Livros
proibidos: por que obras são censuradas e o que isso revela sobre uma
sociedade?
Livros
já foram colocados em listas de proibições da Igreja, queimados em praças,
confiscados por agentes públicos e retirados de bibliotecas escolares. Em cada
período, a justificativa assumiu uma forma diferente. Fé, moralidade, segurança
nacional, sexualidade, raça e proteção de crianças aparecem entre os argumentos
usados para limitar determinadas leituras.
A
história dos livros proibidos acompanha disputas sobre quem pode produzir
conhecimento, quais interpretações podem circular e quem terá acesso a elas.
Por isso, olhar apenas para o conteúdo de uma obra explica pouco. Também é
preciso entender quem tentou restringi-la, quais poderes estavam disponíveis e
quais conflitos políticos, religiosos ou culturais cercavam aquela decisão.
Essas
práticas atravessaram instituições distintas, da Igreja Católica ao nazismo à
ditadura civil-militar brasileira. No século XXI, livros continuam sendo
retirados ou restringidos em escolas e bibliotecas.
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Censura literária restringe a circulação e o acesso aos livros
A
censura literária envolve medidas que interferem na publicação, circulação ou
possibilidade de acesso a uma obra por causa de seu conteúdo. A forma assumida
pela restrição depende de quem exerce esse poder.
Uma
instituição religiosa pode orientar seus seguidores a evitar determinados
textos. Um governo pode proibir a publicação e mandar apreender exemplares. Uma
administração escolar pode retirar um título da biblioteca ou limitar seu
acesso. Há ainda pressões de grupos organizados capazes de influenciar decisões
sobre acervos.
Crítica
e censura produzem efeitos diferentes. Você pode considerar um livro ofensivo,
equivocado ou inadequado e contestá-lo publicamente. A obra permanece
disponível para leitura, resposta e debate. A censura envolve uma medida que
restringe esse acesso.
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A normalização do banimento de livros
Essa
diferença aparece na metodologia do relatório The Normalization of Book
Banning, da PEN America. A organização acompanha a retirada de livros das
escolas públicas dos Estados Unidos e considera diferentes graus de restrição.
Um título pode ser completamente proibido, permanecer fora do acervo enquanto
passa por avaliação ou continuar disponível sob condições, como limites por
série escolar ou exigência de autorização dos responsáveis.
A
pesquisa também ajuda a entender como essas restrições são produzidas. Segundo
a PEN America, a pressão deixou de se concentrar apenas em pedidos apresentados
a conselhos escolares.
Legislativos
estaduais aprovaram normas sobre materiais educacionais, departamentos de
Educação emitiram orientações para escolas, autoridades divulgaram listas de
obras consideradas inadequadas e alguns distritos criaram listas preventivas de
títulos que não deveriam ser adquiridos. Professores, bibliotecários e
administradores também passaram a evitar determinadas obras diante da
possibilidade de contestação.
Por
isso, o relatório usa a expressão “normalização do banimento”. A análise
descreve um cenário em que retirar ou restringir livros passa a integrar a
rotina administrativa de parte das escolas, inclusive antes de uma contestação
formal. A PEN America relaciona esse processo à combinação de pressões locais,
legislações estaduais e decisões de autoridades públicas.
A
metodologia também ajuda a estabelecer um cuidado importante para qualquer
discussão sobre livros proibidos. Uma avaliação pedagógica sobre idade
recomendada, uma crítica pública e a retirada de uma obra produzem
consequências diferentes. Para identificar censura literária, é preciso
observar quem tomou a decisão, qual justificativa foi apresentada, quanto tempo
dura a restrição e, principalmente, o que aconteceu com a possibilidade de o
leitor acessar aquele livro.
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O Index Librorum Prohibitorum levou a censura ao campo religioso
Um dos
exemplos mais conhecidos de controle sobre livros foi o Index Librorum
Prohibitorum, publicado pela Igreja Católica em 1559 para orientar os fiéis
sobre publicações consideradas ameaças à fé e à moral.
Os
próprios documentos do Vaticano ajudam a compreender sua função. A lista só foi
abolida em junho de 1966, quando a Congregação para a Doutrina da Fé publicou
uma notificação sobre o status do índice de livros proibidos. O texto afirma
que o mecanismo havia sido utilizado para preservar a integridade da fé e da
moral e determina que ele deixaria de possuir força de lei eclesiástica e as
censuras associadas.
