Jean
Marc von der Weid: Vitórias de Pirro
Todo
mundo conhece a expressão do título deste artigo, significando uma vitória de
curto prazo cujo preço é a derrota final. Sua origem é uma batalha travada
entre a os exércitos da república romana no século dois antes da era dita (no
ocidente) cristã e os do reino do Épiro, localizado nos atuais Balcãs. Os
epirotas bateram o exército romano, mas com tal custo em vidas de seus soldados
que o rei Pirro declarou, profeticamente, “mais uma vitória como essa e
estaremos derrotados”. Este artigo procura mostrar que o exemplo histórico se
reproduz neste contexto do enfrentamento no STF.
Como a
opinião pública, medida em manifestações nas redes e em pesquisas de opinião,
reagiu ao espetáculo da reunião do pleno do STF em 16/9? Segundo a pesquisa
Atlas/Intel 49,5% dos entrevistados consideram que Lula foi o maior
prejudicado, com 20,9 apontando para Flávio e 14,4 apontando para ambos.
O grupo
constituído por Alexandre de Moraes, Flávio Dino, Cristiano Zanin e Gilmar
Mendes conseguiu evitar que o primeiro fosse submetido a uma investigação sobre
a possível colaboração com o banqueiro Daniel Vorcaro contra o pagamento de 130
milhões de reais ao escritório de advocacia de sua esposa. Frente à certeza de
que o presidente da Corte usaria o voto de Minerva para desempatar o voto do
próprio Edson Fachin, Carmem Lúcia, Luiz Fux e André Mendonça, o ministro
Flávio Dino retirou o seu voto e pediu vistas do processo com prazo de 90 dias
para voltar a emiti-lo.
Qual o
argumento usado por Alexandre de Moraes e seus aliados para não abrir a
investigação? O grupo advogou a necessidade de isonomia entre Alexandre de
Moraes e André Mendonça e, portanto, a discussão simultânea da abertura de
investigação sobre Alexandre de Moraes e a abertura de investigação de André
Mendonça por abuso de poder ao pedir à Polícia Federal as conversas de Daniel
Vorcaro com Alexandre de Moraes contidas no celular do banqueiro. Os abusos de
André Mendonça se estenderam ao abrir o dossier da PF ao público com clara
intenção político eleitoral, antes mesmo de encaminhá-lo para o presidente da
Corte.
Há
forte indício de que André Mendonça atuou com interesse político para servir ao
seu “patrono”, Jair Bolsonaro, e seu filho candidato à presidente e que ele, de
fato, abusou de sua prerrogativa de relator do processo do banco Master. Se o
pleno do STF concordasse com esta denúncia, cuja discussão estava marcada por
Edson Fachin para a próxima terça feira, o pedido de investigação contra
Alexandre de Moraes estaria automaticamente anulado por um vício processual.
Entretanto, se a abertura do processo contra Alexandre de Moraes fosse votada
antes do debate e voto sobre os vícios processuais, seria necessário a anulação
desta decisão na reunião seguinte.
O
pedido de juntar as duas discussões em uma só reunião foi uma fórmula bizarra
para alcançar o objetivo de impedir o processo contra Alexandre de Moraes. O
grupo poderia ter defendido um debate preliminar sobre a validade do pedido da
abertura de investigação de André Mendonça sobre Alexandre de Moraes indicando
o vício processual de origem da proposta. Lembremos que este vício de origem é
a necessidade de uma decisão do pleno e não uma decisão monocrática do relator
para que um ministro seja investigado.
Ora, se
o plenário estava reunido para deliberar exatamente sobre a decisão de
investigar Alexandre de Moraes, como justificar a anulação? O pleno do STF
poderia ter tomado a decisão processualmente correta de abrir a investigação e
na reunião seguinte punir Mendonça por seus abusos ao tentar fazê-lo por
iniciativa própria.
Se as
iniciativas do grupo pró Alexandre de Moraes fossem bem-sucedidas e anulado o
pedido de investigação por vício processual, Edson Fachin poderia pedir uma
nova reunião para votar a mesma proposta, agora processualmente correta. Tudo
que o grupo ganharia seria tempo pois, a não ser que a PF tivesse forjado
provas contra Alexandre de Moraes, não haveria como escapar da necessidade de
se investigar o ministro.
A
percepção do público, que não conhece nem se interessa por meandros
processualísticos, é que Alexandre de Moraes tem que se explicar pelo contrato
de sua esposa e pelas 52 mensagens trocadas pelo ministro com Daniel Vorcaro
que sugerem uma colaboração nada republicana, para dizer o mínimo.
O
público também entende que Alexandre de Moraes e o seu grupo de apoio tem
vínculos com o presidente Lula, não só porque Flávio Dino e Cristiano Zanin
foram indicados por ele, mas porque Alexandre de Moraes tornou-se um agente
político até para restabelecer o entendimento entre o presidente do Senado,
Davi Alcolumbre e Lula há umas poucas semanas atrás. Neste tiroteio ninguém
parece lembrar que Edson Fachin e Carmen Lúcia também foram indicados por Lula,
mas o fato de que Cristiano Zanin foi advogado de Lula e Flávio Dino seu
ministro da Justiça nunca é esquecido.
