quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Como as redes sociais reagiram à 'sessão de guerra' no STF - e o que isso pode sinalizar para a eleição

As redes sociais acompanharam atentas a sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) de terça-feira (16/9), que terminou suspensa após pedido de vista do ministro Flávio Dino.

Assim, o Brasil ainda não sabe se os ministros vão aprovar ou não uma investigação contra Alexandre de Moraes a respeito de suas conversas suspeitas com o banqueiro Daniel Vorcaro.

Mas o início do julgamento que toca na crise sem precedentes vivida no Supremo movimentou com intensidade o ambiente digital no país, levando a sentimentos de frustração e a uma polarização maior no debate, segundo análises de redes sociais feitas por diferentes empresas de monitoramento.

O cientista de dados Sergio Denicoli, diretor da AP Exata, diz que se consolidou nas redes, com a sessão, uma guerra de narrativas.

De um lado, uma consolidação da negatividade muito forte em torno do ministro Alexandre de Moraes; do outro, um aumento da discussão sobre seletividade do ministro André Mendonça para beneficiar de alguma forma Flávio Bolsonaro.

E, no meio, um eleitor de centro, indeciso e apático em relação ao país.

"O que aconteceu é que as pessoas que viram ontem ficaram muito decepcionadas com a política", diz Denicoli.

A AP Exata faz uma análise com base em perfis nas redes separados por ideologia, de esquerda, direita ou centro, observando como eles se comportam durante eventos importantes como o de terça.

No campo de centro (que reúne também pessoas de centro-esquerda não petista ou de centro direita não bolsonarista), a discussão eleitoral esteve "vazia" ou em silêncio.

"A gente observa nesse espectro que na sessão de ontem não houve mudança nas menções ou sentimentos em relação aos candidatos", explica Denicoli.

Segundo ele, o histórico das redes mostra que esse eleitor chegou a se aproximar de Flávio Bolsonaro no início da campanha, mas se afastou com avanço das investigações do caso Master sobre o filho do ex-presidente.

Também chegou a se aproximar de Lula, mas de descolou com revelações sobre o filho do presidente, Lulinha, investigado pela Polícia Federal por crimes como tráfico de influência. Agora, segue sem estar ligado a ninguém.

"Esse eleitor não está encantado nem pelo Lula nem pelo Flávio e isso ficou claro ontem", diz o analista.

"Foram as militâncias que atuaram. Mas o eleitor de centro, moderado, ficou calado em relação aos candidatos. Isso mostra uma apatia e um distanciamento das eleições", analisa Denicoli.

Segundo pesquisa Datafolha divulgada no último sábado (12/9), 85% dos entrevistados afirmam que a revelação das mensagens entre Vorcaro e Moraes, tema da sessão de terça, não mudou nem deve mudar seu voto. Outros 7% mantiveram a escolha, mas passaram a ter dúvidas. 4% dizem ter trocado de candidato

Já a pesquisa da Quaest sobre o mesmo tema publicada na segunda-feira (14/9) diz que 67% dos entrevistados dizem que a crise no STF deflagrada por novas revelações do escândalo do Banco Master não afeta o voto na eleição presidencial. 22% dizem que reforça a escolha que já fizeram e 7% afirmam que consideram mudar a escolha do candidato.

<><> A tendência de prejudicar Lula

Outra empresa que monitorou o ambiente digital foi o Instituto Democracia em Xeque (DX).

Segundo o DX, Alexandre de Moraes foi o ministro mais mencionado nas redes (36% das mensagens), seguido por André Mendonça (28%) e Flávio Dino (17%).

A curva de publicações atingiu seu maior patamar pouco antes das 13h, momento em que houve os principais embates entre Moraes, Mendonça e Gilmar Mendes.

Numa análise do teor das mensagens, o tema inflamou perfis de direita, segundo Beto Vasques, diretor do DX e coordenador do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo).

"A gente observa que é um tema que, a princípio, foi mais sensível à direita e, sobretudo, à extrema-direita, que ficou bastante incomodada porque esperavam um julgamento onde o Moraes fosse o seu alvo e, no final das contas, foi um debate muito mais procedimental e com críticas duras ao ministro Mendonça."

O DX encontrou que perfis de direita converteram a sessão em "argumento eleitoral", com publicações reforçando que apenas Flávio Bolsonaro poderia resolver a crise. As publicações também associam o presidente Lula a Dino e a Moraes e falam da possibilidade expulsão do ministro no STF.

Do outro lado, alguns perfis de esquerda defendiam que há um plano da oposição de criar pânico eleitoral diante da sessão do STF. Também argumentavam que as mensagens usadas contra ele seriam falsas e que Mendonça quer ajudar Flávio Bolsonaro.