Na
prática, a decisão mudou o peso do índice de livros proibidos dentro da Igreja.
A lista deixou de funcionar como uma norma eclesiástica cuja violação poderia
gerar as sanções previstas pelo direito da instituição. O Vaticano, porém, não
declarou que todas as obras incluídas no índice passavam a ser consideradas
adequadas. A própria notificação de 1966 manteve o Index como uma referência de
caráter moral, transferindo maior responsabilidade aos fiéis para avaliar
leituras consideradas capazes de colocar a fé e a moral em risco.
A
Igreja continuou orientando os católicos a evitar escritos considerados capazes
de ameaçar esses princípios. A diferença estava no instrumento utilizado: o
índice já não produziria as mesmas consequências jurídicas dentro da
instituição.
Em
novembro daquele ano, outro decreto do Vaticano confirmou que os cânones
ligados à proibição de livros e às punições previstas para seus transgressores
deixavam de vigorar. O caso mostra como a definição de uma obra considerada
perigosa pode partir de uma autoridade religiosa e dos valores que ela pretende
preservar.
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O nazismo transformou livros e autores em alvos políticos
Na
Alemanha, a relação entre literatura e poder assumiu outra forma depois da
chegada de Adolf Hitler ao governo. Em maio de 1933, estudantes universitários
pró-nazistas realizaram queimas de livros em mais de 20 cidades. Segundo a
Enciclopédia do Holocausto, do United States Holocaust Memorial Museum, dezenas
de milhares de exemplares foram destruídos.
As
ações partiram principalmente de organizações estudantis alinhadas ao nazismo e
receberam apoio de autoridades do regime. Os livros escolhidos eram
classificados como “não alemães”.
Entre
os alvos estavam autores judeus, obras pacifistas, textos contrários à guerra e
publicações associadas ao socialismo e ao comunismo. A seleção indica o sentido
político da campanha. A destruição buscava afastar da cultura alemã ideias e
autores considerados incompatíveis com o nazismo.
Esse
episódio ajuda a responder por que regimes autoritários dedicam atenção aos
livros. Uma obra pode conservar interpretações do passado, defender projetos de
sociedade e oferecer linguagem para grupos que o poder pretende excluir ou
perseguir.
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No Brasil, a ditadura transformou a censura de livros em política de Estado
A
censura literária brasileira antecede o golpe militar de 1964. Durante o Estado
Novo, livros foram apreendidos em livrarias, editoras e bibliotecas, enquanto
algumas publicações chegaram a ser destruídas. Depois de 1964, os primeiros
anos foram marcados por invasões, apreensões e ações policiais sem um
procedimento único. Nesse momento, a repressão atingia inclusive obras que já
estavam em circulação.
A
partir de 1970, o controle sobre livros ganhou procedimentos mais definidos. A
análise das publicações ficava a cargo dos órgãos federais de censura, entre
eles o Serviço de Censura de Diversões Públicas (SCDP), posteriormente
denominado Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP). A mudança de
nomenclatura acompanhou reorganizações administrativas do aparato censório, que
também examinava outras produções culturais.
Nesse
período, o regime também ampliou o uso da censura prévia, mecanismo que
permitia examinar uma publicação antes de sua circulação e impedir que o
conteúdo chegasse ao público. Isso se diferenciava das apreensões ocorridas nos
primeiros anos da ditadura, quando agentes podiam recolher livros que já
estavam em editoras, livrarias, bibliotecas ou outras instituições.
O
Arquivo Nacional registra que o Decreto-Lei nº 1.077, de 26 de janeiro de 1970,
ampliou esse controle sobre livros e periódicos. A norma autorizava o
Ministério da Justiça a verificar publicações e proibir aquelas enquadradas nos
critérios adotados pelo regime, entre eles conteúdos considerados contrários à
moral e aos bons costumes. A repressão também alcançava materiais classificados
como subversivos ou relacionados a ameaças à segurança nacional.
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Uma denúncia podia iniciar o processo contra um livro
Na
prática, a censura de todo o mercado editorial era inviável, por isso muitas
ações começaram após uma denúncia. Um livro considerado imoral ou subversivo
podia ser levado ao Ministério da Justiça. Um assessor analisava a publicação e
emitia um parecer. A partir dessa avaliação, o ministro poderia determinar sua
apreensão.
