Quem
foi Anne Frank e 9 curiosidades sobre o diário mais famoso do mundo, que agora
é objeto de polêmica no Brasil
O
Diário de Anne Frank, um dos livros mais conhecidos sobre o Holocausto, voltou
ao centro do debate no Brasil depois que uma influenciadora classificou a obra
como "vitimista" durante a 28ª Bienal Internacional do Livro de São
Paulo.
Em um
vídeo publicado no TikTok, o perfil @JovemLiaa abordou uma visitante do evento
e pediu que ela apontasse suas leituras favoritas e aquelas que mais a haviam
decepcionado.
Ao
citar o diário como sua pior leitura e justificar a escolha com a palavra
"vitimista", a entrevista provocou uma onda de reações nas redes
sociais.
O Museu
do Holocausto e a Federação Israelita divulgaram notas de repúdio à declaração.
As duas instituições ressaltaram que o diário precisa ser compreendido dentro
do contexto em que foi escrito: o relato de uma adolescente judia que viveu
escondida durante a perseguição nazista na Holanda.
As
entidades afirmaram ainda que narrar o próprio sofrimento não define uma pessoa
apenas pela condição de vítima e destacaram a dimensão histórica do texto,
escrito durante um dos períodos mais violentos do século 20.
Mas
quem foi Anne Frank? Como era a vida no esconderijo onde ela escreveu? E como
aquelas páginas, produzidas por uma adolescente de 13 a 15 anos, se
transformaram em um dos livros mais lidos do mundo?
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1. Quem foi Anne Frank?
Annelies
Marie Frank nasceu em Frankfurt, na Alemanha, em 12 de junho de 1929. Filha de
Otto e Edith Frank, ela tinha uma irmã, Margot, três anos mais velha.
A
família era judia e deixou a Alemanha em 1933, após a ascensão do Partido
Nazista e a chegada de Adolf Hitler ao poder. Os Frank se mudaram para
Amsterdã, na Holanda, onde Anne passou a frequentar a escola, aprendeu holandês
e fez novos amigos.
A
segurança que encontraram no país, porém, duraria pouco. Em 10 de maio de 1940,
a Alemanha invadiu a Holanda. A ocupação foi acompanhada por uma série de
medidas antissemitas, que restringiam a vida dos judeus e aumentavam
progressivamente sua perseguição.
Otto
Frank tentou emigrar para os Estados Unidos, mas não conseguiu concluir o
processo antes do fechamento dos consulados americanos nos territórios ocupados
pelos alemães.
Em
julho de 1942, Margot recebeu uma convocação para se apresentar a um campo de
trabalhos forçados. A família decidiu então se esconder. Anne tinha 13 anos.
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2. Onde Anne Frank se escondeu?
A
família foi para um espaço escondido nos fundos do prédio onde funcionavam os
negócios de Otto Frank, no número 263 da Prinsengracht, em Amsterdã. A entrada
ficava atrás de uma estante especialmente construída para esconder o acesso.
O
local, que Anne chamava de "anexo secreto", tinha cerca de 120 metros
quadrados.
Além
dos quatro integrantes da família Frank, ali se esconderam Hermann e Auguste
van Pels e o filho deles, Peter, além do dentista Fritz Pfeffer.
Durante
o dia, quando os funcionários do armazém estavam trabalhando, os oito moradores
precisavam evitar qualquer ruído que pudesse revelar sua presença. Não podiam
usar água corrente, dar descarga ou conversar normalmente. Risadas, tosses e
espirros também precisavam ser contidos.
Anne
passava as manhãs estudando e lendo. Depois do almoço, costumava ligar o rádio
para acompanhar as notícias — inclusive as transmissões da BBC.
Quatro
funcionários de confiança de Otto — Miep Gies, Johannes Kleiman, Victor Kugler
e Bep Voskuijl — ajudavam a levar comida, roupas e outros suprimentos para os
clandestinos.
Foi
nesse ambiente de medo, silêncio e confinamento que Anne escreveu a maior parte
de seu diário.
