O escândalo de corrupção do caso Master
Escrever sobre a conjuntura eleitoral
tornou-se inviável tal a velocidade dos fatos novos espetaculares que se
sucedem a cada dia e até a cada hora. As pesquisas eleitorais já são
apresentadas em defasagem com a realidade, por mais que se encurtem os prazos
entre uma e outra, já que o tempo de entrevistas e processamento é de dois a
três dias. Vou tentar escrever sobre o que não é efêmero e mutável, ou seja, o
que se pode chamar de “pano de fundo” em que se move este frenético processo.
Escrevo com a última pesquisa da Quaest
(ainda sem o impacto das revelações sobre o Dark Horse) colocando Flávio
Bolsonaro à frente de Lula pela primeira vez, com 1% de vantagem sujeita a erro
estatístico. Esta vantagem pode ser revertida (ou não) pelas novas revelações
sobre o caso Dark Horse, tanto nas investigações sobre as contribuições de
Daniel Vorcaro (abertas a saca rolha por André Mendonça) como sobre aquelas
oriundas de emendas parlamentares (abertas por Flávio Dino). Ou ainda pode
haver movimentos de opinião dos eleitores para um lado ou outro em função de
outros fatores.
Não há dúvida de que o escândalo de corrupção
do caso Master vai pesar na balança eleitoral no dia 4 de outubro, resta saber
quem ganha e quem perde com ele, Lula ou Flávio. O impacto está reduzido hoje
ao grupo chamado dos independentes, mais ou menos 10% do eleitorado, que tem,
segundo a Quaest, 3,3% votando em branco ou nulo ou se abstendo de votar e 7,7%
alternando suas intenções, dando vantagem em cada pesquisa mais para Lula (nas
anteriores) ou mais para Flávio (na última), com diferenças girando entorno de
2%. É muito pouca margem, mas com a disputa sendo resolvida no fotochart, pode
ser decisiva.
Mas o que ultrapassa o impacto eleitoral é
mais significativo, trata-se da desmoralização do Supremo Tribunal Federal
frente a população brasileira.
O STF já vem de anos de tomadas de decisão
questionáveis, eivadas de interesses políticos ou pessoais de suas excelências.
Casuísmos escancarados caracterizaram tanto o apoio à operação Lava Jato quanto
ao seu desmonte. A Corte, por exemplo, mudou de posição em um tema fundamental,
como a decisão de se considerar um processo como transitado em julgado em
segunda instância (que implica em aplicação imediata da pena) e sua reversão
para voltar para a terceira instância. Tudo isto em poucos anos e praticamente
com os mesmos juízes.
Já com o caso Master em curso o STF passou o
pano nas denúncias contra o ministro Dias Toffoli por unanimidade, apelando
para questões processuais. Denúncias com mesma origem voltaram a assombrar o
Supremo, agora envolvendo, pelo menos, o até há pouco todo-poderoso ministro
Alexandre de Morais.
Não há dúvida de que André Mendonça usou da
sua prerrogativa de relator para fazer política com a denúncia e o levantamento
do sigilo dos diálogos pouco republicanos de Alexandre de Morais com Daniel
Vorcaro para beneficiar a candidatura de Flávio Bolsonaro e desmoralizar o
algoz do seu pai golpista. Foi água para o moinho da extrema direita que joga
há muito tempo pela desconstrução do julgamento dos eventos de janeiro de 2023.
A direita quer intervir no STF para mudar a história e controlar a Corte, o que
pode vir a ocorrer, mesmo que Flávio Bolsonaro perca a eleição, desde que a
direita eleja uma maioria ainda mais forte no Senado.
Desmoralizar o STF é parte de uma estratégia
que tem dois agentes distintos: o bolsonarismo que sempre busca as condições de
um golpe, institucional ou militar, e a direita fisiológica que procura
fortalecer ainda mais o poder do Congresso, que vem assumindo um falso
parlamentarismo onde ele dominaria o Executivo e o Judiciário. No imediato
estas duas forças estão somadas para submeter o STF.
A desmoralização total do STF pode acontecer
nos próximos dias, em função da crise do caso Master. André Mendonça tentou
usar o processo para atingir Alexandre de Morais, mas abriu a caixa de Pandora
por provocar a reação do indigitado e seus aliados, cobrando a abertura de
todos os dados do celular comprometedor de Daniel Vorcaro. A estratégia destes
últimos, Alexandre de Morais, Dias Toffoli, Cristiano Zanin, Flávio Dino e
Gilmar Mendes parece suicida pois informações filtradas até agora indicam que vários
ministros estão citados nas conversas do mega corruptor. No entanto, esta
aparente contradição pode ser uma boa tática para forçar todos os ministros a
abafar o caso, tal como aconteceu na etapa Dias Toffoli deste escândalo.
