A
delicada questão do poder nas ecovilas
Ao
longo das visitas que fiz em mais de 50 comunidades antissistêmicas nos cinco
continentes constatei que elas sabem que precisam tratar o poder de forma
alternativa. Assim, buscam inventar estruturas que não repitam o que combatem,
tecendo circularidade de lideranças, consensos e consentimentos explícitos ao
invés de apenas maioria, assembleias comunitárias soberanas. Ao invés de “poder
sobre”, hierárquico, onde uma pessoa ou um grupo busca dominar o destino
coletivo, o “poder com”, participativo, demanda ser construído, e há muitas
formas de fazer isto. Ao invés da tentativa de manter-se continuadamente em
posições de comando, tão comum no velho mundo, inventa-se formas de fazer a
liderança decentralizar-se. A expressão “poder como serviço” sintetiza esta
virada que se pretende nas ecovilas e outros movimentos alternativos: o poder
deixa de ser lugar de domínio e passa a ser entendido como responsabilidade
compartilhada.
Para
examinar de perto como se partilha o poder no contexto das ecovilas podemos
afirmar que antes mesmo de se juntarem, as pessoas que se associam à estas
experiências já têm concepções semelhantes. A tomada de decisões, o uso dos
recursos coletivos, a concepção e aplicação de regras e punições e a narrativa
sobre a comunidade demandam ser feitas de forma inclusiva. A autogestão, a
ideia de que a comunidade precisa ser soberana em suas decisões compartilhadas,
e o poder como um serviço à comunidade são lugares comuns na cultura
ecovileira. Entretanto, na maioria das vezes não há clareza de como um
quotidiano autogestionário deve funcionar. Assim a história de cada ecovila é
uma história de aprendizado e inventividade neste tema. Ao final deste texto
farei um resumo de algumas das metodologias que inspiram as ecovilas: desde
práticas ancestrais de partilha do poder, passando por aquelas criadas no
século XIX pelo movimento cooperativista, socialista e pelo anarquismo, até
chegar à sociocracia, à holocracia, entre outras metodologias contemporâneas.
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O poder como serviço
Quando
o poder é visto como um serviço a ser prestado ao grupo e não como um
privilégio, a tendência é buscar os talentos disponíveis na comunidade para
exercer diferentes formas de servir. Por exemplo: quem organiza os processos
decisórios, marcando as reuniões e cuidando de sua memória necessita ser, no
mínimo, metódico; quem facilita reuniões precisa, ao menos, ter clareza mental
e capacidade de incluir pessoas no debate; quem cuida das finanças coletivas
precisa ter conhecimentos de contabilidade e capacidade de transparência; quem
auxilia nos documentos jurídicos precisa conhecer previamente o tema ou estudar
sobre eles; quem lida com as relações interpessoais precisa ter boa escuta e
empatia; quem lida com a representação da comunidade face ao espaço externo,
precisa expressar-se bem e ter capacidade de diálogo. Em suma, quem assume a
liderança em setores específicos da vida comunitária precisa ter capacidades
reconhecidas pelo grupo.
No
melhor dos casos, bons talentos prestam bons serviços, mas nem sempre a
comunidade dispõe de tantos talentos quanto demanda para se desenvolver. Em
meio a intenso aprendizado, o coletivo vai improvisando como pode, contrata
serviços de terceiros e constrói, na prática, a ideia de que o poder é muito
mais uma responsabilidade do que um privilégio. Achar a pessoa certa para a
tarefa necessária torna-se um imperativo para que a comunidade prospere, e
serviço significa trabalho, esforço, responsabilidade. Quando o poder muda de
significado, nem todo mundo se apresenta para exercê-lo e é aí que se constata
na prática que neste universo a luta pelo poder não é tão disseminada.
Na
medida que a ecovila cresce e se diversifica, o servir vai se tornando menos
pessoal. As demandas de serviço e o volume de decisões aumentam e naturalmente
vão se formando comissões, círculo de serviço ou grupos de trabalho (GTs) com
pessoas com capacidades e habilidades afins. Estes GTs permitem maior
eficiência e a inteligência coletiva vai se desenvolvendo. As comunidades são
atentas para que as capacidades já reveladas sejam impulsionadoras e não
empecilhos para que novos talentos se desenvolvam. Assim, é comum que os GTs
integrem pessoas sem experiência ajudando-as a dominar cada vez mais o tema
para servir ao coletivo. Esta dinâmica vai permitindo a circularidade da
responsabilidade do poder.
