Como as Big Techs estão moldando serviços
digitais do governo da Nigéria
Em
fevereiro de 2025, representantes de três das empresas de tecnologia mais
poderosas do mundo se reuniram com a Comissão de Proteção de Dados da Nigéria
(NDPC na sigla em inglês). Meta, Microsoft e Google estavam no encontro
para discutir uma colaboração
com o governo nacional. Vincent Olatunji, chefe da comissão, mostrou-se
satisfeito “com a perspectiva de colaborar com gigantes globais da tecnologia”.
Ele destacou a importância da “sinergia entre setor público, privado, grupos da
sociedade civil e academia”.
Na
época, a Meta travava uma disputa com os órgãos reguladores nigerianos sobre a
forma como lidava com os dados pessoais de milhões de pessoas. Em julho de
2024, outro ente regulador do país, a Comissão Federal de Concorrência e
Proteção ao Consumidor (FCCPC, na sigla em inglês), havia multado a Meta e o
WhatsApp em US$ 220 milhões, após uma investigação de 38
meses.
O órgão concluiu que os nigerianos não tinham controle suficiente sobre a forma
como suas informações eram coletadas, compartilhadas e utilizadas.
Em vez
de pagar a multa, a Meta recorreu da decisão
e perdeu.
Posteriormente, a empresa de Mark Zuckerberg ameaçou suspender seus
serviços. Apesar do prazo de 60 dias para o pagamento, que terminou em junho de
2025, a Meta continua operando normalmente enquanto o impasse jurídico
permanece sem solução.
Poucos
dias após a reunião de fevereiro de 2025 com a NDPC ter sido divulgada
publicamente, o próprio órgão também aplicou outra multa de US$ 32,8 milhões à
Meta.
Nos
meses seguintes, porém, a multa de US$ 32,8 milhões foi derrubada. Segundo uma investigação do
Premium Times,
um acordo anulou a penalidade, bem como oito determinações a serem cumpridas
pela Meta, liberando a empresa das obrigações decorrentes do caso. O site
informou que diversas exigências regulatórias específicas foram substituídas
por compromissos mais amplos da Meta de cumprir a legislação nigeriana de
proteção de dados e fortalecer suas medidas de proteção de dados.
Em
seguida, a mesma NDPC anunciou que, “em
colaboração com a Meta”, havia traduzido a Lei de Proteção de Dados da Nigéria
para idiomas locais.
Em maio de 2026, outro órgão do
governo lançou o GovGuide
Nigeria, um bot de inteligência artificial desenvolvido com a
tecnologia da Meta para ajudar os nigerianos a navegar pelos serviços públicos.
O The
Continent perguntou à Meta e a órgãos do governo nigeriano quando
começaram as discussões sobre o GovGuide. Na Nigéria, as empresas não são
obrigadas a registrar reuniões desse tipo em um cadastro. Não existe um
registro público que mostre quais empresas estão procurando autoridades do
governo, o que querem delas ou o que é discutido a portas fechadas.
Por
isso, o The Continent começou a construir esta base de
informações.
Nossa
investigação identificou pelo menos 17 interações documentadas publicamente
entre grandes empresas de tecnologia e o Estado nigeriano desde 2024. Elas
incluem reuniões com o presidente do país, Bola Tinubu, e órgãos reguladores,
além de encontros sobre projetos governamentais de inteligência artificial,
programas de treinamento, financiamento e discussões sobre políticas públicas.
Muitas
dessas interações são contatos corriqueiros entre o governo e empresas que
atuam em um dos maiores mercados digitais da África. Mas outras colocam as
empresas de tecnologia em contato mais próximo com as instituições responsáveis
por decidir como elas devem operar na Nigéria.
O caso
da Meta mostra a responsabilidade dos órgãos reguladores.
A principal preocupação de
diferentes órgãos nigerianos era o fato de que os usuários do WhatsApp não
tinham opções suficientes sobre o que era feito com seus dados. As informações
coletadas sobre as pessoas podem ser usadas para criar perfis de seus interesses
e comportamentos e, entre outras coisas, determinar quais anúncios elas
recebem.
