André Mendonça, o cupim do Jair
A atuação do ministro do STF André Mendonça
diante do inquérito do Banco Master e o sigilo sobre atores fundamentais parece
revelar um conluio jurídico, político e midiático que omite uma série de
fatores-chaves:
1) Como ministro da Justiça de Jair
Bolsonaro, Mendonça prevaricou em assuntos como interferência na PF em favor de
Flávio Bolsonaro, pandemia, queimadas e genocídio indígena.
2) Liderou a Abin paralela e arapongagem de
500 servidores que se diziam antifascistas.
3) Em 2023, arquivou o inquérito das
rachadinhas, já como ministro do STF, em favor de Flávio Bolsonaro por suposta
irregularidade na obtenção de provas.
4) Recebeu Vorcaro em agenda particular sem
avisar ninguém. Pegou terno na alfaiataria onde Vorcaro deixou pelo menos R$
500 mil, o que sugere amizade pessoal, conforme áudio revelado.
5) Seu instituto particular tem 55 contratos
com o poder público, 54 deles sem licitação, em locais administrados por
aliados de Jair Bolsonaro. Perguntas: qual a função dessa suposta consultoria?
O que acrescentou para a administração pública? Mendonça disse ter saído da
sociedade, que segue sendo de sua família.
6) André Mendonça julgou ação que envolvia
prefeitura de São Paulo sobre a regulação do serviço funerário privatizado.
Logo depois de dar vitória à gestão de Ricardo Nunes, seu irmão foi nomeado
para a direção da SP Regula. Ricardo Nunes, um prefeito cuja gestão é repleta
de denúncias de corrupção, confeccionou camisas em apoio a Mendonça, exibidas
na manifestação bolsonarista de 7 de Setembro, na Avenida Paulista (aliás, o
conteúdo político deste ato de campanha é outro fator fundamental ignorado pela
mídia de massa).
7) Ainda em SP, de seus aliados Nunes e
Tarcísio, voltamos a Vorcaro. Nunes vendeu a Empresa Municipal de Água e Esgoto
para o grupo Phoenix, do qual Vorcaro era parte e foi formado apenas para
participar deste certame de privatização. A seguir, a EMAE foi revendida para a
Sabesp já privatizada. Vorcaro, que deu R$ 2 milhões para o financiamento de
campanha de Tarcísio, lucrou R$ 160 milhões nesta transação.
8) Ao pedir demissão do Ministério da Justiça
em 2020, Sergio Moro afirmou que exigências de Jair Bolsonaro para impedir a
investigação de seu filho sufocavam qualquer investigação de lavagem de
dinheiro no país. Alguém lembra de alguma operação contra o crime organizado no
período de Jair e sua PF chefiada pelo ministro da Justiça sucessor de Moro,
isto é, André Mendonça?
9) Agora, chegamos ao superfoco em Alexandre
de Moraes. Por que só ele é exposto e pode ir a julgamento, se Mendonça, Nunes
Marques, Toffoli e Fux também têm relações particulares com o ex-banqueiro?
Como não interpretar esse superfoco em Moraes, se não como um golpe eleitoral
para eleger Flávio Bolsonaro?
10) Agora, só agora, Mendonça diz acatar
ordem de Fachin sobre inquérito contra Flávio Bolsonaro e o suspeitíssimo
financiamento do filme Dark Horse, quando o filho de Jair recebeu dezenas de
milhões de reais de Vorcaro em momento no qual o processo de liquidação do
Master já era conhecido pela sociedade. Mas por que não o fez antes? Por que
não houve diligências da PF contra Flavio B., com apreensões de celulares e
materiais chaves, nos meses que separam a revelação dos áudios de Flávio B. e
Vorcaro e esta tardia liberação do inquérito?
11) No mesmo dia desta morosa decisão, veio à
tona revelação de que Flavio Bolsonaro compartilha escritórios com o Careca do
INSS. Por que nos últimos dias Mendonça libertou da prisão três criminosos
identificados nas fraudes do INSS, entre eles o filho do careca, e liberou
outros dois do uso de tornozeleira eletrônica?
12) Aonde estão os celulares de Vorcaro? Por
que não se fala mais do núcleo evangélico identificado na Operação Carbono
Oculto?
13) Como interpretar sua decisão de afastar o
Diretor Geral da Polícia Federal que coordenou a maior operação contra lavagem
de dinheiro na história do país, a partir de uma liminar solicitada pelo
Partido Novo? Como aceitar a acusação de Mendonça, que insiste no afastamento
de Andrei, de ter sido vigiado irregularmente, se possui relações pessoais com
Vorcaro?
14) Por tabela, foram afastados delegados
envolvidos na elucidação do assassinato de Marielle Franco. A intervenção de
Flavio Dino reverteu o ato monocrático. Mas como considerar aceitável um
bolsonarista, cuja passagem pelo Ministério da Justiça não moveu uma palha
nesta direção, tomar tal decisão?
