O
que o caso do Banco Master coloca em cena?
Que o
corpo-notícia das mulheres tem sido colocado em cena nas mídias brasileiras
como vítima de violências físicas e simbólicas, todos já sabemos. São notícias
que, de tão recorrentes, parecem ter perdido a capacidade de nos espantar, já
fazem parte de nossa paisagem (habitual e naturalizada), como herança maldita.
Feminicídios, violências sexuais, domésticas, obstétricas e digitais, entre
tantas outras formas que constituem algumas das portas de entrada pelas quais o
corpo feminino é produzido como notícia.
Mas,
recentemente, com o escândalo do Banco Master, o corpo-notícia das mulheres
parece adquirir outro modo de aparecer: o corpo-business. No caso em questão, o
corpo da mulher é noticiado não mais como corpo-vítima, violentado, silenciado
ou morto, mas como empreendimento e entretenimento no circuito
político-empresarial masculino. O corpo feminino passa a operar como elemento
estético em uma cena pública atravessada por poder, dinheiro e masculinidade
patriarcal.
A
escritora bell Hooks no livro A vontade de mudar: homens, masculinidade e amor,
mostra que o problema não é a existência da masculinidade em si; é o modo como
o patriarcado produz um determinado modelo de ser homem. Não se trata de uma
identidade, mas de um regime de aprendizagem do próprio poder. Esse regime
inclui demonstrar masculinidade, virilidade, portanto, poder, diante de outros
homens. Os homens, particularmente no mundo dos negócios, exercem essa
pedagogia pelo exercício de dominação, controle, invulnerabilidade. Um certo
“posso tudo” e, nesse poder do “tudo”, o corpo da mulher é o objeto do consumo
pelo qual se pode pagar. Corpo que é partícipe dos próprios circuitos políticos
de troca e negociação.
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Mas, como as mulheres aparecem no caso Master? Para quem apareceram e sob quais
condições seus corpos foram convocados a aparecer?
Na
coluna da Folha de São Paulo, publicada em 12 de setembro de 2026, o jornalista
Elio Gaspari, no que chama de As camas do Master, aponta a presença de
mulheres, dentre elas, russas, ucranianas e convidadas do Leste Europeu em
festas patrocinadas pelo banqueiro Vorcaro. Era o próprio banqueiro, nos termos
do jornalista, que avaliava as mulheres categorizando-as como “wow”, “loirinha
top” ou de “+”.
O texto
retrata, ainda, que, em mensagens extraídas do celular de Vorcaro pela Polícia
Federal (PF), sua ex-noiva reclamou porque o banqueiro mantinha contato na rede
social com mulheres que ela considerava “putas”. E, em reposta, o banqueiro
respondeu que “Fazia parte do meu ‘business’”.
A
reportagem da Piauí, publicada em 10 de setembro de 2026, A festa das “suíças”
de Vorcaro, afirma: “Vorcaro fazia das festas uma forma de estreitar laços,
conquistar aliados e agradar figuras da República estratégicas para os seus
interesses”. A festa contou com a presença de 20 homens e 120 mulheres, e a
preferência era por “só menina nova”.
Essa
questão abre um debate sobre idade e sobre o tempo inscrito no corpo de
mulheres. Havia um desejo dos homens de negócios por meninas novas, como se o
corpo-novo significasse um capital simbólico maior, talvez um maior poder de
barganha. O corpo de uma mulher mais velha é produzido por esse circuito
patriarcal como um corpo de menor valor simbólico no interior de uma hierarquia
social e patriarcal dos corpos.
Esse
corpo-novo aparece nas reportagens como certo mecanismo de networking
masculino, como uma moeda de troca equivalente à propina, uma dimensão
simbólica do poder que vê no corpo feminino jovem um capital corporal
representado por beleza, vigor, disponibilidade e valor.
Judith
Butler, filósofa e teórica estadunidense, tem se dedicado a pensar o conceito
de aparecimento e, para ela, existem regimes que determinam quem pode ou não
aparecer e, mais ainda, como um dado corpo pode aparecer. No caso do
empreendimento econômico e político do Banco Master, o aparecer para esses
corpos-novos não era um fenômeno meramente visual e sexual; era tornar-se
corporalmente disponível ao olhar e ao desejo de posse do próprio poder.
