Aquecimento
global aumenta emissão de metano mesmo em solos de mangue intocados
Manguezais são reconhecidos como importantes
aliados contra as mudanças climáticas por armazenarem grandes quantidades de
carbono, principalmente no solo. Mas, em um experimento realizado por
pesquisadores da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da
USP, foi observado que mesmo em sistemas intocados, com mínima intervenção
humana, o solo pode ter alterações significativas diante do aquecimento,
aumentando as emissões de metano (CH4), um dos gases do efeito estufa. De
acordo com os cientistas, o metano retém mais calor na atmosfera do que o
dióxido de carbono, levando a um impacto imediato ainda mais agressivo no
aquecimento do planeta.
O
estudo, publicado na revista Atmospheric Environment, analisou que a emissão de
CH4 aumentou cerca de 6,4 vezes em relação à condição inicial. Já a liberação
de dióxido de carbono (CO2) caiu cerca de 73% após seis meses de aquecimento
experimental em manguezais localizados no sistema costeiro Cananéia-Iguape, no
litoral sul do Estado de São Paulo, um dos complexos estuarinos mais bem
preservados do Brasil.
A
mudança, de acordo com o estudo, está ligada às condições do próprio solo. Os
manguezais são ecossistemas costeiros periodicamente alagados, o que reduz a
quantidade de oxigênio (O2) disponível no solo. Segundo Manoella Molitor,
doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Geografia Física da USP e primeira
autora do artigo, nesses ambientes, a decomposição da matéria orgânica,
produzida pela vegetação ou ali depositada, ocorre principalmente por processos
anaeróbicos, que não dependem de O2 e possuem um ritmo lento. Como a entrada de
matéria orgânica é mais rápida do que o solo consegue decompor, o saldo final é
um grande acúmulo de carbono ao longo do tempo.
Para
simular o aumento da temperatura, a equipe instalou câmaras de topo aberto
sobre partes do solo. Elas permitem a entrada da radiação solar e reduzem a
perda de calor, o que faz com que a temperatura no interior fique 7 a 12 graus
Celsius (ºC) acima das condições ambientais externas.
Durante
o experimento, os pesquisadores acompanharam mudanças nas características
físico-químicas do solo e mediram os fluxos de CO2 e CH4. O objetivo era
observar como o ambiente responderia ao aumento de temperaturas. “A gente
construiu unidades experimentais em manguezais para simular cenários de
mudanças climáticas”, conta Hermano Queiroz, professor do Departamento de
Geografia da USP e orientador da pesquisa.
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Mudança nas rotas de decomposição
De
acordo com Manoella Molitor, o aumento da temperatura modifica as condições em
que a decomposição acontece, pois intensifica a atividade metabólica e acelera
o consumo do oxigênio disponível. “O ambiente se torna mais redutor, ou seja,
passa a oferecer condições mais favoráveis aos processos anaeróbios”, diz a
pesquisadora.
À
medida que o oxigênio disponível no solo diminui, os microrganismos passam a
utilizar outras substâncias para decompor a matéria orgânica, como o ferro e o
sulfato. Em condições ainda mais escassas em O2, esse processo pode favorecer a
produção de metano. Com o aquecimento, os microrganismos ficam mais ativos e
consomem o oxigênio mais rapidamente, tornando o solo cada vez mais pobre em O2
e favorecendo a produção e a liberação de CH₄ para a atmosfera.
Durante
o experimento, as emissões de CO2 caíram cerca de 73% já no primeiro período de
aquecimento, refletindo uma rápida mudança nas vias de mineralização do carbono
no solo. Em contraste, as emissões de CH4 aumentaram progressivamente ao longo
do experimento, chegando a valores aproximadamente 6,4 vezes maiores sob o
cenário de aquecimento.
A
redução das emissões de CO2 indica uma mudança na forma como o carbono está
sendo mineralizado. “O que nos preocupa é o aumento progressivo e consistente
das emissões de CH4, que sugere uma tendência de alteração no regime de emissão
desses solos sob condições de aquecimento”, afirma Queiroz, ao Jornal da USP.
