‘Garimpos
fantasmas’ legalizam 2 mil toneladas de cassiterita em Rondônia, diz ONG
A
mineradora White Solder comprou cassiterita de áreas onde não há indícios de
exploração mineral. Entre 2020 e 2025, a empresa declarou em documentos
oficiais a compra de 2,3 mil toneladas do minério de dois locais sem sinal de
mineração em Campo Novo de Rondônia, no norte do estado.
A
Repórter Brasil visitou as duas áreas indicadas pela White Solder como origem
da cassiterita, mas encontrou apenas pasto para criação de gado e dezenas de
animais. A verificação foi feita por meio de sobrevoo em conjunto com a
organização Greenpeace e por estradas de terra.
“As
evidências disponíveis não apresentam sinais espaciais e temporais compatíveis
com a produção mineral”, afirma o Greenpeace. Além da verificação no local, a
organização analisou imagens de satélite de alta resolução, material revisado
pela Repórter Brasil. Para a organização, as evidências analisadas sugerem que
as áreas constituem “garimpos fantasmas”.
“Garimpos
fantasmas” é como são conhecidas áreas de garimpo autorizadas a funcionar e
comercializar o minério, mas que, na prática, não registram produção efetiva.
Locais como esses podem ser usados para ocultar a real origem de mineral
extraído ilegalmente de áreas sem autorização minerária, como territórios
indígenas.
A
cassiterita é a matéria-prima do estanho, metal considerado estratégico para a
indústria bélica e da tecnologia por funcionar como uma espécie de “cola” na
soldagem de componentes eletrônicos. A White Solder adquire o minério bruto e
faz o processamento em uma unidade industrial em Rondônia, antes da exportação.
Ao
todo, 2,9 mil toneladas de cassiterita foram declaradas entre janeiro de 2020 e
junho de 2026 como se tivessem sido extraídas das duas PLGs (Permissões de
Lavra Garimpeira). Desse total, 2,3 mil toneladas foram declaradas pela White
Solder, segundo dados públicos da CFEM (Compensação Financeira pela Exploração
Mineral), disponibilizados pela ANM (Agência Nacional de Mineração). O valor
total estimado por essa produção é de R$ 228,54 milhões.
Procurada
por e-mail e telefone pela Repórter Brasil, a White Solder não respondeu até a
publicação desta reportagem.
No
final de agosto, a mineradora virou ré na Justiça Federal acusada de operar um
esquema de garimpo ilegal de cassiterita na Terra Indígena Yanomami, em
Roraima. O arranjo teria movimentado R$ 166 milhões, segundo o MPF (Ministério
Público Federal), autor da denúncia.
“A
principal fonte de estanho é a cassiterita. A Amazônia, como um todo, é rica em
cassiterita, mas muito desse minério está em áreas sensíveis do ponto de vista
ambiental”, alerta André Luiz Porreca, procurador do MPF responsável pelo
inquérito sobre a White Solder.
Apesar
de não incidirem sobre nenhuma área protegida, as PLGs sem indícios de
atividade mineral estão a uma distância de seis quilômetros da Terra Indígena
Uru Eu Wau Wau. Morada de nove povos indígenas, sendo cinco grupos isolados, o
território é pressionado pelo garimpo ilegal de cassiterita.
“Cada
vez mais as PLGs estão avançando e o garimpo está encostando na terra indígena.
Pensam que, por estar do lado de fora, não impacta o território, mas impacta
sim”, afirma Ivaneide Bandeira, a Neidinha Suruí, uma das fundadoras da
Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé
Candidata
ao Senado pelo PSB-RO, Neidinha cita a contaminação dos rios e o aumento da
violência no entorno da TI como alguns dos impactos do garimpo. “Os Yanomami
quase foram levados à extinção pelo garimpo. Imagina os efeitos em um
território como o Uru Eu Wau Wau, que tem uma população bem menor. Vai ser um
genocídio”, diz. A TI Yanomami abriga cerca de 31 mil indígenas e a TI Uru Eu
Wau Wau, 518, de acordo com o IBGE.