15) O que falta para se pedir diligências e
mandados de segurança contra André Mendonça em relação a tudo que se refira a
Daniel Vorcaro e o Banco Master? Só o Partido Novo pode afastar entes
indesejados de investigações sensíveis à estabilidade política do país?
16) Dito isso, alguém acha razoável supor que
Jair, Mendonça, Flávio e Vorcaro não tenham compartilhado vários momentos
juntos durante o governo do capitão? Então, eles mal sabiam quem era o
banqueiro da moda e maior doador da campanha à reeleição do Jair?
17) Vorcaro tinha políticos e juízes à sua
disposição. Mas o amigo de orgias de Fabio Faria, executivo do SBT casado com
uma das proprietárias da emissora, nunca se interessou em cooptar jornalistas?
18) Lula deu entrevista ao SBT na
quinta-feira. A frase lapidar da entrevista foi: “Daniel Vorcaro virou
banqueiro no governo de Bolsonaro e virou presidiário no meu governo”. O SBT
não divulgou tal frase nas horas seguintes em nenhum de seus canais e não
divulgou este corte em suas redes digitais. Tal manchete, que não escaparia da
lupa de nenhum estudante de primeiro semestre de jornalismo, só foi repercutida
em páginas ligadas à esquerda, cuja audiência é incomparavelmente inferior. Uma
fraude jornalística indiscutível.
19) Não devemos desconfiar da existência de
um trabalho de “agente-duplo”? Isto é, comunicadores de massa fingem denunciar
o megaesquema de corrupção, mas na verdade operam um deslocamento do eixo dos
debates e investigações sobre toda a natureza do escândalo de roubo de dinheiro
público e lavagem de dinheiro (essa operação de confusão informativa foi feita
pela mídia empresarial desde o primeiro minuto da revelação de todo o caso
Master). Em caso de vitória eleitoral de Flávio Bolsonaro, o objetivo seria garantir
uma nulidade generalizada dos processos.
20) Quando lançou sua candidatura, Flávio
Bolsonaro declarou a intenção de subir a rampa do Palácio do Planalto junto de
seu pai golpista de Estado. Cabe aos analistas famosos e bem pagos conjecturar
um pouco sobre o que seria do Brasil daqui a seis meses com Flávio Bolsonaro
eleito. Façam esse favor à democracia, caso se interessem de verdade por esse
sistema político.
PS:
Cármen Lúcia, em 2022: “O que são esses
cupins? O cupim do autoritarismo, o cupim do populismo, o cupim de interesses
pessoais, o cupim da ineficiência administrativa. Tudo isso ajuda a construir
um quadro que faz com que não se tenha o cumprimento objetivo da matéria
constitucional”. Frase dita em contexto de análise pelo STF da política
ambiental e dos altos índices de devastação florestal registrados no governo de
Jair Bolsonaro.
• Advogado
de Vorcaro foi vice-presidente da CONIB, entidade que financiou viagem de André
Mendonça
Em meio às informações que vêm à tona nas
investigações da Polícia Federal sobre a fraude do Banco Master, um nome tem
aparecido pouco, apesar de sua atuação junto ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro,
atualmente preso como cabeça do esquema: se trata do advogado Daniel Leon
Bialski, que passou a integrar a defesa de Vorcaro em agosto de 2026.
Bialski trabalha no caso ao lado do advogado
Sérgio Leonardo. Sua contratação foi noticiada por alguns meios de imprensa
como decisiva para a negociar uma delação premiada do ex-banqueiro.
<><> Atuação na CONIB
Antes de assumir o caso de Vorcaro, Bialski
se destacou a partir de uma posição de destaque na estrutura jurídica da
Confederação Israelita do Brasil (CONIB). A entidade o identifica como advogado
e assessor da presidência e, em diferentes momentos, como integrante de seu
comitê jurídico.
Bialski foi primeiro vice-presidente da CONIB
em novembro de 2020, integrando a chapa liderada por Claudio Lottenberg, tendo
sido reconduzido ao cargo após a reeleição da diretoria no final de 2023 para o
mandato subsequente.
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Processo contra Breno Altman
Uma das atuações mais conhecidas ocorreu no
processo movido pela CONIB contra o jornalista Breno Altman. Em novembro de
2023, a Justiça de São Paulo determinou, em caráter liminar, a retirada de
publicações consideradas racistas, injuriosas e discriminatórias feitas por
Altman.
A ação foi apresentada pela CONIB e contou
com a participação de Bialski, Andrea Vainer, Charles Argelazi e Jairo Haber.
<><> Caso contra políticos e
partidos
A atuação de Bialski junto a entidades
judaicas também aparece em um processo contra o vereador paulistano Adilson
Amadeu (União Brasil).
Em 2023, a Justiça de São Paulo condenou o
parlamentar a dois anos e seis meses de reclusão, em regime inicial aberto, por
crime de racismo, em ação movida pela CONIB e pela Federação Israelita do
Estado de São Paulo (FISESP). O processo envolvia declarações consideradas
antissemitas feitas pelo vereador em um áudio compartilhado pelo WhatsApp.
