O subsolo da soberania
Durante muito tempo, terras raras foram, para
mim, uma expressão do noticiário cujo significado conhecia apenas pela
superfície. Como muitos brasileiros — e uma parcela considerável de nós,
jornalistas — sabia que estavam presentes em celulares, carros elétricos,
turbinas e equipamentos militares. Sabia também que o Brasil possuía reservas
gigantescas. Entre uma informação e outra existia um território científico,
industrial e geopolítico que conhecia muito pouco.
Play Video
Nos últimos dois anos, tenho procurado
diminuir parte dessa ignorância. Li relatórios geológicos, estudos sobre
processamento, trabalhos técnicos e acompanhei com mais atenção o noticiário
internacional. A investigação acabou levando a uma constatação impressionante:
o Brasil detém hoje a segunda maior reserva conhecida de terras raras do
planeta. Segundo o USGS, são cerca de 21 milhões de toneladas, atrás somente
das 44 milhões da China.
Essa posição, por si, deveria colocar o tema
entre as prioridades estratégicas brasileiras. Mas as leituras foram me
conduzindo a uma pergunta menos triunfalista.
De que maneira uma riqueza enterrada se
transforma em indústria, pesquisa, empregos de alta qualificação, patentes e
capacidade de decisão? A resposta começa muitos quilômetros depois da
escavadeira.
<><> Da jazida à fábrica
Terras raras formam um grupo de 17 elementos.
Entre eles estão neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, fundamentais para
ímãs de altíssimo desempenho. A dificuldade começa pela própria química: esses
elementos costumam aparecer misturados e possuem características tão
semelhantes que sua separação exige processos complexos.
Primeiro vêm levantamento geológico,
perfuração, lavra, britagem, moagem e concentração. O material segue para
craqueamento e lixiviação, usando reagentes capazes de colocar os elementos em
solução.
Depois começa a etapa delicada da separação
química. Surgem os óxidos individualizados; estes seguem para refino,
transformação em metais, produção de ligas e pós magnéticos. O pó é prensado e
submetido a aquecimento controlado até adquirir estrutura sólida, recebe
tratamento térmico, usinagem e revestimento. A cadeia termina nos ímãs
permanentes que vão parar em motores, robôs, turbinas, satélites, equipamentos
médicos e centros de dados.
Aprender esse percurso modificou minha
maneira de enxergar a mineração. Durante muito tempo, acostumamo-nos a celebrar
a descoberta da jazida.
Nas terras raras, a jazida representa a
primeira estação de uma viagem muito mais longa. A prosperidade industrial
depende do número de etapas que o país consegue realizar dentro de suas
fronteiras.
<><> O custo do domínio
Também comecei a prestar mais atenção ao
dinheiro. Estudos de viabilidade registram custos operacionais entre US$ 20 e
US$ 50 por quilo de terras raras em projetos avançados, com enorme variação
conforme teor, mineralogia, reagentes, energia, água, escala industrial e
tratamento de resíduos.
A cifra mais reveladora, porém, vem da
Agência Internacional de Energia. Para criar cadeias diversificadas capazes de
atender à demanda de terras raras magnéticas fora do produtor dominante até
2035, seriam necessários aproximadamente US$ 60 bilhões em investimentos. Quase
metade iria para refino; cerca de um terço, para fabricação de ímãs.
A distribuição desse dinheiro deveria
interessar especialmente ao Brasil. O capital se concentra justamente nas
etapas em que ciência e indústria passam a comandar o valor.
Um exemplo ajuda. Em 3 de setembro, o óxido
combinado de praseodímio e neodímio — chamado PrNd pela indústria — era
negociado na China perto de US$ 108 mil por tonelada. A liga metálica de PrNd,
obtida numa etapa industrial posterior, rondava US$ 131 mil. O óxido de PrNd e
a liga metálica de PrNd são produtos diferentes, com composições, rendimentos e
custos próprios; os cerca de US$ 23 mil entre as cotações jamais poderiam ser
tratados simplesmente como margem de lucro.
