sábado, 19 de setembro de 2026

Imprevisibilidade momentânea ou instabilidade permanente? Ordem global vive ruptura e reorganização

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas destacam o abandono sistemático dos Estados Unidos dos órgãos multilaterais e defendem a importância dos atores regionais, como o Brasil, na nova estrutura de poder mundial.

A Organização das Nações Unidas é criada em 1945, após o fim do maior conflito da história da humanidade: a Segunda Guerra Mundial. A instituição é concebida em um contexto em que governos com diferentes abordagens entendiam ser necessária a manutenção da paz e da segurança internacional, evitando uma eventual escalada bélica a nível global.

Com o passar do tempo, outros órgãos multilaterais surgiram, como a Organização Mundial do Comércio (OMC), mas nenhuma destas instituições tem ou teve o destaque que a ONU alcançou ao longo dos anos. Hoje, no entanto, ela vive uma crise.

Com o seu principal fiador, os Estados Unidos, cortando suporte financeiro e descredibilizando a atuação da organização, a ONU se encontra em seu momento mais frágil desde a fundação. Essa conjuntura se reflete também no restante do multilateralismo mundial, abraçado por alguns países, em especial aqueles que fazem parte do Sul Global, diante das ações econômicas de Washington, norteadas por tarifas e sanções.

Um dos grandes alvos da guerra comercial da Casa Branca é a China, que, na época em que a ONU foi criada, estava longe de ser a grande potência que é hoje. Capitaneada pela indústria de tecnologia de ponta dos chips, Pequim hoje é a maior pedra no sapato do governo republicano, que luta para manter o status hegemônico que construiu após a Segunda Guerra Mundial no mundo ocidental.

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, analistas apontam que a ordem global que conhecíamos passa por uma ruptura e por uma reorganização, restando saber se esta imprevisibilidade econômica e de segurança será momentânea ou uma instabilidade permanente até uma nova potência hegemônica ditar os rumos globais.

Guilherme Frizeira, mestre em ciências e integração da América Latina pela Universidade de São Paulo (USP), doutor em relações internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e professor coordenador do curso de relações internacionais do Centro Universitário Internacional (Uninter), acredita que o atual momento das relações internacionais se baseia entre a instabilidade da antiga ordem global e o surgimento da nova, que ainda não nasceu.

"Na virada do século XX para o século XXI, já nos ataques do 11 de setembro de 2001, ali nós já começamos a ver alguns dos princípios dessa ordem internacional, liberal, democrática, começando a ruir. E agora, um pouco mais de um quarto de século desde esses atentados, a gente está vendo que ela não se sustenta mais."

Frizeira entende que há dois processos simultâneos acontecendo: ainda que os Estados Unidos sejam poderosos e possuam as maiores forças armadas do mundo, Washington já não é mais visto como o farol da civilização ocidental, um exemplo da democracia liberal ancorada em regras, normas e procedimentos. O especialista destaca que, por mais que os acordos celebrados com a Casa Branca fossem quase sempre desvantajosos para o outro lado, tinha-se uma certeza de que eles seriam respeitados pelos norte-americanos, o que não acontece mais.

"Não é um fenômeno porque é o governo Donald Trump, é um sinal que vem acontecendo já há algum tempo. E então a gente viu que a própria ordem que foi construída pelos Estados Unidos, em larga medida, também é a ordem à qual os próprios Estados Unidos deram fim. Foi o país precursor da ordem que a gente conhece e também o país que deu fim a ela."

Natali Hoff, doutora em ciência política e professora do curso de relações internacionais no Uninter, vê Trump como um catalisador desse processo de ruptura com as entidades multilaterais, mas não como o principal responsável pelo abandono dos EUA a essa ordem estabelecida pós-Segunda Guerra Mundial.

"Essa postura foi mudando com o tempo e ela foi mudando, na minha concepção, por vários aspectos. Um deles, que é importante a gente tocar, diz respeito aos custos. Acho que, com o passar do tempo, os Estados Unidos foram identificando que os custos para manter esse tipo de projeção tão ampliada em âmbito global eram bastante elevados. E aí a gente percebe uma retração gradual por parte dos Estados Unidos com relação à presença no mundo, que vai começar ali pelo fim dos anos 1990 e, principalmente, nos anos 2000, que é quando essa expectativa fica muito perceptível."

Hoff explica que, após o fim da Guerra Fria, existe um otimismo ocidental de que os valores impostos pelos Estados Unidos do capitalismo liberal se espalhariam pelo mundo. No entanto, a invasão do Iraque, em 2003, sem a autorização do Conselho de Segurança da ONU, mostrava que Washington não mais seguiria os parâmetros estabelecidos, em grande medida, por si mesmos.