A
Comissão de Concorrência e Proteção ao Consumidor também concluiu que a Meta
compartilhava e transferia informações pessoais de nigerianos sem a devida
autorização e oferecia aos usuários locais menos proteção sobre seus dados do
que aos usuários de alguns outros países.
O
GovGuide levanta questões relacionadas ao mesmo problema. A plataforma
alimentada por inteligência artificial ajuda os nigerianos a encontrar e
compreender informações do governo por meio de texto, voz e WhatsApp, em
inglês, iorubá, hauçá e igbo.
Mas
seu aviso de privacidade informa que a
plataforma pode coletar nomes, dados de contato, endereços, identificadores
emitidos pelo governo, geolocalização, informações sobre o dispositivo e o
endereço IP, além dos comandos enviados pelos usuários ao chatbot, documentos,
imagens, áudios e registros de conversas. Essas informações podem ser
utilizadas para personalizar serviços, realizar análises e pesquisas e
aprimorar o chatbot e os modelos de aprendizado de máquina.
O
advogado especializado em privacidade Olumide Babalola, que atuou como advogado
no caso Odunola Kehinde v. Vesti, uma ação envolvendo
alegadas divulgações não autorizadas de dados, destaca que o caso da NDPC
contra a Meta tratava fundamentalmente da forma como a empresa lidava com os
dados dos nigerianos.
“O
marco regulatório nigeriano de proteção de dados, de modo geral, proíbe o
processamento de dados pessoais, exceto quando existe uma base legal para
isso”, explica Babalola.
“Na
ausência de qualquer documento que estabeleça o contrário, a Meta não tem base
legal para utilizar os dados dos cidadãos de maneira não divulgada. No caso do
GovGuide, o contexto é completamente diferente. Os cidadãos estão interagindo
com o que acreditam ser um serviço governamental, e não uma rede social
pública. A presunção deveria ser de que qualquer processamento de dados ocorre
estritamente com o objetivo de fornecer esse serviço governamental, a menos que
seja obtido consentimento explícito e informado para qualquer outro uso.”
A NDPC
também foi questionada sobre se a colaboração proposta com a Meta, mencionada
no início da reportagem e discutida na reunião de fevereiro de 2025, avançou
enquanto o processo relacionado à privacidade contra a empresa permanecia ativo
e durante seu posterior acordo. Nem os órgãos envolvidos nem a Meta responderam
às perguntas sobre o GovGuide ou sobre a colaboração. Os registros das 17
interações coletados pelo The Continent mostram que as medidas
regulatórias e as discussões sobre colaboração ocorreram no mesmo período, mas
não comprovam que ambas estivessem relacionadas.
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Mais parcerias com Big Techs
Entre
as 17 interações entre Big Techs e o Estado nigeriano identificadas pela
reportagem nos últimos três anos, há registros de financiamentos, treinamentos,
reuniões com autoridades de alto escalão, projetos de tecnologia e relações com
órgãos reguladores.
É
difícil determinar a real dimensão das interações entre o governo, os órgãos
reguladores e as Big Techs devido à falta de registro único sobre as reuniões
oficiais. Muitos dos acordos que sustentam essas parcerias também não são
públicos, deixando apenas um quadro parcial de quão profundamente as Big Techs
se integraram às ambições digitais da Nigéria.
Ali
Sabo, chefe de Direitos Digitais da ONG Centre for Information Technology and
Development (Citad), descreve a relação entre empresas e governo como uma
“influência sutil”.
“Embora
seus projetos possam contribuir para o desenvolvimento nacional, essas empresas
também moldam silenciosamente a maneira como os formuladores de políticas
enxergam a tecnologia e a governança.”
Se não
houver controle, alerta Sabo, as plataformas tecnológicas estrangeiras ameaçam
a independência do governo, levam a uma dependência excessiva de determinados
fornecedores e podem restringir futuras opções de políticas públicas. “As
parcerias precisam ser transparentes, protegidas por salvaguardas claras e
abertas à participação de universidades, organizações da sociedade civil e
desenvolvedores locais de tecnologia.”
