quinta-feira, 17 de setembro de 2026

PF encontrou transferência de R$ 10 mil em articulação por proteção do PCC para Vorcaro

A Polícia Federal identificou uma transferência de R$ 10 mil em meio a uma articulação para fazer chegar a Daniel Vorcaro, enquanto estava preso, um recado sobre uma rede de proteção relacionada pelos investigadores ao Primeiro Comando da Capital (PCC). O dinheiro foi enviado por Manoel Mendes Rodrigues, o Manolo, integrante da “A Turma”, ao advogado André Luís Chagas Bergeralck, depois de os dois discutirem uma forma de avisar o banqueiro de que havia uma “força por trás” capaz de ajudá-lo.

A informação consta de documentos da investigação do caso Master que estavam sob sigilo e no gabinete do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). O material veio a público após a retirada do sigilo dos autos e reúne conversas, ligações e movimentações financeiras analisadas pela PF.

“A Turma” era uma espécie de milícia privada que atuava para Vorcaro. Segundo a investigação, o grupo reunia personagens ligados às forças de segurança, à milícia e ao jogo do bicho e era usado para obter informações, monitorar investigações e intimidar pessoas consideradas adversárias do banqueiro.

A transferência ocorreu em 28 de novembro de 2025. No dia anterior, Manolo havia encaminhado a Bergeralck áudios e uma mensagem sobre o apoio articulado para Vorcaro e escrito: “Nós temos q dar um jeito de chegar um recado”.

O advogado perguntou onde Vorcaro estava e afirmou: “Eu posso entrar”. Manolo respondeu que ainda não e explicou: “Primeiro ele tem que entender que tem uma força por trás que pode ajudar ele”. Depois acrescentou: “Mas isso tem que ser rápido”.

Na tarde seguinte, Manolo retornou uma ligação de Bergeralck. Os dois conversaram por aproximadamente cinco minutos. Na sequência, Manolo transferiu R$ 10 mil ao advogado.

O relatório registra o pagamento na mesma sequência das conversas sobre como levar o recado a Vorcaro, mas não atribui uma finalidade específica aos R$ 10 mil. Também não há, nos documentos analisados, indicação de que o dinheiro tenha sido repassado ao PCC ou de que o próprio banqueiro tenha determinado a transferência.

A movimentação financeira, no entanto, aparece dentro de uma articulação que a PF descreve como uma “possível mobilização de integrantes ou pessoas relacionadas” ao PCC para prestar apoio a Vorcaro durante sua passagem pelo sistema penitenciário paulista.

“Ele é amigo nosso”

A articulação ocorreu depois que Vorcaro foi transferido para o CDP de Guarulhos. Na noite de 24 de novembro, Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”, informou Manolo sobre a transferência do banqueiro. Nos dias seguintes, os dois passaram a discutir formas de auxiliá-lo.

Em 26 de novembro, depois de uma conversa de mais de 24 minutos entre Manolo e Mourão, este último encaminhou um áudio de um homem não identificado. Segundo a PF, o conteúdo tratava de ações destinadas a proteger Vorcaro no sistema carcerário e de informações que seriam levadas ao banqueiro por meio de um advogado.

O homem dizia estar pedindo ao “advogado do clube” para orientar Vorcaro e explicava o que deveria acontecer quando o banqueiro deixasse o Regime de Observação e passasse ao convívio com os demais presos.

“Vou passar meu nome lá”, afirmou. Em outro trecho, disse que Vorcaro deveria se apresentar “pra quadrilha lá”.

No dia seguinte, Manolo mencionou o “01 do time” e escreveu “3 letras”. Em áudio, afirmou que poderia ir a São Paulo conversar com o “01 de São Paulo”, a quem chamou de amigo, para pedir assistência a Vorcaro dentro da unidade. “Aí o partido, aí o resultado vem de cima”, disse.

A referência fica mais explícita em outra mensagem que circulou na sequência e foi destacada pela própria PF.

Destinado à chamada “Sintonia Tiradentes”, o texto pedia apoio ao “companheiro Daniel Bueno Vorcaro” e dizia que o banqueiro era “amigo nosso” e “apoia a nossa quadrilha e a nossa regional em diversos sentidos”. O pedido era para que Vorcaro fosse orientado e recebesse apoio no cotidiano da unidade.

Mourão preparou então um recado destinado ao banqueiro. Disse ter feito “um pedido para os amigos que temos” e afirmou que as pessoas responsáveis pela unidade já estavam cientes e iriam apoiá-lo “em tudo” que precisasse.

