Novas
terapias ampliam perspectivas para pacientes com fibrose cística
A
jornalista Cinthya Brandão (48) perdeu três das quatro irmãs ainda na infância
em decorrência de complicações da fibrose cística. A que viveu por mais tempo
morreu aos quatro anos. Na época, a família morava no interior da Bahia e
precisou viajar até São Paulo em busca de diagnóstico e acompanhamento
especializado. Décadas depois, Cinthya acompanha uma realidade muito diferente
daquela vivida por suas irmãs: diagnóstico precoce e novas terapias vêm mudando
as perspectivas de crianças e adultos com a doença genética rara, crônica e
ainda sem cura.
O tema
ganha atenção especial neste Setembro Roxo, período dedicado à conscientização
sobre a fibrose cística. Caracterizada pela produção de secreções espessas, a
doença compromete principalmente os sistemas respiratório e digestivo e pode
provocar infecções pulmonares recorrentes, perda progressiva da função
pulmonar, dificuldade para ganhar peso e alterações pancreáticas.
Uma
realidade diferente — Quando as irmãs de Cinthya adoeceram, o diagnóstico era
muito mais difícil. Segundo ela, o teste do suor não era realizado em Salvador
e a fibrose cística ainda não fazia parte da triagem neonatal pelo teste do
pezinho. A mãe precisou aprender com profissionais do Hospital das Clínicas, em
São Paulo, os cuidados necessários para acompanhar as filhas em casa.
“Infelizmente,
nenhuma delas teve a oportunidade de se beneficiar dos avanços que existem hoje
no diagnóstico e no tratamento da fibrose cística. Muitas vezes penso em como
suas histórias poderiam ter sido diferentes se tivessem tido acesso aos
recursos disponíveis atualmente”, relata Cinthya, que, como irmã mais velha,
também participou dos cuidados.
A
pneumologista pediátrica e broncoscopista do Hospital Mater Dei Salvador
(HMDS), Paula Tannus, explica que tosse persistente, pneumonias e bronquites de
repetição, chiado no peito, falta de ar, dificuldade para ganhar peso e altura,
diarreia e suor excessivamente salgado estão entre os sinais que podem levantar
a suspeita. “A fibrose cística pode se manifestar de formas diferentes e
envolver vários órgãos. Na infância, sintomas respiratórios recorrentes
associados à dificuldade de crescimento ou ganho de peso precisam ser
investigados, porque quanto mais cedo iniciamos o acompanhamento, maior é a
possibilidade de preservar a função pulmonar e evitar complicações”, destaca.
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Diagnóstico precoce
— A
fibrose cística é causada por alterações no gene CFTR, responsável pela
produção de uma proteína que participa do transporte de sal e água nas células.
Quando esse mecanismo não funciona adequadamente, as secreções ficam mais
espessas, favorecendo obstruções, infecções e inflamações.
Por ser
hereditária, a doença está relacionada às alterações genéticas transmitidas
pelos pais. A variante mais frequente do gene CFTR é mais comum em populações
de ancestralidade europeia, embora a fibrose cística possa ocorrer em
diferentes grupos populacionais. “O conhecimento do perfil genético ganhou
ainda mais importância porque hoje pode ajudar a definir quais pacientes são
elegíveis para terapias específicas”, explica Paula Tannus.
No
Brasil, a doença integra o Programa Nacional de Triagem Neonatal e pode ser
rastreada pelo teste do pezinho. Quando há alteração, são necessários exames
complementares para investigação, especialmente o teste do suor, além da
análise genética quando indicada.
Para
Cinthya, a importância desse diagnóstico precoce ficou ainda mais evidente
quando se tornou mãe. O histórico familiar trouxe o medo de que os filhos
também pudessem nascer com fibrose cística. “Realizar os exames logo após o
nascimento dos dois foi muito importante para mim e para meu esposo. Receber os
resultados e saber que eles não tinham a doença foi um dos maiores alívios que
já sentimos”, conta.
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Tratamento avança
— O
acompanhamento pode envolver fisioterapia respiratória, suporte nutricional,
reposição de enzimas pancreáticas, antibióticos e outros medicamentos. Uma das
principais transformações dos últimos anos, porém, foi a chegada dos
moduladores da proteína CFTR, que atuam mais diretamente no mecanismo
responsável pela doença em pacientes com determinadas variantes genéticas.
“Esses
medicamentos representam uma mudança importante porque não atuam apenas nas
consequências da fibrose cística e podem produzir repercussões significativas
na função pulmonar, no estado nutricional e na qualidade de vida”, afirma a
pneumologista e uma das coordenadoras da Medicina Respiratória do HMDS.
No SUS,
uma combinação de medicamentos é disponibilizada para pacientes que atendem aos
critérios estabelecidos pelo Ministério da Saúde. Dados divulgados pela pasta
em agosto de 2026, a partir do acompanhamento de 647 crianças, adolescentes e
adultos em 39 centros brasileiros, apontaram redução de até 85% nas
internações, além da diminuição do uso de antibióticos sistêmicos e melhora da
função pulmonar.
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Rede de apoio
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Cinthya também destaca como diferença importante a existência, hoje, de maior
acesso à informação e de redes de apoio. Para ela, saber que a Bahia conta com
uma associação de pais e familiares de crianças com fibrose cística e com uma
rede mais estruturada de suporte reforça a importância do diagnóstico precoce,
do acompanhamento adequado e do acesso ao tratamento.
“Minha
história com a fibrose cística começou com a dor da perda, mas hoje também é
marcada pela esperança de que outras famílias possam viver uma realidade muito
diferente daquela que a minha família enfrentou”, afirma.
Paula
Tannus reforça que, apesar dos avanços, o diagnóstico precoce permanece
decisivo. “Hoje conseguimos falar não apenas em tratar sintomas, mas em
modificar de forma importante a evolução da fibrose cística em parte dos
pacientes. Diagnóstico precoce e acompanhamento multidisciplinar continuam
sendo fundamentais”, conclui.
Fonte:
Por Carla Santana - Assessora de Imprensa

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