O
Supremo de Fachin, a vergonha de Cármen
A
última sessão do Supremo foi um espetáculo medíocre, de gosto duvidoso e
frustrante para 10 em cada 10 que acreditavam ser aquela uma sessão para entrar
na história. Essa minha impressão se consolidava a cada hora: Edson Fachin
havia puxado para a Presidência um volume de poder quando demonstrava pouca
capacidade para liderar o colegiado.
O homem
que deveria enxergar o todo escolheu uma posição dentro da fratura. Presidiu a
crise como parte dela. Deu no que deu: ministros de bronze não conseguem criar
um tribunal de ouro.
Esse
foi, para mim, o ponto central da sessão.
Fachin
recolheu processos sensíveis para perto de sua mesa, suspendeu decisões,
assumiu relatoria e fez da Presidência filtro obrigatório de procedimentos
capazes de alcançar seus próprios ministros. Poder concentrado exige autoridade
proporcional. Na sessão ocorreu o contrário: quanto mais poder aparecia reunido
em sua cadeira de presidente, menor parecia sua capacidade de produzir unidade
entre os onze. Menos, entre os 10. Menos ainda, entre os oito que
protagonizaram o deprimente espetáculo.
A
abertura prometia serenidade, colegialidade e respeito.
Poucas
minutos depois, o plenário oferecia interrupções, ironias, acusações cruzadas,
discussão sobre apartes, impedimentos, suspeições, grosserias, competência e
relatoria.
Fachin
precisava simultaneamente presidir os ministros e defender Fachin. A
sobreposição contaminou a condução. Flávio Dino chamou a sessão de desastrada.
O adjetivo dispensou esforço de comprovação. gostaria Dino estivesse errado.
Não estava.
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Poder sem centro
Entre o
fim de agosto e 15 de setembro, a Presidência ampliou sua presença na crise.
A
Petição 16.662, originada de relatório da Polícia Federal com dados extraídos
do celular de Daniel Vorcaro, estivera sob relatoria de André Mendonça.
Fachin
abriu a Petição 16.704, suspendeu decisões de Mendonça e Dino, sobrestou a
16.662, suspendeu procedimento de controle externo da PGR e, em 12 de setembro,
assumiu a relatoria da 16.662, além de determinar o envio à Presidência das
Petições 15.041 e 15.556, relativas ao INSS e ao Banco Master, com processos
relacionados.
Três
dias depois, conduzia o julgamento. Antes precisava ter se conduzido melhor.
A
sequência importa: o Regimento fala em duas direções.
O
artigo 13 entrega ao presidente o dever de velar pelas prerrogativas do
Tribunal. Mas a que prerrogativas ele se referia? Tendo como pano de fundo o
processo de liquidação do banco Master e o Escorpião-rei Daniel Vorcaro, a
lista dos supremos ministros que merecem serem investigados não ficou restrito
apenas a Alexandre de Moraes, André Mendonça e Dias Toffoli, juntaram-se a ele
Kassio Nunes e Luiz Fux. A menos que metade da composição atual do STF, uma vez
que a vaga de Luiz Roberto Barroso ainda não foi preenchida.
Se
fôssemos levar ao pé da letra o próprio regimento interno no Supremo, todos os
cinco deveriam se sentir impedidos. O avanço das investigações já coloca luz
potente sobre Morais, Mendonça e Toffoli.nas próximas semanas avançarão sobre
Nunes e Fux.
O
artigo 66 do Regimento da Corte estabelece distribuição por sorteio ou
prevenção; o 67 determina a distribuição e excetua o presidente.
O
problema começa quando a defesa institucional vira fundamento elástico para
concentrar relatorias e procedimentos que nasceram em outras mãos.
Fachin
precisava demonstrar com solidez por que aquela arquitetura preservava o juiz
natural, a distribuição regimental e o devido processo. Não conseguiu. Gilmar
Mendes propôs reunir as Petições 16.662 e 16.704, sortear novo relator,
identificar formalmente os magistrados citados e só depois abrir prazos às
manifestações. Fachin resistiu. Dino questionou a inexistência de previsão
regimental para “avocação” de processos pelo presidente.
O
plenário terminou discutindo o caminho antes de alcançar o mérito.