Foi esse material que chegou a Manolo e depois foi encaminhado a Bergeralck, dando início à conversa sobre como avisar Vorcaro da existência de uma “força por trás”. No dia seguinte ocorreu a transferência dos R$ 10 mil.

<><> Vorcaro já havia mandado “alinhar com o PCC”

A menção ao PCC nas conversas envolvendo Vorcaro e seus operadores antecede a prisão do banqueiro.

Em 2024, durante uma operação para recuperar a conta da atriz Monique Alfradique no Instagram, que havia sido invadida, Mourão informou a Vorcaro que estava com “os meninos na linha” e havia avisado aos responsáveis pelo ataque que “a turma vai atrás deles”.

“E irei atrás de um por um”, escreveu Mourão.

Depois da recuperação da conta e diante de informações sobre transferências via Pix realizadas pelos golpistas, foi o próprio Vorcaro quem mencionou diretamente a facção em uma orientação a Mourão: “alinha com o pcc rsrs”.

Ao analisar a conversa, a PF afirmou que Mourão aparentava manter algum tipo de contato, direto ou indireto, com pessoas ligadas a organizações criminosas, o que permitiria esse tipo de interlocução.

O episódio mostra que, mais de um ano antes da prisão, Vorcaro já tratava com Mourão sobre uma possível interlocução com o PCC. Em novembro de 2025, o mesmo operador aparece novamente nas conversas analisadas pela PF, desta vez na busca por apoio ao próprio banqueiro dentro da prisão.

<><> Mourão recebia R$ 1 milhão por mês

A relação entre Mourão e Vorcaro também era financeira. Segundo a PF, “Sicário” constava de uma lista de despesas para receber R$ 1 milhão por mês ao longo de 2024 e 2025, sem contar valores classificados como bônus. A investigação encontrou comprovantes de transferências para a King, empresa ligada a Mourão.

A relação continuava ativa às vésperas da prisão. Em 10 de novembro de 2025, Vorcaro autorizou mais R$ 1 milhão para a King Participações Imobiliárias. Sete dias depois, foi preso pela PF.

Os documentos não vinculam esses pagamentos milionários à posterior busca por apoio dentro do CDP. Eles mostram, porém, que Mourão mantinha uma relação financeira regular com a estrutura de Vorcaro, já havia recebido do banqueiro a orientação para “alinhar com o PCC” e, depois da prisão, participou das tratativas que a PF relacionou à facção.

Manolo também já mantinha relações comerciais com o entorno da família Vorcaro. A PF encontrou conversas sobre negócios imobiliários envolvendo ele, Bergeralck e Henrique Vorcaro antes da prisão de Daniel. As tratativas incluíam três imóveis no Rio de Janeiro, com área total de 113 mil metros quadrados.

Ao concluir a análise desse conjunto de mensagens, a PF afirmou ter identificado registros que indicam a “possível mobilização de integrantes ou pessoas relacionadas” ao PCC para prestar apoio a Vorcaro durante sua custódia. Para os investigadores, as conversas mostram tanto tentativas de transmitir recados ao banqueiro quanto referências a um “aparente suporte” que seria disponibilizado dentro do sistema carcerário.

Mourão foi preso pela Polícia Federal em março de 2026. Ele tentou tirar a própria vida enquanto estava sob custódia da corporação em Belo Horizonte e morreu dois dias depois no Hospital João XXIII. A PF investigou as circunstâncias da morte e concluiu posteriormente que não houve participação de terceiros.

•        Lula: “Flávio Bolsonaro tem o rabo preso ao Banco Master mais do que qualquer um”

 O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, nesta quarta-feira (16), que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) demonstra uma “obsessão” contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), com o objetivo de tentar desviar a atenção de suas próprias ligações e responsabilidades. Durante entrevista ao programa Desce a Letra Show, transmitido no YouTube, o chefe do Executivo rebateu as acusações feitas pela oposição sobre a indicação do magistrado e assegurou que defenderá a apuração rigorosa e o julgamento de qualquer pessoa que tenha cometido delitos.

