Impacto eleitoral da crise climática
Como os eventos climáticos extremos
provocados pelo El Niño ainda não chegaram no Brasil com a
intensidade prevista, a campanha eleitoral em curso ignorou a agenda ambiental.
O candidato da direita é negacionista climático, não entende e não quer
entender a importância da natureza para a sobrevivência da humanidade no
planeta. E Lula, envolvido com as urgências de uma campanha polarizada, acha
provavelmente que tem coisa mais importante para se preocupar, embora não seja
negacionista.
É pena, porque a proteção ambiental é uma
linha política que conta com a simpatia popular. É um tema quer ajudaria a
furar as bolhas de direita. Há milhões de pessoas que só se informam hoje pelo
celular via redes sociais, até deixaram a TV de lado. Conversei com uma
faxineira que me disse: “Todo dia recebo no meu celular a informação de que
Lula é ladrão e Flávio Bolsonaro um patriota”. Infelizmente, não é um caso
isolado, grande parte do eleitorado popular está nessa situação.
Se as passeatas, o discurso da esquerda e o
do candidato Lula não atingem esse eleitorado, os desastres ambientais, quando
chegam, abalam suas condições de vida. E, segundo os cientistas climáticos, há
75% de chance de El Niño provocar eventos climáticos extremos
ainda este ano, antes da eleição, pelo menos antes do segundo turno.
Assim, há uma possibilidade real de que El
Niño se torne um tema político importante antes da eleição
presidencial de outubro. Os efeitos do fenômeno já começaram a aparecer no
Brasil, o que ainda pode estar por vir são os impactos mais intensos previstos
para a primavera.
A situação atual é particularmente relevante
porque as previsões se agravaram muito nas últimas semanas. O INMET, INPE,
CEMADEN e outros órgãos brasileiros indicam mais de 90% de probabilidade de
um El Niño muito forte em setembro-outubro-novembro. A NOAA
(Administração Nacional Atmosférica e Oceânica dos EUA), em sua atualização de
10 de setembro, estima 75% de probabilidade de que outubro-dezembro de 2026
registre um El Niño de intensidade histórica, potencialmente o
mais forte desde 1950.
A eleição de primeiro turno ocorre em 4 de
outubro, justamente quando o fenômeno deverá estar entrando numa fase de forte
atuação sobre o clima brasileiro. Os impactos tendem a ser regionalmente
diferentes. O padrão clássico do El Niño é mais chuva no Sul e
maior risco de calor, seca e incêndios no Centro-Norte, Norte e Nordeste,
embora a distribuição real dependa também do Atlântico e de outros sistemas
atmosféricos. O CEMADEN já alerta para temperaturas acima da média e maior potencial
de ondas de calor e incêndios.
Isso pode afetar a campanha de várias
maneiras, a começar pelo preço dos alimentos. Alterações nas chuvas e
temperaturas podem afetar soja, milho, café, cana, açúcar, pecuária, e outras
culturas. Já há sinais de impacto sobre o açúcar: os preços internacionais
subiram 12% em agosto e o açúcar cristal brasileiro, 20%, segundo dados citados
pela imprensa. Se o consumidor perceber comida mais cara, a discussão deixa de
ser exclusivamente ambiental e passa a ser econômica.
Em seguida, teremos provavelmente problemas
no fornecimento de energia e água. Secas em determinadas regiões podem
pressionar reservatórios e geração hidrelétrica. Chuvas excessivas em outras
podem provocar enchentes, deslizamentos e prejuízos urbanos. Isso coloca na
pauta eleitoral perguntas muito concretas: Quem preveniu? Quem investiu em
infraestrutura? Quem cuidou dos rios, florestas e reservatórios? Quem tem um
plano de adaptação às mudanças climáticas?
E as
enchentes e desastres já começaram, embora ainda de baixa ou média intensidade.