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Cooperativas responsáveis pelas PLGs têm problemas ambientais
O Grupo
White Solder se apresenta como um dos maiores produtores mundiais de estanho. A
empresa tem sede em São Paulo e no Amazonas e opera uma unidade de metalurgia
em Ariquemes. A fábrica está a 100 km de Campo Novo de Rondônia, onde ficam as
duas PLGs com indícios de irregularidades.
Uma
delas está em nome da Coomibra (Cooperativa dos Garimpeiros Mineradores do
Brasil). O Greenpeace analisou imagens de satélite de vários anos e identificou
sinais de atividade minerária apenas em 2018 e 2019. Depois disso, não
encontrou indícios de mineração.
Entre
janeiro de 2020 e abril de 2023, a White Solder declarou à ANM compras de 2,3
mil toneladas de cassiterita atribuídas à área, com valor estimado de R$ 228
milhões, segundo cálculos da Repórter Brasil a partir dos valores declarados de
CFEM.
A maior
parte das vendas da cassiterita aconteceu quando essa PLG pertencia a outra
cooperativa, a Coopercam (Cooperativa de Garimpeiros de Campo Novo de
Rondônia). A entidade fez o requerimento de mineração em 2013 e foi detentora
do título até março de 2023. Dois meses depois, ela foi condenada pela Justiça
de Rondônia a cessar “toda e qualquer atividade minerária” no município pela
exploração irregular de cassiterita na região.
Procuradas,
a Coopercam e a Coomibra não responderam até a publicação da reportagem.
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Empresa diz que vai interromper fornecimento, após contato da Repórter Brasil
A
segunda PLG com indício de ser um “garimpo fantasma” fica em uma área vizinha
da primeira e está sob responsabilidade da Coomari (Cooperativa Mineradora de
Ariquemes).
Um
total de 7,9 toneladas de cassiterita foi declarado pela White Solder com
origem neste local em dezembro de 2024 e em abril de 2025. O valor estimado da
carga é de R$ 570,3 mil, segundo cálculos da reportagem a partir de dados da
CFEM.
Nesta
área, o Greenpeace afirma que “sequer encontrou sinais de atividade minerária”
na série histórica de imagens. Em sobrevoo realizado pela organização e pela
Repórter Brasil em agosto deste ano, também não foram identificadas cicatrizes
de mineração.
Além da
White Solder, quem também comprou cassiterita nesta área foi a empresa Fábrica
Auricchio Indústria e Comércio de Metais, com sede em Mogi das Cruzes (SP).
Entre junho de 2024 e junho de 2026, cerca de 524,2 toneladas do minério com
suposta origem na área foram declaradas pela companhia, com valor total
estimado em R$ 61,9 milhões.
Além do
interior paulista, a empresa possui unidades no estado do Pará e no Chile, e é
especializada em processamento de cobre e cassiterita para a produção de
lingotes de estanho, fios de solda e outros produtos.
Após o
contato da Repórter Brasil, a Fábrica Auricchio afirmou que vai interromper a
aquisição do minério da área “até que os fatos sejam devidamente esclarecidos”.
Em nota, a empresa reforçou que “adota procedimentos de diligência e
rastreabilidade para aquisição responsável de minerais” e que realiza
procedimentos de verificação antes de iniciar a aquisição de minérios de
fornecedores.
Segundo
a Fábrica Auricchio, uma verificação in loco foi realizada na área da PLG da
Coomari entre o final de 2023 e início de 2024. “Na ocasião, não foram
identificados elementos que indicassem à Fábrica Auricchio qualquer
irregularidade relacionada à origem do minério ou que permitissem concluir pela
existência da situação atualmente apontada pela reportagem”, disse a companhia.