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Uma nova cultura sendo construída sobre o exercício do poder
No
cotidiano das ecovilas é uma cultura nova a que vai se criando, tentando ver a
realidade sobre outra perspectiva. No “velho mundo”, os debates sobre a
democracia, por exemplo, raramente incluem a ideia de que submeter-se a um
poder é uma forma de desresponsabilização. Só quando a democracia avança em
direção à democracia participativa é que esta questão é levantada. Nas
comunidades intencionais esta é uma questão chave, pois ao lado da
possibilidade de concentração de poder, o problema do desengajamento em relação
a este também é destruidor. A quem se desengaja, algumas das perguntas
inevitáveis são: o não desejo de assumir responsabilidade não seria um modo de
proteger-se da crítica dos outros? De priorizar interesses pessoais? Uma
maneira de manter-se adolescente exercendo apenas o direito de criticar?
Como o
tema do autoconhecimento é recorrente nas ecovilas – e disto sou testemunha nas
visitas e contatos continuados com várias delas – exercer ou não funções de
serviço e poder é sempre vinculado ao desenvolvimento pessoal. Diante do
compromisso prático gandhiano de “ser a mudança que se quer ver o mundo” muito
comum nas ecovilas, e do desejo de organizar e viver processos transformadores,
questiona-se a quem continuadamente exerce tarefas para a ecovila: O serviço ao
projeto comum estaria se tornando um meio de afirmação pessoal? um movimento do
ego para ser reconhecido? A liderança de serviço não estaria afastando a pessoa
de problemas em outras esferas de suas vidas?
Desde
as primeiras ações coletivas nas ecovilas em processo de criação, a forma como
se exerce o poder é um divisor de águas. É natural que nos primeiros tempos
fundadoras e fundadores tenham certa proeminência. Quem funda ecovilas tem
naturalmente pelo menos três talentos essenciais que os destaca no coletivo:
têm autoestima suficiente para seguir caminhos diferentes daqueles que a
cultura dominante preconiza; têm capacidade de mobilização para trazer pessoas
para integrar o projeto e têm capacidade organizativa para preparar a
constituição real da comunidade. Então, organizam as reuniões e as finanças,
falam em nome da ecovila, pensam no futuro, esboçam os documentos, mediam
conflitos iniciais. O processo paulatino de partilha de responsabilidades de
quem funda a quem vai chegando é um bom indicador de que o projeto está no
caminho certo.
Visitando
ecovilas mais antigas, como Tamera (Portugal), Findhorn (Escócia), Auroville
(India), Christal Waters (Austrália), Terra Una e Terra Mirim (Brasil), entre
outras, que já estão na segunda geração de lideranças, ou mais, vê-se
discussões aprofundadas sobre o papel das fundadoras e fundadores. O primeiro texto desta série já aborda este tema.
Para favorecer a continuidade e renovação da ecovila a cada geração,
pergunta-se “Como não concentrar a liderança em quem é mais experiente no
grupo, fechando-se a mudanças, inclusive geracionais? Como honrar o lugar das
fundadoras e fundadores sem que isto signifique seguir sua autoridade na
definição dos destinos coletivos?
Como em
outros temas que tratei ao longo desta série, construir uma nova cultura exige
equilibrar a compreensão teórica do que consideramos correto e inovador com os
hábitos culturais que se carrega e reproduz, muitas vezes sem perceber. O poder
sobre outras pessoas e a submissão ao poder alheio têm uma longa história na
trajetória humana. Como isso está profundamente interiorizado, o processo de
transição cultural vivido por quem participa de comunidades alternativas exige
levar essa dimensão em conta. De forma simplificada, as práticas de poder que
se busca nesses coletivos podem ser descritas assim: cada pessoa precisa
exercer sua liderança de serviço em algumas áreas e, em outras, reconhecer e
acolher o serviço e a liderança de outras pessoas. Trata-se de uma forma adulta
de viver em coletivo, assumindo deveres e reivindicando direitos, sem vitimismo
nem desejo de dominação. É fácil dizer, mas praticar é um desafio cotidiano
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A liderança circular na cultura comunitária
Se
“liderança de serviço” é um dos conceitos chaves das comunidades, “liderança
circular” é também uma aspiração de base, que busca incluir o maior número de
pessoas em processos decisórios e de prestígio. A partilha de responsabilidade
leva naturalmente a muitas formas desta circularidade. Mandatos curtos,
sorteios para o exercício de funções, alternância no tempo entre homens e
mulheres, entre idosos e jovens, pessoas de diferentes nacionalidades e etnias
para cumprir tarefas são algumas destas formas. A circularidade permite divisão
de tarefas, mas também que diferentes pontos de vista assumam posições de
destaque e o envolvimento de pessoas menos dispostas a assumir
responsabilidades, já que são “intimadas” a isto.