Entre
alguns casos aparecem Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca, Zero, de Ignácio de
Loyola Brandão, Dez Estórias Imorais, de Aguinaldo Silva, e Em Câmara Lenta, de
Renato Tapajós, entre outros.
Dez
Estórias Imorais, publicado em 1967, teve publicação e circulação proibidas em
1976 sob a justificativa de conter matéria contrária à moral e aos bons
costumes. A trajetória do autor também fazia parte do contexto: Aguinaldo Silva
atuou em jornais de oposição ao regime e posteriormente participou da criação
de O Lampião, voltado à discussão dos direitos de minorias.
A
disputa em torno dos livros também envolvia a promoção de determinadas ideias.
O Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPÊS), organização criada em 1961
por empresários e intelectuais e que atuou na oposição ao governo João Goulart,
utilizou publicações como parte de sua estratégia de intervenção no debate
político. O instituto estabeleceu convênios com empresas do setor editorial
para produzir e distribuir obras alinhadas às ideias defendidas pela
organização. Entre fevereiro de 1962 e junho de 1963, o IPÊS distribuiu 2,24
milhões de livros e folhetos, em uma atuação voltada à difusão de conteúdo
anticomunista e de oposição ao governo Goulart.
O
episódio apresenta outra dimensão da disputa sobre a circulação de ideias no
período. Enquanto determinadas publicações seriam posteriormente perseguidas e
retiradas de circulação pelo regime, organizações que participaram da
mobilização política anterior ao golpe investiam na produção e distribuição de
materiais favoráveis às suas próprias posições.
Os
mecanismos gerais de censura durante a ditadura atingiram imprensa, música,
teatro, cinema e literatura. O controle sobre livros fazia parte de uma
política mais ampla sobre informação e produção cultural.
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A Constituição de 1988 ampliou a proteção contra a censura
Com a
redemocratização, a liberdade de expressão passou a receber proteção explícita
na Constituição. O artigo 5º da Constituição Federal de 1988 garante a livre
manifestação do pensamento e estabelece que a atividade intelectual, artística,
científica e de comunicação pode ser exercida independentemente de censura ou
licença.
Mas a
mudança jurídica não encerrou as disputas sobre quais obras deveriam circular.
Em
2019, por exemplo, durante a Bienal do Livro do Rio de Janeiro, a gestão de
Marcelo Crivella tentou restringir a circulação da HQ Vingadores: A Cruzada das
Crianças, que trazia uma cena de beijo entre dois personagens masculinos. A
questão chegou ao Supremo Tribunal Federal. Segundo o registro do STF, a
prefeitura havia advertido que livros sobre relações homoafetivas
comercializados sem embalagem lacrada e aviso poderiam ser apreendidos.
Dias
Toffoli suspendeu a decisão que permitia a medida e afirmou que ela atingia
liberdade de expressão artística, direito à informação e igualdade. Para o
ministro, a democracia depende de um ambiente em que diferentes convicções
possam circular e ser confrontadas.
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Restrições a livros chegaram às escolas brasileiras
As
disputas mais recentes envolvem principalmente acervos escolares e critérios
sobre acesso de crianças e adolescentes. Nesse contexto, a discussão sobre
censura passa por decisões de secretarias de Educação, direções escolares e
outros agentes responsáveis pela seleção e disponibilidade das obras.
Em
2024, a obra O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório, sofreu proibições em redes
públicas de ensino de alguns estados. À época, em entrevista ao ICL Notícias, o
escritor atribuiu o movimento ao avanço da extrema direita e situou o episódio
dentro de uma disputa política sobre os temas que podem circular nas escolas.
Publicado
em 2020, O Avesso da Pele acompanha uma família negra e aborda questões como
racismo, violência e relações familiares. Segundo Tenório, os questionamentos à
obra se concentraram especialmente em determinados trechos e palavras retirados
do contexto mais amplo do romance. O autor argumentou que esse tipo de leitura
desconsiderava a construção literária do livro e afirmou que a controvérsia
fazia parte de uma “guerra de narrativas” sobre educação e cultura.
O caso
ajuda a entender uma característica das controvérsias atuais: uma obra pode
continuar sendo publicada e vendida normalmente e, ao mesmo tempo, ter sua
circulação restringida dentro de uma rede de ensino. Por isso, falar em livros
proibidos atualmente exige identificar o alcance da medida. A discussão em
torno de O Avesso da Pele dizia respeito ao acesso de estudantes a uma obra
selecionada para uso educacional, e não à proibição de sua circulação para toda
a sociedade.