Servem, contudo, para visualizar o valor que
química, energia, equipamentos e tecnologia acrescentam ao material.
<><> O método chinês
A China compreendeu essa cadeia durante
décadas. Bayan Obo, na Mongólia Interior, transformou-se em seu gigantesco
centro de terras raras leves. Maoniuping, em Sichuan, ganhou posição
semelhante. No sul chinês, especialmente em áreas de Jiangxi, depósitos de
argilas de adsorção iônica tornaram-se importantes fontes de elementos pesados.
O que mais chama minha atenção, porém, fica
além das minas. Pequim conectou mineração, separação, refino, metalurgia,
universidades, laboratórios, fabricantes de equipamentos, produtores de ligas e
indústrias de ímãs. Criou escala, formou especialistas e acumulou conhecimento
durante gerações de engenheiros e químicos.
Os números permitem enxergar o resultado
quase como uma radiografia. Em 2024, a China respondeu por cerca de 60% da
mineração mundial das terras raras magnéticas. Sua participação avançava para
91% na separação e no refino e chegava a 94% na fabricação de ímãs permanentes
sinterizados. Duas décadas antes, produzia aproximadamente metade desses ímãs.
Essa distância entre 60% e 94% me parece uma
das informações mais importantes de toda essa história. Quanto mais o mineral
se aproxima do produto tecnológico sofisticado, maior se torna a presença
chinesa. A vantagem foi construída dentro das fábricas, dos laboratórios e das
universidades, além das minas. Recursos naturais forneceram a matéria-prima;
conhecimento acumulado multiplicou sua importância econômica.
<><> Mapa incompleto
Volto então ao Brasil e aos nossos 21 milhões
de toneladas. Existe nesse número outra razão para cautela: conhecemos apenas
parte do território com o grau de detalhe necessário para avaliar seu potencial
mineral.
Estudo do Serviço Geológico do Brasil mostrou
que somente 27% do território estava coberto por mapeamento na escala 1:100.000
até 2022. Na escala 1:250.000, eram 48%. O próprio SGB avalia que o
conhecimento geológico brasileiro permanece aquém das potencialidades minerais
do país e mantém um plano decenal para ampliar a cobertura.
Sempre volto a esse número: 27%. Temos a
segunda maior reserva conhecida do mundo enquanto grande parte do nosso
território carece de mapeamento geológico detalhado. A fotografia atual pode
revelar apenas uma fração da paisagem mineral brasileira.
Por isso, gostaria de ver outros indicadores
ganharem manchetes. Quantos quilômetros quadrados mapeamos por ano? Quantos
químicos, geoquímicos, metalurgistas e engenheiros estamos formando? Quantas
plantas de separação somos capazes de operar? Quantas patentes brasileiras
existem nessa cadeia? Quantas ligas produzimos? Quantos ímãs de alta
performance saem de fábricas instaladas no país?
Essas respostas dirão mais sobre nosso futuro
que qualquer celebração apressada de uma posição num ranking mundial.
<><> Goiás pode negociar
soberania?
Foi estudando essas questões que passei a
acompanhar com atenção especial o que ocorre em Goiás. Em março de 2026, o
governo estadual firmou acordo com o governo norte-americano voltado à
cooperação em minerais críticos e terras raras.
Segundo o próprio governo goiano, pretende-se
atrair pesquisa, capacitação, separação, metalização, fabricação de ligas e
produção de ímãs permanentes para o estado.
A ambição industrial é compreensível. O que
me preocupa está na dimensão estratégica que o próprio avanço das terras raras
adquiriu. Informação sobre o subsolo, domínio tecnológico, contratos de
fornecimento e relações diretas com governos estrangeiros alcançam uma esfera
que ultrapassa os limites administrativos de Goiás.
