Censura
durante a ditadura: controle, medo e resistência
A
censura foi uma das marcas mais profundas da ditadura militar no Brasil. Junto
à repressão política, o regime silenciou sistematicamente a arte, a imprensa e
o pensamento crítico. Músicas, filmes, livros e jornais foram vetados,
modificados ou proibidos.
Embora
não inédita na história brasileira, a censura ganhou novos contornos durante o
regime: mais ampla, institucionalizada e moralizante. O Estado usou esse
controle para forjar uma aparência de estabilidade e sufocar a oposição e a
diversidade de pensamento.
Neste
artigo, vamos explorar os mecanismos de censura implantados pela ditadura, sua
importância para a sustentação do regime e as estratégias criativas usadas por
artistas e jornalistas para resistir ao silenciamento.
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Como funcionava a censura durante a ditadura militar brasileira?
A
censura foi uma estratégia central do regime para controlar a informação,
moldar o discurso público e impedir críticas. Por meio de medidas legais e
práticas autoritárias, o Estado atuou sobre jornais, músicas, filmes, novelas e
qualquer produção considerada “subversiva” ou ofensiva à “moral e os bons
costumes”.
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A censura como instrumento político e moral
A
censura impedia críticas, denúncias de corrupção, retratos da desigualdade
social e temas como racismo, emancipação feminina, luta de classes e
sexualidade. Tudo isso era enquadrado como ameaça à moral e aos bons costumes e
potencialmente nocivo à coesão social. O objetivo era impor uma visão única,
conservadora e patriótica.
Durante
a ditadura, a censura adquiria uma caraterística de polícia política, mas
também moral. É preciso lembrar que diversos setores da direita e conservadores
apoiaram a tomada de poder pelos militares.
Todo o
controle da informação feito pelos órgãos censores do Estado colaborava para
criar uma narrativa única sobre o cenário do país. Foi essa manipulação que
permitiu a consolidação de mitos como o “milagre econômico” e a narrativa de
que não havia corrupção no período.
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Quais eram os mecanismos de censura durante a ditadura militar no Brasil?
A
censura foi uma peça-chave no funcionamento da ditadura militar que durou 21
anos no Brasil. Após o golpe de 1964, repressões à imprensa e a cultura
aumentaram, mas foi a partir de 1967, com a Lei de Censura à Imprensa, que o
regime estruturou legalmente os mecanismos de controle.
Antes
disso, a censura se dava por meio de batidas policiais, apreensão de materiais
e ameaças físicas. Entre 1964 e 1968, o editor Ênio Silveira, foi preso
diversas vezes e teve a editora Civilização Brasileira, a qual era dono,
invadida em diversas oportunidades. Com o tempo, a ditadura buscou dar
aparência legal às práticas de censura, ampliando sua sofisticação e alcance.
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Lei nº 5.250 (Lei de Censura à Imprensa)
Sancionada
por Castello Branco em 1967, a Lei nº 5.250, também conhecida
como Lei de Censura à Imprensa, regulava a liberdade de expressão, proibindo
conteúdos considerados subversivos ou ofensivos à moral e aos bons costumes.
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Ato Institucional Nº 5 (AI-5)
Publicado
em 1968, o AI-5 ampliou os poderes
da ditadura: fechou o Congresso, suspendeu o habeas corpus, institucionalizou a
tortura e intensificou a repressão e a censura.
No
livro 1968: o Ano Que não Terminou, o jornalista Zuenir Ventura estima que, nos dez
anos em que o AI-5 esteve em vigor, houve a censura de “cerca de 500 filmes,
450 peças de teatro, 200 livros, dezenas de programas de rádio, cem revistas,
mais de 500 letras de música e uma dúzia de capítulos e sinopses de
telenovela”.
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Decreto-Lei nº 1.077/70 (Decreto Leila Diniz)
O decreto foi publicado dois
meses após uma entrevista de Leila Diniz ao jornal O Pasquim, onde a atriz
falou abertamente sobre amor livre, sexo e maconha. O conteúdo provocou forte
reação dos militares. Foi após essa lei que as redações de jornais e revistas
passaram a contar com censores oficiais.
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Autocensura
Além da
repressão direta, muitos jornalistas e artistas passaram a evitar certos temas
por medo de represálias. A autocensura tornou-se reflexo da vigilância
constante e da insegurança instaurada.
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Quais eram os órgãos censores da ditadura militar?
Durante
a ditadura militar, a vigilância e a repressão a opositores contaram com a
atuação direta de órgãos como o DOPS, o DOI-CODI e os departamentos de
inteligência das Forças Armadas.
