Policiais
candidatos fazem autopromoção no YouTube e podem lucrar com violência e
machismo
Noite
na Marginal Pinheiros, uma das principais artérias de São Paulo: dois jovens
negros são abordados por três policiais militares numa viatura. Motivo? Eles
caminhavam de forma suspeita, segundo a equipe. A abordagem é seguida por
revista, interrogatório e xingamentos por parte dos PMs. “Tu é todo ladrãozão,
né”, comentou um dos policiais.
Nada
ilegal ou suspeito foi identificado na dupla. Mesmo assim, a ação foi exaltada
em um vídeo publicado no YouTube pelo Diretor Elias Junior, candidato a
deputado estadual pelo MDB. “O tamanho do viaduto ficou pequeno quando viram a
ROTA”, diz o título da publicação. Um formato sensacionalista que se repete
entre outros youtubers que disputam as eleições de 2026 e integram a lista dos
que mais monetizaram explorando operações policiais. Alguns dos vídeos contêm
deboche, humilhação e truculência, expondo, além dos próprios policiais,
moradores e suspeitos, sobretudo em regiões periféricas de grandes cidades.
Apuração
exclusiva da Agência Pública, em parceria com a plataforma Zeeng, mostra que um
candidato com muitos seguidores pode ganhar até R$ 8 mil por mês no YouTube com
vídeos sobre operações e abordagens das polícias. O levantamento considerou os
15 candidatos influencers com maior monetização sobre ocorrências policiais em
2026: eles podem ter ganhado até R$ 64,6 mil na soma dos vídeos (entre shorts e
vídeos longos) postados no YouTube de 1º de janeiro a 25 de agosto deste ano.
Os
valores podem ser ainda maiores, pois o levantamento considera o pagamento
estimado por views do YouTube, o que não leva em conta outras redes sociais e
possíveis patrocínios negociados diretamente pelos candidatos, a exemplo de
divulgação de cursos e produtos.
Ao
todo, sete partidos de direita e centro-direita compõem o levantamento:
Podemos, MDB, PP, PL, Avante, União Brasil e Republicanos. Os nomes analisados
possuem vínculo direto com a Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Rodoviária
Federal e Guarda Civil Metropolitana de São Paulo. A exceção é Elias Junior,
que é diretor cinematográfico, mas acompanha operações e explora a estética
policial.
Dos 15
youtubers listados pela reportagem, 14 utilizam ocorrências policiais para
divulgar a própria imagem, a maioria em condutas que não são condizentes com as
normas das Polícias Civil e Militar de São Paulo sobre uso das redes sociais.
Além disso, parlamentares licenciados dos cargos não têm prerrogativa para se
apresentarem como autoridades policiais – e nem usarem distintivo ou
equipamentos da corporação, conforme confirmado pela Secretaria de Segurança
Pública de São Paulo.
POR QUE
ISSO IMPORTA?
As
Polícias costumam ter normas de como seus agentes devem usar as redes sociais –
muitas delas vedam o uso de palavras depreciativas ou de fardas e dispositivos.
Cerca
de 6% de todos os candidatos destas eleições são ligados a forças de segurança.
Partidos
de direita e extrema direita têm defendido medidas inconstitucionais de
endurecimento da punição a crimes.
O líder
na estimativa de arrecadação é o deputado federal e candidato à reeleição,
delegado Palumbo (PODE-SP), que pode ter faturado cerca de R$ 64,6 mil desde o
início do ano, acumulando mais de 26 milhões de visualizações no período
analisado. Mesmo licenciado do cargo de Policial Civil, Palumbo aparece nos
vídeos participando de operações, sobretudo relacionadas ao tráfico de drogas.
Mesmo
licenciado do cargo de Policial Civil, o deputado federal Delegado Palumbo (de
marrom) participa de operações e posta no YouTube – este vídeo foi retirado
após contato da reportagem
Na
maioria das ocorrências, ele caminha ao lado dos agentes, auxilia e até mesmo
protagoniza interrogatórios. Os títulos utilizados nos conteúdos são
majoritariamente chamativos e com palavras fortes. “São duas opções, c4deia ou
caixão – dessa vez ele foi parar na c4deia”, descreve uma publicação de 20 de
julho de 2026, que começa com policiais imobilizando de forma agressiva um
homem na rua. “Não estamos te esculachando não, você está sendo tratado como
tem que ser tratado”, diz um dos agentes. Depois de ter sido procurado pela
reportagem, Palumbo retirou o vídeo do ar, mas não respondeu aos
questionamentos.