Por
outro lado, Alexandre de Moraes foi o mais importante ministro no processo
contra a tentativa de golpe que levou o patriarca do clã Bolsonaro para a
prisão. Como Lula é o símbolo mais importante do anti golpismo, o público,
insuflado pelo bolsonarismo, vê os dois como cúmplices. Esta percepção de
identidade se fortaleceu com o longo silêncio de Lula sobre o pedido de
investigação de Alexandre de Moraes e pela feroz defesa do ministro por uma
parte da esquerda.
O duelo
no OK Curral serviu para o bolsonarismo explorar uma narrativa apontando para
um grupo pró Lula no STF buscando encobrir malfeitos de um dos seus enquanto o
“herói do povo” e “guardião da moralidade pública” André Mendonça, o “ungido do
senhor”, nas palavras de madame Bolsonaro, vem se batendo sozinho como Davi
contra Golias e os filisteus (Alexandre de Moraes e seu grupo). Por enquanto
esta mensagem vem jogando uma bomba no colo do Lula e fazendo esquecer aquilo
que o Mendonça escondeu cuidadosamente no seu processo: o fato de que Flávio
Bolsonaro está sendo investigado por várias suspeitas de crime nas suas
relações com Daniel Vorcaro.
Este
último fato já vinha sendo apontado pela imprensa, mas até o próprio André
Mendonça abriu uma investigação (mantida sob sigilo máximo) sobre os malfeitos
de Flávio Bolsonaro sugerindo que o celular de Daniel Vorcaro contém mais fatos
comprometedores. Parece contraditório com a militância de André Mendonça a
favor de Flávio na denúncia pública de Alexandre de Moraes? O mais provável é
que André Mendonça não pôde deixar de fazer este gesto, confiando que uma vez
eleito ele ficaria isento de processos anteriores ao exercício do seu mandato e
que estaria protegido até lá pelo sigilo sob seu controle.
O único
bom resultado do faroeste caboclo da última quarta-feira – foi a abertura de
todo o conteúdo do celular de Daniel Vorcaro, apesar das resistências de André
Mendonça.
Apesar
da publicidade maior das acusações contra Flávio Bolsonaro com a abertura do
arquivo do celular de Daniel Vorcaro, o foco em Alexandre de Moraes permitiu
que a repercussão ainda seja muito menor do que poderia ser. E a paralisia do
caso Moraes impede que se faça a tempo uma redistribuição do processo do Master
para outro relator que poderia pedir a já muito protelada quebra de sigilos
telefônico e financeiro de Flávio Bolsonaro que poderia ser fatal para o
candidato.
No
frigir dos ovos a estratégia de André Mendonça a favor de Flávio Bolsonaro está
funcionando, apesar dos percalços e derrotas do relator na sua tentativa de
encobrir seu candidato. E isto tem a ver com a defesa feroz da não investigação
de Alexandre de Moraes.
Para
André Mendonça, estas derrotas são de somenos importância se Flávio Bolsonaro
for eleito. Na presidência, o bolsonarinho poderá alterar a relação de forças
no STF, garantindo de cara um voto a mais no lugar vago de Luiz Roberto
Barroso, isto sem falar em processos de impeachment no Senado contra Alexandre
de Moraes e Dias Toffoli, os mais expostos no caso Vorcaro. Com um Senado com
maioria bolsonarista não seria difícil ampliar a degola e impichar também
Flávio Dino e Cristiano Zanin, dando à extrema direita a maioria no STF.
E não
se espantem se esta nova conjuntura levar a anulação da totalidade do processo
contra Daniel Vorcaro, mais uma vez, como na Lava Jato, por razões processuais.
O próprio Vorcaro está apostando nisso, ao manter Flávio Bolsonaro
cuidadosamente ausente de suas várias tentativas de delação premiada.
Alexandre
de Moraes ganhou o primeiro round do duelo por sua sobrevivência, mas,
como Pirro, tende a ser aniquilado depois das eleições.
A
esquerda que se levantou em armas para defender Alexandre de Moraes esquece
como é difícil justificar a posição de acusados pegos com a boca na botija
apenas com argumentos processuais. O público não se deixa enganar com
tecnicalidades, mesmo que juridicamente elas prevaleçam. É por isso que a
anulação das condenações da Lava Jato não convenceu o eleitorado e seguem
assombrando as candidaturas de Lula e do PT. Como dizia Salazar em sua única
frase que merece ser recordada: “em política, o que parece, é”.
¨
Uma crítica estética do STF. Por Eugênio Bucci
No dia
15 de setembro, a sessão extraordinária do Supremo Tribunal Federal mereceu
transmissão ao vivo em canais diversos, da GloboNews à CNN Brasil,
da Band News ao UOL. Todo mundo acompanhou. Até você, na certa.