Mas,
além disso, diversos órgãos foram criados ou tiveram estruturas adaptadas para
realizar a censura institucionalizada e sistemática à cultura e à imprensa:
- Serviço Nacional
de Informações (SNI): embora sua função principal fosse a coleta de dados
e inteligência, teve papel central na criação da imagem pública da
ditadura militar. O SNI desempenhava a manipulação e censura da mídia,
colaborando para a propaganda estatal.
- Divisão de
Censura de Diversões Públicas (DCDP): vinculada ao Ministério da
Justiça, era responsável por analisar e vetar conteúdos culturais como
filmes, músicas, peças de teatro, novelas e programas de TV.
- Conselho
Superior de Censura: criado em 1976 para tentar padronizar critérios
entre os censores e dar uma aparência técnica às decisões. Quando algum
artista discordava de uma censura era necessário entrar com um recurso no
órgão.
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O papel dos censores
Os
censores oficiais eram servidores públicos com status de policiais federais. O
cargo exigia curso superior e o órgão promovia treinamentos para refinar o
julgamento dos funcionários.
Após a
revogação do AI-5, em 1978, embora a censura política tenha diminuído, a
censura moral se intensificou, especialmente sobre livros. Segundo a professora
Sandra Ramão, em artigo publicado na Revista de
Estudos Avançados da USP, uma das hipóteses para isso é de que, nesse período, a
censura intensificou ainda mais a vigilância moral.
Em
1981, Solange Hernandes assumiu a chefia da DCDP e intensificou o trabalho de
censura do órgão. Para ironizar a atuação da censora, em 1985 o cantor Leo
Jaime lançou a música Solange, uma adaptação da música So Lonely, da banda
britânica The Police.
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Criatividade e resistência para driblar a censura durante a ditadura
Durante
a censura na ditadura militar no Brasil, artistas e jornalistas criaram formas
criativas de resistência. A imprensa alternativa, as metáforas na música e o
teatro engajado driblavam a censura estatal e mantinham vivas a crítica e a
liberdade de expressão em meio à repressão autoritária.
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A imprensa que não se calou
A
censura durante a ditadura militar no Brasil atingiu diretamente a imprensa, a
cultura e a produção intelectual. Inicialmente, grande parte da mídia apoiou o regime, posição que só
mudou após os rumos da gestão militar despertarem incômodo em setores do
empresariado brasileiro.
Nesse
contexto, surgiram publicações alternativas e clandestinas. Os jornais
clandestinos, em geral ligados a grupos políticos, foram duramente reprimidos.
Já a imprensa alternativa ganhou força com
publicações como a revista Pif-Paf, criada por Millôr Fernandes e que contou
com nomes como Ziraldo, Jaguar e Fortuna. A publicação foi encerrada após uma
edição na qual Millôr provocou o regime ao alertar que o país poderia “cair
numa democracia” caso conteúdos como aquele fossem permitidos.
Outros
veículos, como Movimento, O Pasquim, Jornal da Amazônia e O Lampião da Esquina
— voltado ao público gay — desafiaram o autoritarismo. Chargistas como Henfil e
Laerte também utilizaram o
humor gráfico como forma de resistência.
Mesmo
na grande imprensa, houve enfrentamento: jornalistas desafiaram a censura e
enfrentaram prisões, perseguições e até a morte, como no emblemático caso de Vladimir Herzog.
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Metáforas e entrelinhas como forma de protesto na música
A
partir de 1964, a censura da ditadura militar impôs uma nova realidade para os
artistas. Produtores de teatro, compositores, cantores e cineastas precisaram
encontrar formas de driblar a repressão. O uso de recursos de linguagem, como
as metáforas, passou a ser explorado.
Na
música, diversos compositores tiveram suas canções censuradas, como Geraldo
Vandré, Chico Buarque, Rita Lee e Gilberto Gil. Mas com o tempo, para driblar a
censura, os artistas passaram a adotar algumas técnicas, entre elas incluir uma
canção crítica na mesma pasta em que estavam as letras de compositores
considerados “neutros”.
Foi
assim que o compositor Paulo César Pinheiro conseguiu lançar a música
“Pesadelo”, que entre outras mensagens, tinha o verso “Você corta um verso, eu
escrevo outro / Você me prende vivo, eu escapo morto”. Outras músicas também
ganharam repercussão, como a canção “Cálice”, de Gilberto Gil e Chico Buarque,
que se aproveitava do duplo sentido da palavra para criticar o “Cale-se”
imposto pela ditadura.
