SP: As anacrônicas “Escolas do Futuro” de
Tarcísio
No primeiro debate entre as candidaturas que
disputam o governo do Estado de São Paulo1, Tarcísio de Freitas (Republicanos)
interpelou Fernando Haddad (PT) perguntando: “Você já viu as escolas que
estamos fazendo Haddad? As Escolas do Futuro”; mencionando municípios paulistas
que adotaram experiências com essa denominação. A referência não é casual. Em
um cenário eleitoral no qual a educação ocupa espaço importante no debate
público, associar uma escola ao “futuro” produz imagem poderosa de inovação, modernização
e eficiência administrativa. Entretanto, entre a força de uma marca e a
construção de uma política educacional efetivamente inovadora, de qualidade e
socialmente referenciada, existe uma distância considerável.
Um dos municípios paulistas que ganhou
destaque pela implantação de unidades denominadas Escolas do Futuro foi
Itapevi, na Região Metropolitana de São Paulo. As escolas em tempo integral
apresentam como diferenciais uma estrutura física melhorada, quadras
poliesportivas, espaços acessíveis, brinquedotecas e investimentos em recursos
tecnológicos, incluindo Chromebooks e ambientes do tipo LabMaker. A
experiência, entretanto, é acompanhada por críticas. Entre elas, está a
percepção de que investimentos expressivos são concentrados em determinadas
unidades transformadas em vitrines administrativas, enquanto outras escolas da
própria rede não recebem atenção equivalente. Corre-se, assim, o risco de
produzir “ilhas de excelência” em meio a sistemas educacionais marcados por
profundas desigualdades de infraestrutura, recursos e condições de trabalho.
Mais recentemente, São Roque, município
situado na Região Metropolitana de Sorocaba, passou a integrar o conjunto de
cidades paulistas que adotaram o modelo. A Escola do Futuro da Terra do Vinho
foi anunciada e teve sua construção licitada em 2022. O empreendimento,
contudo, foi marcado por atrasos, controvérsias e vultoso investimento público,
ultrapassando a casa dos R$ 40 milhões.
No início de maio de 2026, o governador
Tarcísio de Freitas participou da inauguração da unidade em uma cerimônia que
contou com diferentes autoridades políticas, entre elas o prefeito da capital
paulista, Ricardo Nunes (MDB). O evento também se destacou pela violência
dirigida àqueles que criticam o governador: um vereador do município foi
retirado à força do local após levantar um cartaz questionando as praças de
pedágio recentemente instaladas na região.
Pouco tempo depois, uma visita do Conselho
Municipal de Educação de São Roque trouxe elementos2 que ajudam a deslocar o
debate da propaganda política para aquilo que efetivamente importa: as
condições concretas de funcionamento de uma escola que deverá receber centenas
de crianças e adolescentes diariamente. A previsão apresentada Prefeitura de
São Roque ao Conselho é de atendimento de aproximadamente 900 a 1.000
estudantes. Com os anos iniciais do Ensino Fundamental funcionando em período
integral; enquanto os anos finais em atendimento parcial, acompanhado de
atividades complementares.
Uma unidade dessa dimensão exige planejamento
cuidadoso dos espaços, dos recursos humanos, das condições de segurança e,
sobretudo, de seu projeto pedagógico. É justamente aí que aparecem algumas
contradições entre o “futuro” anunciado e a realidade encontrada.
A infraestrutura esportiva chama a atenção.
Para uma escola que poderá receber simultaneamente aproximadamente mil
estudantes, identificou-se apenas uma quadra poliesportiva. Diante dos
questionamentos do Conselho, a Prefeitura informou a previsão de construção de
uma segunda quadra, com piso sintético.
Outras questões são ainda mais preocupantes
por envolverem acessibilidade e segurança. No pavimento destinado às crianças
dos 1º e 2º anos do Ensino Fundamental, por exemplo, as pias dos sanitários
foram instaladas em altura correspondente ao padrão adulto, dificultando sua
utilização por crianças pequenas. Nos banheiros destinados às pessoas com
deficiência, embora tenham sido observadas portas largas e sinalização
adequada, alguns ambientes não dispunham de ventilação (janela ou exaustor) e
determinadas janelas se comunicavam diretamente com banheiros coletivos,
levantando problemas relacionados à privacidade.
O relatório também apontou preocupação com as
janelas dos pavimentos superiores, que não possuíam mecanismos adequados para
limitar sua abertura, formando vãos capazes de representar risco de acidentes
envolvendo crianças. Da mesma forma, as rampas internas apresentam espaço
reduzido de circulação e inclinação acentuada, podendo dificultar o
deslocamento autônomo de pessoas que necessitam de acessibilidade. São
problemas elementares de infraestrutura, acessibilidade e segurança. Justamente
por isso, causam ainda mais estranhamento em um empreendimento apresentado
publicamente como símbolo da educação do “futuro”.
Outro aspecto preocupante diz respeito à
própria concepção simbólica do ambiente escolar. A unidade está decorada com
frases motivacionais e imagens de personalidades consideradas inspiradoras.
Durante a visita, o Conselho identificou referências religiosas, como Jesus
Cristo e Buda. Independentemente do valor histórico, filosófico ou religioso
dessas figuras, uma escola pública deve observar o princípio constitucional da
laicidade do Estado, respeitando a pluralidade religiosa e também aqueles que
não professam qualquer religião. Além disso, notou-se predominância de
personalidades masculinas e presença quase inexistente de referências
brasileiras: entre as personalidades nacionais identificadas, apenas Ayrton
Senna.