Em
outubro de 2024, o governo nigeriano firmou uma parceria com a organização
pan-africana Data Science Nigeria para anunciar uma doação de cerca de 2 milhões
de dólares do
Google para programas nacionais de formação de talentos em inteligência
artificial vinculados ao Ministério Federal das Comunicações, Inovação e
Economia Digital.
Entre
os programas implementados estavam o DeepTech Ready Track, voltado para 20 mil
alunos avançados; o programa Experience AI para professores, que pretendia
alcançar 25 mil professores e 125 mil estudantes; e o Government AI Campus,
para servidores públicos. Esses programas visam familiarizar milhares de
nigerianos com ferramentas específicas, programas de certificação e
ecossistemas de software desde cedo.
Mas,
segundo analistas ouvidos pela reportagem, essas empresas estão, na prática,
garantindo clientes para seus ecossistemas.
Taiwo
Kola-Ogunlade, gerente de comunicação e relações públicas do Google para a
África Ocidental, afirmou que os produtos da empresa utilizam “tecnologia de
ponta no setor” para proteger as informações dos usuários e citou os controles
de privacidade, o registro da empresa junto à NDPC e a nomeação de um
responsável pela proteção de dados. No entanto, ele não informou onde os dados
gerados pelos programas do setor público são armazenados, por quanto tempo são
mantidos ou se podem ser utilizados para aprimorar produtos comerciais de
inteligência artificial.
Em
2025, a Microsoft firmou uma parceria com o Ministério Federal das
Comunicações, Inovação e Economia Digital, a Data Science Nigeria e a Lagos
Business School, localizada na capital nigeriana. As instituições lançaram a AI
National Skills Initiative (AINSI), com o objetivo de capacitar 35 mil pessoas em
inteligência artificial. Os participantes também receberam certificados
vinculados ao programa nacional 3 Million Technical Talent (3MTT). Outra parceria da Microsoft
com a ONG Junior Achievement Nigeria (JA Nigeria) apresentou milhares de jovens
estudantes aos conceitos básicos de inteligência artificial generativa.
Grace,
estudante da Federal University of Technology Akure, participou do programa
Microsoft/JA Nigeria Career Essentials AI e recebeu acesso gratuito ao
Microsoft Copilot e ao LinkedIn Premium. Mais tarde, ela e outros participantes
levaram o programa a estudantes de outro campus. Mas sua experiência também
mostra como a empresa apresenta aos jovens seu ecossistema tecnológico mais
amplo, para além da inteligência artificial.
Questionada
sobre privacidade e acesso aos dados, a Microsoft forneceu números sobre
inscrições, atividades de aprendizagem e certificações. Entretanto, a empresa
não divulgou os acordos comerciais, valores dos contratos, informações sobre
compras públicas ou condições de licenciamento solicitados. Sobre o papel de
seus próprios produtos nos treinamentos, a companhia afirmou: “determinadas
trilhas de treinamento podem incluir tecnologias da Microsoft, quando
pertinentes ao currículo”.
O
analista de tecnologia Eze Hanson considera esses programas uma combinação de
filantropia estratégica e desenvolvimento de força de trabalho, mas alerta para
riscos ocultos. “A incorporação de um conjunto de redes de desenvolvedores,
caminhos de certificação e plataformas de busca de emprego com treinamento em
massa apoiado pelo Estado pode ser percebida como uma forma de criar uma base
cativa de usuários e padronizar a dependência nacional de uma infraestrutura
tecnológica”, explica Hanson.
Essa
preocupação se contrapõe às próprias ambições da Nigéria de conquistar maior
independência digital. O país está tentando assumir mais controle sobre seus
dados e sua infraestrutura digital. Mas faz isso enquanto se torna cada vez
mais dependente das empresas que fornecem dinheiro, treinamento e tecnologia
para essa transformação. Muitos dos acordos que definem essas relações
continuam fora do alcance do público.
