Expor o que acontece nas beiradas e o centro
não vê nem ouve
“Cidade. Um monte de casas. Um monte de
almas. Um monte de aspirações. Energia e dinamismo. Fatalidades e
irremediáveis. Venturas e galas. Vida. Fausto e miséria. Igrejas e cemitérios.
Cidade…” começa Sinfonia da Metrópole, documentário de 1929 sobre a capital
paulista, em um prefácio que resume algumas das contradições da cidade que
perdurariam com o tempo. São Paulo tem a marca da diversidade de experiências
que o território proporciona ao indivíduo que atravessa sua paisagem, a
depender de fatores como classe social ou região de moradia e circulação.
Ao caminhar pelas ruas do Jardim Europa,
bairro planejado e loteado na década de 1920 onde originalmente se encontrava
uma várzea do rio Pinheiros, se nota uma paisagem distinta daquela que se vê de
forma mais homogênea em outros bairros que margeiam as regiões centrais da
capital. No lugar dos prédios e do comércio, entre as ruas arborizadas que
cruzam a avenida Europa, o passante se vê rodeado de casarões e palacetes. Nas
calçadas, em um dia de semana qualquer, durante a tarde, poucos pedestres
caminham com carrinhos de bebê ou cães de raça. É um bairro sobretudo
silencioso, onde famílias da elite convivem com mansões abandonadas e
instituições culturais.
Uma dessas instituições é a Casa Museu Ema
Klabin, sediada na antiga residência da empresária, mecenas e colecionadora
brasileira de origem lituana. A casa foi construída na década de 1950 para
abrigar sua coleção de obras de arte, que abrange mais de 1600 peças de
diversos períodos históricos e origens. Desde 2007, a casa funciona como museu,
onde visitantes podem conhecer a coleção de Klabin e caminhar pelos jardins
projetados por Burle Marx. Desde maio deste ano, no entanto, o visitante que
passeia entre os cômodos adornados da mansão se vê confrontado por painéis de
textos que contam uma história distinta da que se vê na casa.
São histórias sobre a cidade de São Paulo,
contadas da perspectiva de mulheres que, como Ema Klabin, viveram por estas
ruas. Mas as imagens que elas evocam são muito distintas dos quadros
silenciosos do Jardim Europa, atravessando as ruas da região da Paulista,
passando pela Vila Mariana e pela Barra Funda, para chegar na Cidade Tiradentes
e encontrar outras paisagens sociais e sonoras que constituem a cidade. Elas
fazem parte da exposição “Habitar São Paulo: relatos femininos”, que reúne
trechos de obras de dez escritoras sobre a cidade, vista da janela do prédio ou
do portão de casa, mas experienciada na intimidade do lar. Compõem a sinfonia:
Zélia Gattai, Gilda de Mello e Souza, Rita Lee, Paula Fábrio, Giovana
Madalosso, Adriele Oliveira, Helena Silvestre, Lilia Guerra, Luísa Marilac e
Prudence Kalambay.
“Esta é uma casa de uma mulher que foi
milionária”, lembra Cristiane Alves, coordenadora do núcleo educativo do museu,
responsável pela curadoria da exposição, “e continua sendo uma casa milionária,
em um dos bairros de maior elite da cidade de São Paulo. Existe um trabalho
muito intencional da nossa equipe de fazer com que esta casa seja uma
instituição cultural aberta para todas as pessoas”. É este o papel das
exposições temporárias: mostrar outros pontos de vista sobre a cidade a partir
do mesmo espaço.
“Quando entramos na casa, nos deparamos com
uma forma de morar. Existe uma memória de lar que está dada pelo espaço, o
‘morar’ de uma dada elite paulistana da qual Ema Klabin foi representante.”
Portanto, continua a curadora, seu objetivo era evidenciar outras formas de
morar na cidade, através da escrita.
Gilda de Mello e Souza (1919-2005) participa
com trechos de A palavra afiada, que reúne entrevistas, cartas e artigos da
crítica, ensaísta e professora da Universidade de São Paulo. A curadoria
escolheu relatos sobre a casa em que Gilda morou na juventude com seu primo
Mário de Andrade e sua família, na rua Lopes Chaves, na Barra Funda. Ela
descreve as dinâmicas de poder que circulavam em sua vida: ultrapassada a
polaridade entre o rural da infância e o urbano da juventude, novas divisões
entre um mundo de liberdades e outro de aprendizado feminino se desdobravam
entre os cômodos.
A autora conta sobre sua relação com o
modernista: “Ele começou a achar muita graça naquela menina que foi crescendo e
da qual diziam: ‘Gilda está escrevendo’. Ele praticamente roubava as coisas que
eu fazia e depois devolvia tudo anotado ou me chamava para conversar. Até que
um dia, ele perguntou e eu respondi: quero ser escritora”. Cristiane reflete
sobre a escolha: “Gilda acabou ficando conhecida por muitos como ‘a mulher do
Antonio Candido’, mas ela rompeu todas as barreiras, foi uma das intelectuais
mais respeitadas do país.” Fotografias de Gilda, de Mário de Andrade e de sua
mãe complementam os relatos.
As fotografias ocupam lugar importante da
exposição, localizando os escritos no tempo e no espaço da cidade. Uma
fotografia de Rita Lee no portão de sua casa na rua Joaquim Távora, na Vila
Mariana, lembra o quanto a região mudou e os sobrados deram lugar a prédios.