"Obviamente que essas narrativas podem ajudar a sedimentar um impacto na opinião pública, mas ainda é difícil a gente saber como vai ser a assimilação popular", analisa Vasques.

Mas o pesquisador analisa que o cenário de descontentamento com o STF tende a ser mais prejudicial a Lula.

Segundo ele, pesquisas que tem feito com indecisos mostram que as pessoas ainda estão muito confusas sobre o assunto.

E, nesse cenário de confusão, há uma desilusão com STF, com uma percepção de que "são todos iguais", que há "um mar de lama", que ministros "só pensam em si" ou agem em "bandos". Também há na opinião pública percepção de que Moraes é aliado de Lula, segue o professor.

"Isso acaba, a princípio, podendo ter um potencial ruim para o governo", diz Vasques.

"Primeiro, quando existe uma crise, sempre o governante de plantão tende a ser responsabilizado. Um segundo elemento é que a pauta corrupção não é uma pauta favorável para o PT de forma geral", comenta.

O pesquisador ainda diz que a sensação de que "tudo é ruim" também acaba gerando uma "cortina de fumaça" para o relacionamento do Flávio com Daniel Vorcaro no caso do financiamento da cinebiografia de Jair Bolsonaro, Dark Horse.

"Agora a gente precisa esperar como vai se decantar esse debate, como a própria mídia vai continuar trabalhando essa agenda", conclui Vasques.

Para ele, é preciso aguardar também a sessão do STF marcada para próxima semana, em que a atuação de Mendonça será alvo de escrutínio público.

<><> Críticas ao pedido de vista de Dino

A suspensão de julgamento foi mal recebida nas redes, segundo análise da empresa de análise de tendências sociais Palver.

A empresa monitora de mais de 100 mil grupos públicos de WhatsApp e Telegram e faz análise do ambiente digital em posts de redes sociais como Instagram e X.

Sobre o pedido de vista de Flávio Dino, 89% das manifestações nos grupos de aplicativos de conversa e 87% dos posts em redes o rejeitaram.

Na análise da Palver, o pedido de vista acabou beneficiando mais o ministro André Mendonça. Isso porque mensagens apontaram a uma interpretação: a de que a interrupção do julgamento seria uma "blindagem" a favor de Moraes.

Apesar do tom crítico a Dino, nenhuma narrativa predominou com folga durante a sessão. A Palver classifica as mensagens em grupos de "narrativa", e nenhum deles reuniu mais de 10% dos posts.

Segundo a análise, o tema que mais teve presença nas redes foi sobre "sigilo e transparência no STF", que concentrou 9% das mensagens e não atribuiu responsabilidade a um único ministro.

Outras 7% das mensagens foram de apoio a André Mendonça e crítico ao grupo formado por Moraes, Dino, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes. As mensagens que predominaram classificavam Mendonça como "ministro que teria atuado de forma técnica e dentro da lei" na investigação envolvendo Moraes.

Já 5% defenderam o ministro Moraes, negando diálogos irregulares com Vorcaro e pedindo arquivamento do caso.

Sobre o impacto eleitoral, segundo a Palver, de acordo com levantamento feito antes da sessão, o caso Master tem atingindo os dois campos políticos, mas com mais intensidade na família Bolsonaro, com o caso Dark Horse.

Para a Palver, há a expectativa de que a marcação de uma nova data para a retomada do julgamento, os novos desdobramentos e as possíveis revelações a partir do material extraído do celular de Vorcaro possam manter a crise no radar das redes.

"A rejeição ao pedido de vista mantém a pressão sobre o STF pela retomada do julgamento e prolonga a crise institucional no debate digital, em um contexto de aproximação do período eleitoral de 2026", diz a empresa.

¨      Por que julgamento do caso Moraes no STF pode ser retomado só em 2027

O julgamento que analisa se o ministro Alexandre de Moraes deve ou não ser investigado por sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, não tem previsão para ser retomado após o ministro Flávio Dino pedir vista na terça-feira (15/9).

Pedir vista, no jargão jurídico, é quando um juiz solicita mais tempo para analisar o caso. Pela regra do Supremo Tribunal Federal (STF), Dino tem até 90 dias para autorizar a continuidade do julgamento — isto é, até 15 de dezembro.

Mas, quando ele o fizer, ainda dependerá do presidente do STF, o ministro Edson Fachin, colocar o caso na pauta do plenário e marcar uma sessão para voltar a julgar o caso.

Considerando que o STF entra em recesso em 20 de dezembro e retoma as atividades em 1º de fevereiro, é possível que o caso volte a ser julgado só no próximo ano, depois das eleições e da posse do novo presidente da República.

Vale lembrar que este julgamento não analisa se Moraes cometeu alguma ilicitude, mas avalia se o relatório da Polícia Federal (PF) que liga o ministro ao banqueiro tem ou não validade e se deve ser aberta uma investigação para apurar a relação dos dois.

