sábado, 19 de setembro de 2026

Clima extremo afeta o bolso do consumidor no mundo

Os últimos 11 anos foram os mais quentes já registrados no planeta. Essa mudança climática se manifesta em eventos extremos, como ondas de calor e incêndios florestais. Mas menos evidentes são os preços mais altos e os salários menores associados a um mundo cada vez mais quente.

Segundo um estudo de 2026 da MIT Sloan School of Management e da UCLA School of Law, as mudanças climáticas já elevaram as despesas médias das famílias americanas em 900 dólares (cerca de R$ 4,6 mil) por ano, chegando a mais de 1,3 mil dólares em um de cada dez condados dos Estados Unidos.

Esses custos não existiriam em um mundo sem mudanças climáticas. Eles incluem o aumento dos seguros residenciais (em média 600 dólares mais caros), a elevação de impostos estaduais e federais devido aos custos de recuperação de desastres ou aos impactos da fumaça dos incêndios florestais sobre a saúde, por exemplo.

"A inação climática não é apenas um fracasso ambiental; ela funciona como um imposto sobre todas as famílias americanas", escreveram os pesquisadores.

<><> Como as mudanças climáticas afetam a renda

Um relatório de 2024 do Instituto Potsdam para Pesquisa sobre Impactos Climáticos, na Alemanha, estimou que os danos das mudanças climáticas à agricultura, à infraestrutura e à saúde, bem como as perdas de produtividade, podem custar à economia mundial 38 trilhões de dólares por ano até 2050.

Mas de que forma os eventos climáticos extremos impulsionados pelas mudanças do clima já afetaram salários e orçamentos familiares?

"Se não conseguirmos descobrir quanto as mudanças climáticas já estão nos custando com os dados que temos, projetar o futuro se torna quase impossível", afirmou Derek Lemoine, professor de economia da Universidade do Arizona, que estimou uma redução de 12% na renda dos americanos à medida que as temperaturas globais aumentaram. A comparação é feita com um cenário sem mudanças climáticas.

Lemoine mostra como extremos de temperatura em um condado dos Estados Unidos estão provocando impactos econômicos em cascata em localidades distantes com clima mais ameno, devido à interconexão do comércio e das cadeias de suprimentos.

"Muitos estudos analisam as mudanças climáticas como se elas alterassem o clima em apenas um ano e em um único lugar por vez", disse Lemoine à DW.

Em vez disso, ele busca entender como, se uma onda de calor destruir plantações de milho em todo o território americano, outras indústrias que dependem desse milho, incluindo produtores de gado e de alimentos, serão afetadas à medida que a commodity se tornar mais escassa e mais cara.

"À medida que os custos [dos produtores afetados em toda a cadeia de suprimentos do milho] aumentam", disse Lemoine, "isso fará com que a renda de todos os que dependem deles diminua".

Os impactos do clima sobre o comércio também já são sentidos na Alemanha, onde os níveis recordes de baixa do rio Reno, a via navegável interior mais movimentada da Europa, podem reduzir em até 0,2% a produção econômica alemã no terceiro trimestre de 2026, observou o Instituto Kiel para a Economia Mundial em julho.

O clima seco prolongado associado às mudanças climáticas é o responsável, já que a capacidade de transporte caiu para apenas 15% em alguns trechos do rio que conecta o maior porto da Europa, em Roterdã, na Holanda, a grande parte do oeste da Alemanha.

<><> Pressão sobre problemas econômicos já existentes

Um estudo australiano também analisa como mudanças climáticas amplas, e não apenas choques locais provocados por eventos extremos isolados, levaram gradualmente à queda da produtividade e da produção econômica.

Timothy Neal, pesquisador do Instituto para Risco e Resposta Climática da Universidade de New South Wales, na Austrália, foi coautor de um relatório que mostra que o aquecimento global reduziu a produção econômica do estado de NSW em cerca de 18% em média, o equivalente a 21.288 dólares australianos (cerca de R$ 80 mil) por pessoa em 2024.

"Os danos já foram bastante severos", disse Neal à DW, acrescentando que, em um cenário sem aquecimento global, os cidadãos teriam "preços mais baixos para os alimentos" e "menos pobreza".

O relatório menciona secas em partes de NSW em meados e no final da década de 2010 que reduziram a produtividade em todo o estado em até 10 bilhões de dólares australianos, devido à queda das colheitas e da renda agrícola, ao aumento dos custos da água e à maior dependência de assistência governamental.

Esses impactos financeiros se acumularam ao longo do tempo em toda a economia do estado, influenciando os custos de alimentos, seguros e manutenção de infraestrutura.

Nas palavras do relatório, esses efeitos também "agravam pressões econômicas já existentes e contribuem para ampliar as disparidades entre regiões", o que significa aumento da desigualdade de renda e riqueza.

<><> A adaptação climática pode limitar os custos?

"A ação climática não deve ser vista apenas como uma questão ambiental, mas também como uma decisão economicamente sensata", afirmou Frank Jotzo, economista e comissário da Comissão Net Zero de NSW, que trabalha para descarbonizar o estado e encomendou o estudo citado acima.

