'Descobri
que tinha uma doença rara depois de um match no Tinder
Quando
a comunicadora Maria Paula Vieira decidiu entrar no Tinder pouco antes da
pandemia de covid-19, ela buscava, assim como tantas outras pessoas, conhecer
alguém interessante no aplicativo de relacionamentos.
Entre
os perfis que apareceram, estava o de Lucas, na época, estudante de Medicina.
Os dois ficaram interessados um no outro e deram match. Começaram então a
trocar mensagens. "Foi tão fácil conversar com ele que a gente virou
amigo", afirma Maria Paula, hoje com 33 anos.
O
isolamento social da pandemia fez com que os dois se falassem cada vez mais,
até que um dia Maria resolveu falar sobre sua deficiência — adquirida em
decorrência de problemas de saúde para os quais ela buscava um diagnóstico
havia quase 30 anos.
Maria
contou das dores crônicas que sentia desde criança e da longa peregrinação por
médicos e hospitais em busca de uma resposta.
"Até
pelas afinidades que a gente tinha, eu fiquei com muita vontade de saber mais
sobre aquilo", diz Lucas, de 32 anos.
"Falei
para ela que estava além do que eu sabia, mas que ia tentar ajudar. Eu tinha
essa esperança, enquanto estudante de Medicina, de: 'será que vou conseguir
fazer algo que faça diferença?'."
Em uma
das conversas, eles discutiram a possibilidade de Maria Paula procurar
novamente um dermatologista, já que as principais manifestações do problema
eram na pele.
"Ela
me perguntou se eu conhecia algum que não trabalhava apenas com estética. De
cara, falei que não. Mas depois pensei: 'Lógico que eu conheço, eu tive aula
com o Paulo'", lembra Lucas.
Paulo
era o médico dermatologista Paulo Ricardo Criado, professor na Faculdade de
Medicina do ABC, que é um dos centros de doenças raras credenciado pelo
Ministério da Saúde em São Paulo.
"A
aula que ele me deu foi justamente sobre manifestações dermatológicas de
doenças sistêmicas. E era uma aula muito complicada, de complexidade bastante
alta. Fazia muito sentido com o que ela descrevia que sentia."
Maria
Paula já havia se consultado com inúmeros médicos, mas decidiu procurar o
professor Paulo. Na primeira consulta, contou toda a sua jornada e falou dos
sintomas que a acompanhavam havia anos.
Assim
como tantos outros especialistas, ele não tinha um diagnóstico para ela.
"Ele
falou: 'Não faço ideia do que pode ser. Mas vou investigar, eu vou atrás. No
seu retorno, digo se eu tenho uma resposta ou não'."
Cerca
de um mês depois, Maria Paula voltou ao médico. E ele tinha a resposta que ela
tanto procurava: eritromelalgia primária associada à síndrome de Olmsted, uma
doença genética rara.
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Infância com dores
Os
sintomas de Maria Paula começaram quando ela tinha 3 anos de idade. Ela lembra
de sentir as mãos queimando, como se estivessem "pegando fogo".
Depois vieram as dores e a escamação na pele.
A
família procurou primeiro um dermatologista. Sem conseguir chegar a um
diagnóstico, passou a levá-la a outros médicos, a fazer exames e a importar
medicamentos.
"A
gente tentou de tudo. Brinco que fui feita de cobaia por clínicas, hospitais e
escolas tentando descobrir o que eu tinha", diz Maria Paula.
Ao
longo dos anos, algumas doenças raras chegaram a ser consideradas, mas nenhum
diagnóstico foi fechado.
Sem
saber exatamente o que causava os sintomas, ela iniciou tratamentos para
controlar as dores e manter uma rotina mais próxima do normal. A fisioterapia,
porém, acabou agravando o quadro.
"Quanto
mais eu forçava ficar em pé, quanto mais forçava exercícios físicos nessas
terapias intensas, mais regredia e minhas dores pioravam. Minha pele ia
engrossando cada vez mais", conta.