Mais uma vez, a TV Justiça viveu horas de campeã de audiência, apesar de
suas câmeras mortiças. Quando surge uma altercação, as objetivas insistem em
não mostrar o ministro divergente que, dando-se por ofendido, interpela o
colega que tem a palavra. Para o telespectador, é muito aflitivo. Ele que adivinhe
quem é o dono da voz que está ali reclamando.
Mas não
importa. O show não pode parar. Ainda que mal enquadradas, as
jus-celebridades arrebatam os olhos de plateias, mesmo quando seus prolegômenos
enveredam por trilhas indecifráveis, mesmo quando a heurística, a hermenêutica,
dogmática e a zetética se rebaixam a insultos vis entre pares. Suas
excelências, grossas e cascudas, já se acostumaram ao estrelato.
É
curioso constatar como essas personalidades acabaram por se amoldar ao showbiz,
projetando seu “eu ideal” e sua subjetividade pública segundo as leis do
entretenimento – e, em menor grau, da República. Elas cintilaram quando
examinaram o vulgo “mensalão”. Depois, quando se debruçaram sobre o dito
“petrolão”, ganharam mais aplausos. Finamente, atingiram o auge do “estado de
celebridade de direito” por ocasião do julgamento da tentativa de golpe de
Estado perpetrada em 8 de janeiro de 2023. Por pouco não desfilaram em cima de
trios elétricos pelas capitais.
No
nosso país, as estrelas da corte suprema são incomparavelmente mais famosas do
que John Lennon (aquele que disse ser mais famoso do que Jesus Cristo) e
sobejamente mais conhecidas do que os jogadores de futebol do escrete
canarinho. Pode-se dizer que, antes de compor um colegiado, elas compõem um
elenco.
Desta
vez, entretanto, os holofotes que se acenderam em torno do vistoso casting
têm motivos menos heroicos. As razões da atual temporada são espinhosas,
nauseantes. O roteiro do espetáculo não passa mais por julgar suspeitos de
corrupção nos poderes Executivo e Legislativo; a trama não envolve processos
contra delinquentes que atentaram contra o Estado de Direito. Na sessão de
anteontem, tratava-se de saber se integrantes do pleno mais pleno do planeta, o
mais cheio de si, o mais em plenitude, podem ou não podem ser investigados. A
pauta era grave, quase um vexame.
O pleno
pleníssimo deveria dar uma resposta. Não poderia tardar – esse é um dos casos
em que a Justiça, quando tarda, falha. Em todos os auditórios, uma desconfiança
se avoluma sobre a credibilidade do tribunal e qualquer protelação seria
perigosa. Não obstante, no final do dia, em lugar da resposta veio a
protelação. O que era ruim ficou muito pior. Aquilo que tinha de ser sabido não
foi sabido. O esclarecimento não se fez. A explicação sobre os fatos não se
ouviu. O insustentável se perenizou e a dúvida ética assumiu a consistência de
um abismo sombrio, cujo fim não se divisa.
Hoje,
três dias depois da lúgubre terça-feira, ninguém mais sabe de mais nada. E por
quê? Muito simples: um dos magistrados “pediu vista” (é o que eles dizem quando
levam o processo para ler em casa e suspendem o julgamento) e, com o “pedido de
vista”, o país perdeu de vista qualquer esperança de resolver sua dúvida
legítima. Afinal, um juiz da corte ou mesmo dois podem – ou devem – ser
investigados?
Entrementes
(o advérbio soa como convém ao nosso objeto), há uma campanha eleitoral
agitando as ruas e as telas do País. A campanha, como de costume, se desenrola
em formato de reality show, como um circo meio carnavalesco a céu aberto
que recobre, ou envelopa, as paisagens urbanas e rurais. Por ser o centro de
gravidade da agenda nestas semanas, a corrida eleitoral acaba se apropriando do
malogro estético do STF, o que produz os resultados mais escabrosos.
O que
se passa na cúpula do Judiciário é assimilado pelas plateias como um acessório
narrativo das eleições presidenciais. Com um detalhe: esse acessório reforça o
fanatismo dos que prometiam fechar a corte com um cabo e um soldado. É um
contrassenso, um curto-circuito: a indefinição que imobilizou o Supremo ajuda
os que atacam o Supremo e joga combustível dramático no discurso do candidato
Flavio Bolsonaro.
A
tortuosa manobra processual que transformou uma pergunta que o país inteiro
tinha o direito de fazer numa não-resposta arrogante abastece a pregação da
extrema direita decidida a neutralizar a Justiça. Por descuido, o STF entra em
cena como coadjuvante a favor das forças que tramam para destruí-lo.
No
livro Como as democracias morrem, de 2018, Steven Levitsky e Daniel
Ziblatt mostraram que, valendo-se de eleições livres, os adeptos do
autoritarismo se apossam do Estado para destroçar, por dentro, os direitos e as
garantias da vida democrática. Hoje, com o Supremo agindo como vem agindo, esse
cenário fica mais provável. Fica mais constrangedor. Steven Levitsky e Daniel
Ziblatt se esqueceram de avisar que as democracias também morrem quando são
torturadas por esse insuportável sentimento de vergonha.
Fonte:
A Terra é Redonda

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