Como
a direita capturou a causa animal?
Falar
de defesa animal, para grande parte da esquerda institucional, ainda soa como
pauta de nicho. Algo distante, quando muito relegado a projetos de lei pontuais
e campanhas fofas nas redes sociais. A forma como uma sociedade trata os
animais não é um capricho moral abstrato, é reflexo da lógica que essa mesma
sociedade aplica a tudo o que produz e descarta. Sob o capitalismo, animais são
insumos, uma mercadoria viva que se explora enquanto dá lucro e se abandona
quando deixa de dar. Entender isso é o primeiro passo para tirar essa pauta das
mãos do sentimentalismo despolitizado e recolocá-la onde ela sempre esteve: no
terreno da luta de classes.
Basta
olhar os números para entender a escala do problema. Levantamento do Instituto
Pet Brasil, divulgado em 2025, estimou que em 2024 existiam 4,8 milhões de cães
e gatos vivendo em situação de vulnerabilidade no país. Essa cifra é produto
direto de um mercado que lucra com a reprodução descontrolada desses animais
nos famosos “fundos de quintal” clandestinos, que submetem fêmeas matrizes a
gestações sucessivas até o esgotamento, produzindo filhotes com anomalias
genéticas severas e descartando-os assim que deixam de ser lucrativos. De
maneira nada surpreendente, o mesmo agronegócio que trata a vida animal como
linha de produção nos frigoríficos, na ponta oposta da cadeia alimenta os
criadouros clandestinos que abastecem pet shops sem qualquer fiscalização. No
meio de todo esse processo, quem sustenta a sobrevivência com carroças de
tração animal são as famílias mais empobrecidas, trabalhadores vítimas do mesmo
sistema que também explora os bichos que utilizam para trabalhar.
Mas há
algo que é preciso reconhecer: enquanto a esquerda, falando propositalmente de
maneira mais ampla, tratou a pauta animal como um assunto menor, a direita
conservadora soube ocupá-la com eficiência eleitoral. A chamada bancada pet
cresceu significativamente no Congresso Nacional nas últimas eleições, e boa
parte dela é formada por parlamentares de partidos conservadores que fazem da
proteção animal, sobretudo de cães e gatos domésticos, uma de suas principais
bandeiras de campanha, com nomes de urna como “protetor” ou “defensor”, de
forma a carregar forte apelo emocional imediato.
Essa
direita “animalista” costuma associar a causa a uma defesa abstrata da “família
tradicional brasileira”, em que o animal de estimação figura como acessório de
um determinado modelo doméstico, e concentra sua atuação legislativa quase
exclusivamente no punitivismo penal contra maus-tratos a cães e gatos, uma
pauta de fácil digestão moral e amplo apelo popular. Ocorre que, nos bastidores
das mesmas casas legislativas, boa parte desses parlamentares vota de forma
irrestrita ao lado da bancada ruralista. Apoiam a flexibilização do Código
Florestal, o afrouxamento da fiscalização ambiental na Amazônia e no Cerrado, a
liberação de agrotóxicos e o desmonte de políticas de proteção a biomas
inteiros – destruindo o habitat de milhões de animais silvestres em nome do
“desenvolvimento”.
Como
sempre, onde a esquerda se omite, a direita não hesita em ocupar o espaço com
um discurso de fachada, esvaziado de qualquer coerência de fato. Não vamos
disputar a causa animal com verniz eleitoreiro ou nomes de urna performáticos;
vamos disputá-la como parte de um projeto coerente, que recusa tanto a
hipocrisia de quem protege o cachorro de estimação enquanto vota pela
devastação do meio ambiente e pela precarização do trabalho no campo, quanto a
indiferença histórica de setores da própria esquerda que trataram essa pauta
como irrelevante.