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3. Quando Anne começou a escrever?
No dia
12 de junho de 1942, quando completou 13 anos, Anne ganhou de presente de Otto
um livro de autógrafos de capa de pano xadrez. Ela decidiu transformá-lo em
diário.
Na
primeira anotação, escrita naquele mesmo dia, disse que esperava poder confiar
no caderno como nunca havia conseguido confiar em ninguém e passou a escrever
como se conversasse com uma amiga íntima.
O
diário registrava o que acontecia no esconderijo, mas ia muito além da guerra.
Anne
escrevia sobre as brigas entre os moradores, sua relação com os pais e a irmã,
amizades, mudanças em seu corpo, sexualidade, sentimentos por Peter, livros,
natureza e seus sonhos para o futuro.
Ela
queria se tornar escritora ou jornalista.
Em uma
das passagens mais conhecidas, descreveu sua sensação de confinamento
comparando-se a um pássaro com as asas cortadas, que se atira contra as grades
de uma gaiola.
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4. Quem era Kitty, para quem Anne escrevia?
Kitty
não era uma colega de escola nem uma amiga imaginária de Anne. O nome era de
uma personagem da série infantojuvenil Joop ter Heul, escrita pelo autor
holandês Setske de Haan sob o pseudônimo de Cissy van Marxveldt.
No
começo, Anne direcionava seus textos a diferentes personagens da série. Mais
tarde, passou a escrever principalmente para Kitty.
A
mudança aconteceu depois que ela ouviu pelo rádio o ministro da Educação do
governo holandês no exílio, Gerrit Bolkestein, defender a preservação de
diários, cartas e outros documentos produzidos durante a guerra.
Anne
então decidiu reescrever parte de seus textos pensando em uma futura
publicação.
Em 29
de março de 1944, registrou no diário uma ideia que a empolgava: transformar a
experiência no esconderijo em um livro sobre o "anexo secreto".
Ela não
teria tempo de concluir o projeto.
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5. O diário foi escrito uma única vez?
Não.
Existem quatro versões principais do texto, identificadas pelas letras A, B, C
e D.
A
versão A é o manuscrito original de Anne. A versão B corresponde à reescrita
que ela própria começou a fazer em 1944, pensando em transformar os registros
em um livro.
Já a C
foi organizada por Otto Frank para a publicação de 1947. Nessa edição, ele
retirou ou resumiu trechos que considerava desnecessários, incluindo passagens
sobre a sexualidade de Anne e críticas à mãe, Edith.
Já a
versão D, preparada pela escritora e tradutora alemã Mirjam Pressler e
publicada em 1995, recuperou trechos retirados da edição de Otto e ampliou o
texto. A chamada "edição definitiva" tem mais de 700 páginas.
Por
isso, o texto que milhões de pessoas conhecem como O Diário de Anne Frank é
resultado de um processo de escrita, reescrita e edição.
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6. Como o diário foi publicado?
A
última anotação de Anne é de 1º de agosto de 1944. Três dias depois, em 4 de
agosto, a Gestapo, como era chamada a polícia secreta oficial da Alemanha
nazista, invadiu o esconderijo e prendeu os oito moradores. Até hoje, a razão
pela qual o local foi descoberto permanece em debate.
Os
escritos de Anne ficaram no esconderijo. Miep Gies e Bep Voskuijl recolheram os
cadernos e papéis e os guardaram.
Otto
Frank foi o único dos oito moradores do anexo a sobreviver à guerra. Depois de
retornar a Amsterdã e descobrir que a mulher e as filhas haviam morrido,
recebeu os textos de Anne.
Inicialmente,
ele não conseguia lê-los. A dor era grande demais.
Quando
finalmente abriu os diários, Otto descobriu uma faceta da filha que, segundo
ele próprio, não conhecia daquela maneira. As páginas mostravam uma adolescente
inteligente, expressiva e em processo de amadurecimento, além de revelar seus
conflitos familiares, medos, desejos e ambições.
