Ao justificar impedimento, Kássio confirma
que crise no STF mira as eleições
O ministro Kássio Nunes Marques tentou
explicar por que não participaria do julgamento desta terça-feira (15) no
Supremo Tribunal Federal e acabou dizendo mais do que provavelmente pretendia.
Presidente do Tribunal Superior Eleitoral
(TSE), Kássio declarou-se impedido de julgar o caso envolvendo Alexandre de
Moraes e colocou as eleições no centro de sua justificativa.
“Eu não tenho dúvida de que o julgamento
deste caso pode impactar no cenário político-eleitoral”, afirmou. Em seguida,
explicou que, na condição de presidente do TSE, não se sentia “confortável”
para participar do julgamento e declarou seu impedimento.
Foi uma passada de recibo.
Não porque Kássio tenha concordado com as
acusações feitas contra André Mendonça. Ele não fez isso. Mas porque reconheceu
expressamente a premissa que está no centro da guerra aberta dentro do Supremo:
o caso Master deixou de ser apenas uma investigação criminal e se transformou
também em um problema eleitoral.
A declaração seria relevante em qualquer
circunstância. Torna-se ainda mais reveladora porque foi feita pelo presidente
do TSE justamente durante uma sessão em que Mendonça foi acusado de utilizar
sua posição no Supremo para produzir efeitos políticos em pleno período
eleitoral.
Alexandre de Moraes sustenta que houve
“desvio de finalidade político-eleitoral” na condução do caso. Gilmar Mendes
foi ainda mais direto no plenário e acusou Mendonça de agir com viés
político-eleitoral. Mendonça rejeitou as acusações e negou qualquer atuação
política.
É nesse ambiente que o presidente do TSE
afirma não ter “dúvida” de que o julgamento pode impactar o cenário
político-eleitoral.
Não é pouca coisa.
Kássio não disse que Mendonça tentou
interferir nas eleições. Mas reconheceu que a disputa construída em torno do
caso tem potencial para interferir nelas. A diferença jurídica é enorme.
Politicamente, porém, as duas coisas passaram a ocupar o mesmo terreno.
E existe uma contradição difícil de ignorar.
Se uma das questões colocadas diante do
Supremo é justamente saber se poderes institucionais foram utilizados para
produzir consequências político-eleitorais, por que o presidente do TSE estaria
impedido de examinar o problema exatamente porque ele possui consequências
político-eleitorais?
A justificativa parece ainda mais peculiar
porque a Constituição estabelece deliberadamente uma ligação entre STF e TSE. O
presidente da Justiça Eleitoral é necessariamente um ministro do Supremo. Se
qualquer processo com potencial repercussão eleitoral produzisse
automaticamente impedimento, seria difícil estabelecer onde termina essa regra.
Em ano de eleição, decisões do STF sobre
candidatos, partidos, investigações, autoridades e direitos políticos
frequentemente possuem repercussões eleitorais.
Por que, então, o impacto eleitoral virou
razão para impedimento justamente agora?
Kássio pode considerar prudente seu
afastamento. Mas prudência, desconforto e impedimento são coisas diferentes. E
a palavra escolhida pelo próprio ministro — “confortável” — chama atenção
justamente porque impedimento é uma categoria jurídica objetiva, não uma medida
do conforto pessoal do julgador.
O mais interessante, porém, não está sequer
nessa discussão técnica.
Está no que sua justificativa revela.
Gilmar Mendes enviou durante a sessão um
recado inequívoco a Mendonça. A acusação do decano é de que houve seletividade
na condução do caso: determinadas autoridades foram expostas enquanto
informações envolvendo outras pessoas permaneceram protegidas. Mendonça nega
ter utilizado critérios políticos.
Quando material dessa natureza é divulgado
seletivamente às vésperas de uma eleição presidencial, a discussão deixa de ser
apenas processual.
Ela inevitavelmente se torna política.
E foi exatamente essa dimensão que Kássio
reconheceu.
Há ainda um componente delicado. Kássio e
Mendonça foram os dois ministros indicados ao Supremo por Jair Bolsonaro e
frequentemente convergiram em julgamentos. Isso não permite concluir que a
saída tenha sido uma manobra destinada a proteger Mendonça. Não há elemento
suficiente para fazer essa afirmação.