“Quando
o governo estabelece parcerias com empresas multinacionais para lidar com dados
e serviços públicos, o público tem o direito de conhecer os termos do acordo”,
afirmou Adekunle Omolabi, ativista da sociedade civil pela transparência.
Por
enquanto, os anúncios são públicos, mas grande parte do que foi acordado nos
bastidores, não.
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A Mão Invisível das Big
Techs
Quando o economista escocês Adam Smith,
conhecido como pai do liberalismo, falou no século 18 sobre “a mão invisível do
mercado”, ele previa que ao buscar seu próprio benefício os indivíduos poderiam
favorecer o conjunto da sociedade. Mas Smith também advertiu que os
comerciantes costumam mancomunar-se e manipular as regras a seu favor e que o
Estado deve evitar monopólios e garantir bens públicos. Hoje está claro que, se
não fiscalizadas, Big Techs e demais empresas atuam como Smith temia: moldam as
leis, cooptam governos e manipulam a opinião pública em benefício próprio.
Diante de avanços legislativos, existe um
setor que tem se destacado nas ações de lobby anti-regulação em todo o mundo:
as Big Techs, um grupo seleto de companhias bilionárias como Meta (dona do
Facebook, WhatsApp e Instagram), Alphabet (dona do Google), Amazon, Microsoft e
Apple – conhecida como as “Big Five” – e outras, como a chinesa ByteDance (dona
do TikTok), a gigante argentina Mercado Livre, e novos players da corrida pela
inteligência artificial, como a OpenAI.
Juntas, as gigantes da tecnologia têm um
impacto maior em todos os aspectos da vida das pessoas do que muitos governos.
No entanto, diferentemente dos governos, cujo objetivo é servir ao público e
que têm de responder a ele, as Big Techs têm como objetivo maximizar lucros e
prestar contas a seus acionistas.
Há poucos dados sobre como elas agem para
influenciar legislações. Hoje, as Big Techs são o setor que mais gasta em lobby
na União Europeia, onde são obrigadas a declarar seus investimentos. Em 2024, o
setor gastou 67 milhões de euros, um aumento de 57% desde 2020. Nos Estados
Unidos – onde também são forçadas a publicizar seu gasto em lobby, elas
gastaram 61 milhões de dólares no mesmo ano, um aumento de 13% em comparação
com 2023. Para abrir portas com a administração Trump, empresas como Amazon,
Meta, Google e Microsoft doaram 1 milhão de dólares cada para o comitê da
cerimônia de posse, e os CEOs se enfileiraram durante o evento.
Pela primeira vez, uma investigação
colaborativa e transfronteiriça conseguiu identificar quase 3 mil ações de
lobby das Big Techs realizadas em parlamentos e governos de todo o mundo, que
podem ser acessadas nesta base de dados interativa. Também registramos
processos judiciais e projetos de lei envolvendo as regras do jogo na indústria
de tecnologia.
Tornar visíveis a “mão invisível” das Big
Techs é uma tarefa que as organizações participantes deste projeto consideram
urgente. Por isso, todas realizam um disclaimer coletivo sobre financiamentos
recebidos de empresas tecnológicas atualmente ou no passado. Veja aqui a lista
completa.
Depois do lançamento, a RSF publicou um
comunicado sobre as revelações:
“Essa investigação inédita, conduzida com
ajuda da RSF, mostra a enorme influência que as grandes corporações de
tecnologia exercem sobre decisões estratégicas que afetam diretamente o futuro
do jornalismo, seja por meio de lobbies contra legislações democráticas ou de
esforços para evitar uma remuneração justa pelo conteúdo jornalístico. O
projeto confirma a necessidade de enfrentar o desequilíbrio de poder que
favorece as grandes plataformas online em detrimento da saúde das sociedades
democráticas. Se legisladores cederem ao lobby das big techs, o futuro do
jornalismo estará ameaçado — assim como o direito dos cidadãos a acessar
informação confiável.” - Artur Romeu, Diretor da RSF América Latina
Fonte: Por Anibe Idajili, Athandiwe Saba, em The
Continent/Agência Pública

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