Quem guarda o guardião da Constituição?
A Constituição atribuiu ao Supremo Tribunal
Federal uma missão singular: exercer, precipuamente, a guarda da Constituição.
É ao STF que chegam alguns dos conflitos mais sensíveis da República,
envolvendo a proteção de direitos fundamentais, os limites entre os Poderes e
as ameaças à própria ordem democrática.
Nos últimos anos, entretanto, o Tribunal
deixou de ocupar apenas o centro jurídico do país e passou a integrar, de
maneira cada vez mais intensa, o centro da disputa política. Suas decisões
repercutem sobre eleições, políticas públicas, investigações, relações
institucionais e questões que dividem profundamente a sociedade. O STF
tornou-se, ao mesmo tempo, árbitro das crises nacionais e personagem de muitas
delas.
Essa crise, porém, não ocorre em terreno
neutro. Existe uma tentativa deliberada da extrema direita de demonizar o
Supremo, apresentar qualquer decisão desfavorável como prova de perseguição e
transformar a Corte em inimiga da população. Essa narrativa não pretende
aperfeiçoar os mecanismos de controle nem democratizar o Poder Judiciário.
Busca retirar a legitimidade de uma instituição que, em diferentes momentos,
impôs limites a projetos autoritários e responsabilizou agentes envolvidos em
ataques à ordem constitucional.
É necessário, portanto, distinguir a crítica
democrática da ofensiva autoritária. Questionar decisões, procedimentos e a
concentração de poder no STF é legítimo e necessário. Defender sua destruição,
intimidar seus integrantes ou estimular o descumprimento de suas decisões faz
parte de uma estratégia de erosão democrática. O desafio está em não permitir
que os ataques da extrema direita transformem a defesa do Tribunal em defesa
incondicional de todas as suas práticas.
O julgamento iniciado em 15 de setembro de
2026 tornou essa contradição ainda mais evidente.
Em sessão extraordinária, o plenário passou a
discutir a legalidade de um relatório produzido pela Polícia Federal com base
em dados extraídos do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, investigado no
caso Banco Master. O documento reuniu registros de contatos e mensagens
supostamente relacionados ao ministro Alexandre de Moraes. Antes de examinar se
existem elementos suficientes para justificar a abertura de uma investigação, o
Tribunal precisa decidir se a ordem que deu origem ao relatório foi regular e se
as informações obtidas podem ser juridicamente utilizadas.
A Procuradoria-Geral da República sustenta
que a produção do documento teria ocorrido sem provocação do Ministério Público
ou da Polícia Federal e sem autorização prévia do plenário. André Mendonça,
então responsável pelo caso, afirma que não houve irregularidade. Moraes, por
sua vez, classificou o relatório como uma tentativa de perseguição política e
acusou Mendonça de procurar envolvê-lo em uma colaboração premiada. Mendonça
negou a acusação. As versões são conflitantes e, enquanto não forem devidamente
apuradas, não podem ser tratadas como fatos comprovados.
A sessão foi marcada por acusações diretas
entre ministros, críticas à presença de delegados da Polícia Federal nos
gabinetes do STF e questionamentos sobre os limites entre as funções de
investigar, acusar e julgar. O presidente do STF, Edson Fachin, decidiu separar
os processos. O caso das mensagens entre Vorcaro e Moraes será analisado pelo
Plenário ainda no dia 15 de setembro. As acusações de Moraes contra Mendonça
serão julgadas no dia 23 de setembro. Por se tratar de um processo ainda em
curso, seus desdobramentos podem alterar parte dessa análise.
O episódio ultrapassa a conduta individual de
qualquer ministro. Quando integrantes da mais alta Corte do país passam a
acusar uns aos outros de perseguição, manipulação de investigações ou
instrumentalização política da Polícia Federal, não está em discussão apenas a
reputação pessoal dos envolvidos. Está em jogo a credibilidade de uma
instituição que reivindica autoridade para arbitrar os conflitos de toda a
República.
Diante disso, uma pergunta se torna
inevitável: quem guarda o guardião da Constituição?
A indagação não deve servir de pretexto para
enfraquecer o STF. Em uma democracia constitucional, preservar uma Corte
independente é essencial. Nos últimos anos, o Supremo funcionou como barreira
contra iniciativas autoritárias, protegeu direitos fundamentais e enfrentou
ataques concretos às instituições. Parte da ofensiva contra o Tribunal vem
justamente de setores que não desejam aperfeiçoar a democracia, mas eliminar os
limites impostos ao exercício arbitrário do poder.
Defender o STF contra o autoritarismo,
contudo, não significa conceder-lhe imunidade institucional.
Nenhuma instituição democrática pode retirar
sua legitimidade apenas da importância de sua missão. Tampouco pode utilizar os
ataques que sofre como justificativa para afastar questionamentos legítimos
sobre seus próprios procedimentos. A defesa da democracia não autoriza a
concentração permanente de poderes, o enfraquecimento do devido processo ou a
transformação de medidas excepcionais em formas ordinárias de atuação.
