Renovar
o Congresso, inimigo do meio ambiente, é essencial para vencer a crise
climática
A Nexus
publicou uma pesquisa, em agosto de 2026, sobre a percepção dos brasileiros em
relação ao Super El Niño. Os resultados apontaram que 91% dos entrevistados se
preocupam, em algum grau, com a possibilidade de o fenômeno afetar a economia
do país. Uma maioria também se preocupa com os impactos na saúde, além de
outras questões como o abastecimento de água e o preço da conta de luz.
A
pesquisa foca no El Niño de maneira parecida com o que a grande imprensa faz. Já que os eventos
climáticos extremos deste ano são notáveis e já deixaram um rastro de tragédias
ao redor do mundo, não há como negá-los.
Porém, a narrativa isola o El Niño, como fenômeno
natural, esquecendo o pano de fundo que o potencializou ao ponto de ganhar o
apelido de Super: as mudanças climáticas.
Trata-se
de uma posição conveniente. Se culpamos o El Niño por tudo, podemos cobrar
posturas de adaptação e resposta emergencial, sem outras mudanças radicais na
economia e nos projetos políticos para a sociedade.
Lembrar
de que estamos sob emergência climática é também recordar que uma transição
socioecológica, que confronte o capitalismo e o autoritarismo contra pessoas e
natureza, é imprescindível.
‘Muita
gente sofre os impactos sem ser responsável pelas causas. Além disso, há vários
grupos interessados em lucrar com os impactos, apresentando respostas parciais
e mercadorizando soluções’.
Diferente
do El Niño, a crise climática é resultado da ação de seres humanos. A minoria
mais rica e poderosa do planeta destrói as condições de vida, explora povos
inteiros e acumula cada vez mais fortuna enquanto empurra a Terra ao extremo.
De fato, já ultrapassamos sete de nove limites planetários, o que significa que
produzimos, consumimos e vivemos fora de uma zona segura de condições
ecológicas.
Tanto a
crise climática quanto os demais limites ultrapassados – o prejuízo ao ciclo de
água doce ou a extinção de várias espécies – se refletem nas desigualdades.
Muita gente sofre os impactos sem ser responsável pelas causas. Além disso, há
vários grupos interessados em lucrar com os impactos, apresentando respostas
parciais e mercadorizando soluções.
Então,
quando as pessoas dizem se preocupar com o El Niño, mas não conectam os
impactos à crise ecológica e à desigualdade econômica, encontramos um grande
problema. Políticos e corporações se aproveitam do cenário para intervir na
sociedade, sem precisar se responsabilizar pelos danos que eles mesmos têm
causado.
• Negacionismo nas eleições
É nesse
contexto que estamos prestes a passar por mais uma eleição federal no Brasil.
Chama a atenção como várias candidaturas à Câmara dos Deputados e ao Senado
abordam ou deixam de abordar a crise ecológica, muitas vezes reduzida à
“questão ambiental” e nada mais. Os candidatos são negligentes com a
importância da natureza para a vida, e
apresentam propostas fracas, fantasiosas, desconectadas da realidade,
sem pé nem cabeça.
O
reducionismo já é tanto que não é preciso ser especialista em ecologia para se
assustar com a resposta de Flávio Bolsonaro na sabatina do Jornal Nacional.
Quando Renata Vasconcellos o questionou sobre um artigo de 2019, em que ele
afirmou não existir aquecimento global e alegou que “o mundo estaria passando
por um resfriamento”, a resposta chocou, por soar como uma dissociação
cognitiva.
Flávio
respondeu que “o que acontece hoje são eventos climáticos extremos. Excesso de
calor, excesso de chuva, excesso de seca. Eu acredito que são efeitos
cíclicos”. O candidato, então, sugeriu que “a melhor forma que nós temos de
proteger o meio ambiente é oferecer saneamento básico para a população”.
A fala
parece estranha, mas faz parte de uma lógica que está se consolidando na
extrema direita.
‘O
debate despolitizado sobre o El Niño está sendo instrumentalizado por
negacionistas climáticos para que possam atender às cobranças de administrar os
impactos sem que precisem lidar com as causas das crises ‘.
Na
coluna do mês passado, trouxe, inclusive, que o governo de Donald Trump está se
aliando ao governo do novo presidente colombiano, Abelardo de la Espriella,
para até mesmo oferecer apoio humanitário em caso de eventos extremos, mas,
claro, classificando-os como resultado do El Niño. Daí a ideia de tratar como
algo cíclico, que faz parte de fenômenos naturais que vêm e vão.
