A
fragilidade do modelo chinês
Quando
analisamos a síntese daquilo que compõe os padrões de modelo e conjuntura de
estruturas sociais ao longo da história percebemos que eles se modificam e se
redesenham constantemente, uma sociedade ou instituição que necessita de
perdurar é aquela que melhor possui capacidade a se dobrar as curvas e
abstrações presentes em indivíduos e dinâmicas que ela compõe.
E
quando pensamos a história do socialismo com uma etapa de transição para o
comunismo percebemos justamente que de seus maiores projetos ao longo do
período são aqueles que conseguiram melhor se adaptar à realidade e conseguiram
se estabelecer e entregar continuidade com desenvolvimento econômico avançado.
A
tomada de fábricas e equipamentos e a economia planificada da experiência
Russa, mostrou que saber construir e criar continuidade crônica foi o
desembargo necessário para o desenvolvimento altamente avançado e expansão da
economia, mas também encontrou fragilidades, por mais que fosse capaz de
expandir-se internamente o desenvolvimento a patamares altamente avançados não
se era factível o acesso ao desenvolvimento econômico e tecnológico presente em
outras grandes nações capitalistas, além de uma dificuldade de integração as
tecnologias e inovações a toda a estrutura e tecido da sociedade.
O
modelo chinês então supera esses caracteres desenvolvendo uma nova dinâmica
aonde se soma o planejamento central com abertura e construção de mercados
capitalistas, criando um modelo aonde a tecnologia de outras nações são
assimiladas e se desenvolvem, junto com o modelo econômico chinês.
A
economia planejada de característica russa se apresenta então não como um erro
logístico interno econômico, mas como erro de relação com exterior com as
estruturas de outras sociedades que as cercavam, por outro lado o modelo chinês
enfrenta um outro problema, por mais que suas instituições sejam fortes e bem
definidas.
O
modelo chinês apresenta uma fragilidade categorial no que diz respeito a
continuidade do poder político, é plenamente questionável quem genuinamente
controla e dita os rumos da economia chinesa, para além do se existe ou não uma
sociedade controlada pela população ou por uma elite capitalista, o fato de um
debate concreto sobre já existir, demonstra de forma cabal que a fragilidade se
encontra, existindo dentro do modelo chinês a possibilidade de se desmontar
enquanto nação socialista rumo em direção ao comunismo.
O que
parece se apresentar então é que a construção de uma nova etapa e ampliação
passa por redirecionar os rumos já traçados pela economia chinesa, ampliando
suas dinâmicas dentro de um novo cerne construtivo. No livro O que a esquerda
deve propor, de Roberto Mangabeira Unger, existe um entendimento da tese de uma
nova esquerda contra o que ele designou de “dirigismo” e ao mesmo tempo contra
o mercado capitalista comum, revitalizando-o dentro de novas métricas e
conjunturas.
Mesmo
que exista limitações em sua tese, principalmente por se apresentar como uma
esquerda pós-marxista, Mangabeira Unger acaba por definir no cerne aquilo que
falta no modelo chinês para romper com sua fragilidade no âmbito econômico, uma
de suas teses a ideia de democratização do mercado, através de expansão do
pequeno e médio produtor empresarial capitalista e expansão fulgente do
cooperativismo.
Quando
pensamos no cooperativismo somado a um modelo socialista, sempre se vem à mente
tese do modelo iugoslavo e seu problema central. No modelo da Iugoslávia, se
pensava na construção de um socialismo diretamente controlado pelos
trabalhadores em todos os níveis e instancias através do cooperativismo, o
problema de tal modelo, é que muitas das fabricas administradas por seus
próprios trabalhadores tinham dificuldade de aceitar tanto novos empregados,
pelo entendimento de que conseguiriam trabalhar mais e assim expandir sua
renda, e dificuldade de assimilação tecnológica.
Pois a
maioria escolhia manter um padrão de trabalho já instaurado do que assimilar
avanços dentro de sua cadeia produtiva, e terem que aprender a trabalhar em
novos aparelhos e demitir funcionários que não precisariam mais gerir
determinada ação que foi automatizada. O que gerou desemprego, pobreza,
desigualdade regional e evasão tecnológica.