O
corpo-business da mulher entra nessa cena como um signo de luxo, num espaço em
que o poder patriarcal se reconhece naquilo que a psicóloga e pesquisadora do
campo da saúde mental, Valeska Zanello, no seu livro Saúde mental, gênero e
dispositivos: cultura e processos de subjetivação, chama de “broderagem”. Ou
seja, não era simplesmente uma festa com mulheres bonitas; havia um pacto feito
entre os homens como forma de sociabilidade, cumplicidade, aliança e proteção
mútuas, como pode ser visto no trecho de uma das mensagens divulgadas pela
Revista Piauí: “Irmão, a ideia da Allure é boa, mas não queria ninguém de fora
nessa festa. De homem. Vai ter uma turma relevante pra mim, não quero ninguém
desconfortável.” Os homens não só se reconhecem entre si, como produzem
confiança e cumplicidade.
Todavia,
cabe pensarmos: qual a função que o corpo feminino desempenha na estruturação
do poder da masculinidade patriarcal? O corpo-business, exposto no escândalo do
Banco Master, talvez seja uma resposta a essa questão, quando percebemos que se
trata de um corpo-objeto por meio do qual circulam códigos, privilégios,
informações, negócios, alianças políticas e capital. Essa reflexão pode nos
ajudar a pensar sobre como os corpos das mulheres aparecem e são mobilizados
dentro de circuitos de poder, dinheiro, prestígio, sociabilidade masculina e
coroamento narcísico dos homens poderosos.
No meio
político e dos negócios, como o homem demonstra eficácia? Que dispositivo faz
essa masculinidade patriarcal operar uma engrenagem luxuosa e cara, apostando
em festas milionárias com mulheres bonitas como espelho do luxo e signo da
sofisticação?
Talvez,
a resposta a essa pergunta possa estar na própria pedagogia da masculinidade
patriarcal, ao se demonstrar que se pode. O luxo torna-se, assim, uma linguagem
do poder.
Voltando
à escritora Valeska Zanello, a masculinidade é organizada por duas formas: a
laborativa, como aquela que faz o homem ser bem-sucedido, produtivo, acumulador
de capital, como status social e reconhecimento; e, por outro lado, a
masculinidade, que precisa demonstrar a potência sexual e certa a capacidade de
mostrar uma sexualidade considerada viril. Essa performance nas festas e no
agenciamento de mulheres seria um cruzamento dessas duas dimensões? Seria uma
forma de chancela e reconhecimento na sociabilidade masculina desse dispositivo
de eficácia, que envolve trabalho e virilidade?
As
mensagens que foram divulgadas nas mídias mostram que dinheiro, poder,
trabalho, política, status, sexualidade, beleza e desejo não estão apartados da
produção da masculinidade e, portanto, das formas espiralares de fazer circular
politicamente o poder, que encontram no corpo-business da mulher uma de suas
passagens.
O que
não se esperava era que o corpo-business viesse a se transformar em
corpo-notícia. A espetacularização foi, assim, uma segunda dobra da
objetificação. E aqui vemos, mais uma vez, o corpo da mulher produzindo
interesses midiáticos, despertando curiosidades nas redes sociais, sejam sobre
as mulheres que participaram das festas, sejam das mulheres que situadas na
vizinhança de um circuito de poder masculino, também despertaram interesses da
mídia, como é o caso da ex-noiva de Vorcaro, Martha Graeff, e de Patrícia
Abravanel, esposa de Fabio Faria. Assim, pode-se perceber que o corpo feminino,
mesmo quando não é causa do acontecimento, é sugado para dentro da notícia e do
mesmo modo, espetacularizado.
Contudo,
o que antes circulava como parte de uma sociabilidade político-empresarial
masculina privada, passa a circular como espetáculo público. Mais uma vez a
mulher é colocada em cena, agora como corpo-objeto de curiosidade, especulações
e julgamentos morais.
Muda-se
o cenário, mas não a lógica do uso de um corpo-mulher-objeto-business-notícia
que pode ser exposto.
• Vorcaro e as ‘novinhas’ oferecidas como
brindes para poderosos da república. Por Nina Lemos
“As
meninas estão prontas”. “A minha amiga lá daquele dia deu certo, ne? Ela disse
que ficou com o Kássio”. “Você pode mandar o pagamento?” Esses diálogos, entre
Daniel Vorcaro e uma suposta agenciadora de garotas de programa, estão entre as
milhares de mensagens do ex-banqueiro que foram vazadas nos últimos dias. O
Kássio em questão seria o Ministro do Supremo Tribunal Federal, Kássio Nunes
Marques. E a profissional do sexo seria mais uma das mulheres oferecidas por
Vorcaro como “mimo” para alguns dos homens mais influentes da República. Além
de funcionário público muito bem pago com os nossos impostos para nos
representar na mais alta corte do país, nunca podemos esquecer.