Otto
fez cópias do material e mostrou os textos a amigos. Um deles, ligado a uma
editora, o convenceu de que o diário não deveria permanecer apenas como um
documento privado.
Em 25
de junho de 1947, sob o título Het Achterhuis — ou O Anexo Secreto — foi
publicado na Holanda. A primeira tiragem teve pouco mais de 3 mil exemplares.
Nos
Estados Unidos, o livro foi lançado em 1952 com o título Anne Frank: The Diary
of a Young Girl, ou Anne Frank: O Diário de uma Garota. Antes disso, teve sua
publicação recusada por 15 editoras americanas.
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7. Quando Anne Frank morreu?
Depois
de serem presos, os moradores do anexo foram levados para o complexo de campos
de concentração Auschwitz-Birkenau. Otto foi separado da mulher e das filhas.
Anne e
Margot foram posteriormente transferidas para Bergen-Belsen, na Alemanha. As
condições no campo eram extremamente precárias e as duas adoeceram.
Elas
morreram de tifo — um grupo de doenças infeciosas e agudas transmitidas através
da picada de piolhos, pulgas ou ácaros — em fevereiro de 1945, com poucos dias
de diferença. Anne tinha 15 anos.
Uma das
últimas pessoas a vê-la com vida foi Nanette Blitz Konig, sua antiga colega no
Liceu Judaico de Amsterdã. As duas voltaram a se encontrar em Bergen-Belsen,
separadas por uma cerca de arame farpado.
Anne
morreu poucas semanas antes de o campo ser libertado por tropas britânicas, em
abril de 1945.
Seu
corpo e o de Margot foram enterrados em uma vala comum.
Nanette
Konig sobreviveu e, mais tarde, se casou e se mudou para São Paulo.
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8. O diário é verdadeiro?
Sim.
Mesmo assim, durante décadas o diário foi alvo de alegações de falsificação,
sobretudo entre pessoas que negavam ou relativizavam o Holocausto.
Entre
as teorias que circularam estava a de que Otto Frank teria escrito os textos da
filha. Outras apontavam Miep Gies ou o dramaturgo americano Meyer Levin como
possíveis autores.
Especialistas
em caligrafia contratados pelo Instituto para Documentação de Guerra examinaram
os manuscritos e confirmaram sua autenticidade.
O
diário também já foi alvo de tentativas de censura. Em 1983, uma escola no
Alabama, nos Estados Unidos, tentou bani-lo por considerá-lo
"depressivo". Em 2018, uma escola de Vitória, no Espírito Santo,
suspendeu sua leitura depois que trechos foram classificados como
"pornográficos".
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9. Por que o diário se tornou tão famoso?
Anne
morreu aos 15 anos sem ver seu sonho de se tornar escritora realizado. Mas seu
relato acabou chegando a milhões de pessoas.
O livro
foi traduzido para mais de 70 idiomas e vendeu mais de 35 milhões de exemplares
em todo o mundo — cerca de 400 mil deles no Brasil.
A obra
também foi adaptada para o teatro, cinema, documentários, quadrinhos, animações
e experiências de realidade virtual. Em 1956, a versão teatral recebeu o Prêmio
Pulitzer. Três anos depois, a história foi levada às salas de cinema.
Em
1960, o antigo esconderijo da família em Amsterdã foi transformado na Casa de
Anne Frank, aberta ao público. O local recebe, em média, cerca de 1,2 milhão de
visitantes por ano.
O
diário original está preservado e exposto no museu.
A
importância da obra está também na perspectiva que ela oferece: em vez de
apresentar apenas números e acontecimentos históricos, registra o cotidiano de
uma adolescente que continuava estudando, brigando com os pais, se apaixonando,
fazendo planos e escrevendo enquanto era perseguida pelos nazistas.
Anne
registrou certa vez que queria "continuar vivendo depois da minha
morte".
Otto
Frank, ao explicar décadas depois por que decidiu publicar os escritos da
filha, resumiu o sentido que atribuía àquela frase: por meio do diário, Anne
continuaria vivendo na memória e no coração de outras pessoas.
Fonte:
BBC News

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