quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Por que Trump aposta na IA apesar dos crescentes alertas sobre seus riscos

Segundo o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, as preocupações com os perigos da tecnologia de inteligência artificial – de que "robôs invadirão nossas cidades e se livrarão de todos nós" – são uma farsa.

É o tipo de linguagem que o presidente dos EUA normalmente reserva para os objetos de seu desprezo mais intenso – teorias sobre as mudanças climáticas causadas pelo homem, investigações sobre a interferência russa nas eleições e as tentativas de impeachment e destituição durante seu primeiro mandato presidencial.

Apresentando-se como "caçador de farsas", em uma série de postagens nas redes sociais na segunda-feira, ele emitiu um apoio enfático ao que chamou de "o maior motor de desenvolvimento econômico da história" e desprezou aqueles que duvidavam dos benefícios da tecnologia.

No entanto, o número de céticos tem crescido nas últimas semanas, em meio à ansiedade sobre a natureza disruptiva da IA – ou mesmo preocupações com um possível perigo que ameace a civilização – entre alguns especialistas do setor e políticos, inclusive dentro do próprio Partido Republicano de Trump.

Nada disso, porém, deteve Trump, cuja mais recente saraivada de ataques nas redes sociais foi apenas sua mais nova tentativa de conter o crescente ceticismo em relação à inteligência artificial por meio do peso do discurso.

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Independentemente de o presidente considerar a luta contra a IA crucial para o seu legado econômico, um campo de batalha fundamental numa luta global pelo poder ou mais um exemplo de conspiração dos seus inimigos contra ele, ao se envolver diretamente na briga ele elevou a questão ao centro do debate político americano. Isso mesmo correndo o risco de contrariar aliados de longa data.

"Acreditamos que essa tecnologia pode ser excelente, mas não vamos dar carta branca a esses caras", disse Steve Bannon, ex-conselheiro de Trump, em uma conferência "pró-humana" sobre os perigos da IA na terça-feira. "Não houve debate sobre isso."

Pouco antes do discurso de Bannon, o senador socialista democrático Bernie Sanders, de Vermont, disse à mesma plateia que os legisladores de Washington não haviam abordado as "consequências potencialmente catastróficas" da IA não regulamentada.

"O Congresso, tanto sob controle democrata quanto republicano, tem se mostrado negligente", disse ele. "E agora temos um presidente cuja ignorância sobre esse assunto é verdadeiramente vergonhosa."

Segundo Trump, porém, o que é necessário não é debate ou novas políticas, mas sim confiança em sua autoridade e discernimento.

"O único controle ou 'salvaguarda' de que a IA precisa é de um PRESIDENTE FORTE E INTELIGENTE (com QI elevado!), e os EUA têm isso de sobra", escreveu ele. "Já temos um enorme poder CRIMINAL e REGULATÓRIO sobre essas empresas."

O desejo por uma autoridade presidencial centralizada é um tema recorrente para Trump em seu segundo mandato. Se ele decide que algo é bom, deveria ter a autoridade para permiti-lo; se o considera ruim, deveria poder encerrá-lo por meio de uma ordem presidencial unilateral.

É semelhante à sua visão sobre imigração e comércio. Ele acredita que, como presidente, deveria ter o poder exclusivo de decidir quem pode entrar e permanecer no país, e quando e onde impor tarifas.

Ao contrário das tarifas e da imigração, que são temas de interesse de Trump há décadas, o avanço a passos largos da tecnologia de inteligência artificial é um relativamente recente.

Mas se não se trata de um interesse antigo e profundo por parte do presidente, o que poderia explicar sua disposição em prosseguir com o projeto?

<><> A economia mais aquecida e a força motriz da IA

Trump gosta de frequentemente afirmar que os Estados Unidos são o país "mais promissor" do mundo.

Muitos economistas indicam que o investimento em tecnologia de IA – incluindo infraestrutura e equipamentos – tem sido a força motriz da economia americana há vários anos.

Segundo um relatório recente da empresa de previsões ING, o investimento em tecnologia representou mais de um terço de toda a expansão econômica dos EUA no segundo trimestre de 2026.