“Diante das novas informações apresentadas, a empresa promoverá nova
verificação específica sobre a PLG mencionada”.
A
Fábrica Auricchio, assim como a White Solder, é certificada pela RMI
(Responsible Minerals Initiative), iniciativa global que reúne empresas e
organizações para promover práticas de mineração responsáveis.
Procurada
pela Repórter Brasil, a RMI disse que irá analisar as evidências disponíveis,
realizar novas apurações e consultar as partes interessadas para avaliar se
retira ou mantém as duas empresas em sua lista e se são necessários ajustes no
programa.Em junho de 2024, a Coomari foi multada pelo Ibama (Instituto
Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) em mais de R$ 1
milhão por manter “atividades potencialmente poluidoras sem licença”. No mesmo
dia, teve uma área de 800 m² embargada em Ariquemes.
Procurada,
a Coomari não respondeu até a publicação desta reportagem.
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Como as PLGs possibilitam fraudes na origem do minério
A PLG é
uma autorização especial concedida pela ANM para a exploração em pequena escala
de minerais como ouro e cassiterita.
Especialistas
consultados pela Repórter Brasil apontam que, na prática, o modelo apresenta
vulnerabilidades que podem permitir que material de origem ilegal seja
declarado como regular. Isso porque não há necessidade de pesquisa mineral
prévia e é o próprio interessado quem declara o potencial produtivo da área.
Além
disso, após o aval da ANM, há pouco acompanhamento pelos órgãos de controle
sobre o quanto de minério é realmente extraído nas áreas concedidas.
Na
avaliação de Danicley Aguiar, do Greenpeace Brasil, a dispensa de uma pesquisa
prévia sobre o potencial produtivo da área funciona como uma “segunda boa-fé”.
Ele faz referência à “presunção de boa-fé”, regra que permitiu até 2025 que os
compradores de ouro de garimpo classificassem o minério como de origem legal
apenas com base nas informações declaradas pelo garimpeiro. Esta prática foi
considerada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal no ano passado.
“Não
existe um estudo geológico que permita estimar se daquela área pode sair um
quilo, cem quilos ou cem mil quilos de minério, porque ninguém conhece o
potencial da jazida”, afirma Aguiar. “É uma espécie de ‘segunda boa-fé’:
continuamos autorizando e licenciando uma produção sem saber quanto de minério
existe ali”, continua.
No
final de maio, o Greenpeace Brasil publicou levantamento estimando que 25,3
toneladas de ouro (totalizando R$ 18,4 bilhões) teriam origem em PLGs com
irregularidades.
“Há um
claro desvirtuamento das PLGs”, afirma André Luiz Porreca, procurador do MPF
que investiga o caso da White Solder. Ele critica a falta de monitoramento pela
ANM, que “tem o dever de fiscalizar o local de onde o minério é extraído”.
“Isso está expresso na lei, mas não é feito”, diz o procurador.
Em
junho, a ANM aprovou uma resolução que altera as regras do atual regime de
Lavra Garimpeira. Entre as mudanças está a exigência de comprovação de efetiva
atividade de mineração como condição para a renovação da PLG. A norma também
limitou a 50 hectares a área máxima para PLGs de pessoas físicas e firmas
individuais, e a 1.000 hectares para áreas registradas por cooperativas, que
deverão apresentar anualmente a relação de seus cooperados.
A
Repórter Brasil procurou a ANM, mas a agência não respondeu até a publicação.
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Cooperativa ré por garimpo ilegal também forneceu para White Solder
O
sobrevoo na região também revelou uma operação de mineração ao longo do rio
Massangana, na zona rural de Ariquemes. É uma PLG da Coopertin (Cooperativa de
Produtores de Estanho do Brasil). Ali, há pilhas de rejeitos, barragens e
máquinas que extraem a cassiterita em uma área de 5,6 mil hectares.