A proposta do Procurador Geral da República,
Paulo Gonet, é anular a “denúncia” de André Mendonça contra Alexandre de Morais
por vícios processuais do relator. No caso de Dias Toffoli a unanimidade veio
em um debate fechado da Corte e prevaleceu o corporativismo no passar de pano e
saída do ministro da relatoria. E neste caso? A gritaria do público frente a
enormidade das evidências contra Morais seria ensurdecedora. Deus e todo mundo
estão pedindo uma seção aberta do STF e isto se confirmando vai ser difícil
repetir a dose.
É mais do que provável o STF se dividir no
voto sobre a proposta de Paulo Gonet, que deve ser uma preliminar do tratamento
do pedido de denúncia de Mendonça contra Morais. Pelas posições assumidas até
agora, votarão pela proposta Gilmar, Zanin, Dino e os dois comprometidos (até
agora) nas malhas de Daniel Vorcaro, Alexandre de Morais e Dias Toffoli.
Votarão contra Edson Fachin, Carmen Lúcia, André Mendonça, Luiz Fux e Kássio
Marques. Empate. Edson Fachin tem um voto de minerva se não me engano, o que permitiria
ao STF ser salvo de uma investida no Senado com pedidos de cassação de
Alexandre de Morais. Mas mesmo esta solução por margem mais que estreita não
deixaria de rebaixar o STF na opinião pública.
A solução ideal seria um voto maciço pela
abertura do processo, no máximo contra os votos de Alexandre de Morais e Dias
Toffoli, mas acho que até Luiz Fux, Kássio Marques e o próprio André Mendonça
ficariam aliviados com a passada de pano pois todos eles têm rabos, de tamanho
ainda pouco claro, presos nas redes de Daniel Vorcaro. Ou seja, metade da atual
composição do STF tem explicações a dar, desde a confecção de ternos a regalias
para os filhos, coisa pouca perto das acusações contra Dias Toffoli e sobretudo
Alexandre de Morais. Mas esta solução é inviável dado o jogo de oposição de
grupos consolidado na Corte.
Há ainda a forte possiblidade de um dos
aliados de Alexandre de Morais repita o gesto de Gilmar Mendes na segunda turma
do STF, pedindo vistas para o processo o que permitiria congelar o andamento da
denúncia por 90 dias. Se isto acontecer o desastre seria enorme pois o público
veria neste voto uma cumplicidade do STF, embora não seja o caso, pelo menos
não para metade dos ministros. André Mendonça quer aproveitar esta oportunidade
de empurrar a crise para a candidatura de Lula defendendo que se registrem os
votos de quem tem posição definida. Neste caso o grupo pró Morais ficaria
vulnerável ou por se recusar a votar agora ou por votar contra a denúncia.
A crise do STF, em qualquer das hipóteses de
seus desdobramentos imediatos, deve jogar contra a candidatura de Lula pela
forte identidade, no imaginário do público, entre Alexandre de Morais,
Cristiano Zanin, Flávio Dino e Gilmar Mendes com o presidente. Nem Alexandre de
Morais nem Gilmar Mendes foram indicados por Lula, enquanto Edson Fachin e
Carmen Lúcia o foram por Dilma Rousseff, mas não é esta divisão entre os
indicados de Lula e Dilma Rousseff que vai garantir ao público que o voto pró
Alexandre de Morais não é uma manobra do governo.
O lado positivo de tudo isto é que a abertura
dos dados do celular de Daniel Vorcaro está botando Flávio Bolsonaro na roda
das denúncias e a imprensa não o tem poupado. E pode haver muito mais a ser
revelado para contrabalançar a impressão do público em relação à posição de um
e de outro dos candidatos no caso Daniel Vorcaro.
Lula custou a se distanciar de Alexandre de
Morais e isto lhe custou alguns pontos que podem ser recuperados com as novas
revelações comprometendo Flávio Bolsonaro. Mas é algo a se confirmar. Não ajuda
em nada o bater de bumbo da esquerda acusando uma “tentativa de ressuscitar a
Lava Jato” neste caso Vorcaro. Defender Alexandre de Morais com unhas e dentes
como se ele fosse um pilar da democracia enxovalhado pelo fascismo é um erro
crasso que, por sorte ou esperteza, Lula não adotou.