Um ciclone provocou alertas de grande perigo no Sul e chuvas fortes também
atingiram São Paulo. Ontem, 14 de setembro, fortes chuvas provocaram alagamentos e
deslizamentos em
cidades do Sul e do Sudeste. Centenas de pessoas foram desalojadas e
comunidades quilombolas ficaram isoladas no Vale do Ribeira, na divisa entre
São Paulo e Paraná. A rede de abastecimento de água e energia na região foi
danificada. A capital paulista chegou a registrar o quarto setembro mais chuvoso desde 1943 até o
dia 12. Se episódios semelhantes continuarem ocorrendo, o clima poderá ocupar
espaço diário no noticiário.
Finalmente, no Norte e Centro-Oeste,
principalmente na Amazônia, calor, seca e incêndios deverão se intensificar.
Teremos nesse caso duas interpretações. A primeira mostra El Niño como
fenômeno natural, usado para relativizar a responsabilidade humana. A segunda
afirma que El Niño é agravado pela crise climática e pelo
desmatamento, argumento utilizado para defender prevenção, fiscalização e
redução das emissões. E há um detalhe importante: os primeiros efeitos fortes
do El Niño devem aparecer justamente nas semanas finais da
campanha, quando a opinião pública está mais sensível e os candidatos estão
disputando os eleitores indecisos.
Mas o fenômeno climático, por si só, não
favorece automaticamente nenhum candidato. O efeito eleitoral dependerá
principalmente de como cada candidato conseguir explicar o problema. Se houver
enchentes, incêndios, perdas agrícolas ou aumento de preços durante a campanha,
a oposição poderá responsabilizar o governo pela falta de prevenção. Mas o
governo também poderá argumentar que eventos extremos são consequência de uma
crise climática global e que o Brasil precisa justamente de políticas de
adaptação, proteção ambiental e prevenção de desastres.
O perfil de negacionismo climático do
candidato Flávio Bolsonaro não lhe ajuda a fazer críticas em nome da proteção
ambiental, mas a lógica não é o forte de seus eleitores que criticam o Ministro
Alexandre de Moraes por haver recebido dinheiro de Daniel Vorcaro e votam em
Flávio Bolsonaro que recebeu dinheiro de Daniel Vorcaro.
Assim, existe uma possibilidade significativa
de o clima se tornar uma variável eleitoral relevante, mas não necessariamente
determinante. O cenário mais importante seria a combinação de três fatores
simultaneamente: evento climático extremo, impacto econômico perceptível e
disputa política sobre responsabilidade. Nesse caso, El Niño deixaria
de ser uma questão meramente meteorológica e passaria a ser uma questão
eleitoral de voto.
Há outro dado importante. A pesquisa
BTG/Nexus identifica cerca de 19% de eleitores não polarizados entre Lula e
Flávio. Esse grupo aponta principalmente saúde e segurança como prioridades,
mas também menciona inflação, custo de vida, desemprego e crescimento
econômico. É justamente esse eleitor que, ao ser afetado, pode reagir a um
evento climático. Ele não vai pensar em termos ambientais, provavelmente estará
pensando: “Por que minha comida ficou mais cara?”, “Por que minha cidade está
alagada?”, “Por que está faltando água?” ou “Por que está tão quente”?
Se o clima produzir apenas calor, chuvas e
algumas ocorrências localizadas, provavelmente terá pouco impacto eleitoral.
Mas se produzir eventos dramáticos televisionados durante a campanha,
especialmente enchentes, inundações de casas, incêndios, perdas agrícolas ou
aumento visível dos alimentos, poderá entrar diretamente na decisão eleitoral.
Essa possibilidade se fortalece porque um El Niño muito forte
está previsto, como assinalamos acima, exatamente para o período entre setembro
e novembro.
Assim, o clima pode sobredeterminar os temas
em debate na eleição: inflação, alimentos, renda, segurança, competência
administrativa, responsabilidade ambiental etc. E, numa disputa Lula–Flávio com
diferenças de apenas 1–2 pontos, segundo algumas pesquisas,isso, da mesma forma
que outros temas sensíveis, pode ser importante e talvez até decisivo.
Fonte: Por Liszt Vieira, em A Terra é Redonda

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