O mercado de ações está em alta, e grande parte desse aumento no valor das empresas (e, por extensão, no crescimento dos fundos de pensão de muitos americanos) pode ser atribuída aos enormes gastos com chips de computador, centros de dados e outras infraestruturas por trás da IA.

Qualquer coisa que ameace esse crescimento, que Trump considera uma marca registrada de sua presidência e a chave para seu legado político, rapidamente desperta sua suspeita.

Trump também vê a expansão da IA como uma competição industrial em larga escala entre as duas maiores economias do mundo, os EUA e a China. No jogo de soma zero do poder global, se a China estiver na frente, os Estados Unidos estarão atrás.

"Estamos à frente da China em IA", disse Trump no sábado, "e, francamente, quero que continue assim, porque quem vencer na área de IA, vence."

O presidente costuma defender uma visão conservadora já conhecida, de que seus oponentes à esquerda são contra o livre mercado e as liberdades econômicas, e se valem do alarmismo para justificar maior intervenção e controle do governo.

É claro que Trump – que alardeia a participação parcial dos EUA na US Steel e na fabricante de semicondutores Intel, e não tem escrúpulos em escolher vencedores e perdedores na economia americana – dificilmente pode ser considerado um conservador tradicional defensor de um governo pequeno.

<><> Opiniões divergentes

Os laços estreitos de Trump com proeminentes magnatas da tecnologia e empreendedores de IA desde o início de seu segundo mandato também podem ajudar a explicar seu entusiasmo pela IA.

O empreendedor de tecnologia David Sacks, co-presidente do Conselho de Assessores de Ciência e Tecnologia do presidente e seu "secretário informal" para IA, é um apoiador de longa data. O ceticismo publicamente demonstrado por Sacks em relação à regulamentação da IA reflete comentários recentes feitos pelo presidente.

"Acho que isso está se tornando um pânico", disse ele neste fim de semana em entrevista à CBS News. "Estamos em época de eleições, e há um incentivo para que os atores políticos tentem amplificar o medo."

Elon Musk, apesar de uma relação conturbada, moldou os rumos do governo Trump. Mark Zuckerberg, do Facebook, Jeff Bezos, da Amazon, Sam Altman, da OpenAI, e o ex-presidente da Apple, Tim Cook, tiveram lugares de destaque na posse de Trump.

Esses homens, juntamente com o chefe da Anthropic, Dario Amodei, têm opiniões diversas sobre a necessidade de uma maior regulamentação da IA e possuem diferentes níveis de acesso e influência sobre Trump.

No caso de Amodei, seus conflitos sobre o uso irrestrito dos modelos de IA da Anthropic pelo Pentágono podem ter afetado negativamente a avaliação de Trump sobre os apelos de Amodei por uma desaceleração no desenvolvimento da IA.

"Este é o debate mais importante em todo o setor e tem sido assim desde o início", disse Matt Calkins, chefe da empresa de tecnologia Appian. "Sabíamos que em algum momento isso acabaria se envolvendo com a política, porque era inevitável."

O rumo que o debate político tomará a partir de agora é uma incógnita.

Diante da resistência de Trump, é improvável que o Congresso — apesar das promessas de novas audiências e dos controles regulatórios propostos — aprove uma nova legislação que Trump sancionaria.

Na terça-feira, o presidente republicano da Câmara dos Deputados dos EUA, Mike Johnson, pareceu recuar da abertura anterior à ação do Congresso, ecoando, em vez disso, a retórica de Trump sobre a "farsa da IA".

Com as eleições legislativas de meio de mandato se aproximando, os candidatos a cargos públicos – tanto republicanos quanto democratas – estão receosos de ficarem em desacordo com a opinião pública que, segundo as pesquisas, se mostra cética em relação aos benefícios prometidos pelos avanços da IA.

Mas os republicanos também temem contrariar Trump em uma questão que se tornou um ponto crucial na política do presidente.