A
resposta a esse quadro não pode ser apenas repressiva ou assistencialista. Por
isso, defendemos a criação de um verdadeiro sistema único de saúde animal, com
marco legal nacional nos moldes da Lei Orgânica da Saúde e financiamento
tripartite, com repasses automáticos fundo a fundo entre União, estados e
municípios. A lógica é a mesma que sustenta nossa defesa histórica do SUS:
saúde não pode depender da capacidade orçamentária isolada de cada prefeitura,
muito menos ser tratada como mercado. Municípios pequenos, sobretudo no
interior, simplesmente não têm recursos para sustentar sozinhos uma política de
castração, vacinação e atendimento veterinário, e é aí que o financiamento
federal precisa entrar.
Essa
luta passa por casos concretos: a reestruturação e o financiamento federal do
Hospital Veterinário do Recife, hoje sucateado, com laboratório próprio, raio-X
digital, ultrassonografia, centros cirúrgicos e UTI 24 horas. A construção de
hospitais veterinários públicos regionais por consórcios intermunicipais, com
atendimento 100% público e gratuito. A interiorização do atendimento, com
“castramóveis” e postos avançados chegando ao Sertão, ao Agreste e à Zona da
Mata, regiões historicamente esquecidas por qualquer política pública, animal
ou humana.
Defendemos
também medidas de combate direto ao mercado clandestino: proibição da
reprodução e comercialização caseira de animais sem registro genealógico e
sanitário, com apreensão de matrizes em criadouros irregulares, e a erradicação
da tração animal urbana de forma que não jogue para debaixo do tapete quem
depende dela para sobreviver. A inclusão social dos carroceiros, por meio de
microcrédito subsidiado, qualificação profissional e geração de renda
alternativa, é parte inseparável dessa pauta: não se resolve exploração animal
empurrando trabalhadores pobres para a miséria.
Da
mesma forma, não existe defesa animal séria que ignore quem está na linha de
frente desse cuidado. A categoria da Medicina Veterinária enfrenta, todos os
dias, riscos físicos e sanitários, plantões exaustivos e desgaste psicológico —
e, ainda assim, segue precarizada por um mercado que, de um lado, sustenta
faculdades privadas sem hospitais-escola e sem compromisso com a qualidade da
formação (o Brasil tem o maior número de cursos de medicina veterinária do
mundo, mais de 580, formando profissionais em condições muitas vezes
duvidosas), e, de outro, concentra faturamento em grandes redes e planos de
saúde pet que rebaixam salários e subordinam decisões clínicas a metas
comerciais.
Por
isso nossa candidatura apoia o PL nº 1748/2022, que fixa piso salarial da
categoria com jornada de 30 horas semanais, a mesma bandeira de redução de
jornada que defendemos para toda a classe trabalhadora, além da pauta do
movimento LuteVet por remuneração digna em plantões avulsos, adicional de
insalubridade e noturno. Defendemos uma regulação rigorosa sobre a abertura de
novos cursos privados, condicionada a critérios reais de qualidade e
hospital-escola, com ampliação de vagas nas universidades públicas, porque
formação de qualidade não pode ser artigo de luxo. Defendemos com a mesma
firmeza a proteção de fiscais agropecuários que hoje relatam ameaças e
perseguição ao expor irregularidades e contaminações em alimentos, já que uma
fiscalização sanitária pública é linha de defesa da saúde de toda a população,
não apenas dos animais.
A causa
animal, encarada com seriedade, é parte da luta de classes na medida em que o
mesmo agronegócio que devasta territórios, precariza trabalhadores rurais e
financia a extrema-direita que também lucra com o descarte sistemático de vidas
animais. É a mesma lógica de mercado que sucateia hospitais públicos para o
povo trabalhador que também condena hospitais veterinários públicos ao
abandono. E é a mesma classe trabalhadora – carroceiros, veterinários mal
pagos, fiscais agropecuários ameaçados, famílias do CadÚnico que tutelam
animais comunitários – que sustenta, na prática e sem reconhecimento, uma rede
de cuidado que o Estado deveria garantir.
Defender
os animais, portanto, é também defender quem cuida deles. E isso, no fim das
contas, é a mesma luta de sempre: contra a mercantilização da vida, seja ela
humana ou não-humana, e por um Estado que trate a saúde, toda a saúde, como
direito, não como negócio.
Fonte:
Por Jones Manoel, em Opera Mundi

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