A Constituição oferece uma referência
incontornável. Os recursos minerais, inclusive os do subsolo, pertencem à
União. Cabe também à União manter relações com Estados estrangeiros. Pesquisa e
lavra mineral dependem de autorização ou concessão federal e devem observar o
interesse nacional, conforme os artigos 20, 21 e 176.
Daí a pergunta que considero legítima: o
governo de Goiás dimensionou plenamente o significado de soberania nacional ao
tratar diretamente com uma potência estrangeira de recursos cuja importância
econômica, tecnológica e militar cresce rapidamente?
Os acontecimentos posteriores ampliaram a
dimensão da pergunta. Em 11 de maio, o Conselho Administrativo de Defesa
Econômica abriu procedimento para examinar a combinação entre Serra Verde e USA
Rare Earth e um acordo de fornecimento por quinze anos. Segundo o Cade, o
contrato alcança 100% da produção da Fase I da Serra Verde e envolve uma
empresa de propósito específico capitalizada por agências do governo
norte-americano e investidores privados. O órgão ressalvou corretamente que a
abertura do procedimento, por si, não significava a existência de problema
concorrencial.
Em agosto, documentos apresentados à SEC
registraram uma capitalização de US$ 1,55 bilhão dessa estrutura. O
Departamento de Guerra dos Estados Unidos comprometeu US$ 750 milhões e
celebrou contrato para comprar pelo menos US$ 300 milhões em produtos de terras
raras durante cinco anos. Em 3 de setembro, a combinação empresarial entre USA
Rare Earth e Serra Verde foi concluída. A operação anunciada em abril fora
avaliada em aproximadamente US$ 2,8 bilhões.
Leio essa sequência e penso na extensão da
palavra soberania. Ela envolve mapas geológicos, laboratórios, formação
científica, contratos, plantas industriais, patentes e capacidade de negociar
conhecendo exatamente o valor do que está em jogo.
Uma jazida pode permanecer fisicamente em
território brasileiro enquanto etapas fundamentais de sua cadeia tecnológica,
financeira e industrial se organizam em outros países.
É esse ponto que merece vigilância pública. O
Brasil precisa de investimento, tecnologia, parceiros e mercados. Precisa
também saber quais capacidades estratégicas pretende manter e desenvolver
dentro de suas fronteiras. Uma política de terras raras construída apenas em
torno da extração deixaria para outros justamente as etapas que concentram
tecnologia, conhecimento e poder de negociação.
<><> O Brasil de 2040
Depois de dois anos lendo sobre terras raras,
continuo muito distante da condição de especialista. Essa distância tem uma
vantagem: preserva perguntas que especialistas, empresários e governos precisam
responder ao restante da sociedade.
Em 2040, robôs industriais serão mais
numerosos, turbinas maiores, veículos mais eletrificados, sistemas de defesa
mais sofisticados, centros de dados mais poderosos e equipamentos médicos ainda
mais dependentes de materiais magnéticos de alto desempenho. A Agência
Internacional de Energia projeta forte expansão da procura por terras raras
magnéticas e identifica refino e fabricação de ímãs como gargalos decisivos da
próxima década.
Quero saber que lugar o Brasil pretende
ocupar nessa paisagem. Interessa saber quanto do território estará mapeado,
quantos elementos conseguiremos separar, quanto conhecimento tecnológico
permanecerá aqui, quantos brasileiros serão formados nessa ciência e quantas
fábricas conseguirão transformar nossos próprios minerais em componentes de
altíssimo valor.
Comecei estudando terras raras para diminuir
uma ignorância pessoal. Termino esta investigação provisória com uma
preocupação nacional muito maior. Possuímos a segunda maior reserva conhecida
do planeta e ainda estamos decidindo o que fazer com ela.
Daqui a vinte anos, o tamanho das jazidas
continuará registrado nos mapas. A pergunta decisiva será outra: quanto da
inteligência criada a partir delas terá ficado no Brasil?
Fonte: Por Washington Araújo, em Brasil 247

Nenhum comentário:
Postar um comentário