sexta-feira, 18 de setembro de 2026

A fragilidade do modelo chinês

Quando analisamos a síntese daquilo que compõe os padrões de modelo e conjuntura de estruturas sociais ao longo da história percebemos que eles se modificam e se redesenham constantemente, uma sociedade ou instituição que necessita de perdurar é aquela que melhor possui capacidade a se dobrar as curvas e abstrações presentes em indivíduos e dinâmicas que ela compõe.

E quando pensamos a história do socialismo com uma etapa de transição para o comunismo percebemos justamente que de seus maiores projetos ao longo do período são aqueles que conseguiram melhor se adaptar à realidade e conseguiram se estabelecer e entregar continuidade com desenvolvimento econômico avançado.

A tomada de fábricas e equipamentos e a economia planificada da experiência Russa, mostrou que saber construir e criar continuidade crônica foi o desembargo necessário para o desenvolvimento altamente avançado e expansão da economia, mas também encontrou fragilidades, por mais que fosse capaz de expandir-se internamente o desenvolvimento a patamares altamente avançados não se era factível o acesso ao desenvolvimento econômico e tecnológico presente em outras grandes nações capitalistas, além de uma dificuldade de integração as tecnologias e inovações a toda a estrutura e tecido da sociedade.

O modelo chinês então supera esses caracteres desenvolvendo uma nova dinâmica aonde se soma o planejamento central com abertura e construção de mercados capitalistas, criando um modelo aonde a tecnologia de outras nações são assimiladas e se desenvolvem, junto com o modelo econômico chinês.

A economia planejada de característica russa se apresenta então não como um erro logístico interno econômico, mas como erro de relação com exterior com as estruturas de outras sociedades que as cercavam, por outro lado o modelo chinês enfrenta um outro problema, por mais que suas instituições sejam fortes e bem definidas.

O modelo chinês apresenta uma fragilidade categorial no que diz respeito a continuidade do poder político, é plenamente questionável quem genuinamente controla e dita os rumos da economia chinesa, para além do se existe ou não uma sociedade controlada pela população ou por uma elite capitalista, o fato de um debate concreto sobre já existir, demonstra de forma cabal que a fragilidade se encontra, existindo dentro do modelo chinês a possibilidade de se desmontar enquanto nação socialista rumo em direção ao comunismo.

O que parece se apresentar então é que a construção de uma nova etapa e ampliação passa por redirecionar os rumos já traçados pela economia chinesa, ampliando suas dinâmicas dentro de um novo cerne construtivo. No livro O que a esquerda deve propor, de Roberto Mangabeira Unger, existe um entendimento da tese de uma nova esquerda contra o que ele designou de “dirigismo” e ao mesmo tempo contra o mercado capitalista comum, revitalizando-o dentro de novas métricas e conjunturas.

Mesmo que exista limitações em sua tese, principalmente por se apresentar como uma esquerda pós-marxista, Mangabeira Unger acaba por definir no cerne aquilo que falta no modelo chinês para romper com sua fragilidade no âmbito econômico, uma de suas teses a ideia de democratização do mercado, através de expansão do pequeno e médio produtor empresarial capitalista e expansão fulgente do cooperativismo.

Quando pensamos no cooperativismo somado a um modelo socialista, sempre se vem à mente tese do modelo iugoslavo e seu problema central. No modelo da Iugoslávia, se pensava na construção de um socialismo diretamente controlado pelos trabalhadores em todos os níveis e instancias através do cooperativismo, o problema de tal modelo, é que muitas das fabricas administradas por seus próprios trabalhadores tinham dificuldade de aceitar tanto novos empregados, pelo entendimento de que conseguiriam trabalhar mais e assim expandir sua renda, e dificuldade de assimilação tecnológica.

Pois a maioria escolhia manter um padrão de trabalho já instaurado do que assimilar avanços dentro de sua cadeia produtiva, e terem que aprender a trabalhar em novos aparelhos e demitir funcionários que não precisariam mais gerir determinada ação que foi automatizada. O que gerou desemprego, pobreza, desigualdade regional e evasão tecnológica.