"Comecei
a usar órteses, andador, outros mecanismos para tentar manter a mobilidade, mas
meus pés foram atrofiando. Chegou um ponto em que falei: 'A melhor forma de a
gente lidar com isso e eu ter mais autonomia para viver é a cadeira de rodas'."
Com o
passar dos anos, Maria Paula se cansou de procurar uma resposta para o que
tinha. Aos 20 e poucos anos, decidiu, junto com a família, interromper a busca
pelo diagnóstico e se concentrar em cuidados paliativos para aliviar o
sofrimento e melhorar sua qualidade de vida.
"Foi
um processo muito difícil e sofrido, porque você sente uma dor intensa, vê tudo
acontecendo e não sabe o que fazer. Como parar essa dor? Como parar essa
doença? A gente não sabia", diz Maria, que compara a ausência do
diagnóstico a estar à deriva.
"Quando
você não tem um diagnóstico, é como se você estivesse no mar navegando em um
barquinho sem rumo. Você não sabe para onde ir, você não sabe o que fazer, quem
procurar, os remédios que você pode utilizar, os tratamentos que são possíveis.
Você vai navegando ali e enfrentando obstáculos sem saber que obstáculos são
aqueles."
Mas
tudo mudou em 2023, quando ela retornou ao consultório do dermatologista Paulo
Criado.
Criado
mostrou à Maria Paula um estudo francês. A pesquisa apresentava alguns casos de
associação de duas condições: a síndrome de Olmsted e a eritromiologia
primária.
A
síndrome de Olmsted é uma doença rara que pode provocar um espessamento
excessivo da pele das palmas das mãos e das plantas dos pés, o que pode afetar
a mobilidade.
Em
alguns pacientes, ela aparece associada à eritromelalgia, que provoca
vermelhidão, calor e crises de dor e queimação, principalmente nas
extremidades.
"Na
hora em que eu vi o estudo, falei: 'Meu Deus. Essa é a minha história'. Porque
a história dos jovens que participaram do estudo era igualzinha à minha",
lembra Maria.
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Odisseia diagnóstica
A
experiência de Maria Paula é o que é chamado na Medicina de odisseia
diagnóstica. O termo se refere à jornada que muitas pessoas com doenças raras
percorrem desde os primeiros sintomas até receber um diagnóstico.
Esse
caminho costuma ser longo e, no caso de Maria Paula, durou quase 30 anos. No
Brasil, essa jornada leva, em média, 5,4 anos, segundo um estudo publicado em
2024 com mais de 12 mil pessoas com doenças raras.
Durante
esse período, é comum que o paciente passe por diversos especialistas e obtenha
diagnósticos errados, o que pode agravar a situação. Ou, até mesmo, que diante
da falta de respostas, comece a questionar os próprios sintomas.
No caso
de pacientes com dores crônicas, pode ser um processo ainda mais difícil,
segundo Criado.
"A
dor é um sintoma subjetivo, então a gente tem que entender o que o paciente
sente. Você pode até graduar numa escala, mas não tem como você ver, como em um
ultrassom em que você vê uma pedra na vesícula", diz o médico.
"Tem
momentos que, no desespero, a pessoa pode até achar: será que isso é da minha
cabeça? Será que eu estou inventando coisas? E não está. É algo orgânico."
Criado
explica que a demora para obter um diagnóstico pode ter inúmeros fatores, entre
eles o fato de as doenças raras apresentarem sintomas pouco específicos, além
da escassez de especialistas em genética médica, a falta de conhecimento sobre
essas doenças e as limitações na estrutura da rede e no acesso a exames.
"Conhecemos
algumas doenças há alguns séculos, mas muitas doenças vêm sendo descritas nos
últimos 20 anos graças à biologia molecular. Então, algumas doenças que a gente
enquadrava tudo dentro de uma única doença só, hoje a gente sabe que têm variações
porque tem genes diferentes dentro daquele espectro, que na verdade são
classificados agora como doenças distintas", diz.