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Delegado licenciado usa distintivo e participa de operações
O canal
com maior número de inscritos pertence ao deputado federal delegado Da Cunha
(União-SP), com 3,53 milhões de inscritos, embora tenha ficado em 10º lugar no
ranking de visualizações. Ele publicou 237 vídeos num período de quase oito
meses, podendo ter monetizado cerca de R$ 3,4 mil desde janeiro.
Da
Cunha está licenciado do cargo de delegado da Polícia Civil, mas participa de
operações policiais e se apresenta nas ocorrências como “deputado e delegado”.
Em um dos vídeos, postado em 8 de julho deste ano, ele interrogou um homem
linchado por populares após uma tentativa frustrada de assalto a uma loja de
produtos importados, em Osasco (SP).
Da
Cunha aparece no vídeo atendendo a ocorrência junto à Guarda Municipal de
Osasco. Usando distintivo de delegado, o deputado também foi até o hospital
onde o suspeito ficou internado após o espancamento. Com o homem com a cabeça
enfaixada e deitado numa maca, o parlamentar é filmado dando sermão e ainda faz
propaganda de um projeto de lei de autoria dele e dos deputados Kim Kataguiri
(Missão-SP) e Marcos Pollon (PL-MS): “Sabia que aumentou a pena do 157 [crime
de roubo]? Sabia que a lei é minha? Agora é dez anos a pena mínima. Vai ficar
uma cotinha na cadeia, meu tio. Agradecer à polícia que salvou sua vida né, se
não ‘tava’ com o CPF cancelado já”.
Por
lei, é considerada contravenção um policial civil usar publicamente distintivo
de função que não exerce. Além disso, uma portaria editada em 2020 regulou, em
São Paulo, o uso de redes por policiais civis. A norma proíbe, entre outros
pontos, a publicação de fotos e vídeos com vítimas, suspeitos ou investigados;
veda comportamento que busque “reconhecimento social” ou “promoção pessoal” e
exige “decoro e discrição na linguagem”.
A
Polícia Militar de São Paulo tem norma parecida desde 2021, que proíbe publicar
ou compartilhar qualquer conteúdo que se relacione, direta ou indiretamente,
com a PM, bem como divulgar operações ou investigações.
Ainda
que o servidor esteja licenciado, um órgão de segurança pública pode adotar
medidas administrativas pelo descumprimento de normas institucionais, explicou
o professor de direito eleitoral da Faculdade de Direito de Sorocaba, Pedro
Marques Neto. “Tem regras que evitam o uso de fardas, por exemplo, mas muitas
vezes elas não são aplicadas”.
No
Brasil, quase 30% dos órgãos de polícia não têm norma específica para o uso de
redes sociais por parte dos agentes, conforme levantamento do Instituto Sou da
Paz. Para a entidade, é preciso garantir a liberdade de expressão, “mas também
vedar o uso da autoridade policial para autopromoção e engajamento político”.
O
problema é que as normativas em geral não estabelecem o setor responsável e as
formas de fiscalização dos agentes no ambiente virtual, frisou a
diretora-executiva do instituto, Carolina Ricardo. “Falta em algumas normativas
ter um fluxo claro de quem é o dono disso dentro das instituições, da função de
fiscalizar. E isso torna muito mais difusa a implementação [das normas]”,
comentou.
Procurada,
a Secretaria de Segurança Pública (SSP) de São Paulo informou que o parlamentar
licenciado por conta do mandato não tem a prerrogativa para usar distintivo e
nem se apresentar como autoridade policial. “Não há, portanto, autorização para
ações como as descritas pela reportagem”, disse, em nota, quando questionada
sobre parlamentares licenciados e também sobre o caso do Elias Junior, que não
é policial.