Uma escola também educa por meio das imagens
que escolhe colocar em suas paredes. A Escola do Futuro de São Roque poderia
apresentar às novas gerações a enorme diversidade de educadoras e educadores,
cientistas, escritoras e escritores, artistas, esportistas e lideranças sociais
produzidos pelo país. Mulheres, pessoas negras, indígenas e representantes de
diferentes segmentos sociais deveriam compor um ambiente efetivamente
comprometido com diversidade, pluralidade e formação cidadã.
Talvez a contradição mais emblemática esteja
na comparação entre o LabMaker e a Biblioteca. O Conselho Municipal de Educação
registrou preocupação com a informação de que os custos relacionados ao
funcionamento e à manutenção do LabMaker poderiam alcançar aproximadamente R$
2,9 milhões por ano. Espaços tecnológicos podem, evidentemente, contribuir para
a formação dos estudantes. Laboratórios de criação, experimentação, robótica e
fabricação digital ampliam possibilidades pedagógicas quando integrados ao currículo
e utilizados por profissionais devidamente preparados. A questão não é rejeitar
a tecnologia, mas compreender sua finalidade pedagógica, avaliar seus custos e
garantir transparência na utilização dos recursos públicos. Um investimento
anual dessa magnitude para um município com um pouco mais de 80 mil habitantes
e receita prevista para 2026 de 580 milhões de reais exige explicações
detalhadas sobre serviços contratados, manutenção de equipamentos, aquisição de
insumos, atualização tecnológica e demais despesas envolvidas.
Ao mesmo tempo, durante a visita técnica, foi
informado ao Conselho que a Escola do Futuro não teria, naquele momento, uma
Biblioteca escolar plenamente estruturada. Em seu lugar, haveria um chamado
“cantinho de leitura”. A contradição é difícil de ignorar: uma escola
apresentada como símbolo da modernidade prevê investimentos milionários em
tecnologia, mas não assegura, desde seu início, um espaço historicamente
fundamental para a formação intelectual de crianças e adolescentes. Um cantinho
de leitura pode constituir iniciativa pedagógica complementar interessante, mas
não substitui uma Biblioteca.
Outro elemento fundamental para avaliar
qualquer experiência educacional são as condições de trabalho dos profissionais
que efetivamente fazem a escola funcionar. Prédios, Chromebooks, laboratórios e
plataformas digitais não educam sozinhos. São docentes, profissionais de apoio,
gestores e demais trabalhadores da educação que transformam infraestrutura e
recursos pedagógicos em experiências efetivas de aprendizagem. Por isso,
merecem atenção as críticas das entidades representativas dos profissionais da
educação do município de que, mesmo com remuneração diferenciada, a unidade de
São Roque não teria despertado grande interesse entre docentes concursados.3 As
atividades escolares começaram efetivamente em agosto de 2026, e essa
dificuldade de atração de profissionais merece investigação. Quais seriam as
razões? Condições de trabalho? Jornada? Organização pedagógica? Localização?
Modelo de gestão? Exigências específicas da unidade?
Sobre esse ponto, o relatório do Conselho
aponta preocupações que diz respeito ao tamanho da sala destinada aos
professores e professoras. Mesmo antes da instalação completa do mobiliário, o
espaço aparentava ser insuficiente para acomodar adequadamente o conjunto dos
profissionais que trabalhariam em uma escola com grande número de turmas. A
questão pode parecer secundária para quem compreende a escola apenas como um
conjunto de salas destinadas aos estudantes. Não é. A sala dos docentes
constitui espaço de trabalho, planejamento, diálogo e organização pedagógica.
A inauguração de uma nova escola pública deve
ser comemorada. Sempre! Uma unidade capaz de receber centenas de estudantes
amplia a capacidade de atendimento da rede e pode contribuir significativamente
para a sua comunidade. A crítica não se dirige, portanto, à construção da
escola, mas à tentativa de convertê-la em símbolo de sucesso antes mesmo que
seus resultados possam ser avaliados. É preciso também perguntar se o volume de
recursos direcionado à essa unidade integra uma política capaz de beneficiar progressivamente
toda a rede municipal ou se servirá apenas para manter uma escola como vitrine
administrativa, enquanto outras convivem com carências históricas. Educação
pública de qualidade pressupõe equidade. Não existe verdadeira inovação quando
a modernização se concentra em poucos prédios e a desigualdade permanece como
característica estrutural do sistema.
Nesse sentido, a experiência da Escola do
Futuro remete às reflexões de Florestan Fernandes sobre a modernização
conservadora brasileira: processos de transformação que incorporam elementos
modernos sem romper efetivamente com estruturas, práticas e desigualdades
herdadas do passado.4 O novo é introduzido, mas de maneira subordinada à
conservação do velho. Na educação, essa contradição aparece quando tecnologias,
laboratórios e arquitetura predial e curricular apresentada como inovadora
convivem com problemas elementares de infraestrutura, acessibilidade, condições
de trabalho, democratização do espaço escolar e até com a ausência de uma
Biblioteca estruturada.
O futuro da educação pública brasileira não
será construído por slogans ou inaugurações pomposas, mas por investimento
responsável, transparência, professores valorizados, bibliotecas, ciência,
cultura, acessibilidade, segurança, diversidade e participação democrática.
A Escola do Futuro de Tarcísio parece, assim,
carregar a velha maldição de Jano: uma face aparentemente voltada para o
futuro, enquanto o restante do corpo permanece preso ao passado excludente.
Fonte: Por Por Rogério de Souza, em Outras
Palavras

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