Aliada a essa individualidade norte-americana, a especialista aponta como causa para a mudança de ordem global a ascensão chinesa e a retomada de protagonismo russo, principalmente a nível europeu, onde os outros países lidam com um continente "decaído em comparação com o que já foi um dia".

"A perda relativa de capacidade de liderar [dos Estados Unidos], de produzir consenso, é o que a gente vem observando com relação a Washington nas últimas décadas, seja porque a gente tem um mundo mais policêntrico, com outros polos de poder, ou porque os próprios americanos vão passando a adotar posturas mais unilaterais, mais autocentradas, que vão ali colidindo com os compromissos assumidos, sejam nas instituições ou nas parcerias que eles têm."

<><> Como pode ser a próxima ordem mundial?

Após a Segunda Guerra Mundial, existia uma divisão palpável de mundo: existiam aqueles que apoiavam os Estados Unidos e aqueles que estavam com a União Soviética, sobrando pouco espaço para o meio termo. Com a dissolução do bloco soviético, Washington passou a ditar tendências, mas este espaço parece já não poder mais ser ocupado por um único player.

Frizeira comenta que há, atualmente, um vácuo na estrutura internacional que promove protagonismos pontuais em assuntos específicos de países como África do Sul, Brasil, Índia, México e Turquia.

"Você não chegaria a um bom acordo global de meio ambiente sem envolver o Brasil, ou não chegaria a um regime de política global de ciberespaço, inteligência artificial, sem a Índia. Então, você tem que incorporar o que chamo de países não hegemônicos, porém sistemicamente relevantes."

Para Frizeira, vivemos um mundo multipolar, mas sem duas forças gravitacionais, como EUA e URSS já foram outrora. Esta conjuntura, por sua vez, pode culminar em um mundo de instabilidade cada vez mais crescente, ainda que o principal ator do momento, a China, não tenha características como as norte-americanas.

"Os Estados Unidos vão sendo um polo, a China vai ser um polo, mas eles não são iguais. A China não tem, ou ao menos não sinaliza ter, um comportamento hegemônico semelhante ao dos Estados Unidos. Ela tem mais interesse comercial e ponto. Não tem, ao menos hoje, uma ânsia de ficar interferindo em assuntos domésticos em todo o globo, como os Estados Unidos tiveram no passado e estão tendo agora novamente."

Já Hoff entende que o respeito ao direito internacional depende da vontade política das nações de questionarem ações indevidas que violem os direitos humanos ou as leis impostas pelas instituições por meio de mecanismos como sanções econômicas e comerciais.

"Todo esse conjunto normativo institucional é muito importante. Só que, por conta do princípio de soberania e de como a política internacional opera, ele ainda é limitado à vontade política dos Estados."

Na opinião de Hoff, por mais que a ONU esteja em um momento delicado, as nações de médio porte não estão dispostas a deixar este espaço de diálogo se fechar.

"[A ONU] hoje é um espaço bastante disfuncional e que precisa ser, de alguma maneira, revisado, revisitado pelos atores internacionais para que ele volte a ter uma centralidade maior na política internacional. Mas aí esse processo de transformação da ONU vai depender desses Estados que hoje têm maior capacidade de influência e de projeção de poder no campo internacional."

¨      Papel do dólar diminui à medida que Rússia expande comércio em moedas locais com OCX

A Rússia tem interesse em transitar para o uso de moedas nacionais nas liquidações financeiras com todos os Estados-membros da OCX a fim de proteger totalmente o comércio mútuo da pressão das sanções, afirmou nesta quinta-feira (17) o embaixador da Rússia na China, Igor Morgulov.

"Estamos satisfeitos com o trabalho realizado no âmbito da União Econômica Eurasiática [UEE] para a transição das liquidações de operações comerciais para moedas nacionais", disse Morgulov em uma mesa-redonda sobre o fortalecimento da cooperação entre a UEE e a Organização para Cooperação de Xangai (OCX).

A Rússia busca ampliar essa prática para todo o espaço da OCX, visando proteger integralmente o comércio mútuo da pressão de sanções exercida por concorrentes inescrupulosos, afirmou Morgulov.

Em 2025, 98% do comércio da Rússia com os membros da OCX — totalizando mais de US$ 400 bilhões (mais de R$ 1,9 trilhão) — foi liquidado em moedas nacionais, acrescentou o embaixador.

De acordo com o secretário-geral da OCX, Nurlan Yermekbaev, a organização visa implementar iniciativas para aumentar a eficiência da interação econômica e pode contar com a experiência da UEE nessa trajetória.

