7
de outubro de 2023, 3 anos depois
Chamou-se
Gaza de primeiro genocídio televisionado. A expressão tem força, embora a
televisão já tivesse mostrado massacres anteriores. Sua verdadeira
singularidade está na transmissão incessante, em tempo quase real, feita também
pelas próprias vítimas: jornalistas, médicos, mães, crianças que encontraram
uma conexão para dizer que ainda estavam vivas. Recebemos imagens, nomes,
pedidos de socorro. A abundância desses registros não impediu a destruição.
Obriga-nos a abandonar a desculpa da ignorância e a perguntar como sociedades
tão informadas conseguem conviver com aquilo que sabem. É dessa convivência com
Aquilo que sabemos que o chamado “cessar-fogo” passou a fazer parte e se
beneficia. Defendo que o anúncio dessa “trégua”, em outubro de 2025, quando convertido
em certificado de encerramento da catástrofe, funciona como uma estratégia de
invisibilização: devolve à normalidade diplomática e jornalística uma realidade
na qual continuam os assassinatos, a privação e a expulsão. A intenção de cada
ator precisa ser demonstrada, mas o mecanismo político pode ser examinado desde
já. A violência perde centralidade quando passa a caber na notícia de uma
“guerra” em curso. Os palestinos permanecem expostos à mais brutal violência.
Aos demais oferece-se a possibilidade de seguir adiante.
Mas,
como já sabemos, a história que nos trouxe até aqui começa muito antes de
outubro de 2023. A Nakba designa a catástrofe da expulsão palestina de
1948, mas sua persistência também permite compreender a reprodução do
despojamento: a família novamente deslocada, a casa demolida, a impossibilidade
do retorno. Em Palestina: um século de guerra e resistência, Rashid
Khalidi restitui, como em muito outros autores e livros, a duração colonial que
desaparece quando a narrativa começa pelo último ataque. Sua leitura nos ajuda
a enxergar a relação entre colonização e patrocínio internacional, assim como a
continuidade de uma sociedade que precisou defender até o direito de contar a
própria história.
Essa
história secular chega às véspera do 7 de outubro, em que consolidava-se a
expectativa de integrar Israel à região sem enfrentar a questão palestina. Os
Acordos de Abraão haviam aberto esse caminho e a aproximação com a Arábia
Saudita prometia ampliá-lo. Em setembro de 2023, Netanyahu anunciou na ONU a
proximidade de um acordo histórico e sustentou que os palestinos não poderiam
vetar a normalização. Havia exigências sauditas relativas aos direitos
palestinos, portanto a negociação não estava concluída nem seu resultado
garantido. Ainda assim, a direção era reconhecível: a liberdade de um povo
seria subordinada a entendimentos sobre segurança, comércio e influência
regional. Enquanto isso, a ocupação tornava-se rotina para quem a observava de
fora. Bloqueio, assentamentos e controle da circulação podiam aparecer como
problemas administrativos de um conflito interminável. Essa normalidade já era
uma vitória colonial. Ela dependia de aceitar que uma sociedade pudesse viver
indefinidamente sob coerção, desde que sua resistência não perturbasse os
negócios e a vida dos que estavam protegidos dela. E essa aceitação era muito
grande.
Enquanto
isso, a ocupação tornava-se rotina para quem a observava de fora. Bloqueio,
assentamentos e controle da circulação podiam aparecer como problemas
administrativos de um conflito interminável. Essa normalidade já era uma
vitória colonial. Ela dependia de aceitar que uma sociedade pudesse viver
indefinidamente sob coerção, desde que sua resistência não perturbasse os
negócios e a vida dos que estavam protegidos dela. E essa aceitação era muito
grande. A formulação sobre aqueles acontecimentos ilumina o 7 de outubro 200
anos depois: a operação liderada pelo Hamas rompeu a pretensão israelense de
administrar o confinamento palestino sem consequências políticas. Expôs a
fragilidade da segurança assentada na sujeição de outro povo e interrompeu a
fantasia de que seria possível retirar a Palestina do horizonte regional. A
brutalidade colonial não nasceu naquele dia. O que ocorreu foi que a crise
perfurou a fina camada de normalidade que ajudava a protegê-la.
