Política
Nacional de Minerais Críticos não garante uma transição sem zonas de sacrifício
O
GOVERNO LULA sancionou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos
em 16 de setembro, criando um marco para um setor que deve ganhar cada vez mais
importância nos próximos anos.
A ideia
é relativamente simples e faz sentido: o Brasil não deveria se limitar a
retirar minerais do subsolo e exportá-los como matéria-prima. A política busca
estimular o beneficiamento, a transformação mineral e a industrialização no
país, agregando valor às cadeias produtivas e tentando fazer com que a riqueza
mineral seja também uma oportunidade de desenvolvimento tecnológico e
industrial.
A lei
prevê instrumentos de financiamento e incentivos fiscais e cria um conselho
ligado à Presidência da República para coordenar a política. Também estabelece
critérios socioambientais para a seleção de projetos, fala em rastreabilidade,
diálogo com comunidades afetadas, prevenção, mitigação e compensação de
impactos e até cria um Certificado Mineral de Baixo Carbono.
Trata-se
de um desenho legislativo criado junto à Câmara e ao Senado que tentou ligar
várias pontas, do desenvolvimento econômico à sustentabilidade, da extração à
industrialização.
Mas, ao
menos à primeira vista, esse desenho final ficou longe de tranquilizar
comunidades e movimentos sociais estabelecidos nos territórios onde os minerais
estão.
Um
primeiro ponto de preocupação diz respeito à governança. A política concentra
muito poder no governo federal e tem participação bastante limitada da
sociedade.
O
Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos
será vinculado à Presidência da República. Seu núcleo é formado por 15
ministros, além de representantes dos estados, municípios, setor privado e
universidades. A sociedade civil não tem um representante permanente com
direito a voto.
Estamos
em temporada de eleições. Se existe preocupação com o governo atual, que é mais
aberto ao diálogo com a sociedade civil, o que poderia acontecer num cenário de
um novo governo alinhado com setores retrógrados da sociedade e do
empresariado?
Outro
ponto de preocupação sobre a política trata-se da dependência da norma para uma
série de outras políticas e regras que podem mudar, seja por decisão do governo
ou do parlamento.
O texto
aprovado determina que a política de minerais críticos seja conduzida em
conformidade com instrumentos como o Plano de Transformação Ecológica e o Plano
Clima. Isso significa que parte importante da proteção ambiental não está
necessariamente dentro da política de minerais, mas depende da continuidade e
da implementação de outros marcos.
E já há
sinais de como essas políticas podem entrar em tensão.
O
repórter André Borges, da Folha de S. Paulo, mostrou nesta semana que o governo
prepara uma norma para dispensar a licença ambiental na fase inicial da
pesquisa mineral, classificando determinadas atividades como de baixo risco. A
medida é defendida como uma forma de dar mais segurança jurídica e acelerar a
pesquisa por minerais considerados estratégicos. Mas ela mostra como a pressão
por acelerar a exploração pode entrar rapidamente em conflito com uma agenda de
proteção ambiental.
Outro
ponto diz respeito à agenda climática.
O Plano
Clima é hoje uma das principais referências para a política brasileira de
enfrentamento às mudanças climáticas. A Política Nacional de Minerais Críticos,
inclusive, está formalmente vinculada a ele, ao mencioná-lo no seu Art. 6º. Mas
planos e políticas públicas podem ser alterados, esvaziados ou simplesmente
deixar de ser prioridade por um próximo governo.
Por
isso, não basta criar uma boa lei. É preciso criar instituições e mecanismos
capazes de sobreviver às mudanças de governo. Participação social poderia
ajudar, mas isso não foi contemplado pelos burocratas.
Um
outro ponto de tensão sobre a política mineral diz respeito ao desconhecimento
sobre o impacto que a abertura de novos campos de exploração pode gerar.
O
Observatório da Transição Energética, plataforma criada pela Repórter Brasil ao
lado de parceiros, mostra justamente esse problema. A ferramenta cruza
informações sobre mineração, energia renovável e infraestrutura com terras
indígenas, territórios quilombolas, unidades de conservação e assentamentos.
O
resultado mostra que a transição energética não acontece em um território
vazio.
Existem
comunidades, florestas, rios, áreas protegidas e atividades econômicas que
podem ser afetadas pela expansão da mineração necessária para eletrificar a
economia. Um levantamento baseado nos dados do Observatório identificou
requerimentos de minerais críticos no entorno de centenas de terras indígenas.
Esse é
um tema que precisa estar no centro da discussão.
Não
existe dúvida de que precisamos de minerais críticos. Lítio, cobre, níquel,
terras raras, grafita e outros minerais serão fundamentais para tecnologias
associadas à transição energética. Eles também são estratégicos para a
soberania tecnológica e industrial do Brasil.
O país
tem uma oportunidade que não deveria desperdiçar. Em vez de simplesmente
exportar minério, podemos usar nossas reservas para desenvolver indústria,
tecnologia, pesquisa e empregos qualificados. A nova lei tenta justamente criar
condições para isso, inclusive com incentivos para o beneficiamento e a
transformação dos minerais em território nacional.
Mas
existe uma condição. A transição energética não pode repetir o velho modelo de
desenvolvimento em que os benefícios ficam longe dos territórios e os custos
ficam para quem vive neles.
Não faz
sentido combater a mudança do clima destruindo florestas, contaminando rios ou
pressionando comunidades tradicionais, e nem trocar a dependência externa por
um modelo interno de exploração que produza novas zonas de sacrifício.
A boa
ideia da soberania mineral precisa considerar também a soberania das
comunidades sobre seus territórios e sobre seu próprio futuro.
O
Brasil precisa dos minerais críticos, desde que haja rastreabilidade,
transparência, participação social, proteção ambiental e distribuição dos
benefícios, de verdade.
A
transição energética será uma das maiores transformações econômicas deste
século. A questão é saber se o Brasil vai aproveitar essa transformação para
industrializar e desenvolver o país ou se vai apenas abrir uma nova fronteira
de exploração de seus recursos naturais. E, principalmente, quem vai pagar a
conta dessa transição.
Fonte:
Por Marcel Gomes, em Repórter Brasil

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