O
problema principal presente estava ideia de anarquia total de mercado, por mais
que não houvesse uma burguesia, os grupos de trabalhadores agiam fora de
sintonia a partir de demandas pessoais ignorando demandas centrais da economia
sem um planejamento da sua construção, o que faltou para o modelo iugoslavo, é
o que hoje em instância mais complexa, existe dentro do modelo chinês, que é
capacidade de intervenção na economia para determinar e traçar os rumos de sua
sociedade sem agir sobre livre e escolha vontade. Logo dentro disso conseguimos
então chegar no cerne daquilo que poderia ser a nova etapa e avanço socialista
dentro das métricas e projeções.
O
modelo chinês supera o iugoslavo, por conseguir dinamizar e controlar cadeias
produtivas ao mesmo tempo que as garantem como estruturas parcialmente
autônomas, havendo uma mistura do controle administrativo entre demanda pública
e empresas privadas, se pensarmos em um modelo do tipo, para cooperativas,
estaríamos pensando em algo como um modelo aonde os trabalhadores possuem
liberdade administrativa tanto de realocação e distribuição do trabalho.
Mas que
por outro lado, estariam curvados às demandas centrais de planejamento do
governo garantindo que eles cumpram as determinadas metas e métricas de maneira
objetiva, dentro de um entendimento comum de que a empresa mesmo que atendam a
produção de renda para o trabalhador, está a serviço e interesse da sociedade
precisando compor-se dentro de uma narrativa como uma engrenagem dentro do
processo, algo que poderia ser definido de maneira constitucional.
Além
disso nem toda logística produtiva poderia estar direcionada a um modelo
privado cooperativo, necessitando de se manter algumas estruturas como públicas
e de desenvolvimento direto, mantendo a lógica da existência tanto de empresas
públicas e privadas como no modelo chinês, mas superando a existência de
intermediadores capitalistas que acumulam renda podendo transformar riqueza em
poder político e traçando um novo poder político nas mãos da administração do
trabalho pelo próprio trabalhador.
Isso
somado a cadeias produtivas tecnológicas de análise de demanda poderia
construir uma rede logística e digitalizada aonde se estabelece mais
rapidamente, metas e diagnostica necessidades através da tese de construção
daquilo que falta ao mercado capitalista comum, que é a ideia de um
estado-plataforma, um estado que viabiliza direcionando o encontro entre esse
mercado privado não burguês, e os trabalhadores. Uma estrutura de “Estado
Plataforma” atuaria então como impulsionador e projetor da economia.
Um
Estado plataforma atuaria então em primeira instância em tornar estatal tudo
aquilo que necessariamente diz respeito a controle da cadeia econômica e
produtiva de larga escala, aquilo que é necessário para a continuidade da
coesão social e seguimento das metas centrais, para o controle da economia como
energia, crédito, ambiente digital, educação, moradia, e emprego, tudo aquilo
que é indispensável para garantiria a continuidade do planejamento central, por
outro lado o mercado privado atuaria como um intermediador construtivo no que
diz respeito ao consumo de bens e desenvolvimento tecnológico.
O que
falta então para a criação de uma democratização da economia de mercado é não
só a transformação das grandes empresas de consumo capitalistas burguesas em
cooperativas capitalistas de mercado, mas pensar como isso poderia funcionar do
menor grau até sua máxima projeção.
Quando
analisamos o pequeno e médio negócio dentro de um país capitalista, na maioria
das vezes vemos duas instancias, a primeira é que ele acaba por, de maneira
indireta sendo explorado seja por juros abusivos, mecanismos de intermediação
entre sua lógica mercantil, as próprias dinâmicas do estado capitalista, e a
segunda é que ele se torna pela necessidade, ser um agente ativo no seu próprio
negócio.