O papel de Alexandre de Morais no processo
contra os golpistas foi defensivo frente às ameaças do bolsonarismo contra o
STF (lembram das promessas de Eduardo de que “bastariam um cabo e um sargento
para fechar a Corte”?). Foi também uma oportunidade de surfar na glória de
levar militares ao banco dos réus e condená-los pela primeira vez na história
da República. Foi um herói improvável embora importante, apesar de seus muitos
abusos processuais, mas isto não muda a sua trajetória de direita. Nem é, como
a relação com Daniel Vorcaro mostrou (ou, pelo menos, tende a mostrar), a
garantia de uma moral ilibada.
A crise do STF, como comentei logo no começo
do artigo, não é nova e, pela sua extensão e gravidade, coloca a exigência de
uma profunda reforma institucional. Muita gente, entre autoridades do mundo
jurídico, vem insistindo nesta necessidade que vai muito além de criar um
código de ética. Muitos tem colocado outros elementos desta reforma, como
estabelecer um mandato e aumentar a idade mínima para os ministros. Há ainda a
imoralidade dos penduricalhos e o altíssimo custo da Corte.
Mas há coisas mais importantes como a
redefinição das atribuições do STF, diminuindo a abrangência dos tipos de caso
que exigem sua apreciação em terceira instância. O STF deveria ficar restrito
aos casos de avaliação da constitucionalidade das leis votadas pelo Congresso e
sua correta aplicação, deixando para outros foros processos da área criminal
(inclusive extinguindo os foros privilegiados) ou cível.
Mas ninguém tocou, até agora naquilo que para
mim é o nó da questão: como deveriam ser indicados os ministros do Supremo? O
processo atual, de indicação pela presidência da República e confirmação pelo
Senado mostrou suas limitações e vícios, pelo menos desde a redemocratização.
Este formato cristaliza um processo político e isto leva, inevitavelmente, à
politização da Corte.
Embora formalmente os indicados não se
portaram sempre como apaniguados de seus indicadores esta linha de demarcação
permanece desde sempre. Quem precisou de apoio político para ser indicado pelo
presidente e apoio político para ser confirmado no Senado dificilmente vai ser
um jurista totalmente isento nas suas decisões.
Como fazer então? Concurso público? E quem
examina os concursados? Se são provas, quem elabora as perguntas? Se é um exame
de currículos quem os avalia? Há quem ache que somente deveriam aceder ao cargo
de ministro do Supremo juízes concursados membros dos tribunais superiores,
evitando-se os indicados pela OAB que são um quinto de todos os juízes do
Brasil. Poder-se-ia também colocar outra exigência, a de que só seriam
candidatos os juízes de carreira que tivessem sido promovidos por mérito e não
por antiguidade.
Não tenho soluções para estes dilemas, só
especulações de um leigo e convoco outros mais bem qualificados a resolvê-los.
O grande complicador desta reforma é que ela
terá que passar pelo Congresso e este, na próxima legislatura, terá uma
composição de direita e extrema direita, combinada com fisiologismo que levam a
um comportamento voltado para tornar o Supremo um organismo subordinado a ele.
Mesmo mantendo-se a calamitosa sistemática
atual o que devemos assistir é a nomeação de quatro bolsonaristas em pouco
tempo e até mais, com a remoção de Alexandre de Morais e Dias Toffoli por
improbidade e de Flávio Dino e Cristiano Zanin por ideologia via impeachment
pelo Senado. Com o STF sob controle (e supondo-se a vitória de Flávio) vai ser
fácil pôr em marcha um golpe legal tal como já se viu na Hungria e Turquia, com
a diferença importante de que nestes casos o beneficiário foi o executivo e
aqui deverá ser o legislativo.
E como seria governado o Brasil com um
executivo incompetente e sem poder, um legislativo fisiológico super empoderado
e sem projeto e um judiciário subordinado? Ingovernável, sujeito ao mando do
imperialismo americano, dividido social e politicamente, assolado por uma
cascata de crises provocadas pela emergência climática e energética e
dilacerado pela crescente predominância da violência das gangues e das
polícias.
Quanto tempo pode durar este descalabro até
que a revolta social arrebente a tampa da panela de pressão? E teremos força
política organizada para transformar rebelião em revolução? Com oitenta anos
tenho poucas esperanças de ver a resposta a estas dramáticas perguntas.
Fonte: Por Jean Marc von der Weid, em A Terra
é Redonda

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