Ao
receber a mensagem acima, Vorcaro respondeu com um endereço. É ali que as
meninas, como se fossem itens de um frigobar, deveriam ser “entregues”.
Simples, machista e vergonhoso assim. Mas como o roteirista do Brasil anda
inspirado, ainda piora. O apartamento onde Kassio teve o encontro, de acordo
com levantamento do ICL Notícias e do site Alma Preta, pertencia a Fabiano
Zettel, cunhado de Vorcaro e ex-pastor da Igreja Lagoinha. Parece filme de
humor de uma republiqueta das bananas. Mas, infelizmente, é a realidade do
Brasil 2026.
No
horror de tráfico de influência e corrupção que estamos vendo nas últimas
semanas, as mulheres são uma parte importante. Não como autoras do crime, mas
como objetos de luxo oferecidos junto com os uísques e vinhos de safra especial
Novinhas
suíças
Há uma
semana, a revista “Piauí” revelou em reportagem como foi uma grande festa
oferecida por Vorcaro para figurões da República na boate Madame Satã, em São
Paulo. Ali, o esquema era de 20 homens para 120 mulheres. As moças foram
escolhidas a dedo, ao gosto dos fregueses, e seriam: “novinhas”. Haveria também
a presença do que eles chamaram de “suíças”. Não é força da imaginação pensar
que menores de idade poderiam estar presentes, assim como garotas de programa
gringas, o que poderia configurar tráfico de mulheres.
Isso
seria um escândalo de qualquer jeito, mas piora quando ficamos sabendo que é
possível que muitos figurões da República talvez estivessem presentes.
O
ex-ministro Fábio Faria, um dos organizadores da festa, disse em mensagem
trocada com Vorcaro: “Davi e Pacheco fechado para terça. Chamei o Toffoli
tb.” Ele se referia aos senadores Davi
Alcolumbre e Rodrigo Pacheco e ao ministro Dias Toffoli. Alguns detalhes tornam
tudo mais sórdido, se é que isso é possível. Em uma das mensagens, Faria fala:
“Davi tá louco perguntando se as suíças vão vir. Se der, vamos trazer”. Vorcaro
confirma que as “suíças virão, sim.”
É
terrível pensar que esse é o tipo de ambiente em que circulam os figurões da
República, que esses são os seus valores e que mulheres são usadas por eles
como moeda de troca. Mas, além do horror moral, é preciso investigar se essas
pessoas não cometeram crimes, como corrupção de menores, estupro de vulnerável
e tráfico de mulheres.
Essa
semana, a deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP) encaminhou um ofício ao
presidente do Supremo, Edson Fachin, pedindo a apuração de “eventual exploração
de crianças e adolescentes” em eventos privados organizados por Daniel Vorcaro.
Certíssima. Resta saber se os poderosos, envolvidos até o talo nas baixarias de
Vorcaro, vão se interessar em levar a cabo esse tipo de investigação que pode
incriminar alguns deles mesmos e seus colegas.
Aviões
para as kengas
As
investigações sobre as festas de Vorcaro precisam ser extensas. Carregar
centenas de mulheres para “servir aos poderosos” parece ser um “modus operandi”
do fundador do Banco Master.
Em
mensagens divulgadas em junho, que fazem parte de investigação da polícia
federal, Vorcaro diz para um de seus operadores que “precisa de um avião para
as kengas”. A hipótese mais provável é
que o ex-banqueiro encheria um avião de mulheres para “entreter” convidados em
uma viagem internacional. Entre eles, estariam políticos e outros figurões da
República. O nível em que chegamos em 2026 é esse. Mais baixo, nem nos nossos
piores pesadelos.
Além de
todo o caráter “república das bananas” e possivelmente criminoso desse absurdo
que são mulheres transportadas como brindes para poderosos, a gente precisa
pensar também no quanto esses homens que aceitam tais “brindes” são machistas e
misóginos. E isso, no caso, não é um problema particular deles. Entre os
suspeitos de participar de tais festas, estão homens das mais altas cortes do
país, senadores e parlamentares. Basicamente, homens que fazem e votam leis que
podem ou não proteger mulheres. Não é possível que a nossa dignidade esteja nas
mãos de homens que se entretêm com “novinhas suíças” e que trocam favores
políticos com homens que “enchem aviões de kengas”. Fica muito difícil ter
esperança. Só nos resta repetir: nas próximas eleições, votem em mulheres.
Fonte:
Por Eluana Borges Leitão de Figueiredo e Eliane Oliveira de Andrade Paquiela,
no Le Monde/ICL Notícias

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