O problema principal presente estava ideia de anarquia total de mercado, por mais que não houvesse uma burguesia, os grupos de trabalhadores agiam fora de sintonia a partir de demandas pessoais ignorando demandas centrais da economia sem um planejamento da sua construção, o que faltou para o modelo iugoslavo, é o que hoje em instância mais complexa, existe dentro do modelo chinês, que é capacidade de intervenção na economia para determinar e traçar os rumos de sua sociedade sem agir sobre livre e escolha vontade. Logo dentro disso conseguimos então chegar no cerne daquilo que poderia ser a nova etapa e avanço socialista dentro das métricas e projeções.

O modelo chinês supera o iugoslavo, por conseguir dinamizar e controlar cadeias produtivas ao mesmo tempo que as garantem como estruturas parcialmente autônomas, havendo uma mistura do controle administrativo entre demanda pública e empresas privadas, se pensarmos em um modelo do tipo, para cooperativas, estaríamos pensando em algo como um modelo aonde os trabalhadores possuem liberdade administrativa tanto de realocação e distribuição do trabalho.

Mas que por outro lado, estariam curvados às demandas centrais de planejamento do governo garantindo que eles cumpram as determinadas metas e métricas de maneira objetiva, dentro de um entendimento comum de que a empresa mesmo que atendam a produção de renda para o trabalhador, está a serviço e interesse da sociedade precisando compor-se dentro de uma narrativa como uma engrenagem dentro do processo, algo que poderia ser definido de maneira constitucional.

Além disso nem toda logística produtiva poderia estar direcionada a um modelo privado cooperativo, necessitando de se manter algumas estruturas como públicas e de desenvolvimento direto, mantendo a lógica da existência tanto de empresas públicas e privadas como no modelo chinês, mas superando a existência de intermediadores capitalistas que acumulam renda podendo transformar riqueza em poder político e traçando um novo poder político nas mãos da administração do trabalho pelo próprio trabalhador.

Isso somado a cadeias produtivas tecnológicas de análise de demanda poderia construir uma rede logística e digitalizada aonde se estabelece mais rapidamente, metas e diagnostica necessidades através da tese de construção daquilo que falta ao mercado capitalista comum, que é a ideia de um estado-plataforma, um estado que viabiliza direcionando o encontro entre esse mercado privado não burguês, e os trabalhadores. Uma estrutura de “Estado Plataforma” atuaria então como impulsionador e projetor da economia.

Um Estado plataforma atuaria então em primeira instância em tornar estatal tudo aquilo que necessariamente diz respeito a controle da cadeia econômica e produtiva de larga escala, aquilo que é necessário para a continuidade da coesão social e seguimento das metas centrais, para o controle da economia como energia, crédito, ambiente digital, educação, moradia, e emprego, tudo aquilo que é indispensável para garantiria a continuidade do planejamento central, por outro lado o mercado privado atuaria como um intermediador construtivo no que diz respeito ao consumo de bens e desenvolvimento tecnológico.

O que falta então para a criação de uma democratização da economia de mercado é não só a transformação das grandes empresas de consumo capitalistas burguesas em cooperativas capitalistas de mercado, mas pensar como isso poderia funcionar do menor grau até sua máxima projeção.

Quando analisamos o pequeno e médio negócio dentro de um país capitalista, na maioria das vezes vemos duas instancias, a primeira é que ele acaba por, de maneira indireta sendo explorado seja por juros abusivos, mecanismos de intermediação entre sua lógica mercantil, as próprias dinâmicas do estado capitalista, e a segunda é que ele se torna pela necessidade, ser um agente ativo no seu próprio negócio.

