sábado, 19 de setembro de 2026

Alvo de operação sobre PCC viabilizou contrato milionário de ONG ligada a Dark Horse

Milton Leite, alvo da operação deflagrada nesta quinta-feira (17) contra a infiltração do PCC no transporte público de São Paulo, ajudou a viabilizar em 2018 um contrato de R$ 2,5 milhões entre a Prefeitura e o Instituto Conhecer Brasil (ICB), entidade comandada por Karina Gama, produtora do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro.

Leite, então vereador, destinou R$ 500 mil em emenda para o projeto. Documentos da Prefeitura mostram que os recursos dele e de outros três parlamentares foram a origem do dinheiro destinado à parceria e permitiram que o município contratasse diretamente o ICB, sem realizar chamamento público.

O dinheiro bancou o Encontro Literário IDE, evento de literatura cristã realizado no Anhembi, em São Paulo, em setembro de 2018. O projeto previa uma programação voltada à promoção da leitura e da literatura, com palestras, debates, apresentações e atividades culturais, além da estrutura necessária para a realização do encontro. Na prática, o ICB recebeu os R$ 2,5 milhões para organizar e executar o evento.

A existência da emenda de Milton Leite para o instituto foi revelada pelo Intercept em dezembro de 2025. O cruzamento feito agora pelo ICL Notícias ganha relevância após Leite se tornar alvo da Operação Vectura Corrupta e mostra o papel concreto das emendas na contratação da entidade comandada por Karina.

Além dos R$ 500 mil indicados por Leite, o evento recebeu R$ 1,33 milhão de Souza Santos, R$ 400 mil de Atílio Francisco e R$ 270 mil de Noemi Nonato. Somadas, as quatro emendas chegaram aos R$ 2,5 milhões destinados ao projeto.

Karina já estava à frente do ICB e foi quem assinou o contrato. Anos depois, ela fundaria a Go Up Entertainment, produtora de Dark Horse. O instituto também passou a receber contratos e emendas de valores muito superiores, entre eles o projeto de Wi-Fi gratuito da Prefeitura de São Paulo, atualmente investigado pela Polícia Civil e incorporado às apurações relacionadas ao filme.

O episódio não é o único ponto em que suspeitas envolvendo o PCC aparecem no entorno dos negócios hoje investigados de Karina. Anos depois, o ICB contratou por R$ 12 milhões a Favela Conectada, então pertencente a Alex Leandro Bispo dos Santos, apontado por órgãos de inteligência como possível integrante da facção.

Alex foi citado pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), ao tratar da possível conexão entre a investigação sobre Dark Horse e o inquérito paulista envolvendo o contrato do WiFi Livre SP. Dino afirmou haver indícios de “um só sistema delitivo” e mencionou “atos interligados até com a facção criminosa PCC”.

Documentos analisados anteriormente pelo ICL Notícias mostraram que os repasses do ICB à Favela Conectada chegaram a R$ 7,68 milhões. Em um dos episódios, a empresa recebeu R$ 2 milhões em um ciclo no qual seu próprio relatório registrava zero novos pontos de Wi-Fi instalados.

Não há, até o momento, evidência de relação entre Milton Leite e Alex Bispo ou de que os dois episódios envolvendo suspeitas sobre o PCC façam parte do mesmo esquema. O que os documentos mostram são duas conexões distintas envolvendo personagens ou empresas que passaram pela órbita do ICB de Karina Gama.

<><> Emendas permitiram contratação direta

O ponto central dos documentos de 2018 é que as emendas não aparecem apenas como uma das fontes de recursos do evento.

A Prefeitura registrou que a parceria decorria de emendas parlamentares destinadas especificamente ao Encontro Literário IDE. Essa circunstância foi utilizada como fundamento para a celebração da parceria sem chamamento público.

Em termos práticos, não houve uma disputa aberta para escolher qual organização realizaria o projeto. Como os recursos das emendas estavam vinculados àquela parceria, a Prefeitura pôde contratar diretamente o ICB para executar o evento.

Assim, os R$ 500 mil indicados por Milton Leite integraram o conjunto de recursos que permitiu ao instituto fechar a parceria milionária diretamente com a administração municipal.