"A OCX e a UEE estão ligadas pela geografia, por alguns Estados-membros em comum e pelo interesse mútuo na construção de uma arquitetura multilateral de desenvolvimento sustentável e crescimento econômico progressivo", disse Yermekbaev na cerimônia de abertura dos "Dias da UEE" na secretaria da OCX, em Pequim.

Ainda segundo Yermekbaev, a organização cooperativa possui a vontade política de formar um modelo de cooperação econômica aberta, pragmática e mutuamente benéfica, enquanto a região da UEE, por sua vez, constitui um importante polo de comércio global e de rotas de trânsito.

"Hoje, os Estados-membros da OCX estão concentrados na implementação de iniciativas voltadas para melhorar a eficiência, a coerência e os resultados práticos da interação econômica; estamos confiantes de que, nesse caminho, podemos e devemos contar com a experiência da UEE", acrescentou Yermekbaev.

Durante a recente cúpula da OCX em Bishkek, vários chefes de Estado-membro destacaram a importância de aprimorar ainda mais os mecanismos de interação entre a organização e organizações internacionais parceiras, incluindo a UEE, afirmou o secretário-geral.

<><> China reduz participação em dívida dos EUA ao menor nível em 18 anos, diz jornal

A China reduziu, em julho, sua participação em títulos do Tesouro dos EUA ao mínimo não registrado desde 2008, enquanto as participações de outros países continuaram caindo pelo segundo mês consecutivo, publicou o jornal South China Morning Post.

Em julho, as participações da China caíram até US$ 618 bilhões, ante US$ 633,4 bilhões acumulados em junho, mostraram dados divulgados pelo Departamento do Tesouro dos EUA. Segundo o provedor de dados financeiros chinês Wind, o valor de julho representou o menor patamar desde 2008, quando o peso do país asiático na dívida norte-americana havia caído para US$ 573,7 bilhões.

Ao mesmo tempo, as participações estrangeiras globais em títulos do Tesouro dos EUA diminuíram para US$ 9,25 trilhões em julho, ante US$ 9,3 trilhões em junho.

Desta forma, a China deu continuidade à estratégia de abandono da dívida norte-americana iniciada já em março do ano passado, quando posicionou-se em terceiro lugar entre os principais detentores estrangeiros dos títulos do Tesouro dos EUA, atrás do Japão e do Reino Unido.

Essas dinâmicas descendentes devem-se às preocupações crescentes sobre a sustentabilidade das finanças de Washington. Os investidores exigiram uma compensação maior por manter a dívida do governo dos EUA em horizontes mais longos — o que continuou a pressionar os títulos de longo prazo, empurrando os rendimentos dos papéis de 30 anos ao nível mais alto desde 2007.

Os rendimentos dos títulos de longo prazo continuaram a crescer mesmo depois que o Departamento do Tesouro dos EUA anunciou na semana passada que compraria de volta até US$ 6 bilhões em bônus, com o fim de apoiar o mercado.

Ao mesmo tempo, o impacto da decisão da Reserva Federal dos EUA de quarta-feira (16) de elevar os juros em 0,25%, o primeiro aumento da taxa em mais de três anos, motivado por preocupações com a inflação, continuou a ser um ponto central para os investidores em dívida norte-americana.

¨      China cria potencial para impedir que EUA interfiram em conflitos regionais, diz especialista

A China está tentando criar uma capacidade de dissuasão que privaria os Estados Unidos de interferirem em potenciais conflitos na região, disse à Sputnik o pesquisador russo Vasily Kashin.

Falando nos bastidores do Fórum de Segurança de Xiangshan, em Pequim, Kashin disse que a China está tentando fortalecer sua posição na rivalidade militar com os Estados Unidos, a fim de garantir a segurança regional.

"A China está tentando criar uma capacidade de dissuasão que impeça os Estados Unidos de interferirem em potenciais conflitos na região, por exemplo, em torno de Taiwan e no mar do Sul da China", disse Kashin.

O pesquisador russo acrescentou que, em geral, a China "está alinhando" suas capacidades militares com suas capacidades econômicas, e outros países da região reagem ao fortalecimento do país.

"Ao mesmo tempo, deve-se notar que os Estados Unidos têm sido muito ativos por muitos anos, desde a era do [ex-presidente dos EUA] Barack Obama, pressionando o Japão e a Coreia do Sul a rearmarem e expandirem o escopo de suas forças armadas, e esse longo processo só está crescendo", disse Kashin.

Ele observou que na Ásia há um acúmulo de potenciais militares e as partes sentem a necessidade de desenvolver certas "regras do jogo", canais de comunicação que lhes permitam avançar nas condições de nova competição das grandes potências na região.

"Há muita atenção para a questão da estabilidade estratégica na Ásia, com isso se devendo ao fato de que a Ásia se tornou o centro da corrida armamentista global", enfatizou Kashin.