O
tamanho da aglomeração em que as pessoas se encontram é muito definidor das
formas de organização e quanto mais a ecovila cresce, mais complexo vai ficando
o exercício da liderança. É comum, em comunidades menores, que todas as pessoas
estejam integradas em pelo menos um grupo de trabalho. Impede-se assim a
sobrecarga de quem está mais à frente dos interesses coletivos e permite-se a
renovação de lideranças. O funcionamento a partir de grupos de trabalho eleitos
e a coordenação geral destes grupos, formados por um representante de cada GT,
é bastante comum, tendo a assembleia geral como órgão de poder máximo. Em
ecovilas grandes, como Auroville, com mais de três mil pessoas, pode acontecer
que, por vários motivos, muitas e muitos habitantes não participem das
assembleias e deleguem o poder aos GTs, desgastando a democracia participativa
e fragilizando a gestão descentralizada
A
circulação do poder tem, porém, no dia a dia das ecovilas, outro desafio: a
comunidade está constantemente sob pressão já que nada contra a corrente da
cultura do velho mundo. Diante de desafios, é melhor ter pessoas experientes a
enfrentá-los: com mais tempo de vida comunitária, mais carisma, mais formação,
mais contatos, mais clareza verbal. Como colocar neófitos para resolver
problemas legais da ecovila, por exemplo? Pessoas recém-instaladas para mediar
conflitos? Gente inexperiente para lidar com recursos escassos? Pessoas sem
histórico de representação para falar em nome do coletivo? Assim, na prática,
mesmo que a circularidade seja um imperativo, há também certa cristalização de
lugares de autoridade de modo consentido em função de uma lógica operacional. A
tensão entre a tranquilidade de lidar com pessoas experientes e o risco de
concentração de poder e não renovação de lideranças existe. E isto é um fato
que não significa necessariamente desejo de poder sobre outros.
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Desvios de poder
Expressões
de individualismo excessivo e ambição de poder são certamente menos exacerbadas
nas comunidades que conheci do que na sociedade em geral, pela cultura própria
local. Do mesmo modo, é incomum desvios de conduta como corrupção, apropriação
pessoal dos haveres coletivos por pessoas que exercem funções importantes no
coletivo. Isso se relaciona não apenas a outra concepção de poder, mas também a
outra cultura sobre o dinheiro, largamente pensado como energia de
materialização, fonte de possibilidades para viver de maneira distinta da
lógica consumista e egóica tradicional. Este modo engajado de viver concebe o
dinheiro como poderosa ferramenta de mudança estrutural e cultural. A
manutenção compartilhada de equipamentos e serviços, as compras coletivas e a
constituição de fundos de ajuda mútua são exemplos disto. Estes fundos
evidenciam a solidariedade interna entre quem tem mais e menos recursos na
ecovila e são muito usados para financiar a construção de moradias.
Porém,
outros males podem comprometer a boa governança e as dificuldades de
comunicação e de transparência são alguns deles, sem relação com esconder
negócios escusos, como acontece no velho mundo. A própria intensidade com que
as coisas acontecem na comunidade, a variedade de assuntos que se tem que
tratar no dia a dia de uma ecovila significa um desafio à boa comunicação e
prestação de contas. Busca-se evitar que lideranças tenham agenda
excessivamente cheia, falta de tempo para cuidar de si, interiorizar-se e
refletir, para poder comunicar com clareza, mas ainda isto acontece muito. Nos
tempos atuais, a falta de tempo também é comum para quem é beneficiado pelo
serviço comunitário de outrem. Este quadro pode favorecer o pouco diálogo e a
opacidade das informações e gerar problemas. Mesmo construindo micro revoluções
culturais para constituir um modo muito novo de viver, as ecovilas, estando
inseridas na sociedade capitalista, enfrentam desafios constantes, como não
poderia deixar de ser. E revezes também.
Um
último aspecto que interfere no bom exercício do poder como serviço, de modo
circular e probo são as dificuldades de relações interpessoais. Como foi visto
no texto anterior desta série que aborda o
cotidiano das ecovilas, os conflitos impactam muito na governança. Comentários
oriundos de incompatibilidades pessoais sobre quem exerce lugares de poder, por
exemplo, fazem com que pequenos deslizes possam tomar dimensões exageradas. A
prática corrente de analisar o comportamento de lideranças para conter
possíveis desvios de poder podem causar injustiças e cansaço, sobretudo se
incompatibilidades pessoais contaminam o processo. Efetivamente há pessoas que
se aferram a cumprir múltiplas tarefas de serviço comunitário que lhes confere
prestígio e poder de decisão por estarem fragilizadas em outras dimensões da
vida. A mistura das subjetividades com a operacionalidade do exercício do
poder, se é um avanço paradigmático, resta um desafio cultural para ser
resolvido de forma prática. Os inúmeros casos de projetos coletivos e ecovilas
que não foram adiante mostram que são as relações interpessoais e a gestão
coletiva que geralmente estão na origem do fracasso.
Fonte: Por
Débora Nunes, em Visitando o Mundo Novo

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