sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Capitalismo contemporâneo tripartite

O capitalismo atual põe problemas em três campos distintos e imbricados. Trata-se do campo das mensagens, do campo algorítmico e da Inteligência Artificial e do campo dos minerais “terras raras”. Visualiza-se assim o âmbito do não-material, do maquinal e o da terra.

O âmbito das mensagens delimita o campo mais visível ao público. Também é o lugar de maior atuação dos políticos. Trata-se da comunicação feita para além do modo analógico, o modo digital. É o lugar da velocidade da informação com conteúdo. Nesse campo há o destaque para a Internet, para as plataformas enquanto empresas capitalistas. TV e rádio, antigos habitantes dessa área, agora já se submeteram à lógica da internet em tempo real. Também jornais e revistas fizeram o mesmo.

Trata-se nesse caso do mundo do conteúdo das mensagens, que preocupa a sociedade por conta da influência na educação das crianças, na formação do modo de comportamento de grupos e, enfim, pela evidência de que mensagens em grande volume e em tempo real podem submeter a democracia não ao poder dos homens com dinheiro, mas simplesmente ao dinheiro sem homens, o que é bem pior.

Nesse campo, estabelece-se o rincão em que cada um possui um celular que é seu escritório, seu posto de trabalho, seu equipamento de lazer e de amor e, na mesma vibe, sua arma de defesa e ataque. Ninguém se imagina como homem e mulher sem ser, antes de tudo, um animal com celular. Fluxo de linguagens, dinheiro e trabalho preenche a conexão mundial entre celulares. Processos de ganho e fixação de identidades é devedor dessa nova situação.

A disputa nesse campo é, de modo claro, por informação, o que significa dinheiro e poder. O dinheiro advém da capacidade das plataformas no sentido de distribuir mensagens adrede preparadas para determinados públicos, segundo recolhimento de dados comportamentais. Nisso atua a Inteligência artificial.

Todas as vezes que a sociedade fala de sua preocupação com a internet, o que está na jogada é a liberdade ou a censura de jogos eletrônicos e práticas de crimes de todo tipo. Sabe-se muito bem que as plataformas que possuem conteúdos sensacionalistas vão ser mais vistas.

O terreno algorítmico e da Inteligência artificial formam, ele mesmo, um campo próprio. Claro que a vida algorítmica e a Inteligência artificial estão também no campo anterior. Desde os anos 1970 acostumamos a ouvir que “o meio é a mensagem” ou que “o meio é a massagem”. As crianças que aprendem mais palavras por meio de algoritmos e tela do que com a mãe certamente parecerão bem estranhas a nós, cujas palavras estão antes de tudo articuladas a sentimentos e induções corporais.

Recentemente a sociedade começou a notar que a maquinaria por si só é prejudicial às crianças. A Meta foi multada nos Estados Unidos por provocar vícios e disfunções cognitivas nas crianças e jovens.

Mas aqui, em um âmbito das especificidades de algoritmos e Inteligência artificial, a função que tais dispositivos desempenham é propiciar ao capitalismo o seu desiderato, que é a acumulação do capital de maneira mais eficaz. O capital sonha com a acumulação infinita e com a forma de poder se reproduzir sem passar pela mercadoria tradicional. A metafisica do capital que ficar na equação D-D’, e acredita poder prescindir, um dia, da equação D-M-D’.

Atualmente a acumulação capitalista se dá, antes de tudo, no âmbito das finanças. O mundo do dinheiro se transformou em um mundo de crédito e dívida, de juros e compra do futuro das pessoas. As atividades-meio se transformaram em atividades-fins.

Isto é, as companhias se empenham em pertencer ao mercado inerente às bolsas de valores, para vender ações e proporcionar dividendos, para vender papeis de aplicação que são os mais variados possíveis, para tornar coisa comum os contratos que amarram o tempo futuro. Tudo isso precisa ser feito de maneira veloz. Máquinas interligadas são o modo pelo qual se faz a circulação de mercadorias e a circulação de dinheiro tender ao tempo zero. Esse tempo diminuto é o ideal para a acumulação capitalista.

O sistema financeiro e a maquinaria internética estão em simbiose. São frutos de uma mesma dinâmica e foram paridos por condições econômicas, políticas e tecnológicas que partilham de uma época (muitos dizem, a época do neoliberalismo). As operações das bolsas, os investimentos e aplicações, tudo isso não é feito mais por humanos, mas por máquinas. Essas máquinas são computadores, claro, e se ligam gerando a Internet, e isso produz então quantias incalculáveis de dinheiro – números que nos fazem não conseguir dimensioná-los em nossas mentes.