Sob uma perspectiva democrática e de
esquerda, a questão não deve ser reduzida a escolher entre ministros ou entre
campos políticos. O problema central é a concentração de poder em instituições
pouco permeáveis à participação social e cujos integrantes não são escolhidos
diretamente pela população. O poder judicial também precisa ser submetido à
transparência, à fundamentação pública e a mecanismos efetivos de
responsabilização.
A independência judicial é uma garantia da
sociedade, não um privilégio pessoal dos magistrados.
O episódio envolvendo Alexandre de Moraes,
André Mendonça e Daniel Vorcaro também exige atenção para a relação entre poder
econômico, sistema financeiro e instituições públicas. O debate não pode
permanecer restrito a uma disputa corporativa sobre qual ministro possuía
competência para determinar determinada diligência. É necessário investigar,
com respeito às garantias legais, se agentes econômicos tiveram acesso
privilegiado a autoridades e se relações privadas foram capazes de interferir,
direta ou indiretamente, no funcionamento do Estado.
Quando o nome de um banqueiro investigado
aparece no centro de uma crise entre ministros, integrantes da Polícia Federal
e autoridades da Procuradoria-Geral da República, a sociedade tem o direito de
exigir esclarecimentos. A nulidade de uma prova eventualmente obtida de forma
irregular pode ser necessária para preservar o devido processo legal, mas não
deve funcionar como instrumento para impedir a apuração dos fatos por meios
legítimos.
Garantias processuais não existem para
proteger apenas pessoas socialmente vulneráveis, embora sejam frequentemente
negadas a elas. Também não podem ser seletivamente abandonadas quando o
investigado é uma figura poderosa ou politicamente rejeitada. O Estado de
Direito exige coerência: nenhuma pessoa pode ser condenada a partir de provas
ilícitas, mas ninguém deve ser colocado acima da possibilidade de uma
investigação regular.
A crise revela ainda uma desigualdade
estrutural do sistema de justiça brasileiro. Enquanto prisões preventivas,
operações policiais e exposições públicas atingem diariamente pessoas pobres e
negras antes de qualquer condenação, suspeitas envolvendo integrantes da elite
política, econômica ou judicial costumam produzir longas disputas sobre
competência, foro, sigilo e validade processual. Não se trata de defender menos
garantias para os poderosos, mas de exigir que as mesmas garantias sejam
asseguradas a todos, e que o poder não seja convertido em proteção contra
qualquer escrutínio.
Os mecanismos constitucionais de controle
existem, mas apresentam limitações. Os ministros do STF são indicados pelo
presidente da República e aprovados pelo Senado, que também possui competência
para processá-los e julgá-los por crimes de responsabilidade. Na prática,
porém, esse controle pode ser paralisado por conveniências políticas ou
transformado em instrumento de intimidação. Além disso, o corporativismo
institucional dificulta que o próprio Tribunal examine, com a distância
necessária, situações que envolvem seus integrantes.
O julgamento de 15 de setembro expõe
precisamente esse desconforto: o STF é chamado a decidir sobre a validade de
uma investigação que envolve um de seus próprios ministros, enquanto seus
integrantes trocam acusações e discutem a atuação de agentes policiais
vinculados aos próprios gabinetes.
Não há solução simples para esse impasse.
Entregar o controle do Supremo a maiorias políticas ocasionais colocaria em
risco a independência judicial. Permitir que a Corte controle a si mesma sem
transparência suficiente, por outro lado, reforçaria a percepção de uma
instituição fechada e autorreferente.
A resposta democrática passa pelo
fortalecimento das decisões colegiadas, pela redução do poder das decisões
individuais, por regras claras de impedimento e suspeição, pela transparência
sobre relações potencialmente conflitantes e pela separação rigorosa entre as
funções de investigar, acusar e julgar. Passa também por um Congresso capaz de
exercer suas competências sem utilizar os instrumentos de controle como forma
de revanche contra decisões judiciais.
Quem guarda o guardião da Constituição? Em
uma democracia, essa função não pode pertencer a uma única pessoa ou
instituição. O STF é limitado pela Constituição que protege, pelos
procedimentos que legitimam suas decisões, pelos controles exercidos pelos demais
Poderes, pela imprensa livre, pela produção acadêmica, pela advocacia, pelos
movimentos sociais e pela crítica pública responsável.
A democracia precisa de um Supremo forte. Mas
a força de uma corte constitucional não se mede pela ausência de contestação.
Mede-se por sua capacidade de enfrentar ameaças autoritárias sem reproduzir
práticas de exceção; proteger direitos sem se colocar acima deles; e exercer
poder sem abandonar os limites que justificam sua existência.