O
debate despolitizado sobre o El Niño está sendo instrumentalizado por
negacionistas climáticos para que possam atender às cobranças de administrar os
impactos sem que precisem lidar com as causas das crises — até porque, muitas
vezes, são eles as causas dos problemas.
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Um Congresso da devastação
Se na
época de Jair Bolsonaro, o então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, se
aproveitou da pandemia para passar a boiada, o atual Congresso Nacional
conseguiu implodir ainda mais a política ambiental brasileira.
O maior
destaque é, sem dúvidas, a aprovação do PL da Devastação em 2025. A lei removeu
requisitos de estudo de impacto e criou a Licença Ambiental Especial, que se
aplica mesmo quando o empreendimento causa degradação significativa da
natureza. Por trás disso tudo estavam o deputado Zé Vitor, do PL de Minas
Gerais, e a senadora Tereza Cristina, do PP do Mato Grosso do Sul, como
relatores, e Hugo Motta, do Republicanos da Paraíba, que, como presidente da
casa, conduziu a votação na calada da noite.
Já o PL
do Veneno conta uma história de fraqueza da base do governo no Congresso, o uso
do projeto como moeda de troca em negociações, as limitações impostas pelas
tramitações longas de projetos e a dificuldade dos partidos aliados em convocar
a população sobre o tema. O projeto teve a oposição de importantes
instituições, como o Instituto Nacional do Câncer, a Fiocruz e a Anvisa. Lula
sancionou o texto, com alguns vetos.
O
Congresso, em resposta, derrubou parte deles entre 2024 e 2025. Trata-se de uma
das grandes vitórias da Bancada Ruralista nos últimos anos. A Frente
Parlamentar da Agropecuária, a FPA, conta com 345 parlamentares no total. Seus
297 deputados já formam, apenas entre si, maioria na Câmara.
Considerando
que a maioria esmagadora da FPA é composta por partidos do centro à extrema
direita, seria necessária uma renovação radical do Congresso para que
embarcássemos em uma rota de reparações ambientais e políticas realmente
orientadas ao combate às mudanças climáticas.
Os
interesses do agronegócio são dominantes em diversas agendas do parlamento e
membros da bancada ruralista também são ativos contra os direitos reprodutivos,
as proteções de gênero, raciais e de sexualidade, além de agirem para reforçar
o estado penal e punitivista.
Nossos
problemas com a bancada agregada da bíblia, do boi e da bala aumentam a cada
eleição. Há pouco interesse dos outros poderes em realmente frear propostas
absurdas, abrindo espaço para articulações cada vez mais perigosas.
O Marco
Temporal – tese que exclui povos indígenas da demarcação de muitos de seus
territórios – revelou um verdadeiro cabo de guerra entre o legislativo, o
executivo e o judiciário nos últimos anos:
– O STF
derrubou a tese por inconstitucionalidade duas vezes, em 2023 e em 2025.
– O
presidente Lula também vetou parte da Lei 14.701/2023, que validaria a regra.
- Em
resposta, o Congresso derrubou o veto presidencial e hoje está ainda mais
ousado. Passou a tramitar a PEC 48/2023, para inserir o marco temporal na
Constituição. O projeto já foi aprovado no Senado em 2025.
Mesmo
trabalhando incessantemente contra a natureza, povos indígenas, trabalhadores
rurais, e, consequentemente, pela chance de presente e futuro saudáveis pro
povo brasileiro, o agronegócio segue financiado e privilegiado na economia
brasileira.
Já
explorei no Intercept Brasil a recusa do sistema político em desinvestir do
agro, o que deve ser considerado quando falamos de eleições. Por mais que
entendamos que candidaturas contrárias à natureza dominam as opções dos
eleitores em todas as unidades federativas, sabemos que falta coragem de
partidos de centro esquerda para romper alianças com quem degrada, polui e
mata.
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Entre o ambientalismo tímido e a boiada sem limites
Isso
indica a presença de um problema mais profundo. Além de lidarmos com uma
direita destruidora, temos um sistema político enfraquecido, entregue aos
trâmites do capitalismo, que favorece visões parciais e distorcidas sobre o
papel da natureza em nossa vida.
Uma
análise do Observatório do Clima sobre seis das candidaturas à presidência
revela um panorama preocupante: nem mesmo Lula, que se destaca em algumas
promessas sobre conservação e apoio a comunidades tradicionais, apresentou um
plano específico para lidar com o El Niño. Mais que isso, já que o El Niño é
realmente um fenômeno cíclico, a abordagem do atual governo é insuficiente para
fazer a transição climática justa de que o Brasil tanto precisa.
O
problema é que, do outro lado, a política é muito, muito pior. Candidaturas
como a de Flávio Bolsonaro, de Ronaldo Caiado e de Renan Santos refletem como
os parlamentares eleitos por seus partidos e coligações agirão nos próximos
anos.