Uma fotografia de Zélia Gattai na Alameda Santos ilustra como as dinâmicas de
classe e os empreendimentos imobiliários da segunda metade do século 20
moldaram o novo centro de São Paulo. Uma fotografia da década de 1920 mostra as
enchentes que continuam a assolar ruas da cidade a cada ano, como relata
Adriele Oliveira sobre a favela do Nove em Favela: a flor em resistência.
No entanto, uma das fotos que mais chamam a
atenção não retrata as ruas da cidade, e sim uma família posando em uma festa
de aniversário. Ela acompanha um trecho de Perifobia, de Lilia Guerra, que
cedeu fotos de seu álbum de família para a exposição. Aquela é a única
fotografia em que avó, mãe e tia da autora estão juntas, ela conta. No texto,
Lilia relembra a paisagem que atravessava com sua mãe para chegar à escola
todos os dias: “Impossível saber quantas vezes percorremos aquele trajeto,
quantos dos nossos passos pisaram aquele chão. Às vezes, quando chovia demais,
o rio transbordava e a água chegava aos joelhos dela e à minha cintura. Ela
segurava minha mão com firmeza e atravessávamos juntas a correnteza. Hoje,
recordando, visualizo seu semblante obstinado, preocupada em me manter em
segurança, mas confesso que naquela época eu não me dava conta do perigo que
corríamos e considerava aquela uma aventura divertida. Crianças…”.
Técnica de enfermagem no SUS e moradora da
Cidade Tiradentes há 24 anos, Lilia conduziu na Casa Museu Ema Klabin, como
parte das atividades propostas ao redor da exposição, um encontro que pretendia
ser um passeio musicado entre imagens e sons captados nas periferias de São
Paulo. “No dia 5 de setembro de 2026, conduzi minha mãe pelos jardins da casa.
Também levei os discos que fazem parte do nosso acervo. Minha avó e tia já não
estão por aqui. Mas, de alguma maneira, estavam presentes. Algumas canções que fizeram
e fazem parte da nossa história embalaram a manhã chuvosa de sábado. A voz de
Geraldo Filme entoando ‘Silêncio no Bixiga’, um hino, um clássico, ecoou. E era
como se as nossas vozes também estivessem fazendo coro. Foi um dia memorável”,
conta sobre o encontro, embalado pelo samba que aquelas mulheres da foto a
ensinaram a amar.
A intenção da exposição, mais do que
evidenciar a desigualdade e os contrastes que a mesma cidade oferece às
mulheres distintas a quem os painéis pregados nas paredes da casa pretendem dar
voz, é também aproximar essas realidades distintas pela via da linguagem e da
experiência doméstica. Lilia conta que acompanhou uma visita mediada de alunos
de escolas da Cidade Tiradentes à Casa Museu, quando teve o prazer de “ver os
alunos aprendendo sobre a história da cidade, enchendo aqueles corredores de
vida” e refletir sobre as discrepâncias na sua paisagem. Um dos alunos a contou
na ocasião: “Minha avó trabalhou durante muito tempo como empregada doméstica
em uma mansão neste bairro. Quando eu disse que ia conhecer um Museu no Jardim
Europa ela se lembrou de quantas vezes esteve no bairro como uma trabalhadora.
Eles estão colecionando reflexões. Registrando sentimentos”.
Da antiga copa da casa de Ema Klabin, depois
do fim da visita, a curadora Cristiane Alves conta sobre o impacto dessa
pesquisa em sua forma de olhar para a cidade: “Por mais que conheçamos essa
desigualdade, hoje eu olho a cidade de modo muito diferente. Entendo cada vez
mais o quanto não conheço São Paulo e quão importante é prestar atenção nesses
lugares que estão logo ao lado. Os lugares de que as autoras falam, o ponto de
vista delas sobre a cidade vai ficar para sempre impregnado na minha vida.”
A observação e a escuta passam pelo filtro de
cada escritora para chegar à folha de papel e atravessar o leitor de alguma
forma transformadora. Lilia, assim como as outras escritoras que compõem o
mosaico da exposição, buscam imaginar a cidade com suas contradições,
denunciando injustiças mas também iluminando as expressões culturais e os
afetos que colorem os dias de quem vive em cada canto da capital.
Nas palavras da escritora: “Os escritos
também nascem da indignação, do protesto. Do desejo de que o ‘nosso’ lugar seja
melhor assistido e da possibilidade de fazer da literatura um canal de
comunicação. Eu ainda não consigo escrever impunemente. Eu sempre enxergo a
oportunidade de denunciar. De expor o que acontece nas beiradas e o centro não
vê e nem ouve através da escrita. Mas, nas beiradas também acontece riso,
dança, amor e solidariedade. A paisagem sonora é diversa. Levamos nossas
imagens e sons para o museu”.
O silêncio usual da casa – a curadora brinca
que os funcionários celebram as raras ocasiões em que conseguem ouvir crianças
brincando no jardim vizinho – é
substituído pela sonoridade e pelas narrativas que as periferias e outras
regiões de São Paulo têm a apresentar, em uma tentativa de aproximar
experiências distintas unidas pela cidade e pelas palavras que a compõem.
Fonte: Por Carolina Azevedo, no Le Monde

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