O STF não deve ser destruído, capturado ou
silenciado. Deve ser democratizado, responsabilizado e reconduzido
permanentemente aos limites da Constituição. Afinal, quando o guardião se
coloca acima daquilo que deveria guardar, a Constituição deixa de funcionar
como limite e corre o risco de se tornar apenas um argumento de autoridade.
•
Crise do STF ameaça contaminar Congresso, e parlamentares temem vazamentos
generalizados
A crise institucional do STF (Supremo
Tribunal Federal) levou a cúpula do Congresso temer vazamentos generalizados a
partir da investigação do Banco Master. O receio de serem pegos no fogo cruzado
entre ministros da corte aumentou nesta segunda-feira (14), com a operação da
Polícia Federal contra um deputado aliado do relator do caso, ministro André
Mendonça.
A avaliação de lideranças do centrão ouvidas
sob reserva pela Folha é a de que o Congresso pode se tornar o principal alvo
do efeito colateral da disputa do STF. Esse receio se consolidou com a pressão
do presidente Lula (PT) para a quebra geral do sigilo do caso Master, o que foi
atendido parcialmente pelo presidente do tribunal, Edson Fachin.
Tal possibilidade era tratada como uma caixa
de Pandora com chance de tumultuar a eleição nos estados com o caso Master. O
incômodo foi reforçado neste fim de semana, quando parte da cúpula da Câmara
teve os nomes citados em uma lista encontrada numa churrasqueira da casa do
senador piauiense Ciro Nogueira, presidente do PP.
O papel foi encontrado durante uma operação
para averiguar a relação do senador com o Master. Nogueira e Daniel Vorcaro
conversavam e viajavam juntos, e o ex-banqueiro chegou a pagar despesas do
senador, segundo a PF. Os nomes de parlamentares do centrão e do PL foram
encontrados num papel ao lado de números que somam 100.
Nesta segunda, o alerta vermelho foi ligado
com a operação autorizada por Flávio Dino, relator do caso sobre desvios e
falta de transparência de emendas parlamentares, contra o deputado Cezinha de
Madureira (PL-SP). O congressista é um dos principais aliados de Mendonça no
Legislativo.
Mendonça e Dino fazem parte de grupos
adversários no STF, que agora estão em guerra por causa do Banco Master. A
operação foi interpretada por políticos como um novo capítulo da batalha
travada pelas alas divergentes do Supremo.
Nesse sentido, parlamentares temem que o
Congresso seja alvo tanto de efeitos colaterais da investigação do Master
quanto de ações deliberadas de ministros. Na avaliação dos congressistas, os
magistrados podem agir contra Legislativo tanto para atacar uns aos outros
quanto para tirar atenção da crise institucional enfrentada pela própria corte.
Além de indícios de corrupção, deputados e
senadores temem serem envolvidos nas revelações sobre as festas promovidas por
Vorcaro e aliados. A partir de dados obtidos pela PF, por exemplo, foi
publicizado um evento privado promovido pelo banqueiro em 2023, no Madame Satã,
com 120 mulheres e 20 autoridades e empresários.
Foram citados como convidados o presidente do
Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG),
o ministro do STF Dias Toffoli, o senador Ciro Nogueira, o ex-presidente da
Câmara Arthur Lira, o ministro Alexandre de Moraes e o empresário Wesley
Batista. Todos negam ter participado. Não há registros da festa.
Qualquer reação do Congresso, porém, só deve
ocorrer após a eleição. Líderes relatam dificuldade de articulação num momento
em que deputados e senadores estão em suas bases eleitorais–a prioridade é
garantir a própria reeleição.
A curto prazo, o centrão avalia que a guerra
entre ministros e os efeitos colaterais contra o Congresso seguirão até a
eleição. Integrantes do bloco dizem acreditar que a disputa presidencial será
influenciada pelo grupo que vencer o cabo de guerra do STF.
Se a ala do ministro Alexandre de Moraes
vencer, Flávio Bolsonaro (PL), que pediu dinheiro a Vorcaro para financiar um
filme sobre o pai e tem diálogos com o banqueiro, tende a ser o maior
prejudicado. Se Mendonça vencer, o governo Lula tende a se afundar na crise
pela associação com Moraes, ainda de acordo com essas lideranças do centrão.
O bloco estuda como agir depois do pleito. O
deputado Elmar Nascimento (União Brasil-BA), um dos citados no papel achado na
casa de Ciro Nogueira, defendeu a criação de uma CPI (Comissão Parlamentar de
Inquérito) sobre os vazamentos da PF.
Sob reserva, lideranças do centrão dizem
entender que é preciso uma “pacificação” para conter a crise institucional.
Eles avaliam que a própria crise sobre os relatores -Toffoli deixou o comando
do caso após ter relação com Vorcaro exposta, e Mendonça é criticado por agir
politicamente- abre espaço para um pedido de anulação de processos do Master.
Fonte: Por Fernanda Macedo, no Le Monde /ICL
Notícas

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