O próprio dinheiro, não sendo nada mais que um número e um sinal eletromagnético na tela, facilita todo tipo de trânsito e negócio, atropelando barreiras antes inexpugnáveis. Ao mesmo tempo, o fetiche do dinheiro domina com mais facilidade a sociedade. Abre-se a época em que, mais que nunca, o que é morto se faz vivo e comanda aquilo que é o vivo, mas que se põe agora como morto. Os homens se tornam efetivamente objetos e o capital com seu modo maquínico se faz sujeito.

A própria subjetividade dessa época é tomada como maquínica, não por ser maquinal, mas por unir em fusão o que é humano e o que é máquina. Nunca foi tão fácil reconhecer o aparecimento de ciborgues por todo lado – nós mesmos. A noção de subjetividade maquínica, inclusive, nos faz não mais falarmos em sujeitos, mas em agentes, agentes maquínicos. Falamos mais facilmente não em ação de sujeitos, mas de agenciamentos.

Cada época é um espelho da forma de seu dinheiro. Gilles Deleuze escreveu algo nesse sentido. Quando olhamos nossos dias, sabemos que o dinheiro caminha em fluxo, que não possui lastro e é completamente fiduciário. Ora, os homens atuais se movimentam em fluxo, são pagos por meio de fluxos modulados, trabalham segundo a modulação de fluxos de empenho.

Toda nossa época é a da modulação. Nada tem começo e fim, mas apenas cursos, fluxos que são sujeitados às modulações como forma de controle. Ou melhor: agenciados, e então dão o tipo de controle exercido em nossos tempos. Os fluxos substancializados pelo dinheiro e pelas informações, são também nutridos pela exploração das “terras raras”.

O campo dos metais “terras raras” diz respeito à exploração da terra. Esses minérios são o que é necessário para todo tipo de tecnologia de ponta dos últimos tempos. Nesse caso, a própria Inteligência artificial depende dessa exploração. Aqui, o velho conceito de empresas de mineração se mantém. E as formas políticas de exploração de minérios se reproduz acoplada a tudo aquilo que as empresas Big Techs precisam para continuar essa “marcha para o futuro”, “marcha para o progresso”. As empresas que fazem a mineração de dados se fundem às empresas que fazem a mineração de minérios.

Os velhos jargões do século XIX e início do XX se recolocam, e boa parte da esquerda cai no conto de instalação de Data Centers e de subjugação aos desejos imperiais das Big Techs e suas acopladas companhias de investimento financeiro, as Black Rocks da vida. Em nome do “progresso”, uma parte da esquerda cai de quatro diante da direita e não consegue ver o futuro senão com a tecnologia abraçando todos nós.

Nessa hora, sempre surgem aqueles que vão querer nos convencer que máquina é ferramenta. Então, para falar da tecnologia atual, dão o exemplo de alguma ferramenta: a faca pode cortar a laranja para podermos comer, mas também pode matar. Tudo depende da mão do homem. Ora, a máquina que produz máquina e informação não depende mais da mão do homem. A luta pelos metais “terras raras” é justamente a luta para trazer esses minérios para a construção de mais máquinas que produzem máquinas. Mais se avança na distopia do tempo zero.

A distopia do tempo zero tem um índice: o volume de remédios para dormir e, enfim, para acordar, chegou a quantidades estratosféricas. As doenças psíquicas se tornaram uma moda. O aparato da indústria farmacêutica em torno da tentativa de nos manter úteis e com o humor estabilizado se tornou espetacular. A indústria dos remédios nunca cresceu tanto.

Esses quatro campos se interpenetram e se retroalimentam. A mensagem em favor do progresso que faz a apologia dos serviços das Big Tech e suas coadjuvantes só funcionam a contento se atuam segundo a lógica algorítmica. Esta, por sua vez, depende de Data Centers e do modus operandi da vida algorítmica e da vida da Inteligência artificial. Tudo isso tem uma base material rústica, que são os metais “terras raras”.

Desse modo, formam-se conglomerados de perfuração do nosso planeta, que trazem à tona os minerais necessários. A ecologia jogada às favas pelos Data Center é aqui descartada de vez.

É interessante notar que optando por esse modelo tripartite no sentido da descrição da sociedade atual, se esvai a metáfora de uma base econômica, a estrutura, que então se acoberta por aparato jurídico-político, a superestrutura. Os três campos servem diretamente para à acumulação do capital e, ao mesmo tempo, cada um deles sustenta o funcionamento de campos parceiros segundo o fenômeno de articulação entre eles.

Se a esquerda imagina que pode tratá-los separados, não vai fazer a melhor luta.

 

Fonte: Por Paulo Ghiraldelli, em A Terra é Redonda

 

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