Ao se referir a "investimentos defensivos contra as mudanças climáticas", como o reforço de estradas, ferrovias e infraestrutura de transporte marítimo para adaptação a um mundo mais quente, Jotzo acrescentou que "se não fosse pelas mudanças climáticas, poderíamos estar investindo esse dinheiro e esse esforço em outras coisas".

No entanto, medidas de adaptação, como a ampliação das áreas verdes nas cidades para reduzir os efeitos das ilhas de calor, serão fundamentais para evitar impactos econômicos muito mais severos no futuro.

As ondas de calor europeias de 2026, por exemplo, já custaram cerca de 180 bilhões de euros (R$ 1,06 trilhão), valor equivalente a todo o crescimento econômico projetado para a União Europeia neste ano, segundo uma análise.

A adaptação também envolverá o fortalecimento do sistemas de saúde e da rede hospitalar para enfrentar os efeitos das ondas de calor, que reduzem a produtividade à medida que trabalhadores submetidos ao estresse térmico se cansam mais rapidamente ou têm dificuldade para dormir, observou Jotzo.

Mas Lemoine afirma que a adaptação ao declínio econômico provocado pelas mudanças climáticas é tão "cara por si só" que pode agravar a perda de renda e ser ineficaz se não for implementada de forma abrangente.

Somente quando "todos os lugares" estiverem protegidos dos eventos climáticos extremos, será possível enfrentar os impactos econômicos em cascata, diz ele.

Ainda assim, tanto a adaptação quanto uma rápida redução das emissões que aquecem o planeta são necessárias para evitar perdas de renda impulsionadas pelas mudanças climáticas, que tendem a se agravar se o aquecimento global ultrapassar as metas estabelecidas pelo Acordo de Paris.

"Mudanças climáticas sem controle criariam um peso permanente sobre os salários e a produtividade", concluiu Jotzo.

¨      Vazamentos de petróleo ameaçam ecossistemas em Ormuz

Uma mancha azul-escura em contraste com o restante do mar, um traço sinuoso de branco-prateado ou um brilho metálico refletido na superfície. Esses são alguns dos sinais que indicam, em imagens de satélite, possíveis vazamentos de petróleo no oceano.

Com base nesses e em outros indícios visuais observados no Estreito de Ormuz, especialistas afirmam que uma crise ambiental está em curso na região, em meio ao conflito entre Estados Unidos e Irã. Navios petroleiros têm sido atingidos por mísseis, incendiados ou afundados.

Um dos casos ocorreu em junho, quando um petroleiro russo que transportava cerca de 800 mil barris de petróleo ficou à deriva próximo à costa de Omã, provocando um grande derramamento.

Especialistas alertam, porém, que outros episódios podem ter passado despercebidos. A manipulação de sinais de GPS na região tem levado embarcações a transmitir posições falsas, dificultando o monitoramento. Nesta semana, o Greenpeace classificou a situação como uma "catástrofe ecológica" e identificou diversas manchas de óleo avançando sobre ecossistemas frágeis e áreas protegidas.

"As pessoas deveriam estar preocupadas", afirmou Nina Noelle, especialista do Greenpeace em resposta a desastres ambientais, à DW. Segundo ela, o conflito tem causado um impacto "muito, muito severo" ao meio ambiente, em uma escala crescente.

<><> Onde o petróleo está se espalhando?

No início da semana, o Greenpeace identificou cinco grandes manchas de petróleo no Estreito de Ormuz, cobrindo uma área visível total de 240 quilômetros quadrados, o equivalente a cerca de quatro vezes o tamanho da ilha de Manhattan, em Nova York.

Imagens de satélite mais recentes indicam que essas manchas encolheram para aproximadamente 80 quilômetros quadrados, possivelmente em razão das condições meteorológicas que favoreceram sua dispersão.

Isso não significa, no entanto, que os danos ambientais tenham diminuído, ressalta Noelle.

"O petróleo também pode afundar e se acumular nos sedimentos, afetando os ecossistemas por muitos anos", disse.

A localização dos vazamentos preocupa ambientalistas. Uma das manchas foi identificada próxima ao Parque Nacional de Musandam, em Omã, área protegida que abriga recifes de coral, rica vida marinha e importantes locais de reprodução de aves.

Outra foi detectada perto do delta do rio Minab, no Irã, onde há extensas áreas de manguezais e planícies lodosas protegidas. A recuperação desses ecossistemas pode levar décadas.

<><> Um cenário ainda difícil de medir

A extensão real dos derramamentos e a gravidade dos danos ainda são incertas.

"O que divulgamos é uma estimativa conservadora", afirmou Noelle. "A situação pode ser pior. Certamente não é melhor."

O Greenpeace e outras organizações ambientais utilizam imagens produzidas pelos satélites Sentinel-1 e Sentinel-2, integrantes do programa europeu de observação da Terra Copernicus e disponíveis ao público.

Empresas privadas, como a Planet Labs, operam satélites capazes de gerar imagens de resolução mais alta. No entanto, elas restringiram o acesso a parte dos registros durante o conflito para evitar o uso das informações em operações militares.