A
lavra, no entanto, extrapolou os limites da PLG, de acordo com imagens de
satélite analisadas pelo Greenpeace. Em junho de 2024, o garimpo vazou pela
porção norte da área, seguindo o curso do rio, segundo análise da organização.
“A
inspeção visual comparativa das imagens permite identificar a expansão da
frente de lavra ao longo do tempo e verificar sua posição em relação ao limite
autorizado da PLG, podendo, desse modo, afirmar que a lavra expande para além
dos limites da PLG”, diz análise do Greenpeace.
A
Coopertin é ré ao lado da White Solder na investigação que apura um esquema
criminoso na TI Yanomami.
Entre
janeiro de 2020 e maio de 2026, a White Solder declarou compras de 20 mil
toneladas de cassiterita atribuídas à área da cooperativa, com valor estimado
de R$ 1,6 bilhão.
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Posicionamento para matéria sobre ‘garimpos fantasmas’
Manifestação
da Fábrica Auricchio para a reportagem "Mineradora comprou cassiterita de
áreas apontadas como 'garimpos fantasmas'".
1. Como
a Fábrica Auricchio responde aos indícios de que adquiriu cassiterita declarada
como proveniente de uma PLG onde não foram identificados sinais de atividade
minerária compatíveis com a produção informada?
A
Fábrica Auricchio, antes de iniciar a aquisição de minério de seus
fornecedores, realiza procedimentos de verificação, incluindo diligências
presenciais nas áreas de mineração. No caso em questão, foi realizada
verificação in loco no período compreendido entre o final de 2023 e o início de
2024.
Na
ocasião, não foram identificados elementos que indicassem à Fábrica Auricchio
qualquer irregularidade relacionada à origem do minério ou que permitissem
concluir pela existência da situação atualmente apontada pela reportagem.
Diante
das novas informações apresentadas, a empresa promoverá nova verificação
específica sobre a PLG mencionada.
2.
Quais procedimentos de rastreabilidade e verificação da origem do minério a
empresa adota antes de comprar cassiterita de cooperativas e garimpos?
A
Fábrica Auricchio adota procedimentos de diligência e rastreabilidade para
aquisição responsável de minerais, em consonância com os padrões e protocolos
aplicáveis no âmbito da Responsible Minerals Initiative – RMI, da qual é
certificada.
Esses
procedimentos abrangem, entre outras medidas, a identificação e avaliação dos
fornecedores, verificação da documentação relacionada à origem e regularidade
do minério, análise dos respectivos títulos e autorizações minerárias,
avaliação de riscos e realização de diligências sempre que necessárias.
A
empresa mantém seus procedimentos de conformidade sujeitos a acompanhamento e
revisão, especialmente quando surgem informações novas capazes de indicar
eventual risco relacionado à cadeia de fornecimento.
3. A
Fábrica Auricchio tinha conhecimento do caso citado pela reportagem? Caso não,
a empresa adotará alguma providência?
Não. A
Fábrica Auricchio desconhecia os fatos específicos relatados pela reportagem.
Diante
das informações agora apresentadas, a empresa comunicará formalmente a COOMARI
de que interromperá, preventivamente, qualquer aquisição de minério declarado
como originário da PLG nº 886330/2013, até que os fatos sejam devidamente
esclarecidos.
Paralelamente,
será agendada nova due diligence, incluindo verificação da área e da
documentação pertinente, com o objetivo de apurar as informações relatadas e
avaliar a compatibilidade entre a atividade minerária efetivamente desenvolvida
e a produção declarada.
A
Fábrica Auricchio pauta sua atuação pela aquisição responsável de minerais
provenientes de cooperativas e fornecedores previamente avaliados, observando
seus procedimentos internos de conformidade e os protocolos aplicáveis no
âmbito da RMI. As informações recebidas serão tratadas com a seriedade
necessária e as medidas cabíveis serão adotadas de acordo com o resultado das
verificações.
Fonte:
Repórter Brasil

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