De
Goya a Gaza, a arte resiste a uma violência que sobrevive às guerras: o
apagamento da memória de suas vítimas
Depois
que a fumaça se dissipa.
As
explosões cessam. A fumaça se dissipa, os jornalistas procuram outra guerra, os
diplomatas redigem comunicados e os mapas começam a ser redesenhados. O mundo,
aos poucos, segue adiante.
Entre
os escombros, porém, algumas coisas permanecem.
Um
caderno escolar aberto numa página que ninguém terminará. Uma fotografia de
família coberta de pó. Um brinquedo junto a uma parede que já não sustenta casa
alguma.
São
objetos sem importância para a estratégia militar. Não aparecem nos mapas dos
generais, mas talvez digam com maior precisão o que uma guerra destruiu.
Porque
antes de se tornarem mortos, feridos, refugiados ou deslocados, havia ali
pessoas que esperavam voltar para casa, terminar uma tarefa, preparar o jantar,
acordar no dia seguinte. Tinham nomes, histórias, afetos e planos que jamais
apareceriam nos balanços militares.
A
primeira morte é imediata. A segunda começa mais tarde, quando os mortos se
transformam em números, as ruínas desaparecem e já quase ninguém lembra quem
viveu ali.
Tadeusz
Borowski conhecia essa ameaça. Sobrevivente de Auschwitz e Dachau, sabia que a
morte não termina necessariamente quando uma vida é destruída. Resta ainda a
disputa pelo que dela permanecerá – e essa disputa pertence aos que
ficaram.
Talvez
esteja aí uma das funções mais profundas da arte diante da guerra. Um quadro
não detém um exército, uma gravura não impede um bombardeio, um poema não
reconstrói uma casa.
A arte
quase nada pode contra a primeira morte. Contra a segunda, pode ser uma forma
de resistência.
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Quem merece permanecer na memória?
Durante
grande parte da história, essa não foi a pergunta que a arte fez à
guerra.
Na Roma
antiga, a Coluna de Trajano transformou a conquista da Dácia numa narrativa
monumental de poder. Séculos depois, reis e imperadores continuariam
encomendando imagens de batalhas e vitórias. Jacques-Louis David faria Napoleão
atravessar os Alpes sobre um cavalo empinado, como se até a natureza
participasse de seu destino.
A
guerra que chegava à posteridade era, em grande medida, a guerra dos
vencedores.
Essas
obras não eram necessariamente falsas; preservavam apenas uma parte da
realidade. Enquanto imperadores conquistavam a eternidade no mármore e generais
atravessavam séculos nas telas, incontáveis pessoas comuns desapareciam sem
deixar vestígios. Suas casas haviam sido destruídas, seus filhos mortos, suas
famílias dispersas. Raramente alguém registrava seus nomes.
A
memória também possui uma política.
No
início do século XIX, Francisco de Goya mudou radicalmente o lugar de onde a
guerra podia ser observada. Em Os Desastres da Guerra, não acompanhou o
imperador nem procurou a perspectiva do general. Aproximou-se daqueles que
fugiam, eram executados, mutilados, violentados ou deixados no chão.
Em uma
das gravuras escreveu apenas: Yo lo vi. Eu vi.
Em um
texto recente, parti dessas três palavras para perguntar quando uma imagem
deixa de ser representação e se transforma em testemunho 1. Aqui, a pergunta é
outra: o que Goya viu que o mundo corria o risco de esquecer?
As
próprias gravuras respondem: aqueles para quem quase nunca havia lugar nos
monumentos.
A
ruptura de Goya não esteve apenas em mostrar a violência, mas em mudar quem
merecia ocupar o centro da memória. Depois dele, tornou-se mais difícil
representar uma guerra sem perguntar o que acontecera àqueles que não tinham
estátuas para protegê-los do esquecimento.
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Quando os mortos ganharam um rosto
Essa
mudança atravessaria o século seguinte.
A
artista alemã Käthe Kollwitz conheceu a guerra não apenas como acontecimento
histórico. Em 1914, seu filho Peter, de 18 anos, alistou-se como voluntário no
Exército alemão e, pouco depois de chegar à frente de batalha, morreu na
Bélgica.