O questionamento sobre a validade do documento foi levantado pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet. Ele afirmou que Mendonça não poderia ter solicitado o relatório da PF contra outro ministro sem antes ter pedido autorização ao plenário.

Já Mendonça argumenta que apenas solicitou a apuração à PF para apontar quem era o destinatário das mensagens suspeitas de Vorcaro e que remeteu o caso ao restante da Corte quando Moraes foi identificado.

Como reação, Moraes apresentou acusações contra Mendonça de que ele teria atuado de forma ilegal e com viés político na condução dos inquéritos dos casos Master e INSS.

Um julgamento sobre essas acusações está marcado para 23 de setembro, mas o cenário é incerto. A BBC News Brasil apurou que Fachin ainda avalia se adiará ou não a análise do caso Mendonça, após a indefinição deixada pela sessão de terça-feira.

Aquele julgamento foi tomado por bate-bocas e uma longa discussão preliminar — uma questão de ordem proposta por Gilmar Mendes para que a possível abertura de investigação contra Moraes e as acusações contra Mendonça fossem julgadas conjuntamente.

Antes de Dino pedir vista, o placar da votação sobre a questão de ordem estava empatado. Fachin então acatou a vista e anunciou o placar de 4 votos a 3 para julgar os dois casos separadamente, desconsiderando o voto de Dino, que não protestou.

<><> O que pode acontecer agora

Dino pode liberar o julgamento a qualquer momento, antes de se esgotar o prazo de 90 dias, que vence em dezembro.

Fachin poderia, em tese, marcar uma nova sessão logo em seguida, dando celeridade ao julgamento, mas isso é considerado improvável nos bastidores.

Uma vez retomado o julgamento, os ministro ainda poderiam mudar seus votos, já que a votação não foi encerrada, alterando o placar da análise da questão de ordem de Gilmar Mandes. E Dino ainda terá a oportunidade de votar.

Uma vez retomada a sessão, seria seguido então o rito esperado. Fachin lerá um relatório sobre o que será julgado. Na sequência, a PGR fará sua manifestação e podem haver sustentações orais das partes envolvidas.

Depois disso, os votos começarão pelo relator e depois seguirão a ordem prevista no regimento — ou seja, os ministros votarão por ordem inversa de antiguidade na Corte, iniciando por Flávio Dino.

Não participam do julgamento os ministros Kássio Nunes Marques e Dias Toffoli, que se declararam suspeitos e não votarão. Mas Toffoli, na sessão de terça, manteve-se no plenário, enquanto Nunes Marques preferiu se retirar.

Há ainda uma dúvida quanto à possibilidade de Mendonça e Moraes poderem participar ou não da votação, porque são partes interessadas na questão que será julgada.

Para especialistas ouvidos pela BBC, eles puderam votar na análise da questão de ordem, por ser algo preliminar e não o cerne do julgamento. No entanto, Ivar Hartmann, doutor em Direito Público pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), eles deveriam ser impedidos de votar no restante do julgamento.

Quanto ao julgamento da próxima semana para analisar a conduta de Mendonça no caso Master, inclusive no que tange a Moraes, também ainda não se sabe o que acontecerá de fato.

Por enquanto, ela está mantida na agenda do Supremo, conforme o despacho do presidente do Tribunal que marcou o julgamento e não foi derrubado até o momento.

<><> A crise no STF

O relatório da PF que iniciou toda a crise no STF revelou mensagens trocadas entre Vorcaro e um contato atribuído a Moraes nas quais o banqueiro pede consultoria ao ministro, inclusive questionando-o se deveria deixar o Brasil às vésperas de sua prisão, em novembro.

As mensagens reforçaram o clima de suspeita sobre Moraes tendo em vista que o escritório de sua mulher, Viviane Barci de Moraes, no qual também trabalham seus filhos, atendia Vorcaro e fechou com o Master um contrato de R$ 131 milhões.

O relatório diz, aliás, que Moraes foi o último a editar o arquivo, antes de ele ser assinado por ambas as partes. A polícia apurou ainda que o Master teria emitido cartões de crédito para os filhos do ministro com limite de R$ 300 mil para cada.

Moraes nega que tenha cometido qualquer irregularidade e argumenta que a investigação não tem validade por ter sido produzida sem que houvesse o aval do plenário do Supremo, com votação de todos os seus ministros.

A polícia não conseguiu apurar o que o contato atribuído a Moraes respondeu a Vorcaro, visto que as mensagens eram escritas no bloco de notas dos telefones, depois havia uma captura de tela e o envio da imagem por WhatsApp com o recurso de visualização única.

Isto posto, foi possível recuperar só as imagens que estavam guardadas em uma pasta de arquivos temporários de Vorcaro, não aquelas que estariam no outro celular que se correspondia com o banqueiro.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

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