Ciência
ainda não foi lembrada na campanha eleitoral, diz SBPC
Enquanto
o cenário político e as denúncias envolvendo o caso Master monopolizam as
atenções em todo o Brasil, os desafios estratégicos que o país enfrentará a
curtíssimo prazo — do envelhecimento populacional à transição energética,
passando pela importância de se tornar capaz de processar os minerais críticos
que abriga em seu subsolo — seguem à margem do debate eleitoral. Para a
presidenta da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC),
Francilene Garcia, os recentes escândalos e as disputas pessoais aprofundam o
esvaziamento das discussões de temas vitais para os rumos nacionais, deixando
em segundo plano itens como ciência, transição energética e a necessidade de se
preparar para cenários adversos, incluindo uma iminente crise sanitária.
Para a
doutora em engenharia elétrica, professora e pesquisadora da Universidade
Federal de Campina Grande (UFCG), que desde 2025 está à frente da mais
importante entidade de promoção e defesa da ciência e tecnologia no Brasil,
eleitores e candidatos parecem ter sido empurrados para uma falsa dicotomia: a
ideia errônea de que é preciso escolher entre passar as instituições a limpo ou
discutir e planejar o futuro do país. “O país acaba sendo obrigado a escolher
entre discutir a integridade das instituições ou o projeto de desenvolvimento,
quando as duas coisas fazem parte de uma mesma agenda”, defendeu Francilene em
entrevista exclusiva à Agência Brasil. Na conversa, ela falou ainda sobre temas
como o envelhecimento da população e o baixo engajamento das candidaturas com o
tema da ciência.
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Leia a íntegra da entrevista:
• Quais temas a SBPC considera
prioritários nestas Eleições Gerais?
Francilene
Garcia: Primeiro, acho fundamental começar dizendo que [com a crise] o país
acaba sendo obrigado a escolher entre discutir a integridade das instituições
ou o projeto de desenvolvimento, quando as duas coisas fazem parte de uma mesma
agenda. Também é importante dizer que a ciência brasileira ainda não entrou
nessa campanha. Justo a ciência, que depende de regras estáveis, orçamento
previsível e atenção – inclusive quando estamos à beira de novas crises
pandêmicas. Isso vem sendo discutido quase que em lacunas, de forma periférica,
porque a agenda [eleitoral] está sendo ocupada por temas que a sociedade não
escolhe. Na nossa visão, há uma lacuna imensa em relação aos temas que
realmente importam. Tanto que lançamos o Observatório das Eleições justamente
para tentar levar mais de uma centena de propostas de políticas públicas que
julgamos importantes para o desenvolvimento do país. Temos tentado engajar as
candidaturas e qualificar os debates em torno de temas como as mudanças
climáticas e seus impactos para as cidades, bem como o risco de novas crises
pandêmicas e o processo de transformação digital. Temas que ainda hoje não
entraram nas campanhas.
• E não entraram devido à dimensão da
atual crise político-institucional e suas repercussões ou porque,
historicamente, a ciência sempre fica à margem dos debates eleitorais?
Francilene:
Historicamente, a ciência fica à margem do debate. Isso mudou um pouco em 2020,
quando enfrentamos o problema da crise sanitária [a pandemia de covid-19]. Ali
começamos a ver um pouco mais de discussão. Depois, em 2024, ocorreram as
enchentes no Rio Grande do Sul; queimadas no Centro-Oeste e seca, escassez
hídrica, em regiões do Norte e Nordeste. Tudo isso fruto do novo regime
climático. Nesses momentos, a temática ganhou peso. Já no atual debate
eleitoral, as temáticas acabam fugindo ao que de fato interessa do ponto de
vista de um projeto de nação. Olhando para os países líderes globais, vemos,
por exemplo, que temas da maior importância, como o aproveitamento das terras
raras, que são fundamentais para toda a indústria do complexo de transformação
digital das sociedades, estão postos nos debates. No Brasil, não, pois tivemos
um esvaziamento não só da participação [dos próprios candidatos] nos debates,
como dos temas relevantes para o futuro do país.
• A estratégia que a SBPC tinha definido e
as ações que vêm realizando para tentar pautar a ciência nos debates eleitorais
foram impactados pela dimensão da atual crise?