O luto
atravessaria sua obra durante décadas. Mas, antes mesmo da morte do filho,
Kollwitz já havia produzido uma imagem extraordinária. Em Mulher com criança
morta, de 1903, uma mulher envolve com o próprio corpo uma criança morta.
Não há campo de batalha, bandeira ou uniforme. Quase não existe espaço entre os
dois corpos. A mãe parece tentar realizar um gesto impossível: proteger depois
da morte aquele que já não pode ser protegido.
Talvez
a força da imagem esteja precisamente no que ela não nos diz. Não sabemos o
nome da criança, onde morreu ou sequer se aquela morte pertence a uma
guerra.
E isso
pouco importa.
A
mulher poderia pertencer a qualquer época em que uma mãe tenha descoberto que
seus braços já não eram suficientes.
Décadas
depois, Pablo Picasso realizaria outro deslocamento. Em Guernica, de 1937, o
problema já não era apenas dar um rosto à vítima: a guerra moderna adquirira a
capacidade de transformar uma cidade inteira em vítima.
Picasso
não representou o bombardeio da cidade basca como uma reportagem. Não pintou
aviões, mapas ou estratégias militares. Fragmentou o próprio espaço: uma mãe
grita sobre o filho morto, um cavalo parece urrar, corpos se retorcem. Até a
perspectiva parece ter sido atingida pela explosão.
A
fragmentação tornou-se a linguagem daquilo que a guerra fazia à vida.
Por
isso Guernica deixou de pertencer apenas à Espanha de 1937. A mãe que segura o
filho morto atravessou a fronteira basca e passou a habitar uma memória mais
ampla. Poderia estar em Varsóvia, Hiroshima, Sarajevo, Grozny, Aleppo, Mariupol
ou Gaza.
É uma
das capacidades mais misteriosas da arte: uma dor particular pode tornar-se
universal sem deixar de ser humana.
Mas nem
toda dor consegue realizar essa travessia.
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As cicatrizes que uma cidade decide não apagar
Entre
1992 e 1996, Sarajevo permaneceu sitiada durante quase quatro anos,
repetidamente atingida por morteiros e tiros de franco-atiradores. Ruas,
mercados, escolas, hospitais e edifícios residenciais tornaram-se lugares onde
atos cotidianos podiam terminar em morte.
Quando
o cerco acabou, a cidade começou a ser reconstruída. Algumas marcas, porém, não
foram apagadas.
Onde
explosões de morteiros haviam deixado no concreto desenhos irregulares
semelhantes a flores, algumas cicatrizes foram preenchidas com resina vermelha.
Tornaram-se conhecidas como Rosas de Sarajevo.
Não são
monumentos no sentido tradicional. Não possuem colunas, estátuas ou generais.
Ficam no chão e podem passar despercebidas por quem caminha depressa.
Para
vê-las, é preciso baixar os olhos.
Há algo
de profundamente perturbador nessa escolha. Reconstruir uma cidade significa
normalmente eliminar os vestígios da destruição: reerguer paredes, substituir
vidros, asfaltar ruas. Sarajevo reconstruiu-se, mas decidiu que algumas feridas
deveriam continuar visíveis.
A
cicatriz deixou de ser apenas aquilo que a guerra havia feito ao concreto.
Tornou-se aquilo que os vivos decidiram não permitir que desaparecesse.
Goya
precisou gravar suas vítimas no papel. Sarajevo gravou as suas no chão.
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Há vítimas que morrem mais depressa na memória
A arte
pode libertar uma tragédia da geografia em que aconteceu. Goya já não pertence
apenas à Espanha; Kollwitz não fala somente aos alemães; Guernica ultrapassou
há muito as fronteiras da Guerra Civil Espanhola.
Quando
isso acontece, uma experiência histórica passa a integrar o patrimônio moral da
humanidade.
Mas
essa travessia é profundamente desigual.
Algumas
vítimas atravessam fronteiras, línguas e gerações. Outras permanecem confinadas
ao lugar onde morreram. Algumas tragédias ganham museus, livros, filmes e
memoriais; outras desaparecem pouco depois de deixarem as manchetes.
