Capitalismo
contemporâneo tripartite
O
capitalismo atual põe problemas em três campos distintos e imbricados. Trata-se
do campo das mensagens, do campo algorítmico e da Inteligência Artificial e do
campo dos minerais “terras raras”. Visualiza-se assim o âmbito do não-material,
do maquinal e o da terra.
O
âmbito das mensagens delimita o campo mais visível ao público. Também é o lugar
de maior atuação dos políticos. Trata-se da comunicação feita para além do modo
analógico, o modo digital. É o lugar da velocidade da informação com conteúdo.
Nesse campo há o destaque para a Internet, para as plataformas enquanto
empresas capitalistas. TV e rádio, antigos habitantes dessa área, agora já se
submeteram à lógica da internet em tempo real. Também jornais e revistas
fizeram o mesmo.
Trata-se
nesse caso do mundo do conteúdo das mensagens, que preocupa a sociedade por
conta da influência na educação das crianças, na formação do modo de
comportamento de grupos e, enfim, pela evidência de que mensagens em grande
volume e em tempo real podem submeter a democracia não ao poder dos homens com
dinheiro, mas simplesmente ao dinheiro sem homens, o que é bem pior.
Nesse
campo, estabelece-se o rincão em que cada um possui um celular que é seu
escritório, seu posto de trabalho, seu equipamento de lazer e de amor e, na
mesma vibe, sua arma de defesa e ataque. Ninguém se imagina como homem e mulher
sem ser, antes de tudo, um animal com celular. Fluxo de linguagens, dinheiro e
trabalho preenche a conexão mundial entre celulares. Processos de ganho e
fixação de identidades é devedor dessa nova situação.
A
disputa nesse campo é, de modo claro, por informação, o que significa dinheiro
e poder. O dinheiro advém da capacidade das plataformas no sentido de
distribuir mensagens adrede preparadas para determinados públicos, segundo
recolhimento de dados comportamentais. Nisso atua a Inteligência artificial.
Todas
as vezes que a sociedade fala de sua preocupação com a internet, o que está na
jogada é a liberdade ou a censura de jogos eletrônicos e práticas de crimes de
todo tipo. Sabe-se muito bem que as plataformas que possuem conteúdos
sensacionalistas vão ser mais vistas.
O
terreno algorítmico e da Inteligência artificial formam, ele mesmo, um campo
próprio. Claro que a vida algorítmica e a Inteligência artificial estão também
no campo anterior. Desde os anos 1970 acostumamos a ouvir que “o meio é a
mensagem” ou que “o meio é a massagem”. As crianças que aprendem mais palavras
por meio de algoritmos e tela do que com a mãe certamente parecerão bem
estranhas a nós, cujas palavras estão antes de tudo articuladas a sentimentos e
induções corporais.
Recentemente
a sociedade começou a notar que a maquinaria por si só é prejudicial às
crianças. A Meta foi multada nos Estados Unidos por provocar vícios e
disfunções cognitivas nas crianças e jovens.
Mas
aqui, em um âmbito das especificidades de algoritmos e Inteligência artificial,
a função que tais dispositivos desempenham é propiciar ao capitalismo o seu
desiderato, que é a acumulação do capital de maneira mais eficaz. O capital
sonha com a acumulação infinita e com a forma de poder se reproduzir sem passar
pela mercadoria tradicional. A metafisica do capital que ficar na equação D-D’,
e acredita poder prescindir, um dia, da equação D-M-D’.
Atualmente
a acumulação capitalista se dá, antes de tudo, no âmbito das finanças. O mundo
do dinheiro se transformou em um mundo de crédito e dívida, de juros e compra
do futuro das pessoas. As atividades-meio se transformaram em atividades-fins.
Isto é,
as companhias se empenham em pertencer ao mercado inerente às bolsas de
valores, para vender ações e proporcionar dividendos, para vender papeis de
aplicação que são os mais variados possíveis, para tornar coisa comum os
contratos que amarram o tempo futuro. Tudo isso precisa ser feito de maneira
veloz. Máquinas interligadas são o modo pelo qual se faz a circulação de
mercadorias e a circulação de dinheiro tender ao tempo zero. Esse tempo
diminuto é o ideal para a acumulação capitalista.
O
sistema financeiro e a maquinaria internética estão em simbiose. São frutos de
uma mesma dinâmica e foram paridos por condições econômicas, políticas e
tecnológicas que partilham de uma época (muitos dizem, a época do
neoliberalismo). As operações das bolsas, os investimentos e aplicações, tudo
isso não é feito mais por humanos, mas por máquinas. Essas máquinas são
computadores, claro, e se ligam gerando a Internet, e isso produz então
quantias incalculáveis de dinheiro – números que nos fazem não conseguir
dimensioná-los em nossas mentes.