Estamos
em um cenário eleitoral apertado, que certamente tem chacoalhado figurões na
campanha de Lula que estavam, há pouco, menosprezando preocupações da base e
atuando em clima de “já ganhou”.
Caso
Lula ganhe, é provável que a vitória venha com pequena margem, como em 2022. O
presidente terá, mais uma vez, que lidar com um Congresso avassalador. E como
foi praxe nos três mandatos de Lula, a opção será por governar em sistema de
presidencialismo de coalizão, abaixando bandeiras importantes para negociar
outras na Câmara e no Senado.
Caso
Flávio se eleja, as portas do inferno se abrirão novamente para que a direita
parlamentar faça a festa sem pudor, sem restrições e sem vetos. Nada impede,
por exemplo, que uma presidência de Flávio Bolsonaro retome a perigosa PEC
3/2022, a “PEC das Praias”, que ainda tramita no Senado sob sua relatoria.
A
gestora ambiental Letícia Camargo, atuante na defesa dos oceanos, alerta que a
retomada da PEC das Praias representaria a vitória dos interesses privados, da
especulação imobiliária e da exploração econômica sobre o interesse público e o
patrimônio nacional, em detrimento especial dos povos e comunidades
tradicionais que vivem e cuidam desses territórios.
Ainda,
é preciso destacar o que se passa com o PL dos Minerais Críticos. A postura de
Lula é, infelizmente, fraca e irresponsável. Prevalece no governo e na esquerda
desenvolvimentista uma visão sobre mineração que confunde soberania com
royalties e projetos de cooperação em industrialização.
O
presidente fala da exploração de terras raras, por exemplo, como se o impacto
fosse mínimo, facilmente compensado, e tolerado pelas populações atingidas. A
ideia de zonas de sacrifício e a importância de preveni-las passam longe de
Lula. Uma discussão de qualidade sobre a transformação do modo de produção
brasileiro para tentar conciliar soberania em mineração e soberania ecológica é
inexistente.
É
preciso honrar a verdade: o discurso do governo de que esse PL é chave para a
soberania brasileira não se sustenta na prática. Ainda sim, movimentos e
organizações da sociedade civil veem na reeleição de Lula uma necessidade, pois
ajuda a manter algum nível de diálogo com a base governista no Congresso.
Além
disso, tratando-se de Flávio Bolsonaro, o cenário consegue ser ainda pior. Sua
turma quer facilitar contratos com os Estados Unidos para a exploração direta
de minérios, desmantelando ainda mais o licenciamento e a fiscalização para
fortalecer a atuação das mineradoras.
Considerando
que Trump tem articulado o Pax Silica, como aliança comercial imperialista e
neocolonial que garanta o acesso aos recursos da cadeia produtiva de
inteligência artificial e tecnologias militares, sob Bolsonaro, o Brasil pode
se tornar peça-chave da engrenagem bélica trumpista.
A
reeleição de um Congresso da devastação, protegido por Flávio, é o que falta
para desmontar de vez o Código de Mineração e destruir as proteções dadas a
territórios indígenas.
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A importância do legislativo nesse contexto
‘Dessa
casa poderia sair um grande plano de transformação ecológica do Brasil, de modo
a influenciar onde Lula tem falhado e até restringir Flávio caso fosse ele o
presidente’.
O
cuidado com a natureza não é um imperativo moral ou algo bonito para se admirar
no Dia da Terra ou do Meio Ambiente. Trata-se das condições mais básicas para
vivermos em segurança. Eleger quem vê a natureza como prioridade e conecta
nossa economia à isso deveria estar no centro das escolhas da população.
Isso
conta para a presidência, para os governos estaduais, mas talvez conte ainda
mais para o legislativo. É dessa casa que tem saído as maiores aberrações
destrutivas dos últimos anos. Portanto, dessa casa poderia sair um grande plano
de transformação ecológica do Brasil, de modo a influenciar onde Lula tem
falhado e até restringir Flávio caso fosse ele o presidente.
O voto
do povo brasileiro para parlamentares estaduais e federais em 2026 pode fazer a
diferença entre vivermos em calamidade ecológica ou usufruirmos de uma
sociedade mais sustentável, mais saudável e com mais qualidade de vida.
Para
aqueles que estão preocupados apenas com a escolha do presidente, lembrem-se de
que a política institucional está dividida em poderes, e é preciso votar melhor
para deputados e senadores, se quisermos que o parlamento realmente honre seu
nome como “casa do povo”.
Fonte:
Por Sarina Fernandes, em The Intercept

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