quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Impacto eleitoral da crise climática

Como os eventos climáticos extremos provocados pelo El Niño ainda não chegaram no Brasil com a intensidade prevista, a campanha eleitoral em curso ignorou a agenda ambiental. O candidato da direita é negacionista climático, não entende e não quer entender a importância da natureza para a sobrevivência da humanidade no planeta. E Lula, envolvido com as urgências de uma campanha polarizada, acha provavelmente que tem coisa mais importante para se preocupar, embora não seja negacionista.

É pena, porque a proteção ambiental é uma linha política que conta com a simpatia popular. É um tema quer ajudaria a furar as bolhas de direita. Há milhões de pessoas que só se informam hoje pelo celular via redes sociais, até deixaram a TV de lado. Conversei com uma faxineira que me disse: “Todo dia recebo no meu celular a informação de que Lula é ladrão e Flávio Bolsonaro um patriota”. Infelizmente, não é um caso isolado, grande parte do eleitorado popular está nessa situação.

Se as passeatas, o discurso da esquerda e o do candidato Lula não atingem esse eleitorado, os desastres ambientais, quando chegam, abalam suas condições de vida. E, segundo os cientistas climáticos, há 75% de chance de El Niño provocar eventos climáticos extremos ainda este ano, antes da eleição, pelo menos antes do segundo turno.

Assim, há uma possibilidade real de que El Niño se torne um tema político importante antes da eleição presidencial de outubro. Os efeitos do fenômeno já começaram a aparecer no Brasil, o que ainda pode estar por vir são os impactos mais intensos previstos para a primavera.

A situação atual é particularmente relevante porque as previsões se agravaram muito nas últimas semanas. O INMET, INPE, CEMADEN e outros órgãos brasileiros indicam mais de 90% de probabilidade de um El Niño muito forte em setembro-outubro-novembro. A NOAA (Administração Nacional Atmosférica e Oceânica dos EUA), em sua atualização de 10 de setembro, estima 75% de probabilidade de que outubro-dezembro de 2026 registre um El Niño de intensidade histórica, potencialmente o mais forte desde 1950.

A eleição de primeiro turno ocorre em 4 de outubro, justamente quando o fenômeno deverá estar entrando numa fase de forte atuação sobre o clima brasileiro. Os impactos tendem a ser regionalmente diferentes. O padrão clássico do El Niño é mais chuva no Sul e maior risco de calor, seca e incêndios no Centro-Norte, Norte e Nordeste, embora a distribuição real dependa também do Atlântico e de outros sistemas atmosféricos. O CEMADEN já alerta para temperaturas acima da média e maior potencial de ondas de calor e incêndios.

Isso pode afetar a campanha de várias maneiras, a começar pelo preço dos alimentos. Alterações nas chuvas e temperaturas podem afetar soja, milho, café, cana, açúcar, pecuária, e outras culturas. Já há sinais de impacto sobre o açúcar: os preços internacionais subiram 12% em agosto e o açúcar cristal brasileiro, 20%, segundo dados citados pela imprensa. Se o consumidor perceber comida mais cara, a discussão deixa de ser exclusivamente ambiental e passa a ser econômica.

Em seguida, teremos provavelmente problemas no fornecimento de energia e água. Secas em determinadas regiões podem pressionar reservatórios e geração hidrelétrica. Chuvas excessivas em outras podem provocar enchentes, deslizamentos e prejuízos urbanos. Isso coloca na pauta eleitoral perguntas muito concretas: Quem preveniu? Quem investiu em infraestrutura? Quem cuidou dos rios, florestas e reservatórios? Quem tem um plano de adaptação às mudanças climáticas?