Não
porque tenham produzido menos sofrimento.
Uma mãe
que perde um filho em Madri, Sarajevo, Kigali, Aleppo, Gaza ou no sul do Líbano
não sofre mais ou menos por causa da latitude em que se encontra. A dor
individual não possui geografia. A memória coletiva, porém, possui.
O que
varia é a capacidade de uma história atravessar o lugar e o tempo e encontrar
espaço na memória dos outros.
As
imagens de Gaza chegaram aos nossos telefones. Vimos bairros inteiros
transformados em ruínas, hospitais e escolas atingidos, famílias procurando
desaparecidos, pessoas carregando crianças feridas e multidões obrigadas a
abandonar sucessivamente os lugares para onde haviam fugido. A repetição dessas
imagens revelou não apenas uma sucessão de tragédias individuais, mas a
dimensão coletiva de uma devastação.
Também
vimos o horror de 7 de outubro de 2023: civis israelenses assassinados, feridos
ou sequestrados e famílias esperando por reféns. Reconhecer integralmente seu
sofrimento, porém, não exige construir uma simetria que os próprios
acontecimentos não sustentam.
Toda
vida humana possui o mesmo valor. A morte de uma criança não se torna mais ou
menos terrível por sua nacionalidade, religião ou pelo lado da fronteira em que
nasceu. Mas da igualdade do valor de cada vida não decorre a igualdade da
dimensão das tragédias.
Existe
também uma escala coletiva do sofrimento. Quando os números de mortos, feridos,
órfãos e deslocados e a extensão da destruição alcançam dimensões profundamente
diferentes, nossa memória moral não deveria apagar essa desproporção. Contar
cada vítima como igualmente humana não significa deixar de contar quantas foram
as vítimas.
Talvez
esteja aí uma das exigências mais difíceis da compaixão: preservar
simultaneamente duas verdades. Nenhuma vítima deve tornar-se invisível; nenhuma
desproporção deve ser escondida em nome de uma falsa equivalência.
A arte
talvez nos ajude porque começa em outro lugar. Goya não nos pergunta primeiro
qual exército possuía a melhor justificativa. Kollwitz não exige que conheçamos
a nacionalidade da criança antes de permitir que a mãe nos comova. Guernica não
precisa identificar a bandeira de cada vítima para que compreendamos o que
aconteceu.
Isso
não retira a guerra da história. A arte não apaga responsabilidades políticas,
não torna equivalentes conflitos diferentes nem substitui a necessidade de
julgamento.
Faz
algo anterior: antes do soldado, do inimigo, do aliado, do refém, do refugiado
ou da estatística, obriga-nos a reconhecer a pessoa.
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Quem consegue atravessar a fronteira da memória?
Há uma
diferença fundamental entre nosso tempo e o de Goya.
Durante
séculos, o problema era fazer o sofrimento chegar aos olhos de quem estava
distante. Uma gravura precisava ser impressa e distribuída; uma fotografia,
atravessar oceanos; uma notícia podia levar semanas para alcançar outro
continente. Muitas vítimas desapareceram da memória porque quase ninguém chegou
a vê-las.
Hoje, o
problema quase se inverteu.
As
imagens chegam antes que tenhamos tempo de procurá-las – e desaparecem antes
que tenhamos tempo de compreendê-las.
Uma
cidade é bombardeada e, minutos depois, vemos seus escombros. Uma criança é
retirada de um prédio destruído e sua imagem atravessa o planeta antes que
saibamos seu nome. O sofrimento surge na mesma tela que traz uma mensagem de
trabalho, uma fotografia de família, um anúncio ou um vídeo de
entretenimento.
Depois
deslizamos o dedo.
Nunca
vimos tanto. Talvez nunca tenha sido tão fácil ver sem guardar.
Essa
abundância produz uma forma paradoxal de invisibilidade. A vítima já não
precisa desaparecer porque ninguém conseguiu registrá-la. Pode desaparecer
justamente porque foi vista – por alguns segundos – como mais uma entre
milhares.
O
excesso de imagens não produz necessariamente excesso de memória. Pode produzir
esquecimento.
