5 fatores que podem definir eventual segundo
turno entre Lula e Flávio Bolsonaro
A quase
duas semanas do primeiro turno da eleição presidencial
e em meio à maior crise que
já se instaurou sobre o Supremo
Tribunal Federal (STF), as pesquisas de
intenção de voto ainda não apontam um favorito claro para
vencer a disputa.
Nos
cenários de primeiro turno, tanto Luiz Inácio
Lula da Silva (PT) quanto Flávio
Bolsonaro (PL) chegaram a cair depois do primeiro debate, do
qual não participaram, mas voltaram a ganhar fôlego nas últimas semanas e agora
somam 39% e 35%, respectivamente, conforme o agregador da
BBC News Brasil, que compila os resultados de várias pesquisas.
O
confronto entre Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão) e Ronaldo Caiado
(PSD), realizado em 23 de agosto pela TV Bandeirantes, beneficiou
principalmente Cury, que chegou a bater 10% das intenções de voto.
Nas
últimas duas semanas, contudo, ele vem desidratando, marcando agora 6% nas
intenções de voto, seguido por Renan Santos, com 4%, e por Caiado, com 4%.
Nos
cenários de segundo turno, Lula e Flávio Bolsonaro estão há semanas
tecnicamente empatados ou com uma distância mínima um do outro. Nos dados
coletados pelo agregador da BBC até esta terça-feira (15/9), ambos aparecem com
44% da preferência dos eleitores.
Nessa
mesma época em 2022, Lula e Jair Bolsonaro estavam separados por 9 pontos
percentuais, de acordo com os dados da Polling Data, parceira da BBC. O petista
tinha 49% das intenções de voto e o então presidente, 40%.
Também
era bem diferente o cenário em que se dava a corrida eleitoral.
Nas
últimas duas semanas, o foco dos eleitores acabou desviado para a crise que se
instalou no Supremo diante dos desdobramentos do caso Master e culminou na
sessão plenária de terça-feira (15/9), em que o país assistiu a trocas de
acusações e bate-bocas entre os ministros.
O
eventual impacto nas urnas dessas cenas e, de forma mais ampla, do escândalo em
torno do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, com suspeitas que recaem sobre o alto
escalão da cúpula dos três poderes em Brasília, só deve ficar claro mais pra
frente.
Entre
os especialistas, há avaliações de pode haver impacto negativo tanto para a
campanha de Flávio Bolsonaro, por conta do caso Dark
Horse, quanto para a de Lula, que pode ser
prejudicada em um ambiente de maior pessimismo entre os eleitores.
Em uma
disputa acirrada como a que tem se desenhado, a chave para definir quem vai ser
o novo presidente da República pode estar em alguns grupos de eleitores.
A BBC
News Brasil ouviu cientistas políticos e mergulhou em quatro pesquisas
divulgadas nos últimos dias — Atlas/Bloomberg, Nexus/BTG, Quaest e Datafolha —
para mapear 5 deles.
<><>
Os eleitores 'nem-nem'
O
perfil mais mencionado pelos especialistas ouvidos pela BBC News Brasil é o dos
brasileiros que não se identificam plenamente nem com a direita nem com a
esquerda e que, por isso, poderiam votar em um ou outro polo em um eventual
segundo turno.
"Acho
que essa eleição vai ser decidida por uma parcela muito pequena do eleitorado,
cerca de 10%, no máximo 15% do eleitorado, que não tem um vínculo partidário,
uma preferência ideológica necessariamente, e fica mais aberta a apoiar o que
os candidatos apresentam para eles", analisa Yuri Sanches, chefe de risco
político e análise política do instituto AtlasIntel.
O
tamanho desse contingente — e o nome dele — varia a depender da pesquisa. Para
a Quaest, por exemplo, são os eleitores "independentes" (não se
consideram nem de direita nem de esquerda e não são nem lulistas nem
bolsonaristas), e compreendem cerca de 32% do eleitorado.