Mas torna a escolha da justificativa ainda
mais relevante.
Kássio poderia ter alegado uma razão pessoal
para não participar. Poderia ter adotado solução semelhante à de Dias Toffoli,
que declarou suspeição por foro íntimo. Preferiu outra coisa.
Preferiu falar das eleições.
E não falou em possibilidade remota. Disse
não ter “dúvida” de que o julgamento pode impactar o cenário
político-eleitoral.
Foi ele quem escolheu esse argumento.
Ao fazê-lo, transformou uma percepção que
poderia permanecer restrita à análise política em uma declaração pública do
próprio presidente do TSE: a crise instalada dentro do Supremo tem potencial
para alcançar a disputa eleitoral.
Essa talvez seja a principal revelação de sua
fala.
A maior discussão desta crise já não é apenas
sobre quem conversou com Daniel Vorcaro, quem apareceu nas mensagens, quem
deveria ser investigado ou qual ministro deveria conduzir cada processo.
A questão agora é saber até que ponto o caso
Master e a guerra que ele provocou dentro do Supremo estão sendo atravessados
pela eleição presidencial.
Kássio tentou ficar fora dessa discussão.
Para explicar por que sairia, acabou
colocando justamente as eleições no centro dela.
Queria justificar seu impedimento.
Passou recibo do tamanho do problema.
• Kassio
bloqueia Gilmar no WhatsApp após mensagem do decano: ‘Assumam que estão
ferrados’
O ministro Kassio Nunes Marques, do STF
(Supremo Tribunal Federal), bloqueou o ministro Gilmar Mendes no WhatsApp
depois de uma série de mensagens em que o decano cobra que ele “assuma que está
ferrado”.
As conversas, reveladas pelo portal
Metrópoles e confirmadas pela Folha, ocorreram na semana passada. Gilmar também
teve uma discussão pelo aplicativo com o ministro Luiz Fux, de quem cobrou
“postura institucional”.
“Assumam q (sic) estão ferrados e saiam dos
processos. Abram as contas”, escreveu Gilmar, em referência a notícias do caso
Master envolvendo Kevin Marques, filho de Kassio, e Rodrigo Fux, filho de Fux.
O decano defendia que ambos se declarassem suspeitos para a sessão desta
terça-feira (15).
Kassio respondeu: “Me respeite Gilmar. Isso
não é postura”. Gilmar rebateu: “Não julguem porra. Não respeito a quem nao
(sic) se daH (sic) respeito”. Ele disse que o colega também deveria sair da
presidência do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
“Então não me tecle pois não falo com quem
não me respeita”, disse Kassio. Gilmar pediu novamente que ele “abrisse suas
contas” antes de julgar qualquer processo sobre o Master na Segunda Turma.
“Abro com o maior prazer. Há 15 anos que presto contas de tudo.”
Gilmar seguiu dizendo que a família de Kassio
estava envolvida em tramoias. Depois disso, o decano foi bloqueado. Na sessão
desta terça, o presidente do TSE de fato se declarou impedido de julgar os elos
do ex-banqueiro Daniel Vorcaro com o ministro Alexandre de Moraes.
Quanto a Fux, as mensagens de Gilmar tinham
como contexto o julgamento em que a Segunda Turma formou maioria para manter a
ordem de André Mendonça que afastou o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei
Rodrigues, decisão depois revertida pelo ministro Flávio Dino.
O decano, que pediu vista logo que a sessão
virtual abriu, acusa Fux de ter combinado com Kassio a antecipação dos votos,
cerca de sete minutos depois. “Isto revela qq (sic) coisa menos postura
institucional. Espero que nao (sic) se repita”, disse Gilmar.
Fux respondeu que Gilmar poderia dizer
“espero que não se repita” para quem quisesse, mas não para ele. “Ninguém nesse
mundo diz pra mim como agir”, disse ele, desejando em seguida que o colega
tivesse uma boa noite.
“Fux, soh (sic) cuide de atuar como
Presidente da turma”, recomendou Gilmar. A resposta foi: “Bom Dia. Cuide de não
encher meu saco!”.
Fonte: ICL Notícias

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