Em setembro de 2024, a condenação foi
confirmada pela 16ª Câmara Criminal do TJSP. Na ocasião, Bialski representava a
FISESP.
Outra frente de atuação da CONIB com
participação de Bialski envolve representações contra integrantes do Partido da
Causa Operária (PCO) por manifestações apontadas pela entidade como
antissemitas.
<><> Defesa de políticos da
extrema direita
Enquanto atua em ações institucionais da
CONIB contra manifestações consideradas antissemitas, Bialski também construiu
uma carteira de clientes com nomes de grande projeção na política brasileira.
Entre seus clientes destacados está Michelle
Bolsonaro. O advogado já havia trabalhado para Michelle em outros episódios e,
em agosto de 2023, foi contratado para atuar em sua defesa no caso das chamadas
joias sauditas. Bialski deixou a defesa poucos dias depois, mas sua passagem
pelo caso ganhou repercussão nacional.
Bialski também já representou Cláudio Castro
(PL), ex-governador do Rio de Janeiro, além de outros políticos e autoridades.
A lista inclui ainda a deputada federal Carla
Zambelli (PL-SP), o ex-ministro da Educação Milton Ribeiro, o ex-ministro Onyx
Lorenzoni (PP-RS) e o prefeito de Sorocaba, Rodrigo Manga (Republicanos-SP).
Mais recentemente, também atuou para o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes
(MDB).
Outro nome de grande repercussão associado à
trajetória profissional de Bialski é o ex-governador do Rio Sérgio Cabral
(MDB), cuja defesa integrou em determinado momento.
<><> Polêmicas na defesa de
Vorcaro
Poucas semanas depois de assumir o caso,
Bialski protagonizou um dos episódios mais controversos da defesa no caso do
Banco Master: participou da articulação de um depoimento reservado de Vorcaro
ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Na ocasião, o ex-banqueiro fez acusações
contra integrantes da Polícia Federal e relatou supostos maus-tratos durante
sua prisão. O episódio provocou tensão entre integrantes da própria defesa e
reação da Procuradoria-Geral da República (PGR).
<><> Viagem de Mendonça à Israel
paga pela CONIB
Em janeiro de 2024, André Mendonça e outros
seis magistrados de instâncias inferiores viajaram para Tel Aviv, em Israel, em
uma viagem custeada pela Confederação CONIB e pela StandWithUs, ONG voltada à
defesa da comunidade judaica.
A viagem foi revelada pelo jornal O Globo. O
próprio ministro também confirmou a ida a Israel ao publicar registros e
comentários sobre a viagem em suas redes sociais.
No dia 27 de janeiro, data em que é lembrado
o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, Mendonça escreveu em
seu perfil oficial no X: “hoje choramos o Holocausto. Os atos da 2ª Guerra
foram a banalização do mal. Aqui, em Israel, vi terroristas que mataram pelo
prazer de matar; vi o êxtase com o mal. Inacreditável, inaceitável,
injustificável e indefensável”.
<><> Prefácio de livro do
porta-voz das IDF
Porta-voz das Forças de Defesa de Israel
(IDF, na sigla em inglês) e advogado especializado em direito internacional,
Rafael Rozenszajn lançou neste ano o livro A Guerra de Narrativas.
Nascido no Rio de Janeiro, Rozenszajn viveu
metade da juventude no Brasil antes de imigrar para Israel, por volta dos 21
anos. O militar esteve em agosto desse ano em lançamentos do livro no Rio de
Janeiro e em São Paulo, a convite do Hillel, organização internacional presente
em diversos campi universitários ao redor do mundo, voltada ao fortalecimento
da identidade judaica e à promoção da cultura judaica entre estudantes.
O livro tem prefácio do ministro do STF André
Mendonça e posfácio de Cláudio Lottenberg, ex-presidente da CONIB.
<><> Flávio anunciou presidente
da CONIB como ministro
Cláudio Lottenberg é oftalmologista e além de
presidente da CONIB, preside também o Conselho Deliberativo da Sociedade
Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein e o Instituto Coalizão Saúde.
O nome de Lottenberg foi usado por Flávio já durante a campanha como seu “Posto
Ipiranga da pasta da saúde”.
O médico comandou a Secretaria Municipal da
Saúde de São Paulo, durante a gestão do então prefeito José Serra (PSDB) e
integrou o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, durante o governo de
Michel Temer (MDB).
Lottenberg também é sócio da Zion MedPharma,
empresa que faz produtos com cannabis. A companhia foi criada em parceria com
Dirceu Barbano, ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa), e tem valor de mercado estimado em R$ 60 milhões.
Jair Bolsonaro já havia cotado Lottenberg
para assumir a saúde durante a pandemia, mas acabou optando por Nelson Teich,
na época, para o lugar deixado pelo então ministro Luiz Henrique Mandetta.
Depois, Lottenberg acabou criticando publicamente o desastre da gestão
bolsonarista diante do covid-19. Flávio alega que esse episódio “é passado”.
Fonte: Por Gabriel Brito, no Correio da
Cidadania/Opera Mundi

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