Também faltam informações produzidas localmente. "Não temos muitos relatos vindos do próprio país, tanto do Irã quanto dos Estados do Golfo", afirmou à DW Wim Zwijnenburg, pesquisador ambiental especializado em fontes abertas da organização holandesa de paz Pax.

Segundo ele, há restrições significativas à divulgação de imagens que mostrem o que está ocorrendo nas áreas costeiras.

<><> Impactos sobre a fauna e a população

O petróleo que se espalha pelas águas do Golfo representa riscos para a biodiversidade e para as populações humanas.

As aves marinhas estão entre as mais vulneráveis. O óleo adere às penas, reduz a impermeabilidade natural e a capacidade de flutuação, dificultando o voo, a busca por alimento e a sobrevivência. Mesmo pequenas quantidades podem afetar ovos, impedindo a eclosão ou provocando deformidades.

"Os manguezais possuem raízes aéreas, e o petróleo as recobre como uma película, dificultando as trocas gasosas", explicou Noelle. "Eles acabam sufocados. Na maioria dos casos, isso leva à morte das árvores."

Também as comunidades costeiras são afetadas. Muitas dependem da pesca para subsistência, e os peixes podem morrer após a exposição ao petróleo. Além disso, os derramamentos ameaçam a qualidade da água utilizada para abastecimento.

Nos países do Golfo, a dessalinização é fundamental para o fornecimento de água potável. O processo responde por cerca de 90% da água consumida no Kuwait, 86% em Omã e 70% na Arábia Saudita.

<><> Limpeza enfrenta obstáculos

"É pouco provável que a situação seja resolvida rapidamente por causa da guerra", disse Zwijnenburg. "Conflitos tornam muito difícil responder com rapidez a emergências desse tipo. Há restrições ligadas à movimentação militar e à presença de minas, o que dificulta o envio de embarcações e o início das operações de contenção."

Organizações ambientais apontam que o aumento dos vazamentos associados ao conflito reforça a necessidade de reduzir a dependência global dos combustíveis fósseis.

"A forma mais sustentável de prevenir danos de longo prazo seria reduzir e, em última instância, eliminar nossa dependência de petróleo e gás", afirmou Noelle. "Enquanto os sistemas de energia e as rotas de transporte continuarem centrados nos combustíveis fósseis, esses riscos ambientais permanecerão."

¨      Poluição do ar é associada ao risco de suicídio

A exposição a poluentes atmosféricos, especialmente partículas finas (PM2,5 e PM10) e dióxido de nitrogênio (NO2), está associada a um aumento significativo da ocorrência de pensamentos suicidas e risco de morte, afirma um estudo publicado nesta quarta-feira (16/09) no Journal of Epidemiology & Community Health.

Os resultados, desenvolvidos pelo Centro de Saúde Pública da Universidade Queen's de Belfast, na Irlanda do Norte, indicam que a poluição deve ser tratada como um fator de risco direto nas estratégias de prevenção.

Por isso, os autores recomendam integrar o planejamento urbano e a proteção ambiental como ferramentas de saúde pública, ante um problema que causa mais de 720 mil mortes por ano em todo o mundo.

<><> Uma relação pouco estudada

O impacto da poluição ambiental em transtornos como depressão ou ansiedade já foi amplamente documentado, mas seu efeito sobre os comportamentos suicidas é menos conhecido.

Para avaliá-lo, os pesquisadores analisaram 45 estudos globais publicados entre 2010 e 2024, examinando o impacto da poluição do ar, do ruído, da luz e da água.

A meta-análise revelou vínculos claros tanto no curto quanto no longo prazo. A exposição a partículas finas PM2,5 e PM10 durante menos de seis meses foi relacionada de forma "estatisticamente significativa" a um maior risco de tentativas de suicídio ou pensamentos suicidas.

Já a exposição por mais de seis meses a PM2,5 e NO2 mostrou uma associação direta com o aumento das mortes por suicídio. A revisão também encontrou indícios relacionados a outros poluentes atmosféricos, como ozônio (O3), monóxido de carbono (CO) e dióxido de enxofre (SO2), e à poluição sonora.

<><> O impacto no cérebro

Os pesquisadores explicam que os poluentes do ar e os metais presentes na água provocam inflamação crônica e danos neurológicos, alterando o funcionamento do cérebro, reduzindo a capacidade de resistência ao estresse e afetando o humor.

No caso do ruído ambiental, como o tráfego noturno ou ferroviário, a exposição contínua gera estresse crônico e desregula o relógio biológico.

<><> Políticas de saúde ambiental

Apesar das limitações decorrentes do número reduzido de estudos sobre o tema, os autores destacam a urgência e a "importância crucial de reconhecer as exposições ambientais como fatores de risco modificáveis nos esforços de prevenção do suicídio".

A integração da saúde ambiental às políticas de saúde mental "poderia desempenhar um papel vital na redução do risco de suicídio e na melhoria do bem-estar geral da população", concluem os autores.

 

Fonte: Por Stuart Braun, em DW Brasil

 

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