e Jairo Haber.

<><> Caso contra políticos e partidos

A atuação de Bialski junto a entidades judaicas também aparece em um processo contra o vereador paulistano Adilson Amadeu (União Brasil).

Em 2023, a Justiça de São Paulo condenou o parlamentar a dois anos e seis meses de reclusão, em regime inicial aberto, por crime de racismo, em ação movida pela CONIB e pela Federação Israelita do Estado de São Paulo (FISESP). O processo envolvia declarações consideradas antissemitas feitas pelo vereador em um áudio compartilhado pelo WhatsApp.

Em setembro de 2024, a condenação foi confirmada pela 16ª Câmara Criminal do TJSP. Na ocasião, Bialski representava a FISESP.

Outra frente de atuação da CONIB com participação de Bialski envolve representações contra integrantes do Partido da Causa Operária (PCO) por manifestações apontadas pela entidade como antissemitas.

<><> Defesa de políticos da extrema direita

Enquanto atua em ações institucionais da CONIB contra manifestações consideradas antissemitas, Bialski também construiu uma carteira de clientes com nomes de grande projeção na política brasileira.

Entre seus clientes destacados está Michelle Bolsonaro. O advogado já havia trabalhado para Michelle em outros episódios e, em agosto de 2023, foi contratado para atuar em sua defesa no caso das chamadas joias sauditas. Bialski deixou a defesa poucos dias depois, mas sua passagem pelo caso ganhou repercussão nacional.

Bialski também já representou Cláudio Castro (PL), ex-governador do Rio de Janeiro, além de outros políticos e autoridades.

A lista inclui ainda a deputada federal Carla Zambelli (PL-SP), o ex-ministro da Educação Milton Ribeiro, o ex-ministro Onyx Lorenzoni (PP-RS) e o prefeito de Sorocaba, Rodrigo Manga (Republicanos-SP). Mais recentemente, também atuou para o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB).

Outro nome de grande repercussão associado à trajetória profissional de Bialski é o ex-governador do Rio Sérgio Cabral (MDB), cuja defesa integrou em determinado momento.

<><> Polêmicas na defesa de Vorcaro

Poucas semanas depois de assumir o caso, Bialski protagonizou um dos episódios mais controversos da defesa no caso do Banco Master: participou da articulação de um depoimento reservado de Vorcaro ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Na ocasião, o ex-banqueiro fez acusações contra integrantes da Polícia Federal e relatou supostos maus-tratos durante sua prisão. O episódio provocou tensão entre integrantes da própria defesa e reação da Procuradoria-Geral da República (PGR).

<><> Viagem de Mendonça à Israel paga pela CONIB

Em janeiro de 2024, André Mendonça e outros seis magistrados de instâncias inferiores viajaram para Tel Aviv, em Israel, em uma viagem custeada pela Confederação CONIB e pela StandWithUs, ONG voltada à defesa da comunidade judaica.

A viagem foi revelada pelo jornal O Globo. O próprio ministro também confirmou a ida a Israel ao publicar registros e comentários sobre a viagem em suas redes sociais.

No dia 27 de janeiro, data em que é lembrado o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, Mendonça escreveu em seu perfil oficial no X: “hoje choramos o Holocausto. Os atos da 2ª Guerra foram a banalização do mal. Aqui, em Israel, vi terroristas que mataram pelo prazer de matar; vi o êxtase com o mal. Inacreditável, inaceitável, injustificável e indefensável”.

<><> Prefácio de livro do porta-voz das IDF

Porta-voz das Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês) e advogado especializado em direito internacional, Rafael Rozenszajn lançou neste ano o livro A Guerra de Narrativas.

Nascido no Rio de Janeiro, Rozenszajn viveu metade da juventude no Brasil antes de imigrar para Israel, por volta dos 21 anos. O militar esteve em agosto desse ano em lançamentos do livro no Rio de Janeiro e em São Paulo, a convite do Hillel, organização internacional presente em diversos campi universitários ao redor do mundo, voltada ao fortalecimento da identidade judaica e à promoção da cultura judaica entre estudantes.

O livro tem prefácio do ministro do STF André Mendonça e posfácio de Cláudio Lottenberg, ex-presidente da CONIB.

<><> Flávio anunciou presidente da CONIB como ministro

Cláudio Lottenberg é oftalmologista e além de presidente da CONIB, preside também o Conselho Deliberativo da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein e o Instituto Coalizão Saúde. O nome de Lottenberg foi usado por Flávio já durante a campanha como seu “Posto Ipiranga da pasta da saúde”.

O médico comandou a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, durante a gestão do então prefeito José Serra (PSDB) e integrou o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, durante o governo de Michel Temer (MDB).

Lottenberg também é sócio da Zion MedPharma, empresa que faz produtos com cannabis. A companhia foi criada em parceria com Dirceu Barbano, ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), e tem valor de mercado estimado em R$ 60 milhões.

Jair Bolsonaro já havia cotado Lottenberg para assumir a saúde durante a pandemia, mas acabou optando por Nelson Teich, na época, para o lugar deixado pelo então ministro Luiz Henrique Mandetta. Depois, Lottenberg acabou criticando publicamente o desastre da gestão bolsonarista diante do covid-19. Flávio alega que esse episódio “é passado”.

 

Fonte: Por Gabriel Brito, no Correio da Cidadania/Opera Mundi

 

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