Como
a América Latina pode influenciar a sucessão presidencial nos EUA?
Em meio
à disputa pela sucessão de Donald Trump, a agenda de influência dos Estados
Unidos na América Latina pode se tornar uma vitrine para o secretário de Estado
Marco Rubio e consolidar seu espaço dentro do Partido Republicano.
A
atuação de Rubio na América Latina ganhou novo peso com a aproximação de
Washington de governos conservadores da região. Em agenda passando por Colômbia, Equador e
Peru,
o secretário tem priorizado acordos de segurança, combate ao narcotráfico,
migração, comércio e contenção da influência chinesa, fortalecendo relações com
governos ideologicamente alinhados ao presidente Donald Trump.
Ao
mesmo tempo que a estratégia assegura influência regional aos Estados Unidos,
ela também pode produzir efeitos na disputa pela sucessão de Trump na Casa
Branca em 2028. Enquanto o vice-presidente J. D. Vance aparece com 43% das
preferências em uma pesquisa sobre uma eventual primária republicana, Rubio
registra 21%, segundo levantamento da Focaldata para o Financial Times.
Para
Gustavo Macedo, professor de relações internacionais do Insper, a disputa pela
sucessão de Trump já ocorre dentro do Partido Republicano e pode produzir
efeitos antes mesmo da eleição presidencial de 2028. Segundo o especialista, o
desempenho do governo nas eleições de meio de mandato pode alterar o equilíbrio
político dentro do partido e ampliar a competição entre os possíveis
sucessores.
"Há
uma crise que eles estão tentando manter sob controle dentro do Partido
Republicano, que é uma eventual necessidade de sucessão do Trump antes de
2028", afirmou Macedo. Para o professor, embora 2028 permaneça como o
calendário formal para a sucessão presidencial, a competição entre os possíveis
herdeiros de Trump já está em andamento.
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América Latina como vitrine para Rubio
Nesse
cenário, a América Latina pode oferecer a Rubio uma oportunidade de construir
uma imagem própria dentro do Partido Republicano. Para Flavia Loss, professora
de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o
secretário tem conseguido apresentar a região como uma frente em que os Estados
Unidos alcançaram resultados de acordo com seus objetivos, em contraste com
dificuldades enfrentadas pela política externa norte-americana em outras partes
do mundo.
Segundo
ela, Rubio tem construído a imagem de um político com domínio de relações
internacionais e capacidade diplomática, especialmente entre o eleitorado
republicano. Loss aponta que avanços da política externa
estadunidense na Venezuela e a pressão sobre Cuba são apresentados
como resultados positivos associados à atuação do secretário.
"A
América Latina tem servido como um lugar em que os Estados Unidos obtiveram
vitórias, entre muitas aspas, ao contrário dos outros problemas em outras
regiões do mundo, como no Oriente Médio."
Rubio
conseguiu ainda, dentro do governo, estabelecer uma distinção entre sua atuação
diplomática e eventuais dificuldades atribuídas à política externa de Trump.
Nesse sentido, resultados negativos em outras regiões não necessariamente
atingiriam sua imagem da mesma maneira, enquanto a atuação latino-americana
poderia reforçar sua posição dentro do Partido Republicano.
Em sua
avaliação, a agenda de Washington para a América Latina está concentrada
principalmente em três temas: commodities, migração e avanço de forças
políticas de direita na região. A professora considera que esses assuntos
definem boa parte da maneira como os países latino-americanos são incorporados
ao debate de política externa dos Estados Unidos.
A
aproximação com governos conservadores também teria uma dimensão eleitoral
doméstica. Rubio pode fortalecer sua posição entre eleitores republicanos ao se
apresentar como defensor de governos ideologicamente alinhados ao movimento
MAGA e como um político disposto a conter aquilo que setores conservadores
estadunidenses identificam como uma ameaça comunista na América Latina.
A
origem cubana de Rubio também contribui para essa narrativa, segundo a
professora. O fato de o secretário ser descendente de cubanos é usado para
reforçar sua identificação com setores conservadores da comunidade latina nos
Estados Unidos, especialmente entre grupos de origem cubana e venezuelana.
"Ele é visto com um cara que está impedindo o avanço do comunismo."
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Recursos estratégicos e influência regional
A
importância da América Latina para a sucessão republicana, contudo, não estaria
restrita à disputa ideológica. Macedo relaciona a região à competição
tecnológica dos Estados Unidos, especialmente pela necessidade de garantir
acesso a recursos
considerados estratégicos.
Para o
professor, a liderança tecnológica dos EUA depende de uma combinação de mão de
obra, materiais, energia e dados, que ele define como os "quatro ciclos da
inteligência artificial". Nesse contexto, a América Latina ganha
importância tanto pela disponibilidade desses recursos quanto por estar
inserida na tradicional área de influência de Washington.