Um dos pontos mais tensos das disputas geopolíticas na região é a questão de Taiwan.

Pequim considera Taiwan parte integrante da China, e o cumprimento do princípio de "China única" é um pré-requisito para outros Estados que desejam estabelecer ou manter relações diplomáticas com a China.

As relações oficiais entre o governo central da República Popular da China e sua província insular foram interrompidas em 1949.

¨      Impulso hegemônico: tentativas dos EUA de militarizar o espaço ameaçam segurança global, diz mídia

Com as tentativas de militarizar o espaço próximo à Lua, Washington ameaça a segurança global, replicando o antigo roteiro de confronto de blocos na Terra, escreveu o jornal chinês Global Times.

De acordo com a mídia, ao trazerem explicitamente a vizinhança lunar para sua conceituação sobre a corrida armamentista no espaço, os altos funcionários militares dos EUA "estão enviando um sinal altamente agressivo e perigoso" ao mundo. Desta maneira, Washington pretende replicar perto da Lua o antigo modelo de confronto de blocos realizado na Terra, destaca a mídia.

O autor do artigo menciona que os EUA, já em 2019, estabeleceram oficialmente a Força Espacial e em 2025 revelaram o programa de defesa antimísseis espacial Golden Dome (Cúpula Dourada).

"Como signatários do Tratado do Espaço Exterior de 1967, os EUA devem defender seu espírito: objetos celestes como a Lua devem ser usados exclusivamente para fins pacíficos, armas nucleares não podem ser colocadas no espaço e os países são responsáveis por danos causados por seus objetos espaciais", sublinhou o Global Times.

No entanto, Washington assumiu a liderança na criação de uma força espacial independente, reconheceu publicamente a implantação de armas espaciais ofensivas e ampliou continuamente seus conceitos operacionais em direção à órbita lunar. "Esse cruzamento repetido de linhas vermelhas regulatórias prejudica seriamente a governança do espaço sideral", advertiu o veículo de comunicação.

<><> Pretexto falso para uma corrida armamentista

Com o fim de justificar o incremento de potencial militar no espaço, Washington não deixa de apontar o dedo para outros países como a China e a Rússia, que, segundo as autoridades norte-americanas, fazem investimentos maciços em tecnologias espaciais e outras capacidades que podem "ameaçar os satélites americanos".

Por trás deste exagero dos EUA das ameaças externas estão considerações puramente orçamentárias, acrescentou o autor do artigo, indicando que o novo ano fiscal nos EUA começa em 1º de outubro e o orçamento de defesa proposto para 2027 equivale a um valor histórico de US$ 1,5 trilhão.

De acordo com o Global Times, impulsionados por cálculos estratégicos duplos, tanto dentro do país como internacionalmente, os EUA estão buscando uma hegemonia espacial irrestrita.

"À medida que continua a expandir sua força espacial, Washington está planejando implantar vários novos sistemas de armas no espaço com o objetivo de transformar o campo da exploração do espaço profundo em uma linha de frente da rivalidade militar entre as grandes potências", escreveu a mídia e acrescentou que este "aventureirismo militar" acarreta os riscos de "alimentar uma corrida armamentista espacial global".

Neste contexto, o veículo adverte que, quando o espaço entre a Terra e a Lua se tornar um palco de confronto, os ativos espaciais de nenhum país "poderão permanecer ilesos". "Assim que o estopim de uma corrida armamentista for aceso, a destruição trazida pelo risco de guerra será suportada pelo mundo inteiro", assegurou o autor.

Segundo o jornalista, a jornada da humanidade para o espaço deve ser impulsionada pelo progresso científico e não deve ser reduzida a um barril de pólvora para rivalidade entre grandes potências.

"Os EUA encontram-se mergulhados em inúmeros desafios de governança. Em vez de trabalhar para resolver seus próprios problemas, estão incitando uma corrida armamentista, chegando ao ponto de empurrar o espaço Terra-Lua para a militarização. Tais impulsos hegemônicos e histéricos estão espalhando o risco de instabilidade em todo o mundo", resumiu a mídia.

Na segunda-feira (14), o secretário da Força Aérea, Troy Meink, reconheceu pela primeira vez que os EUA têm uma arma implantada no espaço. Meink não deu nenhum detalhe do tipo de arma que está agora no espaço ou quando foi lançada, apenas sublinhando que ela "garantirá" que, quando os EUA forem ameaçados, possam "cuidar disso".

Esta revelação fez com que se especulasse muito sobre suas capacidades e o que Washington quer completar em seu arsenal para conter a Rússia e a China.

 

Fonte: Sputnik Brasil

 

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