“Há um
entendimento de que os manguezais são ecossistemas extremamente resilientes,
mas os nossos dados estão mostrando que, na verdade, eles têm as suas
vulnerabilidades” – Hermano Queiroz
Segundo
o docente, o CH4 possui potencial de aquecimento global cerca de 30 vezes
superior ao do CO2. Por isso, a mudança observada no experimento pode
comprometer parte do benefício climático esperado de um solo que, em condições
naturais, funciona como importante reservatório de carbono.
“Os
solos de mangue, que têm sido considerados como os grandes aliados dentro desse
cenário de mudanças climáticas, podem se tornar vulneráveis por conta dessa
alteração de funcionamento, e passam a emitir grandes quantidades de CH4”,
destaca o professor.
Os
pesquisadores ressaltam que o experimento não permite afirmar que essa mudança
será permanente ou que ocorrerá da mesma maneira em todos os manguezais.
As
câmaras simulam um cenário controlado e os resultados correspondem a uma
primeira resposta do solo ao aquecimento. A equipe pretende acompanhar o
fenômeno por períodos mais longos para verificar se o aumento do metano
permanece, e compreender como seria possível evitar ou reverter essa mudança.
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Solo dos manguezais é pouco estudado
O
estudo sobre os impactos do aquecimento climático nos manguezais foi motivado
por um estudo anterior da equipe, publicado na revista Forest, em que
analisaram como os solos desse ecossistema aparecem na produção científica.
“Chegamos a uma lacuna de conhecimento: poucos cientistas, em níveis globais,
trabalham com o solo desse ecossistema, na visão de entender como funciona o
potencial de combater as mudanças climáticas”, relata Queiroz.
A
análise bibliométrica utilizou a base Scopus e examinou trabalhos publicados
entre 1950 e 2025. A equipe começou com pesquisas gerais sobre manguezais e foi
afunilando progressivamente o levantamento para incluir mudanças climáticas,
mitigação e os processos relacionados ao solo.
Dos
30.084 artigos sobre manguezais encontrados no primeiro levantamento, apenas 25
relacionavam explicitamente solos de manguezais à mitigação das mudanças
climáticas. O número corresponde a 0,08% do total. Segundo Manoella Molitor,
quando o armazenamento de carbono dos manguezais é analisado, os estudos
costumam direcionar a atenção para a vegetação e a biomassa. “O solo, apesar de
concentrar grande parte do carbono, recebe menos destaque” relata a autora.
A
pesquisa observou que o aumento no volume de publicações após 2009 coincide com
o surgimento do conceito do carbono azul, que reconheceu a capacidade dos
ecossistemas costeiros e marinhos de sequestrar carbono.
Além da
tendência temporal, o estudo também fez um recorte para os países que mais
produzem artigos sobre manguezais. “O domínio na produção de publicações em uma
abordagem mais generalizada sobre manguezais são de países que não têm grandes
áreas de manguezais, como os Estados Unidos e China, por exemplo”, explica
Queiroz. O orientador explica que isso ocorre devido aos melhores recursos e
infraestruturas desses territórios.
As
pesquisas mais específicas sobre manguezais são protagonizadas por países com
maior proximidade com esse ecossistema, como Brasil, Austrália e Malásia. “O
que os resultados apontam é que, apesar de toda a infraestrutura disponível em
países como Estados Unidos e China, a proximidade geográfica com o ecossistema
é um fator determinante para a produção de trabalhos voltados aos solos de
mangue e às mudanças climáticas, além de refletir uma maior participação de
cientistas especializados em solos”, diz Queiroz.
O
projeto de pesquisa foi financiado com recursos do Projeto BlueShore,
financiado pela Petronas Petróleo Brasil Ltda., por meio da cláusula de
investimento em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) regulada pela
Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). O BlueShore
é desenvolvido no âmbito do Research Centre for Greenhouse Gas Innovation
(RCGI) da USP.
Fonte:
Por Amanda Yoshizaki – Jornal da USP

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