Isso
exige distinguir significado histórico de aprovação política, e eu mesmo não
tenho afinidades políticas com o Hamas. Incorrendo no risco da falsa simetria,
a mesma comissão de investigação da ONU que acusou Netanyahu e outros líderes
israelenses, documentou crimes de guerra cometidos pelo Hamas e por outros
grupos armados, inclusive ataques deliberados contra civis e tomada de reféns.
Acredito que podemos fazer uma defesa consequente da vida. Mas isso,
evidentemente, não autoriza converter milhões de palestinos em responsáveis
coletivos ou explicar o genocídio como uma reação inevitável. O Estado
israelense fez escolhas, seus aliados as sustentaram, e ambos devem responder
por elas. O resultado do 7 de outubro, independentemente de como o interpretemos,
é que a causa palestina voltou ao centro da atenção mundial, num momento em que
seu futuro era quase perdido, ainda que esse resultado não transforme a
destruição de Gaza em preço aceitável de visibilidade.
Uma
faísca foi acesa. A solidariedade aos palestinos que se seguiu a outubro de
2023 alcançou ruas e universidades, sindicatos e espaços culturais.
Acampamentos estudantis perguntaram de onde vinham os recursos das instituições
e o que seus investimentos financiavam. O levantamento da ACLED (Armed Conflict
Location & Event Data), organização que mapeia conflitos violentos em todo
o mundo, registrou aumento de 43% nos protestos pró-Palestina entre maio e
setembro de 2025, em relação aos cinco meses anteriores. O dado contraria a
expectativa de um interesse condenado a desaparecer depois do primeiro choque.
Uma parte dessa mobilização adquiriu continuidade, criou vínculos e fez da
Palestina um critério para julgar instituições que se apresentavam como
defensoras dos direitos humanos. Também se ampliou o desejo de ler. No mercado
canadense de livros impressos em inglês acompanhado pela BookNet, as vendas da
categoria de não ficção sobre Israel e Palestina cresceram 1.233% no primeiro
semestre de 2024, comparadas ao mesmo período de 2023. Esse recorte não mede o
mercado mundial nem identifica a orientação de cada livro, mas dá uma dimensão
da procura. Em janeiro de 2025, a rede Publishers for Palestine
declarava reunir quase seiscentas editoras de cinquenta países. A circulação de
vozes palestinas passou a disputar a autoridade de quem, durante décadas, falou
em seu lugar.
Dentre
muitos exemplos, o diário de Atef Abu Saif oferece algo que uma sequência de
imagens dificilmente preserva: a duração de uma vida sob ataque. Ler seus
relatos é acompanhar a procura por abrigo, a incerteza sobre os próximos e a
transformação violenta dos lugares conhecidos. Em 2024, a Comma Press anunciou
a publicação de Don’t Look Left em treze idiomas, incluindo o português
pela editora Elefante. Eu mesmo editei, a convite da editora Tabla, o volume 1
da coleção Diários de Gaza, que intitulamos de “A memória é uma casa
indestrutível”. Neste volume, 14 autoras e autores palestinos, de e em Gaza,
escrevem sobre os primeiros meses do genocídio. Estarão ainda vivos? A tradução
participa dessa disputa pela sobrevivência de uma experiência que não pode ser
reduzida a números. Também nos compromete: o encontro com essas vozes precisa
sobreviver ao calendário dos lançamentos editoriais.
A
Palestina entrou ainda em disputas eleitorais muito distantes de suas
fronteiras. Mais de cem mil eleitores escolheram a opção “uncommitted” nas
primárias democratas de Michigan, em fevereiro de 2024, como protesto contra o
apoio de Biden à ofensiva israelense. No Reino Unido, candidaturas
independentes comprometidas com Gaza derrotaram candidatos trabalhistas em
julho daquele ano. Seria impreciso atribuir à Palestina o mesmo peso em todas
as eleições ou fazer dela a explicação única de seus resultados. O que esses
episódios demonstram é a disposição de parcelas do eleitorado de cobrar
consequências pela cumplicidade de seus representantes.