Embora o público esteja começando a prestar atenção, Calkins afirma que a questão ainda não se tornou uma bomba política, o que significa que a retórica política apresenta pouco risco. No entanto, o momento em que os alertas de IA se transformarem em um desastre de grande repercussão pode estar se aproximando.

"É possível que eventos futuros eletrizem o público, e então posições – e discursos – podem não ser tão baratos", disse ele.

¨     ESTADOS UNIDOS: Soft power - maquiando a realidade. Por Josiane Mozer e Daniel Azevedo Muñoz

O segundo mandato de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos reabriu uma série de ações disruptivas no cenário internacional. Transitando entre declarações hostis e medidas coercitivas, as ações do governo Trump têm sido noticiadas pela imprensa internacional mainstream, com reverberação em nosso ambiente jornalístico doméstico, como evidência de que os Estados Unidos estão abandonando a sua política de soft power.

Passados meses desde que esses “avisos” sobre uma “nova” orientação na política externa estadunidense começaram a chegar até nós – a periferia do sistema global – se faz necessário entender melhor o que seria essa política que a Casa Branca estaria abandonando. O primeiro ponto a discutir é a origem e o significado do termo soft power.

O cientista político estadunidense Joseph Nye, deparando-se com o que julgava ser uma nova era na divisão de poder global – que veio a ser denominada globalismo –, considerou que a nova ordem mundial nascente nos anos 1990 estava enterrando a bipolaridade e inaugurando a era da multipolaridade, o que tornaria demasiado custoso e ineficiente que os países utilizassem a força para alcançar os seus objetivos econômicos e políticos: seria mais bem sucedido aquele que oferecesse a maior capacidade de atração aos demais e angariasse para si adesões voluntárias aos seus propósitos.

Nye, que lecionou na Universidade de Harvard e faleceu recentemente, em 2025, chamava essa nova ordem diplomática de um “poder pela atração”, um “poder brando”, “soft power”. O termo representa a ideia de que a influência de um país sobre outros se garante pela cultura e pela informação, recursos não só opostos ao “hard power”, mas seus substitutos.

Os Estados Unidos, para Nye, teriam suficiente poder de atração para atuar pacificamente num cenário considerado globalizado e multipolar, o que dispensaria o uso da força militar ou de sanções e manipulações econômicas como meios de coerção para alcançar os seus objetivos.

Embora Nye tenha reconhecido, em artigo datado de 1990, a perda da liderança estadunidense na capacidade produtiva e tecnológica diante de seus concorrentes diretos (refere-se ao Japão e à Alemanha), Washington ainda assim não teria motivos para se preocupar, pois o poder de atração dos Estados Unidos seria superior aos demais países desenvolvidos, conduzindo-os assim a tomarem decisões que não afetassem negativamente os interesses estadunidenses.

Essas formulações de Nye ocorreram ao mesmo tempo em que formulações sobre a globalização reafirmavam as vantagens das desnacionalizações dos meios de produção e anunciavam o fim da história e a morte do imperialismo. Eram os anos 1990 e o liberalismo, sustentação teórica ao avanço sem freios do capital, oferecia os argumentos interpretativos para tratar o que o bloco capitalista considerava a “grande vitória” sobre o mundo socialista com o fim da Guerra Fria, dançando sobre os escombros da queda do muro de Berlim e o subsequente desmonte do bloco socialista.

A partir de então, o termo soft power passou a circular internacionalmente nas análises sobre a política externa estadunidense.

Contudo, algumas perguntas pairam sobre essas interpretações. Como se aplica a definição de soft power num mundo organizado por uma brutal diferença de desenvolvimento econômico, proveniente de exploração e expropriação de massas populacionais gigantescas? Quando foi que os Estados Unidos abandonaram seu “hard power” considerando as guerras, invasões e golpes de Estado que eles perpetraram desde o final do século XIX até hoje?

Este é o segundo ponto a ser destacado: precisamos falar de imperialismo, este conceito que insiste em não morrer.

O imperialismo foi analisado por Lenin no início do século XX a partir das formulações de Marx como um fenômeno resultante do avanço do capital sobre todas as esferas da vida social, operando expropriação e concentração de capitais em larga escala.