Sobre o
uso de redes sociais, a Secretaria reforçou que portarias das Polícias Civil e
Militar proíbem a criação de perfil vinculado ao trabalho policial, bem como a
publicação de fotos e vídeos com vítimas, e que não compactua com desvios de
conduta. “Casos identificados são apurados pelas corregedorias das corporações,
mediante procedimento próprio, podendo resultar em medidas administrativas,
disciplinares, civis e criminais”, diz a nota. A SSP, no entanto, não confirmou
se os casos enviados pela reportagem serão apurados.
A
Pública procurou também todos os 15 candidatos do levantamento. A Capitã
Rebeca, em 12º lugar no ranking, respondeu que não monetiza com os vídeos.
Porém, não comentou sobre os objetivos do canal e nem como se posiciona sobre
as críticas de espetacularização da violência.
O
Coronel Telhada, 14º no ranking, disse que nenhuma das suas redes sociais ganha
dinheiro com monetização. “O YouTube com frequência manda mensagem para
monetizarmos, mas nunca concordamos e nem aceitamos, nunca fizemos inscrição no
programa de monetização de nenhuma rede social e nem faremos”, afirmou em nota.
O
deputado federal Sargento Fahur e candidato à reeleição, disse que a gestão do
seu canal é feita por uma empresa. “Os valores obtidos com monetização não são
suficientes sequer para custear integralmente a operação”, afirmou, pois há
custos com funcionários, edição de vídeos, aluguel de espaço e compra de
equipamentos. “Não se trata de autopromoção, mas de divulgar aquilo que penso”,
conclui nota enviada pelo policial militar reformado que está na 6ª posição no
ranking.
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Distintivo confiscado – e devolvido
Em
julho de 2021, Da Cunha chegou a ter o distintivo e a arma confiscados após a
abertura de uma sindicância contra ele por ter simulado operações policiais. Os
objetos foram devolvidos em 2023, numa decisão do delegado-geral da Polícia
Civil de SP, Artur José Dian. À época, a Secretaria de Segurança Pública de São
Paulo (SSP-SP) informou que a competência sobre o processo era exclusiva da
Polícia Civil e que não iria se manifestar sobre o tema.
Os
processos administrativos foram abertos após o deputado virar réu na Justiça
por abuso de autoridade e constrangimento ilegal. Em julho de 2020, ele teria
constrangido uma vítima de sequestro e o próprio sequestrador a simularem um
resgate para que a cena pudesse ser gravada e repercutida nas redes sociais.
Ele também é alvo da Justiça, após denúncia do Ministério Público, por
violência doméstica contra a ex-companheira, em outubro de 2023. Ela acusou o
parlamentar de ameaça de morte, lesão corporal, dano material e de bater sua
cabeça contra a parede, além de tentar sufocá-la em um apartamento em Santos.
Em 3 de
setembro deste ano, o processo por abuso de autoridade teve mais uma
reviravolta: o anúncio da demissão de Da Cunha do cargo de delegado por parte
do Governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), atendendo a uma
recomendação feita pela Polícia Civil em 2022. No mesmo dia em que a demissão
foi anunciada, no entanto, a Justiça de São Paulo concedeu uma liminar, a
pedido do deputado, impedindo que a decisão fosse formalizada.
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Monetizando a estética policial
Com 1,3
milhão de inscritos, o canal do Diretor Elias Junior teria arrecadado, em
média, mais de R$ 40,8 mil na monetização dos vídeos só este ano. Na página
inicial do perfil no YouTube, ele aparece com um colete à prova de balas marrom
e uma roupa camuflada, nas características da farda do Exército brasileiro. Em
alguns dos vídeos, ele usa boina e uniforme semelhantes aos usados pela PM de
São Paulo.
Em
vídeo postado neste ano, Elias Junior participa de operação policial usando o
que aparenta ser uma boina da ROTA – mas ele não tem ligação formal com a
instituição
Elias
Junior vai às ocorrências dentro das viaturas, usa o discurso punitivista e
expõe as abordagens policiais, ainda que nenhum crime tenha sido identificado.
Entre outros formatos, os títulos sensacionalistas criticam o sistema legal
brasileiro. Um deles foi intitulado “Mulher bandida teve o benefício da mãe
cárcere”. No vídeo, publicado em 16 de junho de 2026, ele conversa com uma
mulher que cumpria pena por tráfico de drogas em casa por conta de um benefício
legal concedido a mães de crianças com menos de 12 anos.