Ao comentar os recentes ataques promovidos pelo parlamentar fluminense contra o STF, Lula sustentou que a animosidade do clã Bolsonaro contra o ministro Moraes não tem relação com o escândalo financeiro do Banco Master, mas sim com a atuação do magistrado em investigações cruciais que atingiram o núcleo bolsonarista. “Você veja como é a mentira. Nós estamos vendo aquele julgamento na Suprema Corte. Ontem o meu adversário gravou um vídeo dizendo que eu sou responsável pelo Alexandre de Moraes e isso e aquilo. A obsessão dele é pegar o Alexandre de Moraes. Mas eles não querem brigar com o Alexandre de Moraes por causa do Banco Master. Não é por isso que ele tem raiva, porque ele sabe que ele tem o rabo preso ao Banco Master mais do qualquer outra pessoa”, disse o presidente.

O presidente detalhou os reais motivos que, em sua avaliação, causam o temor e o ressentimento da família do ex-mandatário Jair Bolsonaro em relação às decisões tomadas na Suprema Corte. “A raiva dele do Alexandre de Moraes é porque o Alexandre de Moraes mandou prender o cara que mandou matar a Marielle. A bronca dele é porque o Alexandre de Moraes prendeu o pai dele e os golpistas que tentaram fazer o 8 de janeiro. Esse é o pavor dele. E a bronca dele é porque essa apuração que está tendo na Suprema Corte vai descobrir quem é de verdade que está metido nisso”, pontuou Lula.

Durante a entrevista, Lula também rebateu categoricamente as tentativas da oposição de vincular o atual governo a fraudes e irregularidades ocorridas na Previdência Social, ressaltando que o esquema foi estruturado durante a gestão anterior. “Por exemplo, eles criaram a quadrilha do INSS. Eles criaram a quadrilha no governo Bolsonaro. Nós, em dois anos, descobrimos a quadrilha, já prendemos quase todos eles, já tomamos bens de quase R$ 6 bilhões, já pagamos quase 5 milhões de aposentados, investindo R$ 3,5 bilhões para pagar o roubo que eles fizeram na Previdência Social. E eles tentam passar a ideia de que é nosso. Eles montaram a quadrilha, nós prendemos”, desabafou.

O chefe do Executivo rebateu ainda ilações que buscam associar seus familiares a investigados, apontando as reais conexões do senador do PL. “‘Ah, o filho do Lula é sócio do Careca [do INSS]’. E quem tem um escritório junto com o Careca é ele, o Flávio. Então nós temos que desmontar essa coisa”, frisou.

Lula aproveitou a oportunidade para desconstruir a narrativa sobre a escolha de integrantes da Corte Suprema, ressaltando que cabia justamente ao Senado Federal, onde Flávio Bolsonaro já atuava, a sabatina e aprovação dos nomes indicados. “Eu não era presidente quando o Alexandre de Moraes foi indicado para ministro da Suprema Corte. Ele [Flávio Bolsonaro] era senador. Ele deve ter votado no Alexandre de Moraes. Eu não era presidente quando eles indicaram o Kassio [Nunes Marques]. Ele deve ter votado. Eu não era presidente quando eles indicaram o André Mendonça. Portanto, ele é o culpado, não eu”, destacou.

Sobre o curso das apurações em andamento na Justiça, o presidente reiterou sua posição em defesa da legalidade, do devido processo legal e da igualdade de todos perante a lei, sem distinção de cargo ou influência. “E eu quero dizer em alto e bom som: todo mundo que cometeu erro, em qualquer área, tem que ser julgado. O que eu defendo é um julgamento justo, com direito de defesa. Mas se a pessoa cometeu um delito a pessoa tem que pagar o preço. Isso vale para mim, vale para o Alexandre de Moraes, vale para o Fachin… Essa é minha tese”, ressaltou.

Por fim, Lula prestou solidariedade e elogiou a atuação do ministro Alexandre de Moraes na condução da Justiça Eleitoral brasileira durante o último pleito presidencial, destacando a resistência institucional contra os ataques proferidos ao sistema de votação. “Acho que o Alexandre de Moraes prestou dois grandes serviços à democracia brasileira. Ele foi presidente do TSE na eleição em que eu ganhei. Ele sabe e o Brasil sabe a tentativa que o Bolsonaro fez para destruir a credibilidade das urnas brasileiras, que é o processo eleitoral mais moderno e mais rápido. Um país com 8,5 milhões de quilômetros quadrados, com 160 milhões de eleitores, e você sabe o resultado duas horas depois de acabar a eleição. Se fosse possível roubar na urna, eu não teria sido presidente. Você acha que eu ia ganhar do Serra? Do Alckmin? Jamais. A urna é uma coisa muito séria e ela não está subordinada à internet. Por isso não há manipulação”, concluiu.

 

Fonte: ICL Notícias/Brasil 247

 

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