É aí
que a arte adquire outra função: não apenas revelar aquilo que ninguém viu, mas
deter o olhar sobre aquilo que todos viram e quase ninguém conseguiu
guardar.
Uma
obra interrompe o fluxo. Retira um rosto da multidão, uma casa do mapa, uma mãe
da estatística. Restitui singularidade àquilo que a linguagem das guerras reúne
em categorias: mortos, feridos, desaparecidos, refugiados, deslocados.
E pode
fazer durar aquilo que a tela condenaria a alguns segundos. Goya ainda nos
obriga a olhar para pessoas mortas há mais de duzentos anos; Kollwitz, para uma
mãe e uma criança cujos nomes nem conhecemos; as cicatrizes de Sarajevo
continuam pedindo aos que passam que baixem os olhos.
Talvez
seja essa a fronteira mais difícil de atravessar: não a que separa um país de
outro, mas a que separa aquilo que vimos daquilo que decidimos não
esquecer.
É
também aí que informação e memória deixam de ser a mesma coisa.
A
informação nos diz quantos morreram.
A
memória pergunta quem eram.
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A segunda morte
As
cidades, com o tempo, são reconstruídas.
Pontes
voltam a unir margens, escolas reabrem, árvores crescem onde havia crateras.
Novos edifícios escondem antigas ruínas, e crianças que não conheceram a guerra
brincam em lugares onde outras morreram.
É assim
que a vida precisa continuar.
Mas
toda reconstrução contém um risco: ao apagar as marcas da destruição, pode
apagar também alguma coisa daqueles que desapareceram com ela. As paredes
voltam a ser erguidas; os mortos, não. E já não podem contar a própria
história.
É nesse
ponto que as palavras de Tadeusz Borowski revelam todo o seu peso. Depois que
os mortos já não podem falar, aquilo que deles sobreviverá depende dos que
permaneceram.
Sua
memória depende de arquivos e fotografias, de nomes inscritos nas paredes, de
livros, testemunhos, pinturas e monumentos. Depende de alguém que conserve uma
cicatriz no asfalto quando seria mais fácil cobri-la. Depende, sobretudo, de
nossa disposição de lembrar.
Talvez
seja isso que una Goya, a mãe de Kollwitz e as marcas vermelhas espalhadas
pelas ruas de Sarajevo. Nenhuma dessas obras impediu a morte. Todas impediram,
de alguma maneira, que o desaparecimento fosse completo.
A
primeira morte pertence à guerra. A segunda começa quando já não resta ninguém
– nem nada – capaz de dizer que aquelas pessoas existiram.
É
contra essa segunda morte que a arte oferece sua resistência mais
duradoura.
As
guerras mudarão de nome. Outras cidades conhecerão o medo, novas fronteiras
serão disputadas e novas razões serão apresentadas para justificar aquilo que
fazemos uns aos outros. Depois, os disparos cessarão. Jornalistas partirão,
diplomatas assinarão acordos, edifícios serão reconstruídos e o mundo seguirá
adiante.
Entre
os escombros, talvez ainda reste um caderno aberto numa página que ninguém
terminará.
Durante algum tempo,
alguém saberá a quem pertenceu. Depois, essa pessoa também desaparecerá.
É então
que uma gravura, uma pintura, um poema, uma fotografia, um nome numa parede ou
uma cicatriz no asfalto podem fazer algo que nenhum de nós conseguirá fazer
para sempre: lembrar por nós.
Talvez
seja essa uma das funções mais profundas da arte diante da guerra: transformar
a lembrança de alguns em memória de muitos; fazer com que sobreviva às
testemunhas; guardar alguma coisa daqueles que já não podem dizer “eu estive
aqui” e entregá-la aos que ainda nem nasceram.
Assim,
a memória atravessa talvez a mais difícil de todas as fronteiras: o
tempo.
A
guerra mata os corpos.
O tempo
apaga os rastros.
A arte
disputa com ambos aquilo que ainda pode ser salvo: a memória.
Enquanto
houver uma imagem, uma palavra ou uma cicatriz capaz de dizer “eles estiveram
aqui”, os mortos não terão morrido uma segunda vez.
Fonte:
Por Celso P. de Melo, no Le Monde

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