Outro
episódio ocorreu em Santa Catarina. Em novembro de 2023, um ofício determinou
que nove títulos fossem retirados do acesso da comunidade escolar. A orientação
estabelecia que as obras deveriam permanecer armazenadas em um local onde
alunos e demais integrantes das escolas não pudessem consultá-las.
Entre
os títulos atingidos estavam Laranja Mecânica, de Anthony Burgess, It: A Coisa,
de Stephen King, Os 13 Porquês, de Jay Asher, Donnie Darko, de Richard Kelly, e
Coração Satânico, de William Hjortsberg. A medida, portanto, não envolveu uma
única obra ou autor, mas um conjunto de livros presentes nos acervos escolares.
A
Secretaria de Educação de Santa Catarina contestou a classificação de censura.
A pasta afirmou que os livros seriam redistribuídos e que a medida buscava
adequar as obras às faixas etárias e modalidades de ensino. A justificativa
introduz justamente uma das questões centrais do debate sobre censura em
escolas: onde termina a seleção pedagógica e começa uma restrição indevida ao
acesso? No caso catarinense, havia uma determinação administrativa para tornar
os títulos inacessíveis naquele momento, enquanto o governo sustentava que a
finalidade era reorganizar sua distribuição.
Os dois
episódios mostram por que casos contemporâneos precisam ser analisados a partir
da medida adotada, de sua justificativa e de seu alcance. Uma avaliação de
faixa etária, uma retirada temporária e uma proibição permanente não produzem o
mesmo efeito. Observar quem tomou a decisão e se o estudante continua podendo
acessar a obra ajuda a diferenciar uma escolha pedagógica de uma política de
restrição à leitura.
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Extrema direita e pânico moral renovam a censura de livros
O
avanço de movimentos de extrema direita recoloca escolas, bibliotecas e livros
no centro de disputas culturais. Temas como racismo, gênero e sexualidade
passaram a ser apresentados por esses grupos como ameaças às crianças, à
família ou a determinados valores sociais. Esse pânico moral cria um ambiente
em que obras deixam de ser discutidas apenas pelo conteúdo e passam a ser
tratadas como um risco que justificaria sua retirada de circulação.
Nos
Estados Unidos, essa dinâmica ganhou escala. A PEN America identificou
restrições a 3.752 títulos em 87 distritos escolares de 23 estados no ano
letivo de 2024 a 2025. A American Library Association registrou ainda que quase
72% das contestações a materiais de bibliotecas em 2024 partiram de grupos
organizados e autoridades eleitas, mostrando o peso da mobilização política
nesse processo.
Os
contextos brasileiro e norte-americano têm legislações e sistemas educacionais
diferentes. O ponto de contato está na estratégia política: transformar
determinados conteúdos culturais em ameaças morais pode criar apoio social para
restringir seu acesso. Nesse cenário, a disputa sobre livros também se torna
uma disputa sobre raça, sexualidade, educação e sobre quem participa da
definição do que pode ser lido nas escolas.
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Democracia permite contestar livros sem proibir sua leitura
Questionar
uma obra faz parte do debate público. Uma sociedade pode discutir racismo
presente em um clássico, linguagem sexual em um romance, posições políticas de
um autor ou a adequação de determinado livro para uma faixa etária.
Esse
questionamento não exige concordância com o conteúdo. Também não impede que
você leia a obra e forme sua própria interpretação.
A
trajetória dos livros proibidos mostra o que muda quando autoridades e
instituições passam a retirar essa possibilidade. Indexação religiosa, queima
pública, apreensão policial e retirada de bibliotecas pertencem a contextos
distintos, porém interferem sobre quais textos chegam ao leitor.
Em uma
democracia, divergências sobre literatura podem ser enfrentadas por crítica,
contextualização, pesquisa e debate. A liberdade intelectual preserva esse
conflito porque mantém diferentes interpretações em circulação.
Um
livro pode ser contestado durante décadas. Enquanto continuar acessível, também
poderá ser relido, criticado e confrontado por outras ideias. A democracia não
depende de eliminar divergências sobre o que deve ser lido, mas de preservar o
espaço em que essas divergências possam ser discutidas.
Fonte:
ICL Notícias

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