A Nexus
os identifica como "não polarizados", que não se engajam nem com o
antilulismo nem com o antibolsonarismo, e são 18% na pesquisa divulgada em 14
de setembro.
Dentro
desse universo de eleitores que não necessariamente têm aderência a um dos
polos, a empresa de pesquisa também localiza outros 4% que veem Lula como
possível alternativa (que se identificam com o antibolsonarismo e são
indiferentes ao antilulismo) e 7% que veem Bolsonaro como alternativa (se
identificam com o antilulismo e são indiferentes ao antibolsonarismo).
O
crescimento de Augusto Cury após o primeiro debate chamou atenção para os esses
eleitores "nem-nem".
Ele
chegou a aparecer como o candidato com maior intenção de voto entre
independentes na pesquisa Quaest de 2 de setembro, com 24% da preferência
desses eleitores, à frente de Lula, com 21%, e de Flávio Bolsonaro (9%).
Uma
leitura feita na época foi a de que a simpatia desses eleitores pelo escritor
de autoajuda poderia sinalizar a possibilidade de um "voto crítico"
no primeiro turno, que sinalizasse seu descontentamento diante do cenário de
polarização.
O
percentual recuou, contudo, para 15% na pesquisa Quaest de 14 de setembro,
graças principalmente à recuperação de Lula, que pontuou 25% entre os
independentes.
Apesar
de esses eleitores serem considerados centrais nesta eleição, entender o que os
mobiliza, ou mesmo quem eles são, é um desafio para as campanhas.
Isso
porque, como ressalta a cientista política Luciana Veiga, eles não têm um
perfil claro e, por isso, se encontram bastante pulverizados.
No
detalhamento sobre os não polarizados elaborado pela Nexus com as variáveis de
sexo, idade, escolaridade e religião, os independentes aparecem em percentuais
parecidos em praticamente todas as categorias.
"Ele
não tem essa identidade, igual o eleitor de Lula, por exemplo, que é mais
pobre, ou o eleitor de Bolsonaro, que é mais rico", exemplifica a
professora do Departamento de Estudos Políticos da Universidade Federal do
Estado do Rio de Janeiro (Unirio).
Também
é difícil tentar mapear qual vai ser de fato o voto desses eleitores a partir
das pesquisas neste momento, já que, como aponta Yuri Sanches, eles costumam
definir o voto na última hora — e, portanto, sua preferência pode mudar durante
a corrida.
"Ele
vai buscar reunir todos os elementos e ver qual vai ser o saldo final na última
semana, por exemplo, pra pesar quem foi que mereceu mais o voto dele", diz
o analista político.
<><>
Evangélicos
Ao
contrário dos independentes, o grupo dos eleitores evangélicos, ainda que
bastante heterogêneo, tem um alinhamento mais claro. Em todas as pesquisas, a
maioria tem declarado intenção de voto em Flávio Bolsonaro, repetindo o cenário
das eleições disputadas por seu pai em 2018 e em 2022.
Na
pesquisa da Atlas/Bloomberg divulgada em 10 de setembro, 49,9% dos eleitores
evangélicos declararam voto em Flávio no primeiro turno, contra 30,6% em Lula.
Na pesquisa da Nexus/BTG, o cenário é de 52% versus 27%, na da Quaest, 41% a
24% e do Datafolha, 50% e 22%.
A
professora de Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e
diretora do ConnectLab da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio
Vargas (FGV EESP) Nara Pavão observa que esse é o grupo em que há maior
diferença entre os dois candidatos que estão na liderança — ainda que essa
distância tenha diminuído.
Em
maio, Flávio tinha 61% das intenções de votos entre evangélicos na Quaest, com
uma diferença de 37 pontos percentuais de Lula, distância que caiu para 13
pontos percentuais na sondagem divulgada em 2 de setembro e se ampliou para 17
pontos na do dia 14 de setembro.
Parte
dos eleitores evangélicos de Flávio migrou para outros candidatos,
especialmente Augusto Cury. Na pesquisa Quaest divulgada em 14 de setembro, 8%
declararam voto no psiquiatra, número que havia chegado a 10% na sondagem que
saiu em 2 de setembro.