Essa
disposição teve e tem um custo, e encontrou muita repressão. Em novembro de
2024, a organização CIVICUS já registrava pelo menos três mil detenções
vinculadas às mobilizações universitárias nos Estados Unidos e documentava
proibições de atos, violência policial e represálias profissionais em vários
países. Ao exigir o fim da destruição de Gaza, manifestantes descobriram os
limites concretos da liberdade de expressão celebrada pelas instituições
liberais. A acusação de antissemitismo foi também instrumentalizada contra
críticas legítimas a Israel. Combater o antissemitismo exige levá-lo a sério, o
que inclui recusar sua utilização para imunizar um Estado contra a denúncia de
seus crimes.
Mas as
notícias são ainda mais temerosas e, a meu ver, a dimensão da mobilização
internacional, apesar de grande, não autoriza um balanço triunfal. A
solidariedade alterou debates e impôs custos políticos, mas não produziu força
suficiente para interromper o genocídio. Entre uma universidade pressionada e
um contrato militar suspenso há decisões que a indignação, sozinha, não
assegura. Precisamos compreender onde a pressão avançou, onde foi absorvida e
como a participação pública pode tornar-se organização duradoura. A
persistência dos crimes é uma exigência de revisão das estratégias, não uma
prova da inutilidade de agir.
A
reação sionista tampouco foi uniforme. A extrema direita israelense explicitou
projetos de expulsão e anexação. Sua linguagem torna visível o objetivo de
conquistar território e reduzir a presença palestina. Já parcelas do sionismo
liberal (no Brasil conhecidos como “sionistas de esquerda”) procuraram
preservar a legitimidade do projeto nacional separando-o da catástrofe
produzida sob Netanyahu. A crítica aos governantes pode ser sincera e
necessária, mas seu limite aparece quando toda a explicação se encerra neles,
como se a ocupação, a expropriação e a desigualdade de direitos fossem
invenções do atual gabinete. Houve deslocamentos reais nesse campo. Em agosto
de 2025, Jeremy Ben-Ami, presidente do grupo liberal de defesa e lobby sionista
J Street, passou a admitir a pertinência da acusação de genocídio e a
responsabilidade dos dirigentes israelenses. Não acredito que toda mudança
desse tipo é necessariamente dissimulação. Mas me pergunto até onde ela vai.
Condenar o resultado mais extremo de uma ordem e continuar protegendo seus
fundamentos pode ajudar a recompor sua legitimidade. Minha crítica a este
“sionismo progressista” se dirige a essa possibilidade: salvar a imagem de uma
suposta “democracia” sem enfrentar a estrutura colonial-racial que reserva aos
palestinos uma condição subordinada.
Outras
vozes recusaram esse limite. No relatório Our Genocide, de julho de
2025, a organização israelense B’Tselem reconheceu o genocídio e relacionou
suas condições a décadas de apartheid, ocupação e fragmentação da sociedade
palestina. No Brasil, acompanhamos o surgimento, desenvolvimento e qualificação
da atuação pública do coletivo Vozes Judaicas por Libertação, formado por
pessoas judias antissionistas que atuam em solidariedade à causa palestina e
contra o colonialismo do Estado de Israel. A importância dessa posição está em
recolocar a estrutura no centro da análise. Também impede que judeus sejam
tratados como um bloco indistinto. Há responsabilidades estatais e compromissos
políticos a confrontar e pertencimentos religiosos ou origens não deveria determinar
a posição de ninguém no reconhecimento do massacre ainda em curso. Essa
distinção importa para compreender a disputa pelo poder em Israel. No início
deste setembro, Netanyahu tentava reunir a direita para as eleições previstas
para 27 de outubro. O Likud, seu partido, depende da composição com aliados,
entre eles a extrema direita de Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich. As
sondagens indicavam dificuldades para o bloco governista, e Gadi Eisenkot
aparecia como seu principal desafiante. O desgaste eleitoral é real, mas não
corresponde automaticamente a uma rejeição da dominação sobre os palestinos.