Considerando as formulações de Marx e Lenin, portanto, esse fenômeno deve ser compreendido como a forma operacional do capitalismo desde o início do século XX, em que a livre concorrência foi suprimida pelo monopólio, e a partilha do mundo tornou-se um imperativo na disputa por recursos naturais e humanos para a extração da mais-valia.

Nessa etapa da evolução do sistema, a predominância econômica de um país industrializado não se restringe à exportação de bens com valor agregado, sendo essencial haver a exportação de capitais, a chave central do funcionamento do imperialismo.

As transformações econômicas impostas pela etapa imperialista modificaram a política internacional. Se na primeira metade do século XX resíduos de uma política belicista entre potências capitalistas levou o mundo a duas grandes guerras, a segunda metade apresentou arranjos de contenção das disputas entre burguesias nacionais, tendo os Estados Unidos como arquiteto e executor de uma nova ordem mundial. Os acordos de Bretton Woods foram mecanismos que visaram essa contenção por meio da substituição do padrão ouro pelo padrão ouro-dólar nas relações comerciais internacionais, da criação do FMI e do Banco Mundial, da criação das Nações Unidas e do Plano Marshall para a Europa.

Nesse cenário, nas duas primeiras décadas do pós-Segunda Guerra Mundial, o fluxo de capitais foi controlado pelos Estados Unidos, o que lhe garantiu posição hegemônica no mundo, tendo o país alcançado grande desenvolvimento das forças produtivas e concentração de riqueza. Para alguns intérpretes, os Estados Unidos são o país imperialista por definição, pois nenhum outro reúne, ainda hoje, todas as condições objetivas para ser assim caracterizado.

O terceiro ponto a se destacar: as características do exercício de poder imperialista. Como identificou Lenin, a dinâmica imperialista imprime dependência, mas também abre, às nações que importam capitais, possibilidades para a superação da dependência. Entretanto, a imposição de modelos de austeridade e controle fiscal como um mecanismo de controle e expropriação das economias dependentes gera tensões e conflitos que expõem as burguesias e Estados nacionais às pressões sociais. Dialeticamente, o imperialismo cria as condições para o anti-imperialismo.

Usando os termos cunhados por Nye para em seguida abandoná-los, o soft power não é capaz de exercer o controle social e manter a vantagem na concorrência econômica internacional que o imperialismo exige. O soft power só pode existir tendo o hard power como sustentáculo. Em outras palavras, soft power e hard power são faces da mesma moeda. Dito isto, daqui por diante, abandonaremos esses termos em prol de conceitos capazes de apresentar um retrato sem maquiagem da realidade.

Onde Nye vê poder brando (soft power) como alternativa ao poder que vem do uso da força, Antonio Gramsci vê o uso combinado entre consenso e coerção.

Embora Gramsci não tenha se dedicado a pensar especificamente o imperialismo, suas formulações permitem compreender as características do poder nessa fase. Analisando as condições político-culturais e ideológicas forjadas pela expansão capitalista, Gramsci revelou a ação imperialista por dentro das sociedades nacionais, identificando os mecanismos que as classes dominantes utilizam para manipular as reivindicações das classes subalternas de forma a transformá-las em apoio à dominação que combatem. Gramsci entendeu que a cultura é um importante organizador da vida social, uma das arenas essenciais na disputa pelas mentes e corações, mas nos alertou que o consenso se produz, também, com boas doses de coerção

Basta observar a realidade que nos cerca para entender que os avisos da imprensa sobre o abandono do soft power na política estadunidense não fazem sentido. Como nos ensina Gramsci, a política externa estadunidense busca hegemonia, o que significa fazer uso de coerção e consenso o tempo todo, dosando os pesos dependendo da resistência que encontram.

A poucos dias de uma das eleições mais importantes da história do Brasil, as declarações de ingerência dos Estados Unidos sobre o pleito, a vida política e a vida econômica do nosso país não poderiam ser mais concretas e explícitas. Foi-se a ilusão do soft power, ficou a realidade da força bruta de um imperialismo selvagem.

 

Fonte: BBC News Mundo/no Le Monde

 

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