O contrato está entre os primeiros firmados pelo ICB com a Prefeitura de São Paulo. Levantamentos sobre a trajetória do instituto apontam que a entidade começou a assinar contratos municipais justamente em 2018.

Não há, nos documentos analisados, indício de que a emenda de Leite ou o evento realizado em 2018 tenham relação com o PCC ou com as suspeitas investigadas atualmente.

<><> Milton Leite virou alvo de operação sobre PCC

Ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo, Milton Leite é um dos alvos de prisão temporária da Operação Vectura Corrupta, deflagrada pelo Ministério Público e pela Polícia Civil para investigar a suposta infiltração do PCC no sistema de transporte coletivo paulistano.

Na decisão que autorizou a operação, o desembargador Sérgio Ribas registra que Leite é apontado pela investigação como “responsável direto pela operação” de algumas empresas que seriam controladas pelo PCC. O documento menciona ainda declarações de policiais militares segundo as quais ele seria o proprietário de fato da Transwolff.

Leite nega as acusações e qualquer ligação com a facção. Nesta quinta, afirmou que estava viajando, que não se considerava foragido e que se apresentaria às autoridades em até 24 horas. Disse também que pretende provar sua inocência.

A própria decisão ressalta que as medidas determinadas são cautelares e não representam antecipação de julgamento sobre a responsabilidade penal dos investigados.

A investigação sustenta que 12 das 22 empresas que operam o transporte coletivo de São Paulo estariam, em tese, sob controle do PCC. O processo descreve suspeitas de utilização de empresas, contratos públicos, pessoas interpostas e articulações políticas em benefício da organização criminosa.

<><> ICB passou a movimentar contratos muito maiores

Depois do projeto financiado pelas emendas de 2018, o ICB ampliou significativamente sua atuação com recursos públicos.

A entidade comandada por Karina está hoje no centro de outra investigação. A Polícia Civil apura suspeitas envolvendo o contrato do programa de Wi-Fi gratuito de São Paulo, cujo valor chegou a R$ 157 milhões. O caso foi enviado a Flávio Dino por sua possível conexão com as investigações envolvendo Dark Horse.

O ICB também recebeu emendas do deputado federal Mario Frias (PL-SP), um dos idealizadores do filme, e integra a rede de entidades e empresas comandadas por Karina que entrou no radar das investigações sobre o financiamento da produção.

A investigação sobre Dark Horse não atribui a Milton Leite participação no financiamento do filme. Da mesma forma, até o momento não há elemento conhecido que relacione a emenda destinada por ele em 2018 às suspeitas investigadas atualmente.

O elo documentado é anterior: oito anos antes de ser alcançado pela operação sobre a infiltração do PCC no transporte, Leite destinou R$ 500 mil ao projeto que ajudou a colocar o ICB de Karina Gama entre as organizações contratadas pela Prefeitura de São Paulo.

•        Candidato preso por suspeita de elo com PCC teve registro liberado seis dias antes

O Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) liberou em 11 de setembro a candidatura a deputado estadual de Danilo Morgado (PL-SP), preso seis dias depois em uma operação que investiga a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) na política e no sistema de transporte paulista.

A investigação aponta indícios de que integrantes da facção participaram do financiamento da campanha de Morgado à Prefeitura de Praia Grande em 2024. Ele nega qualquer ligação com o crime organizado.

Antes de conseguir o registro, Morgado precisou responder a questionamentos da Justiça Eleitoral e regularizar pendências. Em 31 de agosto, o TRE-SP havia negado por unanimidade sua candidatura por falta de comprovação de quitação eleitoral. O Ministério Público Eleitoral havia impugnado o pedido de registro.

Segundo a decisão, o Cadastro Nacional de Eleitores apontava 25 multas eleitorais em nome de Morgado. A maior parte já estava regularizada, mas ainda faltava comprovar o pagamento ou o parcelamento de três multas relacionadas às eleições de 2022, quando ele concorreu a deputado federal pelo Solidariedade.

A relatora do caso, Maria Claudia Bedotti, registrou que Morgado havia sido intimado para esclarecer as pendências antes do julgamento.