Em
outra publicação, em 23 de junho de 2026, o candidato acompanha o patrulhamento
realizado por dois tenentes da Polícia Militar que decidem abordar dois homens
que estariam andando com um “jeito malandro”, na Zona Leste de São Paulo. Os
homens eram dependentes químicos e foram interrogados pelos militares sobre o
consumo de drogas e crimes que teriam cometido; posteriormente, foram
liberados. Mas o vídeo foi postado.
O
diretor Elias Junior não respondeu aos questionamentos da Pública. A Polícia
Militar não comentou o caso.
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O tribunal midiático e o ‘policial herói’
Jurisprudências
do Tribunal Superior do Trabalho (TST) reconhecem o vínculo de integrantes da
segurança pública com a iniciativa privada, desde que compatíveis com os
horários e não conflitantes com a função exercida. O famoso “bico” de segurança
particular, por exemplo, é proibido.
Em
relação à figura do “policial youtuber”, há regras institucionais que deveriam
limitar a atuação dos servidores na internet. Em São Paulo, por exemplo, é
vedado o uso de qualquer elemento que se remeta à corporação em perfis
pessoais, com exceção de solenidades, formaturas e eventos excepcionais. O que
acontece na prática, no entanto, é a teatralização da atividade do agente de
segurança, com discursos violentos que tendem a construir a imagem de “policial
herói”, assim como na maioria dos programas policiais — explicou o pesquisador
Dannilo Duarte, autor do livro Jornalismo Policial na Televisão Brasileira:
Gênero e Modo de Endereçamento.
O autor
destaca que a internet amplificou a exploração audiovisual das operações,
principalmente em ações envolvendo populações mais vulneráveis. “Há um
posicionamento de quem é a vítima e de quem vai ser o bandido. Recorrentemente
esse bandido vai ser preto ou pardo, vai estar em regiões periféricas. Se
constrói uma ideia de que está sempre vinculado ao tráfico e que são pessoas
com o estereótipo do malandro, do espertalhão, que não cumpre as leis”.
Além
disso, esse tipo de abordagem, conforme o autor, alimenta a ideia de
“justiceiro” que, em meio a estímulos à violência e descredibilização do
sistema judiciário, faz “justiça com as próprias mãos”, a exemplo do
assassinato de Claudio Rafael Landeiro, em 12 de agosto, em Copacabana, Zona
Sul do Rio de Janeiro. A vítima tinha 37 anos e foi espancada até a morte por
cinco homens após ser acusada injustamente de roubar uma bicicleta.
“É um
comportamento de certa forma estimulado, o ‘bandido bom é bandido morto’. Mas
você não verá isso acontecer num condomínio de classe média, mesmo que o
infrator tenha cometido uma infração grave. Jovens brancos de classe média,
média alta, não são espancados na praia ou nos becos. A integridade física não
é respeitada. Há um lixamento virtual e físico”, pontuou Duarte.
O
policial rodoviário federal, Breno Faria, também candidato, não explora a
estética policial, mas tem canal em que ataca leis de combate à violência
contra a mulher
Dos 15
perfis analisados, há uma exceção para a estética policial. Trata-se do
policial rodoviário federal, Breno Faria, candidato a deputado federal pelo PL
no Rio de Janeiro. Dono do canal Café com teu Pai, perfil também popularizado
no Instagram, ele aproveita o espaço na internet para a defesa de ideias
misóginas e ataques a leis de combate à violência contra a mulher. Em um dos
vídeos, afirma: “as leis feministas não protegeram a mulher em nada” e defende
o “aconselhamento familiar” como mais eficiente do que a atual legislação.
Numa
outra publicação, Breno Faria faz comentários pejorativos sobre as roupas da
deputada Erika Hilton (PSOL-SP). “Mulher trans negra ou patricinha de Beverly
Hills?”, publicou em 15 de junho. Estima-se que Faria tenha monetizado em torno
de R$ 3,8 mil só no YouTube desde janeiro, somando mais de 1,9 milhão de
visualizações em 401 vídeos.
Fonte:
Por Dyepeson Martins, em Agencia Pública

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