"Uma
coisa que pra mim foi relativamente surpreendente foi o impacto que as
acusações do Dark Horse tiveram sobre os evangélicos",
aponta Pavão, referindo-se ao vazamento de áudios de Flávio Bolsonaro pedindo
dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para supostamente financiar uma
cinebiografia de seu pai.
Em sua
avaliação, as suspeitas afastaram uma parte desse eleitorado, assim como os
conflitos de Flávio com a madrasta, Michelle Bolsonaro, e podem indicar que
esse eleitor não necessariamente tem uma adesão calcificada ao senador.
A
campanha de Lula tem tentado acenar para o grupo, como observa Nara Pavão,
procurando desmontar a ideia do PT como um partido contra os "valores da
família", uma ideia construída especialmente a partir de 2018.
Nesse
sentido, a professora da UFPE e a cientista política Luciana Veiga fazem uma
análise interessante sobre a consolidação nos últimos anos do voto conservador,
onde se encaixam também os evangélicos.
Tradicionalmente,
a população brasileira pende à direita, ressalta Pavão. Lula conseguiu se
eleger pela primeira vez no início dos anos 2000 também com o voto de um
eleitor mais conservador, mas em uma época em que os valores conservadores não
estavam no centro do debate político.
Ele
construiu nos anos seguintes uma base de apoio sólida, especialmente no
Nordeste, com sua plataforma econômica e suas políticas sociais até que, em
2018, Bolsonaro "entendeu que tinha ali uma carta na manga que não tinha
sido jogada ainda, que era a carta dos costumes" e introduziu o
conservadorismo como retórica de campanha. Isso ocorreu em um momento em que as
religiões evangélicas ganhavam cada vez mais espaço no Brasil.
Nesse
cenário, o voto de classe perde centralidade e dá lugar ao voto baseado na
agenda de costumes, ressalta Luciana Veiga, que ilustra a mudança com o caso
concreto que ouviu de uma eleitora:
"Ela
disse: 'Eu sempre votei no PT porque achava que ele era representante dos
trabalhadores. Hoje eu não voto mais, porque descobri que aquela coisa de falar
dos trabalhadores era só para distrair a gente, para eles colocarem
efetivamente a agenda que eles queriam, que era essa agenda de costume'".
Os
valores das pessoas não mudaram, ressalta Veiga. O que houve foi uma
reordenação das prioridades dos temas que baseiam o comportamento político de
muitos eleitores.
"A
base evangélica está em periferias, em pessoas de menor renda, em mulheres… que
são parcelas do eleitorado em que historicamente o PT ia muito bem",
observa Yuri Sanches, do instituto AtlasIntel.
"Houve
uma desconexão ao longo do tempo do PT com essa parcela do eleitorado
evangélica", completa.
<><>
Mulheres
Se do
lado da campanha de Lula o desafio é conquistar o eleitor evangélico, no campo
de Flávio Bolsonaro esse desafio se coloca entre as mulheres, que são maioria
no eleitorado — 52,8% do total, 83 milhões.
Esse é
o outro grupo em que a distância entre os dois candidatos é mais relevante. O
senador teve 33% das intenções de voto entre elas na última pesquisa
Atlas/Bloomberg, ante 48% no rival no primeiro turno. Na Nexus/BTG, os
percentuais foram de 33% para Flávio e 47% para Lula, na Quaest, 29% e 37%, e
no Datafolha, 30% e 41%.
O voto
das mulheres foi essencial para a eleição de Lula em 2022. Segundo disse
recentemente à BBC News Brasil o cientista político Jairo
Nicolau, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), "Lula venceu com uma
certa margem entre as mulheres e perdeu por pouco, mas perdeu, entre os homens,
segundo vários testes que fiz [a partir das pesquisas de intenção de
voto]".
"Foi
a primeira vez que um candidato foi eleito vencendo em apenas um segmento de
gênero", ressaltou.