A
Presidência falhou exatamente aí. O rito deveria estar amadurecido. Os
impedimentos, mapeados. A Corte chegou ao caso mais explosivo de sua agenda
recente sem consenso sobre quem deveria relatar, quem poderia votar e se os
procedimentos deveriam caminhar juntos.
Fachin
centralizou processos e descentralizou autoridade. A imponente cadeira
presidencial se transformou em cadeira de praia, dessas que se dobram se
colocam no bagageiro do carro.
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Vergonha em plenário
Cármen
Lúcia percebeu o desastre, mas sua resposta me pareceu igualmente pobre. Falou
em tristeza, consternação, vergonha, serenidade, respeito e pediu desculpas ao
povo brasileiro. Concordo com quase todas essas palavras.
Quem
desejaria uma Suprema Corte sem equilíbrio, respeito entre seus membros,
conhecimento jurídico e senso de justiça? Nesse trecho faço parte da entidade
“povo” invocada pela ministra. A essas alturas, já se pode colocar em seu
verbete biográfico como Platitude Duprena do STF. Isso porque não quero pegar
pesado demais. Gosto da ministra, dentro de outras coisas, porque nós dois
admiramos o autor de grande sertão veredas. Já demos até uma palestra juntos
sobre o grande Roma que criou a palavra nonada para abrir sua obra-prima. Paro
por aqui. Porque a sessão de ontem tinha tudo menos a boa e inconfundível
literatura do Rosa.
Cármen
estava ali para julgar. Seu voto exigia Constituição, Regimento, precedentes e
resposta frontal às objeções levantadas contra Fachin.
Em vez
disso, entregou uma manifestação repetitiva, redundante, coisa de quem procura
a terceira margem do rio .
Seu
voto — se é que podemos chamar aquilo de voto — chegou carregado de sentimentos
e mais próxima de comentário cívico do que de voto de Suprema Corte.
Faltou
explicar juridicamente por que a relatoria deveria permanecer com o presidente,
por que a distribuição regimental cederia naquele caso e por que a questão de
ordem deveria ser rejeitada. ao contrário saiu-se com essa: “A pauta é do
presidente e eu costuma acompanhar o presidente e acompanhar o relator”.
É isso
que a sociedade brasileira espera de alguém que vira e mexe tem que julgar os
destinos do país?
Em
vários momentos, Cármen parecia falar do Supremo como quem observa a Corte da
calçada.
Estava,
porém, sentada dentro dela, com um voto capaz de definir seu rumo. Repetiu sua
vergonha enquanto deixava quase intacto o núcleo jurídico que produzira parte
daquela vergonha. E falou tanto de sua vergonha que sentia até uma vergonha
alheia do tamanho do Brasil.
Carmen
falou para a plateia num tribunal cujos integrantes não disputam eleições:
recebem enorme poder para fundamentar decisões, não para procurar aplausos. em
certo momento pensei comigo “talvez ela esteja fazendo o que gosta de fazer,
facilitar o trabalho de edição do Jornal Nacional” E foi o que aconteceu. sua
fala serviu de escada para que o telejornal continuasse o trabalho de destruir
o STF, insuflando na população contra a Corte. Bem Organizações Globo.
As
mensagens extraídas do celular de Vorcaro, as referências a ministros, as
acusações cruzadas e a disputa em torno da Polícia Federal exigiam precisão
cirúrgica.
Seu
significado jurídico segue contestado e exige rigor.
Diante
disso, frases de conciliação servem pouco. A Constituição serve mais.
Ao
final, Fachin concentrou mais poder do que conseguiu administrar; Cármen
ofereceu mais emoção do que fundamentação; e o Supremo passou horas expondo sua
divisão sem alcançar o mérito.
Dino
pediu vista. A crise ficou onde estava, acrescida de outra: a dificuldade do
próprio Tribunal para definir as regras pelas quais pretende julgá-la.
Fachin
trouxe a crise para perto demais de sua cadeira e acabou levando sua cadeira
para dentro da crise.
Esse
foi, para mim, o retrato mais inquietante de 15 de setembro.
• O conflito entre Mendonça e Moraes:
dividir para reinar. Por Tamara Tania Cohen Egles
O
conflito entre os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes pode ser
compreendido como politicamente produzido: trata-se da velha estratégia de
dividir para reinar.