Francilene:
Estão sendo. Temos no Observatório das Eleições pouco mais de uma centena de
candidaturas engajadas. Dentre as quais, uma única de âmbito [Executivo]
federal e nenhuma de âmbito estadual. Quer dizer, nenhum candidato a governador
se comprometeu com nossas propostas. Alguns candidatos a deputado federal e ao
Senado vinham se comprometendo, mas isso também perdeu velocidade nos últimos
dias. Então, ao ocupar o centro das atenções em um momento importante como este
das eleições gerais, essa discussão que tomou conta de grande parte da imprensa
e que nos obriga a escolher discutir a integridade das instituições em vez de
um projeto de país, acaba afastando outros temas. Incluindo a própria questão
do financiamento da ciência. A questão é que temos pela frente um curto período
pré-eleitoral ao fim do qual escolhas terão que ser feitas sem que tenhamos
respostas para problemas que afetam a vida de todos. Para não falar que, ao
monopolizar a agenda, esta crise evidencia uma situação muito complicada para
toda a comunidade científica, que é a disputa de versões.
• Mas, considerando a gravidade das
suspeitas e dos fatos que têm vindo a público, que a situação poderia ser
diferente? Há como discutirmos outros temas sem deixar de lado a necessária
fiscalização dos Poderes?
Francilene:
Enquanto entidade científica, não nos cabe fazer julgamento prévio de processos
investigativos em andamento. Tal como, creio eu, não cabe a nenhum indivíduo.
Este, inclusive, foi o tema da nota que a SBPC, a Academia Brasileira de
Ciências e (ABC) e várias entidades científicas tornaram pública na semana
passada. Há de se cumprir o rito processual, garantindo o amplo direito à
defesa. É fundamental entendermos que a integridade das instituições, os
legítimos protocolos definidos na Constituição Federal, precisam ser
respeitados e cumpridos dentro dos prazos legais. Complicado é quando começamos
a ver vazamentos de informações em prol de interesses específicos,
particulares. E quando esses acabam ocupando a centralidade do debate público,
esvaziando a discussão de temáticas importantes.
• Além dos investimentos em educação,
ciência e tecnologia e da regulamentação da exploração das terras raras, quais
outros temas a SBPC vê como centrais para o Brasil?
Francilene:
Uma discussão que já vinha ocupando espaço na mídia diz respeito aos impactos
da crise climática, que já é uma realidade. Temos que continuar discutindo o
impacto do aquecimento para a vida no planeta, especialmente para o Brasil e
para nossos biomas. Estamos todos testemunhando o aumento dos eventos
climáticos extremos. Temos que seguir discutindo e adotando medidas para
[conter] os impactos. Inclusive, no caso brasileiro, para a agroindústria.
Associado a isso, de maneira muito direta, há a questão de novas crises
sanitárias pandêmicas. Sabemos que isso ocorrerá, só não quando. É preciso
discutir como o Brasil, em particular o Sistema Único de Saúde (SUS) está se
preparando para isso. Precisamos melhorar as imunizações. E, para isso, vamos
ter que discutir e rever estratégias, pois sabemos que uma parte da população
nega a importância das vacinas. Além disso, quando olhamos para as
transformações digitais e para os [prováveis] impactos da inteligência
artificial, é preciso nos perguntarmos qual espécie de soberania o Brasil está
construindo para a próxima década. São temas fundamentais que deveriam estar no
centro do debate político eleitoral e ainda não estão. Até porque, como disse
antes, a ciência também ainda não chegou à pauta das discussões entre os
candidatos nessas eleições.
• Por quê? A classe política não está
sabendo avaliar e pautar os temas que importam para o futuro do país?
Francilene:
Provavelmente não. Esta é uma grande preocupação para a comunidade científica.
Por exemplo, lançando um olhar para daqui a pouco mais de dez anos, quando
estaremos próximos de ter mais pessoas acima dos 60 anos de idade do que na
faixa etária produtiva, nos perguntamos que espécie de soberania e autonomia
teremos construído para o Brasil? O país vai voltar a ser um país colônia,
[exclusivamente] exportador de matéria-prima? Será isso que a população quer?
Parte da própria classe política parece nos dar uma demonstração de estar um
pouco alheia aos debates fundamentais para o futuro do país. Tudo isso preocupa
muito a comunidade científica.
Fonte:
Por Alex Rodrigues – Agência Brasil

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