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Conheça 5 canções que foram censuradas durante a ditadura militar
A
música foi um dos campos mais férteis de resistência à repressão. Abaixo,
listamos sete canções emblemáticas que foram censuradas por afrontarem o regime
ou por tratarem de temas considerados “subversivos”, “imorais” ou “perigosos”
pelos censores.
- “Pra Não Dizer
Que Não Falei das Flores” – Geraldo Vandré (1968): hino informal
da resistência, foi vetada por exaltar a luta popular contra o regime e se
tornar um símbolo dos movimentos de combate à ditadura.
- Comportamento
Geral (1973) – Gonzaguinha: criticava a passividade social e a
alienação induzida pela ditadura e teve a exibição proibida pelos
militares.
- Cor de Rosa
Choque (1981) – Rita Lee: inicialmente com o nome As Duas Faces de Eva, a
música fala sobre a força das mulheres, mas foi acusada de ferir a moral e
os bons costumes por um verso em que Rita Lee menciona a menstruação.
- Que as Crianças
Cantem Livres (1973) – Taiguara: a música trazia críticas à repressão e
à falta de liberdade, especialmente à infância e juventude.
- Tiro ao Álvaro –
Adoniran Barbosa e Elis Regina (1973): a música foi censurada por
desrespeitar as normas gramaticais e ser vista como “linguagem
inadequada”, revelando o nível absurdo do controle
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O teatro e o cinema como trincheiras
O
teatro e o cinema também foram alvos da censura durante a ditadura militar. Zé Celso, do Teatro Oficina,
usou a linguagem experimental como crítica ao regime e foi preso, torturado e
exilado. Já Augusto Boal, do Teatro de Arena, dirigiu peças como Arena Conta
Zumbi, escrita com Gianfrancesco Guarnieri e com música de Edu Lobo. Exilado, Boal
desenvolveu o Teatro do Oprimido, propondo a prática teatral como instrumento
de transformação social.
No
cinema, diversos filmes recebiam investimento estatal, mostrando que a ditadura
buscava perpetuar sua narrativa também nas produções audiovisuais. Ainda assim,
surgiram filmes que
desafiaram o regime.
Terra em Transe (Glauber Rocha), Cabra Marcado Para Morrer (Eduardo Coutinho) e
Pra Frente, Brasil! (Roberto Farias) confrontaram a narrativa oficial e
trataram de temas como a desigualdade social e econômica.
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O fim da censura e a redemocratização
O fim
da censura no Brasil está diretamente ligado ao processo de redemocratização
iniciado ainda nos anos 1980. Com o desgaste do regime militar, a pressão
social por liberdades democráticas se intensificou. Movimentos sociais, setores
da Igreja, da imprensa e da cultura tiveram papel decisivo ao exigir eleições
diretas, anistia aos perseguidos políticos e o fim das
restrições à liberdade de expressão.
Foi com
o governo Sarney, em 1985, que se iniciou o desmonte do aparato autoritário.
Mas somente após a promulgação da Constituição de 1988, que a liberdade de
expressão e de imprensa foi garantida de forma plena e a livre manifestação do
pensamento restaurada.
No
entanto, a Lei Nº 5260/67, conhecida como Lei de Censura à Imprensa, continuou
a constar no ordenamento jurídico brasileiro até 2009, quando foi considerada
inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
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Por que não devemos esquecer da censura durante a ditadura militar brasileira?
Lembrar
a censura imposta pela ditadura militar é essencial para compreender como o
silenciamento da arte, da imprensa e da crítica foi usado como ferramenta de
dominação e de construção de uma narrativa idealizada do período.
O
Brasil nunca enfrentou seu passado autoritário. Os militares foram anistiados
pelos crimes que cometeram; a tortura, o assassinato e o desaparecimento de
opositores foi por muito tempo ignorado. Se hoje, de tempos em tempos, o
monstro do autoritarismo volta para nos assombrar, é porque os horrores do
período ainda são relativizados.
Ignorar
esse passado é abrir espaço para que discursos autoritários se normalizem,
disfarçados de moral ou ordem. A mesma moral e ordem que promoveu 21 anos de
repressão, violência e aprofundamento de desigualdades sociais. Preservar a
memória histórica é uma forma de resistência e um alerta permanente de que, se
hoje a liberdade de expressão pode ser defendida, é por que durante a ditadura
muita gente lutou — e morreu — para que ela pudesse ser conquistada.
A
ditadura militar no Brasil foi um período complexo e sua história é cercada por
narrativas revisionistas e tentativas de esconder a verdade. Quer saber o que
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Fonte:
ICL Notícias

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