Isso significa que, mesmo que sobre determinado critério, ele possua funcionários, e extraia renda do trabalho destes funcionários, ele por sua vez também necessita de trabalhar compulsoriamente para a continuidade de sua existência, o que isso significa em última instancia, é que o pequeno empresário, é em muitas vezes explorado pela economia e não um explorador dela, até que por ventura de um talvez determinado sucesso, ele passa a ditar os rumos dessa mesma economia, e controlar suficientemente os acúmulos  e cadeias produtivas tornando-se um explorador.

A democratização disso seria então não necessariamente atacar o mal pela raiz e transformar o pequeno empresário em uma empresa necessariamente cooperativista. Mas com o tempo e sobre determinados critérios, diluir essa empresa até que seu crescimento a torne inevitavelmente uma cooperativa.

Para tal o dever do estado é gerenciar e criar as plataformas que tornem possível o exercício da função deste profissional, e que se ele vier a construir seu negócio próprio, este negócio, seja dentro dos critérios designados, passando a existir e atuar enquanto um pequeno negócio capitalista, e como uma definição objetiva para a sua existência, o dono desse negócio, precisa ser um ente ativo nele, precisa necessariamente trabalhar nesse negócio tendo pleno direito de como deseja o gerir e realocar despesas e funcionários.

O Estado poderia então agir como intermediador nessa relação assim como na cooperativa, garantindo credito e trabalhadores para a empresa, e conforme ela ganha escala os funcionários vão ganhando poder dentro dessa empresa a medida que ela vai crescendo, sem afetar necessariamente o retorno no dono da empresa gerando recompensas ativas pra tal crescimento, até ela chegar em um patamar aonde ela se torna totalmente cooperativista, e da mesma forma que isso acontece com a pequena empresa, aconteceria com a cooperativa, se ela ganhasse forma e cada vez mais se apresentasse como uma estrutura econômica dominante crescente na sociedade, ela se assimila ao estado que aos pouco passa cada vez mais a geri-la até tornar-se uma estatal prestando um serviço essencial, monopolístico.

Logo o objetivo cerne disso é entender os problemas dinâmicos existentes e latentes, a ideia de criar um socialismo sem algum nível de mercado privado, pode atuar como um isolacionismo, o que não é crível para países de capitalismo dependente como o Brasil, que por mais que possua uma capacidade industrial interna, não é capaz de realocar todo o seu consumo para a indústria interna mesmo.

Mas, por outro lado, não pode cair no erro de imaginar que é possível criar um socialismo um para um do modelo chinês que antes da abertura comercial passou por um intenso processo de nacionalismo e independência a estruturas políticas externas, sendo assim um modelo de Socialismo de mercado democrático, poderia ser o intermediário desse processo, garantindo desenvolvimento e liberdade econômica para atuar como um projeto de país socialista em um mundo majoritariamente capitalista.

Além disso, acredito que mesmo que fosse possível a criação de parcerias estratégicas entre empresas privadas estrangeiras com o estado socialista e principalmente as empresas cooperativistas de mercado, se precisa entender que este modelo não seria simplesmente aceito pelas estruturas capitalistas principalmente se tratando de um país que poderia mudar ou até abalar toda a cadeia da divisão internacional do trabalho, seria necessário, dentro das dinâmicas presentes e das próprias contradições e conflitos da luta classes pensar na construção de uma nova conjuntura social aonde o comercio não passe por intermediadores socialmente definidos por uma nação ou um pequeno conjunto de nações capitalistas.

O processo de um socialismo com mercado no Brasil com essas características apresentadas, poderiam servir como emancipador um garantidor da sua soberania e expansão dessa ideia, mas também como ponte de diálogo que faria aqueles países que aceitassem mais rapidamente a nova conjuntura social do país com novas possibilidades e dinâmicas do seu próprio desenvolvimento e emancipação.

Logo pensar a construção de um Socialismo de mercado democrático, também passa por pensar a emancipação também, mas não só de toda a estrutura imperialista e a construção de uma sociedade comum, aonde nela, se poderia pensar mais facilmente a expansão do socialismo dentro de um comercio mais livre.

 

Fonte: Por Santhiago Abraão Costa, em A Terra é Redonda

 

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