Daí o
esforço da campanha de Flávio Bolsonaro para tentar quebrar a rejeição alta
entre esse grupo, que pode acabar definindo as eleições.
<><>
Os 60+
Uma
fatia significativa do eleitorado tem mais de 60 anos: quase um em cada quatro,
ou 23,2%.
No
retrato das pesquisas, esses eleitores são mais alinhados a Lula — 56% disseram
à Atlas/Bloomberg que votariam no presidente no primeiro turno, ante 37% em
Flávio. Na Nexus/BTG, o placar mais recente é de 51% a 33%; na Quaest, 44% a
31%; no Datafolha, 42% a 34%.
Como o
voto não é obrigatório acima dos 70 anos, um dos desafios do petista para
converter esses votos na urna — ou de Flávio para virá-los em seu favor — é
mobilizar o grupo a ir de fato votar.
Yuri
Sanches comenta que essa é uma questão que se coloca, em maior ou menor medida,
para os eleitores de forma geral, que não estariam "tão animados [para ir
votar] quanto estiveram em 2018 e em 2022".
O que
ele credita, de um lado, ao fato de Lula estar concorrendo ao quarto mandato e,
por isso, ter dificuldade em apresentar algo novo e, de outro, ao fato de
Flávio não ser o nome "que gera a maior empolgação na direita bolsonarista
ou não bolsonarista".
A
cientista política Nara Pavão pondera que, além dos mais velhos, o grupo dos
mais jovens também é disputado entre os candidatos, mas talvez seja ainda mais
difícil de mobilizar.
"Na
eleição passada, o PT estava investindo nos jovens e viu que teve dificuldade
tanto de mobilização geral quanto de mobilização para a esquerda,
especificamente", observa a diretora do ConnectLab, centro de pesquisas
que estuda desinformação, polarização política e comportamento político no
Brasil.
"É
um contingente do eleitorado que está cada vez mais desinteressado em política,
que não se identifica com as opções que estão aqui", completa.
Ela
observa que também existe, em paralelo, uma tendência entre a geração mais
jovem de ser mais conservadora — algo que os candidatos da direita têm tentado
usar em seu favor.
Na
pesquisa da Atlas/Bloomberg, por exemplo, Renan Santos pontua com 6,5% das
intenções de voto de forma geral, mas cresce para 22% entre aqueles que têm de
16 a 24 anos. Ele triplica as intenções de votos nessa mesma comparação na
pesquisa Nexus/BTG, de 2% para 6%.
<><>
Sudeste
Olhando
para a geografia do voto, a região em que os brasileiros estão mais divididos é
justamente a que reúne os maiores colégios eleitorais do país, o Sudeste.
Depois
de ficarem semanas com percentuais de intenção de votos bem próximos próximos,
os dois candidatos aparecem em posições diferentes nas pesquisas dos últimos
dias. Flávio aparece na frente na Quaest, com 35% das intenções de voto no
Sudeste, contra 30% de Lula, e no Datafolha, com o placar de 37% a 35%. Lula
está na frente na região na Atlas/Bloomberg, com 45% contra 33% para Flávio, e
na Nexus/BTG, 42% para o presidente a 33% para o senador.
O
Sudeste concentra 63,3 milhões de eleitores, quase 42% do total. Em 2022, foi a
região onde o PT mais conseguiu ampliar a votação em comparação com 2018,
quando Fernando Haddad disputou o pleito com Jair Bolsonaro.
Foram
7,7 milhões de votos a mais, número bastante superior à margem apertada que deu
a Lula a vitória, de 2,1 milhões de votos.
No caso
específico de Minas Gerais, desde a redemocratização todos os candidatos que
venceram as eleições presidenciais também ganharam no Estado, que por sua
localização tem um perfil bastante heterogêneo, com o norte mais próximo
culturalmente do Nordeste, o oeste, da região Centro-Oeste e o sudeste, de Rio
de Janeiro e São Paulo.
Analistas
observam com atenção a dinâmica do voto mineiro e se perguntam se o padrão
também deve se repetir nesta eleição.
Fonte:
BBC News Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário