Pessoas
negras são alvo da maioria dos gastos com prisões em 25 estados e DF, diz
estudo
A cada
R$ 10 gastos com prisões no ano passado, em 26 unidades federativas do país, R$
6 foram dirigidos ao encarceramento de pessoas negras. Essa é uma das
conclusões do estudo realizado pelo Centro de Pesquisa Justa sobre
investimentos em segurança pública nos estados brasileiros. Segundo o
levantamento, divulgado nesta quinta-feira, 17 de setembro, o investimento no
sistema prisional dos estados chegou a R$ 22,3 bilhões, valor que não abrange
apenas o Acre, que não forneceu os dados ao Justa. Desse total, R$ 13,7 bilhões
foram gastos tendo como alvo pessoas pretas ou pardas.
“Cria-se
uma falácia de que pessoas negras cometem mais crimes, por isso que estão
presas. Mas isso é uma falácia. Na verdade, essas pessoas estão sendo
selecionadas pela polícia e, depois, na frente do juiz, que poderia parar esse
processo de seletividade penal, [e também frente ao] Ministério Público. [Essa]
engrenagem vem sendo construída dessa forma, essas pessoas estão sendo o alvo
dessa política de segurança”, explica a advogada do Justa, Sofia Fromer,
doutora em saúde coletiva da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa
(FCMSC) de São Paulo. Para ela, o encarceramento da população negra confirma,
mais uma vez, a existência de lógica punitivista e uma seletividade penal.
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Egressos: um orçamento 5.423 vezes menor
Para a
advogada, a medida mais eficiente para transformar a lógica do sistema
carcerário seria investir em políticas públicas de reinserção para egressos do
sistema prisional. Essa medida, entretanto, está longe de ser priorizada pelos
estados brasileiros. Segundo o Justa, para cada R$ 5.423 gastos em 2025 com as
polícias estaduais (militar, civil e técnico-científica), apenas R$ 1 é
dirigido às políticas para egressos.
Na
comparação com o ano anterior, o investimento permaneceu praticamente o mesmo,
passando de R$ 18 milhões, para políticas exclusivas aos egressos em 2024, para
R$ 19 milhões no ano passado. O valor corresponde, em média, a 0,001% de seus
gastos totais levantados pelo estudo.
Entre
as 26 unidades federativas avaliadas, 19 delas (72%) não investiram em
políticas exclusivas para egressos. Tocantins teve dotação aprovada na Lei
Orçamentária Anual, mas não utilizou os recursos. Rio Grande do Sul e Santa
Catarina registraram investimentos pela primeira vez em 2025, com R$ 414 mil e
R$ 177 mil, respectivamente. Alagoas e Tocantins deixaram de investir. São
Paulo foi o estado que utilizou o maior recurso, R$ 13,3 milhões, seguido pelo
Ceará, com R$ 3,8 milhões. Mato Grosso investiu R$ 781 mil, enquanto a Bahia
despendeu R$ 482 mil.
Para
Fromer, políticas para egressos são multissetoriais, envolvem saúde, educação,
assistência social, além do campo do direito, “para que essas pessoas possam
criar novas rotas e que não seja uma possibilidade que elas precisem voltar
para as prisões”, salienta.
A
advogada lembra que não existe pena perpétua no Brasil, portanto, o Estado
precisa pensar como as pessoas egressas “vão conseguir um trabalho, renda, ter
uma casa, ter os seus documentos. Ter o contato, por exemplo, [no caso] de
mulheres presas, com os filhos que deixaram sob o cuidado de uma outra pessoa”,
explica.
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Policiamento ostensivo recebe a maior parcela do dinheiro
O
estudo também demonstra que se os recursos com a política para manter as
pessoas fora das prisões são baixos, os gastos com a repressão são os mais
altos. O total de investimentos envolvendo os 26 territórios foi de R$ 103,5
bilhões no ano passado, e a maior parte desses recursos foi para as Polícias
Militares, R$ 60,7 bilhões, 58,6% do total, responsáveis pelo policiamento
ostensivo da população. Já as Polícias Civis, que devem investigar os crimes,
receberam R$ 22,2 bilhões (21,5%), e as Polícias Técnico-Científicas ficaram
com a menor parcela, R$ 2,8 bilhões (2,7%), mesmo sendo responsáveis por
atividades como perícia e produção de provas.
“Quando
o investimento em policiamento ostensivo cresce sem que a investigação e
produção de provas avancem na mesma proporção, o sistema amplia sua capacidade
de prender sem necessariamente fortalecer sua eficiência para esclarecer os
crimes. É uma lógica que ajuda a sustentar um modelo de encarceramento em
massa, marcado por fragilidades na apuração da autoria e na produção de
evidências”, avalia Luciana Zaffalon, diretora-executiva do Justa.
Para
Sofia Fromer, as prioridades político-orçamentárias dos estados em segurança
pública não se dão ao acaso. “Realmente existe uma preferência dos estados em
ter um orçamento para as polícias, em detrimento do sistema prisional e das
políticas para egressos.” Segundo a advogada, o investimento maior nas
polícias, em específico, nas polícias militares, cujo caráter é mais ostensivo
nas prisões, aumenta o encarceramento, mas não muda a realidade.
POR QUE
ISSO IMPORTA?
Em
2025, os gastos com polícias no Brasil ultrapassaram a marca dos R$ 100
bilhões, destaca o Centro de Pesquisa Justa.
Nos
últimos três anos, os gastos com as polícias nos estados cresceu, em média,
9,7%, já o investimento no sistema prisional apenas 1,7% e 5,3% nas políticas
exclusivas para egressos.
Ela
explica que a pesquisa do Justa mostra que há um funil, onde a porta de entrada
são os gastos com as polícias passando pelo investimento no sistema carcerário,
até chegar aos gastos com as políticas para egressos. “[Temos] a ‘boca’ muito
alargada do funil, ou seja, o orçamento ali é muito grande, e quando você vai
afunilando, depois [estão] os gastos com o sistema prisional ainda menores, e
com as políticas pregressas, quase inexistentes”.
Por
outro lado, Fromer pensa em uma outra alternativa para mudar a dinâmica
brasileira. Invertendo o funil, ou seja, investindo mais em políticas para
egressos. Segundo ela, essa decisão criaria oportunidades para essas pessoas,
diminuindo as chances de elas retornarem aos presídios.
“Quando
o Estado destina bilhões à entrada e à permanência no sistema prisional, mas
reserva valores residuais para a saída, limita as possibilidades de reinserção
social e mantém condições que podem favorecer a reincidência”, complementa
Luciana Zaffalon.
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Modelo de El Salvador
Entre
os atuais candidatos à presidência da República que concorrem este ano, pelo
menos três deles, Renan Santos (Missão), Flávio Bolsonaro (PL) e Romeu Zema
(Novo) já citaram concordar com o modelo de segurança pública propagandeado
pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele, baseado, principalmente, na
construção de mega-presídios. Questionada se essa inspiração poderia ser
eficiente no Brasil, Sofia Fromer vê restrições.
“Existe,
sim, uma falta de vagas nas unidades prisionais. Se você olhar uma foto de uma
prisão, você vai ver que numa cela onde caberiam 12 pessoas, tem 24, às vezes
até mais. [Vai ver] pessoas em uma condição de total insalubridade. […] Criar
novas vagas não resolve o problema. Se resolvesse, não teríamos mais [o
problema] porque as respostas para a segurança pública, para o sistema
prisional, elas têm sido pautadas, muitas vezes, na construção de novas vagas”,
explica a advogada.
“E aí a
gente vê de novo isso aparecendo com os candidatos, muitos inspirados no
Bukele, [citando] a construção de megas prisões. Isso não funciona aqui no
Brasil, e, de outro ponto de vista, a gente não tem nem orçamento para fazer
essas mega prisões”, acrescenta.
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O Plano Pena Justa e sua eficácia
Em
2025, baseado na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 347 (ADPF
347), determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em outubro de 2023, o
Conselho Nacional de Justiça (CNJ) junto com o Ministério da Justiça e da
Segurança Pública (MJSP), elaborou o Plano Pena Justa, que consiste em
enfrentar o estado de calamidade dos sistemas penitenciários brasileiros. O
objetivo é melhorar a qualidade das prisões e dos serviços, além de controlar
as superlotações nas penitenciárias, além de fortalecer a ressocialização dos
indivíduos. O Plano Pena Justa propõe mais de 300 metas para serem cumpridas
até 2027, e muitas são focadas em políticas para egressos.
O
estudo do Justa mostra, entretanto, que a iniciativa, mesmo já tendo sido
iniciada, ainda não apresentou resultados relevantes. Fromer entende que o
Brasil começará a bater tais metas caso se debruce sobre a questão
orçamentária. “Sem o orçamento, não é possível que todas essas metas do Plano
se efetivem, os estados precisam ter o orçamento determinado para que, de fato,
elas possam ser cumpridas”, pondera.
Fonte:
Por Wanessa Celina, Ludmila Pizarro, daAgencia Pública

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