Uma
doença é considerada rara quando afeta até 65 pessoas a cada 100 mil
habitantes. Estima-se que cerca de 13 milhões de brasileiros tenham alguma
doença rara. O Ministério da Saúde contabiliza cerca de 7 mil condições desse
tipo.
"Apesar
de serem raras, temos milhões de pessoas no Brasil com essas doenças",
afirma Criado, que defende que o caminho passa pela conscientização.
"Existem
muitos desafios, e o principal é a população geral saber que existem doenças
raras, que são doenças que trazem impacto enorme para a vida das pessoas, tanto
da parte física como da parte emocional e socioeconômica."
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Enfim, o diagnóstico
Chegar
até a descoberta que deu fim à odisseia de Maria Paula exigiu de Criado a
curiosidade científica que ele cultivava enquanto professor.
Ele já
conhecia a síndrome de Olmsted — tinha visto casos em eventos da Sociedade
Brasileira de Dermatologia e em hospitais acadêmicos —, mas conta que Maria
apresentava sintomas de um quadro que ele ainda não sabia explicar.
Foi
então que ele recorreu a algo relativamente simples, mas essencial para a
descoberta, a PubMed, uma base de artigos científicos usada por pesquisadores e
profissionais de saúde.
"É
uma coisa que eu me eduquei a fazer frente ao desconhecido: procurar
características clínicas, sintomas ou alterações laboratoriais e utilizar essa
ferramenta, em que a gente tem uma literatura séria, científica, que a gente
pode consultar", explica o médico.
"Fui
combinando palavras-chave com os sintomas, e foram aparecendo vários artigos,
não exatamente desta doença, mas de um grupo de doenças. Fui filtrando até
encontrar algo. Ali vi que existia a associação. Eram poucos pacientes ainda
tratados, mas foram casos relatados em revistas científicas."
Até
junho de 2019, 106 casos de síndrome de Olmsted haviam sido descritos na
literatura científica mundial, segundo uma revisão publicada em 2020.
A
eritromelalgia também é rara, mas um pouco mais frequente. Estima-se que haja
entre 0,36 e 1,3 caso por 100 mil habitantes.
Mas a
associação entre as duas condições é extremamente incomum. O primeiro caso
conhecido foi descrito em 2014.
Na
época, os pesquisadores ainda não podiam determinar se a eritromelalgia fazia
parte da síndrome de Olmsted ou se ocorria por coincidência. Casos publicados
posteriormente reforçaram a relação entre as duas condições.
Criado
explica que as duas condições podem estar relacionadas a alterações no TRPV3,
um canal presente nas terminações nervosas e envolvido na transmissão de
estímulos sensoriais.
Quando
há uma alteração que aumenta a atividade desse canal, estímulos que normalmente
seriam percebidos como um toque podem ser interpretados pelo organismo como dor
intensa e persistente.
"Então,
o que para nós é um estímulo tátil normal para o indivíduo que tem um ganho de
função desse canal pode se transformar numa dor incontrolável e
persistente", explica.
O
quadro clínico de Maria Paula era compatível com os casos descritos na
literatura científica, mas ainda era preciso confirmar a hipótese por meio de
um exame genético, que foi realizado em outubro de 2023. O diagnóstico veio
dois meses depois, em 19 de dezembro.
"Estava
jantando e aí veio a notificação no meu celular que tinha saído o resultado.
Estava lá o nome do gene que é alterado no meu corpo e o que ele causa em mim.
Foi um alívio muito grande, não só para mim como para minha família", diz
Maria Paula.
Desde
então, ela faz tratamento e conta que sua vida mudou completamente com o
tratamento. Diz que hoje ela pode ter sonhos.
"Consigo
fazer atividade física, coisa que era muito difícil para mim. Consigo criar
mais laços também, porque eu consigo sair mais, viajar. E eu consigo ter mais
sonhos, ter prazer em viver", diz Maria Paula.
"Passei
por muito tempo na minha vida sem isso. Eu vivia, mas era uma vida assim de
sobrevivência, porque eu estava em sofrimento, eu estava com dor."
Fonte:
BBC News Brasil

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