Isso
significa que, mesmo que sobre determinado critério, ele possua funcionários, e
extraia renda do trabalho destes funcionários, ele por sua vez também necessita
de trabalhar compulsoriamente para a continuidade de sua existência, o que isso
significa em última instancia, é que o pequeno empresário, é em muitas vezes
explorado pela economia e não um explorador dela, até que por ventura de um
talvez determinado sucesso, ele passa a ditar os rumos dessa mesma economia, e
controlar suficientemente os acúmulos e
cadeias produtivas tornando-se um explorador.
A
democratização disso seria então não necessariamente atacar o mal pela raiz e
transformar o pequeno empresário em uma empresa necessariamente cooperativista.
Mas com o tempo e sobre determinados critérios, diluir essa empresa até que seu
crescimento a torne inevitavelmente uma cooperativa.
Para
tal o dever do estado é gerenciar e criar as plataformas que tornem possível o
exercício da função deste profissional, e que se ele vier a construir seu
negócio próprio, este negócio, seja dentro dos critérios designados, passando a
existir e atuar enquanto um pequeno negócio capitalista, e como uma definição
objetiva para a sua existência, o dono desse negócio, precisa ser um ente ativo
nele, precisa necessariamente trabalhar nesse negócio tendo pleno direito de
como deseja o gerir e realocar despesas e funcionários.
O
Estado poderia então agir como intermediador nessa relação assim como na
cooperativa, garantindo credito e trabalhadores para a empresa, e conforme ela
ganha escala os funcionários vão ganhando poder dentro dessa empresa a medida
que ela vai crescendo, sem afetar necessariamente o retorno no dono da empresa
gerando recompensas ativas pra tal crescimento, até ela chegar em um patamar
aonde ela se torna totalmente cooperativista, e da mesma forma que isso
acontece com a pequena empresa, aconteceria com a cooperativa, se ela ganhasse
forma e cada vez mais se apresentasse como uma estrutura econômica dominante
crescente na sociedade, ela se assimila ao estado que aos pouco passa cada vez
mais a geri-la até tornar-se uma estatal prestando um serviço essencial,
monopolístico.
Logo o
objetivo cerne disso é entender os problemas dinâmicos existentes e latentes, a
ideia de criar um socialismo sem algum nível de mercado privado, pode atuar
como um isolacionismo, o que não é crível para países de capitalismo dependente
como o Brasil, que por mais que possua uma capacidade industrial interna, não é
capaz de realocar todo o seu consumo para a indústria interna mesmo.
Mas,
por outro lado, não pode cair no erro de imaginar que é possível criar um
socialismo um para um do modelo chinês que antes da abertura comercial passou
por um intenso processo de nacionalismo e independência a estruturas políticas
externas, sendo assim um modelo de Socialismo de mercado democrático, poderia
ser o intermediário desse processo, garantindo desenvolvimento e liberdade
econômica para atuar como um projeto de país socialista em um mundo
majoritariamente capitalista.
Além
disso, acredito que mesmo que fosse possível a criação de parcerias
estratégicas entre empresas privadas estrangeiras com o estado socialista e
principalmente as empresas cooperativistas de mercado, se precisa entender que
este modelo não seria simplesmente aceito pelas estruturas capitalistas
principalmente se tratando de um país que poderia mudar ou até abalar toda a
cadeia da divisão internacional do trabalho, seria necessário, dentro das
dinâmicas presentes e das próprias contradições e conflitos da luta classes
pensar na construção de uma nova conjuntura social aonde o comercio não passe
por intermediadores socialmente definidos por uma nação ou um pequeno conjunto
de nações capitalistas.
O
processo de um socialismo com mercado no Brasil com essas características
apresentadas, poderiam servir como emancipador um garantidor da sua soberania e
expansão dessa ideia, mas também como ponte de diálogo que faria aqueles países
que aceitassem mais rapidamente a nova conjuntura social do país com novas
possibilidades e dinâmicas do seu próprio desenvolvimento e emancipação.
Logo
pensar a construção de um Socialismo de mercado democrático, também passa por
pensar a emancipação também, mas não só de toda a estrutura imperialista e a
construção de uma sociedade comum, aonde nela, se poderia pensar mais
facilmente a expansão do socialismo dentro de um comercio mais livre.
Fonte:
Por Santhiago Abraão Costa, em A Terra é Redonda

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