Macedo
cita ainda a Estratégia Nacional de Segurança dos Estados Unidos, publicada em
novembro de 2025, como parte desse movimento, ao estabelecer a garantia do
acesso a recursos energéticos como uma necessidade da política externa
norte-americana. O documento também reforçaria a centralidade da América Latina
na estratégia de Washington e uma atualização da
chamada Doutrina Monroe.
"Essa
dominação tecnológica tem o continente americano como espaço vital para a
permanência dessa dominação norte-americana."
Nesse
sentido, o desempenho dos possíveis sucessores de Trump na condução das
relações com a América Latina pode se tornar um dos elementos observados dentro
do Partido Republicano. Macedo avalia que não basta defender a manutenção da
influência norte-americana: também será necessário demonstrar capacidade de
negociar e administrar relações com governos que não estejam alinhados
politicamente a Washington.
"Qual
é a posição dessas lideranças em relação a um país como o Brasil, caso você
tenha a confirmação de um segundo mandato do presidente Lula? Se vai ser uma
posição mais firme, mais negociadora."
A
diferença entre a postura defendida pelos possíveis sucessores diante de países
latino-americanos pode, portanto, tornar-se parte da própria disputa interna do
Partido Republicano. "Uma coisa é a ideia de como essa região deve ser
administrada, a outra é até que ponto essa pessoa demonstra habilidade para
administrar essa região."
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Rubio e Vance
Entre
os dois, a professora vê que Rubio acumula maior experiência em política
externa e combina uma visão fortemente vinculada à agenda MAGA com algum grau
de pragmatismo na condução das relações internacionais. Vance, por outro lado,
ainda tem experiência mais limitada na área externa.
Loss
afirma que o vice-presidente é mais associado à agenda doméstica e que sua
atuação internacional ainda não permite avaliar com clareza como conduziria a
política externa caso chegasse à presidência.
A
professora acrescenta que há, nos bastidores de Washington, a percepção de que
Vance poderia adotar uma política externa mais previsível do que a de Trump,
com objetivos mais claros para aliados, especialmente os europeus. Porém, essa
possibilidade ainda é uma conjectura, dada a experiência limitada do
vice-presidente na condução da política internacional.
Existe
a possibilidade de Trump apoiar Vance como seu sucessor, embora outros nomes,
como Rubio e Ron DeSantis, possam permanecer no debate republicano. Nesse
cenário, a atuação internacional de Rubio na América Latina se torna uma das
ferramentas para ampliar sua projeção política, sem necessariamente alterar a
posição de Vance como principal nome associado à sucessão de Trump.
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Brasil e México sob pressão
A
disputa sucessória também pode ter consequências para Brasil e México, dois dos
principais países latino-americanos nas relações com Washington. Macedo aponta
o Brasil como um possível teste para a capacidade dos futuros líderes
republicanos de administrar relações com governos politicamente diferentes dos
Estados Unidos.
Para
Loss, porém, a influência de Brasil e México sobre a disputa política
norte-americana é limitada. Segundo a professora, os dois países aparecem no
debate doméstico dos EUA principalmente a partir de temas como imigração,
narcotráfico e segurança. "Então, muito difícil pensar em qualquer tipo de
papel que a gente possa desempenhar, porque sempre entramos nas discussões
dentro dos Estados Unidos, da política doméstica, com essas agendas
negativas."
Macedo
acrescenta que, embora o Brasil tenha pouca influência sobre a política
doméstica dos EUA, o resultado das eleições brasileiras pode ser usado
politicamente por Washington. Uma eventual vitória de Lula poderia ser pouco
explorada, por poder ser interpretada como uma derrota da diplomacia de
Washington, enquanto a vitória de um candidato alinhado a Trump poderia ser
apresentada como demonstração de apoio internacional ao governo republicano.
"Ou
eles deixam quieto, eles abafam o caso e não mexem muito com o Brasil, ou eles
usam o resultado das eleições brasileiras como uma forma de reafirmar a
legitimidade internacional de um governo que neste momento sofre com a sua
imagem domesticamente."
O
professor também avalia que a associação de Rubio e Vance a candidatos
brasileiros cria riscos para os próprios políticos estadunidenses, caso seus
aliados sejam derrotados. Segundo Macedo, Rubio precisa evitar uma associação
excessiva com um candidato que enfrenta uma disputa eleitoral incerta e
denúncias que podem afetar sua imagem.
Para
Loss, a situação exige
cautela
dos governos brasileiro e mexicano. "É um momento de extrema cautela para
a política externa, tanto do México quanto do Brasil."
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EUA exigem 'medidas adicionais' do México contra
narcotráfico
A
Embaixada dos EUA no México alertou nesta quinta-feira (17/09) que o governo
Trump usará “todas as ferramentas disponíveis” para combater os cartéis e
“responsabilizar aqueles que os apoiam”, em uma nova mensagem de pressão sobre
o país vizinho.