A
oposição reúne projetos diferentes. O Yashar de Eisenkot disputa espaço com a
aliança de Naftali Bennett e Yair Lapid, enquanto os Democratas e o Yisrael
Beiteinu ocupam posições distintas nesse campo. O problema das alianças com
partidos árabes é especialmente revelador: os votos dos cidadãos palestinos de
Israel podem ser necessários para formar uma maioria, ao mesmo tempo que sua
participação é apresentada como ameaça à legitimidade de um future novo
governo. A disputa envolve responsabilização pelo fracasso de segurança de
2023, limites do Executivo e relações entre religião, Estado e serviço militar.
São conflitos relevantes. Mas a liberdade palestina exige mais que a
substituição de quem administra o poder israelense. É nesse quadro que devemos
avaliar o chamado “cessar-fogo”. O acordo de outubro de 2025 reduziu a
intensidade de parte das operações e abriu possibilidades de socorro. Para quem
consegue dormir, reencontrar familiares ou receber alimento, essa diferença tem
valor incalculável. Seria indecente negá-la. O problema começa quando o alívio
é usado para declarar encerrado o processo que continua a destruir as condições
de existência de Gaza. Uma interrupção dos ataques precisa ser defendida e
ampliada e não pode servir de autorização para abandonar os sobreviventes.
No
recente relatório de 11 de setembro de 2026, a OCHA (Escritório das Nações
Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários) registrou 1.358 mortes e
4.541 feridos contabilizados desde o anúncio do acordo em 10 de outubro de
2025, com informações até 9 de setembro. Em 10 de setembro, a Reuters noticiou
um ataque que matou um casal e suas duas filhas, de oito e doze anos. Israel
afirmou ter atingido uma estrutura militar. Uma família morta enquanto dormia
não se torna menos morta porque o acontecimento foi inscrito na linguagem de um
imaginado conflito militar.
A
destruição prossegue também por seus efeitos acumulados e por decisões
presentes que impedem a recuperação. No início de setembro, a OCHA descrevia
abrigos superlotados, riscos sanitários e restrições à entrada de materiais
essenciais. A morte por falta de atendimento não ocupa necessariamente o mesmo
espaço público de um bombardeio, embora ambos possam integrar a destruição de
uma população. Falar em genocídio por atrição, por exemplo, ajuda a examinar o
desgaste imposto à vida, sem dispensar a demonstração das condutas e da
intenção. Em junho deste ano, a comissão de investigação da ONU reiterou a
conclusão de continuidade do genocídio ao examinar os ataques contra crianças
palestinas.
O
vocabulário de um “pós-guerra” pode ocultar essa continuidade. Uma notícia
sobre reconstrução tende a deslocar a pergunta sobre quem ainda impede a tal
reconstrução. A gestão humanitária pode aparecer como solução suficiente para
um povo privado de soberania. Não teria como comprovar, aqui, uma série
quantitativa da cobertura jornalística que permita medir esse apagamento. A
tese é política: quando o anúncio substitui o exame das condições concretas, o
“cessar-fogo” passa a funcionar como um encerramento apenas narrativo. Os
mortos seguintes parecem incidentes, e a destruição cotidiana perde a unidade
que permite reconhecê-la e enfrentá-la. As propostas de Trump tornam esse risco
particularmente cristalino. Em fevereiro de 2025, ele propôs o controle estadunidense
de Gaza e o deslocamento de sua população. O território devastado aparecia como
oportunidade imobiliária, e seus habitantes como obstáculo a remover. O plano
posterior de vinte pontos e os anúncios de 2026 não são idênticos àquela
proposta e precisam ser examinados em seus próprios termos. A Casa Branca
apresentou uma administração tecnocrática palestina sob uma arquitetura
internacional de supervisão, com o chamado Board of Peace. A mudança de
formulação não resolve a pergunta decisiva: quem tem autoridade para determinar
o futuro palestino e a quem essa autoridade responde? Já sabemos a resposta,
não é mesmo?