E as enchentes e desastres já começaram, embora ainda de baixa ou média intensidade. Um ciclone provocou alertas de grande perigo no Sul e chuvas fortes também atingiram São Paulo. Ontem, 14 de setembro, fortes chuvas provocaram alagamentos e deslizamentos em cidades do Sul e do Sudeste. Centenas de pessoas foram desalojadas e comunidades quilombolas ficaram isoladas no Vale do Ribeira, na divisa entre São Paulo e Paraná. A rede de abastecimento de água e energia na região foi danificada. A capital paulista chegou a registrar o quarto setembro mais chuvoso desde 1943 até o dia 12. Se episódios semelhantes continuarem ocorrendo, o clima poderá ocupar espaço diário no noticiário.

Finalmente, no Norte e Centro-Oeste, principalmente na Amazônia, calor, seca e incêndios deverão se intensificar. Teremos nesse caso duas interpretações. A primeira mostra El Niño como fenômeno natural, usado para relativizar a responsabilidade humana. A segunda afirma que El Niño é agravado pela crise climática e pelo desmatamento, argumento utilizado para defender prevenção, fiscalização e redução das emissões. E há um detalhe importante: os primeiros efeitos fortes do El Niño devem aparecer justamente nas semanas finais da campanha, quando a opinião pública está mais sensível e os candidatos estão disputando os eleitores indecisos.

Mas o fenômeno climático, por si só, não favorece automaticamente nenhum candidato. O efeito eleitoral dependerá principalmente de como cada candidato conseguir explicar o problema. Se houver enchentes, incêndios, perdas agrícolas ou aumento de preços durante a campanha, a oposição poderá responsabilizar o governo pela falta de prevenção. Mas o governo também poderá argumentar que eventos extremos são consequência de uma crise climática global e que o Brasil precisa justamente de políticas de adaptação, proteção ambiental e prevenção de desastres.

O perfil de negacionismo climático do candidato Flávio Bolsonaro não lhe ajuda a fazer críticas em nome da proteção ambiental, mas a lógica não é o forte de seus eleitores que criticam o Ministro Alexandre de Moraes por haver recebido dinheiro de Daniel Vorcaro e votam em Flávio Bolsonaro que recebeu dinheiro de Daniel Vorcaro.

Assim, existe uma possibilidade significativa de o clima se tornar uma variável eleitoral relevante, mas não necessariamente determinante. O cenário mais importante seria a combinação de três fatores simultaneamente: evento climático extremo, impacto econômico perceptível e disputa política sobre responsabilidade. Nesse caso, El Niño deixaria de ser uma questão meramente meteorológica e passaria a ser uma questão eleitoral de voto.

Há outro dado importante. A pesquisa BTG/Nexus identifica cerca de 19% de eleitores não polarizados entre Lula e Flávio. Esse grupo aponta principalmente saúde e segurança como prioridades, mas também menciona inflação, custo de vida, desemprego e crescimento econômico. É justamente esse eleitor que, ao ser afetado, pode reagir a um evento climático. Ele não vai pensar em termos ambientais, provavelmente estará pensando: “Por que minha comida ficou mais cara?”, “Por que minha cidade está alagada?”, “Por que está faltando água?” ou “Por que está tão quente”?

Se o clima produzir apenas calor, chuvas e algumas ocorrências localizadas, provavelmente terá pouco impacto eleitoral. Mas se produzir eventos dramáticos televisionados durante a campanha, especialmente enchentes, inundações de casas, incêndios, perdas agrícolas ou aumento visível dos alimentos, poderá entrar diretamente na decisão eleitoral. Essa possibilidade se fortalece porque um El Niño muito forte está previsto, como assinalamos acima, exatamente para o período entre setembro e novembro.

Assim, o clima pode sobredeterminar os temas em debate na eleição: inflação, alimentos, renda, segurança, competência administrativa, responsabilidade ambiental etc. E, numa disputa Lula–Flávio com diferenças de apenas 1–2 pontos, segundo algumas pesquisas,isso, da mesma forma que outros temas sensíveis, pode ser importante e talvez até decisivo.

 

Fonte: Por Liszt Vieira, em A Terra é Redonda 

 

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