“Continuaremos
a colaborar com o México para combater o crime organizado e fortalecer a
segurança de ambos os países”, afirmou a missão diplomática, acrescentando
outro alerta: “apoiar narcoterroristas tem consequências”.
A
declaração surgiu após Washington anunciar acusações contra um cidadão mexicano
que reside ilegalmente nos EUA, acusado de fornecer apoio material ao Cartel do
Golfo, uma das organizações designadas como terroristas pelo governo dos EUA.
O
alerta surge também depois do presidente norte-americano Donald Trump ter
enviado ao Congresso a nova lista de países considerados importantes centros de
trânsito ou produção de drogas ilícitas. No documento, a Casa Branca reconhece
as medidas tomadas pelo México, incluindo o aumento das apreensões de drogas, o
desmantelamento de laboratórios clandestinos e a prisão ou morte de líderes de
organizações criminosas.
No
entanto, Washington considera esses avanços insuficientes e exige “medidas
adicionais” contra os grupos que classifica como “narcoterroristas”. O governo
Trump também afirma que o México precisa aumentar seus investimentos em forças
de segurança federais e locais para manter e expandir suas operações.
Entre
as exigências mais sensíveis está a identificação, prisão e julgamento de
funcionários públicos corruptos ligados aos cartéis. O documento americano
afirma que esses funcionários auxiliaram ou instigaram organizações criminosas
e, segundo Washington, “traíram” a segurança e a soberania do México.
A
presidente mexicana Claudia Sheinbaum respondeu a essas acusações na
quinta-feira (17/09), afirmando que seu país “não precisa” ser julgado do
exterior. Ela também exigiu saber o que Washington está fazendo para combater o
uso e a distribuição de drogas nos EUA, a lavagem de dinheiro e o tráfico de
armas para o México, embora tenha reiterado que seu governo continuará
trabalhando contra o narcotráfico.
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Sheinbaum questiona os Estados Unidos sobre o consumo de drogas entre
estadunidenses
A
presidente do México, Claudia Sheinbaum, lembrou nesta quinta-feira (17) que a
crise de opioides vivida pelos Estados Unidos deveu-se, principalmente, à falta
de regulamentação da indústria farmacêutica.
O
comentário da mandatária refere-se aos
medicamentos para alívio da dor, que foram prescritos de forma descontrolada
durante muitos anos em território norte-americano.
"Onde
está o trabalho realizado para deter todos os cartéis e distribuidores de
drogas nos EUA?", questionou ela em entrevista coletiva, em meio às
constantes acusações de Washington contra seu governo na área de segurança.
Há
meses, a Casa Branca insiste que
Washington está trabalhando para combater os grupos
que traficam entorpecentes na América Latina.
No
entanto, em relação ao México, houve ameaças de intervenção militar, uma
possibilidade rejeitada pela presidente Claudia Sheinbaum.
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Pentágono transferirá drones da África para América Latina para 'combate ao
narcotráfico', diz mídia
Os
militares norte-americanos planejam transferir os drones de reconhecimento e
ataque MQ-9 Reaper da África para o comando responsável pela América do Sul,
informou um veículo de comunicação da mídia estadunidense.
A
reportagem salienta que essa decisão foi tomada considerando as operações de
combate ao narcotráfico na
América do Sul.
"Os
militares norte-americanosdevem transferir drones MQ-9 Reaper que atuam na
Áfricapara o comando responsável pela América do Sul", ressalta a
publicação.
Segundo
a matéria, ainda não se sabe exatamente quantos desses drones serão enviados
para outra região. Segundo uma das fontes citadas na reportagem, trata-se da
maior parte.
A
redistribuição de drones usados para coleta de informações e ataques de precisão está em andamento
antes das operações esperadas para combater o narcotráfico e o terrorismo na
região, incluindo possíveis operações militares no Equador.
Neste
ano, as autoridades equatorianas começaram a realizar operações conjuntas com
os Estados Unidos contra organizações
terroristas.
Uma
outra fonte revelou que as discussões ainda estão em andamento sobre o envio de
alguns drones para o Oriente Médio, onde os militares dos EUA perderam
equipamentos na guerra contra o Irã, incluindo o MQ-9.
Na
África, os drones de ataque ajudam na luta contra terroristas, e sua retirada
pode complicar tais operações, conclui a reportagem.
Anteriormente,
o Pentágono informou que, nos primeiros quatro meses da guerra com o Irã, as
Forças Armadas dos EUA perderam 30 drones MQ-9 Reaper. Depois disso, o Corpo de
Guardiões da Revolução Islâmica (IRGC) relatou repetidamente ter abatido drones
desse tipo.
Fonte:
Sputnik Brasil/Opera Mundi

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