O
próprio dinheiro, não sendo nada mais que um número e um sinal eletromagnético
na tela, facilita todo tipo de trânsito e negócio, atropelando barreiras antes
inexpugnáveis. Ao mesmo tempo, o fetiche do dinheiro domina com mais facilidade
a sociedade. Abre-se a época em que, mais que nunca, o que é morto se faz vivo
e comanda aquilo que é o vivo, mas que se põe agora como morto. Os homens se
tornam efetivamente objetos e o capital com seu modo maquínico se faz sujeito.
A
própria subjetividade dessa época é tomada como maquínica, não por ser
maquinal, mas por unir em fusão o que é humano e o que é máquina. Nunca foi tão
fácil reconhecer o aparecimento de ciborgues por todo lado – nós mesmos. A
noção de subjetividade maquínica, inclusive, nos faz não mais falarmos em
sujeitos, mas em agentes, agentes maquínicos. Falamos mais facilmente não em
ação de sujeitos, mas de agenciamentos.
Cada
época é um espelho da forma de seu dinheiro. Gilles Deleuze escreveu algo nesse
sentido. Quando olhamos nossos dias, sabemos que o dinheiro caminha em fluxo,
que não possui lastro e é completamente fiduciário. Ora, os homens atuais se
movimentam em fluxo, são pagos por meio de fluxos modulados, trabalham segundo
a modulação de fluxos de empenho.
Toda
nossa época é a da modulação. Nada tem começo e fim, mas apenas cursos, fluxos
que são sujeitados às modulações como forma de controle. Ou melhor: agenciados,
e então dão o tipo de controle exercido em nossos tempos. Os fluxos
substancializados pelo dinheiro e pelas informações, são também nutridos pela
exploração das “terras raras”.
O campo
dos metais “terras raras” diz respeito à exploração da terra. Esses minérios
são o que é necessário para todo tipo de tecnologia de ponta dos últimos
tempos. Nesse caso, a própria Inteligência artificial depende dessa exploração.
Aqui, o velho conceito de empresas de mineração se mantém. E as formas
políticas de exploração de minérios se reproduz acoplada a tudo aquilo que as
empresas Big Techs precisam para continuar essa “marcha para o futuro”, “marcha
para o progresso”. As empresas que fazem a mineração de dados se fundem às
empresas que fazem a mineração de minérios.
Os
velhos jargões do século XIX e início do XX se recolocam, e boa parte da
esquerda cai no conto de instalação de Data Centers e de subjugação aos desejos
imperiais das Big Techs e suas acopladas companhias de investimento financeiro,
as Black Rocks da vida. Em nome do “progresso”, uma parte da esquerda cai de
quatro diante da direita e não consegue ver o futuro senão com a tecnologia
abraçando todos nós.
Nessa
hora, sempre surgem aqueles que vão querer nos convencer que máquina é
ferramenta. Então, para falar da tecnologia atual, dão o exemplo de alguma
ferramenta: a faca pode cortar a laranja para podermos comer, mas também pode
matar. Tudo depende da mão do homem. Ora, a máquina que produz máquina e
informação não depende mais da mão do homem. A luta pelos metais “terras raras”
é justamente a luta para trazer esses minérios para a construção de mais
máquinas que produzem máquinas. Mais se avança na distopia do tempo zero.
A
distopia do tempo zero tem um índice: o volume de remédios para dormir e,
enfim, para acordar, chegou a quantidades estratosféricas. As doenças psíquicas
se tornaram uma moda. O aparato da indústria farmacêutica em torno da tentativa
de nos manter úteis e com o humor estabilizado se tornou espetacular. A
indústria dos remédios nunca cresceu tanto.
Esses
quatro campos se interpenetram e se retroalimentam. A mensagem em favor do
progresso que faz a apologia dos serviços das Big Tech e suas coadjuvantes só
funcionam a contento se atuam segundo a lógica algorítmica. Esta, por sua vez,
depende de Data Centers e do modus operandi da vida algorítmica e da vida da
Inteligência artificial. Tudo isso tem uma base material rústica, que são os
metais “terras raras”.
Desse
modo, formam-se conglomerados de perfuração do nosso planeta, que trazem à tona
os minerais necessários. A ecologia jogada às favas pelos Data Center é aqui
descartada de vez.
É
interessante notar que optando por esse modelo tripartite no sentido da
descrição da sociedade atual, se esvai a metáfora de uma base econômica, a
estrutura, que então se acoberta por aparato jurídico-político, a
superestrutura. Os três campos servem diretamente para à acumulação do capital
e, ao mesmo tempo, cada um deles sustenta o funcionamento de campos parceiros
segundo o fenômeno de articulação entre eles.
Se a
esquerda imagina que pode tratá-los separados, não vai fazer a melhor luta.
Fonte:
Por Paulo Ghiraldelli, em A Terra é Redonda

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