Na
Cisjordânia, a violência desmente qualquer tentativa de confinar a questão a
Gaza. Entre 2 e 8 de setembro deste ano, forças israelenses mataram seis
palestinos, incluindo duas crianças. O mesmo relatório da já citada OCHA também
registrou, em duas ondas de demolições em Masafer Yatta, a destruição de 49
estruturas e o deslocamento de 57 pessoas.
A
tomada de terras e a expulsão desfazem no cotidiano aquilo que discursos
diplomáticos prometem preservar. Gaza e Cisjordânia pertencem à mesma questão
nacional, embora a violência assuma intensidades e mecanismos diferentes em
cada território. Pensar o futuro requer enfrentar essa fragmentação. Num
interessante artigo intitulado A roadmap for Gaza and Palestine,
publicado em 21 de agosto de 2026, Alain Alameddine e Mohammed Zraiy propõem
quatro frentes: recolocar Gaza no conjunto da Palestina; ampliar as condições
materiais de sobrevivência; democratizar a participação social nas decisões; e
diversificar os meios de ação política. O texto reconhece divergências
internas, inclusive sobre o 7 de outubro, e critica decisões de resistência
tomadas sem a participação de quem suporta suas consequências. Sua contribuição
mais fértil está na ligação entre subsistência, organização e autodeterminação.
Isso não exige endossar todas as propostas do artigo, inclusive sua formulação
sobre a emigração de judeus sionistas. O horizonte que, creio, deve ser
defendido é o fim da dominação, com igualdade de direitos e segurança para
todos. Esse é o caminho apontado por diversos grupos palestinos.
Não há
como garantir hoje qual forma institucional realizará esse horizonte. Há,
porém, critérios sem os quais qualquer promessa de paz será insuficiente:
liberdade política, direito ao retorno, restituição e reparação, fim da
ocupação e proteção efetiva da vida. A suposta reconstrução precisa fortalecer
a capacidade dos palestinos de decidir, incluindo mulheres, trabalhadores,
refugiados e organizações locais. Uma população devastada não perde por isso
sua condição de sujeito político. A ajuda que exige sua tutela permanente
prolonga exatamente a relação que deveria superar.
Noura
Erakat, no excelente livro Justice for Some, infelizmente ainda não
traduzido no Brasil, demonstra que o direito internacional adquire
sentido dentro de relações de poder e pode servir à liberdade quando mobilizado
por um movimento político. Essa advertência ajuda a evitar tanto a confiança
passiva nos tribunais quanto seu descarte. Documentar crimes, apoiar processos
e exigir responsabilização devem caminhar com pressão sobre os meios que
sustentam a violência. Às instituições e aos ativistas cabe construir essa
persistência. Universidades podem proteger estudantes perseguidos, sustentar
vínculos com pesquisadores palestinos e examinar seus investimentos. Sindicatos
podem discutir contratos e cadeias de fornecimento; editoras, museus e centros
de documentação podem manter a Palestina em seus programas, preservar
testemunhos e remunerar seus autores. Governos precisam ser cobrados por armas,
comércio e cooperação militar. Essas escolhas dão consequência à palavra
solidariedade e tornam mais difícil que a memória pública acompanhe o ritmo
conveniente dos anúncios diplomáticos.
Continuar
falando sobre a Palestina significa, sobretudo, aprender a escutar sem exigir a
cada dia uma nova imagem insuportável. Ninguém deveria precisar exibir o corpo
de seu filho para voltar a merecer atenção. A criança que procura uma escola, o
agricultor impedido de alcançar sua terra e a família que tenta reconstruir uma
casa já têm razões suficientes para exigir nossa presença política.
Aproximamo-nos dos três anos do 7 de outubro com uma responsabilidade que o
“cessar-fogo” não suspendeu. Enquanto a liberdade palestina continuar adiada,
não temos o direito de tratar essa história como assunto encerrado.
Fonte: Por
Rafael Domingos Oliveira, no Blog da Boitempo

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