Para
compreender a complexidade dos acontecimentos, é necessário considerar que
estamos diante de um amplo conjunto de atores e instituições, de diferentes
processos de informação e comunicação e de narrativas que selecionam,
representam e reinterpretam os fatos. No espaço público, entretanto, o que
aparece em primeiro plano é, sobretudo, um embate entre dois ministros do
Supremo Tribunal Federal (STF). Essa interpretação parece insuficiente diante
da complexidade dos processos em curso.
A
primeira pergunta que devemos formular é: quem vaza as informações e a quais
interesses esses vazamentos atendem?
Cabe à
Polícia Federal investigar os fatos. Entretanto, informações relacionadas às
investigações são vazadas, publicadas e rapidamente transformadas em
acontecimentos públicos. Antes mesmo que as instituições responsáveis concluam
a apuração, elas já circulam pelas plataformas digitais, são processadas por
sistemas algorítmicos e incorporadas às disputas políticas.
Não
podemos ignorar, nesse processo, a participação das big techs, que possuem
enorme capacidade de registrar, organizar e processar dados referentes aos
comportamentos, sentimentos e modos de comunicação dos usuários do espaço
digital. Mensagens, deslocamentos, desejos, preferências e emoções alimentam
continuamente os bancos de dados das plataformas.
Isso
significa que uma parcela expressiva de nossas interações digitais permanece
registrada e pode ser processada por sistemas algorítmicos. Não se trata de
afirmar que os algoritmos “sabem tudo”, mas de reconhecer que as plataformas
dispõem de extraordinária capacidade para identificar padrões de comportamento,
conexões entre atores, circulação de mensagens e formação de redes. Podem,
portanto, apreender determinadas dimensões das relações sociais antes mesmo que
elas sejam plenamente compreendidas pelas instituições públicas.
Nesse
sentido, é preciso deslocar o olhar.
Existe
uma articulação internacional de movimentos e lideranças de extrema direita que
vem conquistando importantes espaços eleitorais em diferentes países e
estabelecendo conexões políticas e comunicacionais transnacionais. No Brasil, a
família Bolsonaro e outros atores políticos participam dessas redes de
articulação (Egler, 2023).
Também
são conhecidas as relações entre o sistema político e as
corporações-plataformas, analisadas por diferentes autores, entre os quais
Pessanha, Varoufakis e Zuboff. Essas contribuições permitem formular uma
questão mais abrangente: quais relações se estabelecem entre o sistema político
e os interesses das big techs?
Essa
questão é fundamental.
As
plataformas não apenas viabilizam a comunicação. Elas organizam a visibilidade
das informações, selecionam conteúdos, estabelecem hierarquias de relevância e
interferem na formação da atenção pública. Dessa maneira, participam da própria
constituição do campo político.
É a
partir dessa perspectiva que podemos formular nossa hipótese.
O
conflito entre Mendonça e Moraes não deve ser analisado apenas como uma
divergência pessoal ou institucional entre os dois ministros. Pode ser
compreendido como parte de um processo mais amplo de produção política de
conflitos, alimentado pela circulação seletiva de informações e por sua
amplificação no espaço digital. Nesse contexto, a intervenção do presidente do
STF, Edson Fachin, em defesa da unidade institucional, também deve ser
compreendida como parte da dinâmica em curso.
Podemos,
então, enunciar uma hipótese mais abrangente: a produção e a amplificação
desses conflitos podem contribuir para desestabilizar as instituições
democráticas em um momento particularmente sensível, às vésperas das eleições
de 2026.
Essa
perspectiva permite compreender como dois ministros podem ser colocados em
campos opostos, convertendo-se divergências em um conflito institucional de
grandes proporções. O resultado pode ser o enfraquecimento das instituições
responsáveis pela defesa da ordem democrática, justamente quando o país se
aproxima de uma eleição decisiva.
Por
isso, talvez o principal desafio seja não observar apenas aquilo que aparece
imediatamente diante de nossos olhos.
É
preciso examinar as redes, seguir os atores, identificar quem produz e quem faz
circular as informações, compreender quais narrativas são amplificadas e
perguntar a quem elas beneficiam politicamente.
O
desafio consiste em ver e interpretar o que está acontecendo para não morder a
isca.
Fonte:
Por Washington Araújo, em Brasil 247

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