“Regularmente intimado, contudo, cabia ao requerente comprovar, até o julgamento do pedido de registro, a inexistência das pendências ou a regularização dos débitos remanescentes, o que não ocorreu”, afirmou a magistrada.

A impugnação também apontou inicialmente falta de comprovação de alfabetização. Ao responder à Justiça Eleitoral, Morgado chegou a apresentar um comprovante de escolaridade pertencente a Alberto Mourão (MDB), atual prefeito de Praia Grande e adversário político do candidato. A documentação foi corrigida posteriormente.

Morgado recorreu da decisão que havia barrado seu registro e apresentou novos documentos. Duas das multas foram consideradas regularizadas após a comprovação dos respectivos parcelamentos.

A terceira pendência teve uma sequência particular. Morgado havia pedido sua regularização em 10 de agosto, mas o requerimento só foi deferido em 1º de setembro — um dia depois de o TRE-SP negar inicialmente o registro.

Diante da nova documentação, o tribunal reformou a decisão anterior e, em 11 de setembro, autorizou Morgado a disputar uma vaga na Assembleia Legislativa de São Paulo. O deferimento transitou em julgado no dia 14. Três dias depois, ele foi preso.

<><> Investigação aponta financiamento de campanha pelo PCC

Morgado foi preso na quinta-feira (17) durante a Operação Vectura Corrupta, conduzida pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de São Paulo. A investigação apura a infiltração do PCC em empresas de transporte coletivo e suas conexões com agentes públicos e campanhas eleitorais.

No caso de Morgado, parte das suspeitas se concentra justamente em sua atividade eleitoral. Investigadores apontam indícios de que integrantes da organização criminosa participaram do financiamento de sua campanha à Prefeitura de Praia Grande em 2024.

Naquela eleição, Morgado terminou em segundo lugar, com cerca de 30,9 mil votos, equivalentes a 18,57% dos votos válidos.

A investigação menciona mensagens e outros elementos que, segundo as autoridades, indicariam discussões envolvendo aportes financeiros e apoio político a candidaturas.

Um dos personagens investigados nessa frente é José Ronaldo Alves de Sales, conhecido como “Ronaldo Cuba”, ex-funcionário da Assembleia Legislativa de São Paulo. O Ministério Público o aponta como possível intermediário entre integrantes da organização criminosa e agentes políticos.

A decisão judicial que autorizou medidas da operação aponta indícios de “forte vínculo” de Morgado com a organização criminosa. As suspeitas estão em investigação e não representam uma condenação.

<><> Morgado já havia sido alvo em 2024

A entrada de Morgado no radar das investigações sobre o PCC não começou às vésperas da atual eleição.

Em agosto de 2024, enquanto disputava a Prefeitura de Praia Grande, ele foi alvo de busca e apreensão na Operação Decúrio. A investigação apurava lavagem de dinheiro do PCC por meio de empresas do setor de transporte e atingiu a UPBus, concessionária que operava linhas de ônibus na capital paulista.

A Vectura Corrupta é um desdobramento dessas apurações. O avanço da investigação ampliou o foco sobre as possíveis relações entre integrantes da facção, empresários do setor de transporte, agentes públicos e políticos.

A operação de quinta-feira teve 16 mandados de prisão e 18 de busca e apreensão. Além de Morgado, as medidas atingiram o ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo Milton Leite (União Brasil-SP) e o ex-presidente da SPTrans Levi dos Santos Oliveira. Leite nega envolvimento com atividades criminosas.

<><> TRE não antecipou efeito das novas suspeitas

O registro de Morgado permanece deferido nos dados da Justiça Eleitoral. Após a prisão, o TRE-SP informou que a decisão sobre a candidatura havia transitado em julgado em 14 de setembro.

Questionado sobre a situação diante das novas suspeitas, o tribunal não antecipou qual poderia ser o efeito sobre a candidatura.

“Questões concretas poderão ser apreciadas pela juíza ou juiz responsável em eventual ação própria”, informou o TRE-SP, acrescentando que não poderia emitir previamente um juízo sobre uma situação ainda não submetida formalmente à Justiça Eleitoral.

A campanha de Morgado nega qualquer relação com a facção criminosa.

 

Fonte: ICL Notícias

 

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