EL
NIÑO: O aviso já foi dado. O que faremos com ele?
Em
junho, instituições públicas brasileiras reunidas no Painel El Niño 2026-2027 –
entre elas o Instituto Nacional de Meteorologia, o instituto Nacional de
Pesquisas Espaciais, a Agência Nacional de Águas, o Centro Nacional de
Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais e o Centro Gestor e Operacional
do Sistema de Proteção da Amazônia – publicaram um boletim conjunto com um
aviso que merecia mais atenção do que recebeu. Três meses depois, o aviso virou
constatação.
O
terceiro boletim do painel aponta 90% de chance de o El Niño atingir a
categoria muito forte já entre setembro e novembro deste ano, e a atualização
de 10 de setembro, com dados do centro climático da agência americana NOAA,
mostra anomalias de temperatura no Pacífico Equatorial acima de 3°C em parte do
oceano. O Super El Niño está se instalando, se intensificando, e deve chegar ao
verão com força.
O El
Niño é o aquecimento anômalo das águas do Pacífico Equatorial, e seus efeitos
sobre o Brasil são conhecidos: as temperaturas mais altas em quase todo o
território, seca no Norte e no Nordeste, chuvas desorganizadas e acima da média
em parte do Sudeste. O boletim lista os riscos para abastecimento de água,
segurança alimentar, geração de energia e saúde pública, entre outros. Quem
vive em São Paulo consegue traduzir cada item. Sabe o que é uma sala de aula a
34 graus depois do almoço, um pronto-socorro cheio em dia de calor extremo, um
bairro inteiro alagado porque a chuva de um mês caiu em uma tarde.
Também
sabemos que o calor não se distribui igualmente. Os mapas de temperatura da
cidade mostram diferenças de vários graus entre os bairros arborizados do
centro expandido e as periferias de asfalto e laje, onde vivem as crianças que
estudam nas escolas mais cheias e os idosos que moram nas casas mais quentes. O
clima extremo é, antes de tudo, um multiplicador de desigualdades.
Foi com
esse diagnóstico que construímos, na Câmara Municipal, a lei de adaptação
climática nas escolas, sancionada em 13 de julho como Lei nº 18.511/2026. A
maior rede municipal de ensino do país passa a ter diretrizes permanentes para
enfrentar o novo clima: telhados verdes, sensores de qualidade do ar,
protocolos de proteção para ondas de calor e prioridade de investimento nos
territórios mais vulneráveis. A lei não foi escrita para o clima que tivemos, e
sim para o que as projeções anunciam. Dois meses depois da sanção, o desafio é
de execução. A lei precisa sair do papel antes do verão, começando pelas
escolas onde o calor já compromete a aprendizagem.
A CPI
que investigou as enchentes do Jardim Pantanal, da qual fui vice-presidente,
aprovou por unanimidade um relatório de 364 páginas com uma conclusão central,
as obras pontuais não substituem a recuperação da funcionalidade da várzea do
Tietê. As chamadas soluções baseadas na natureza custam menos e duram mais do
que a engenharia que tenta confinar a água. O mesmo raciocínio vale para cada
vaga de estacionamento convertida em área verde, como propõe projeto que
apresentamos em 2025.
Há,
ainda, uma dimensão que ultrapassa o município. A lei de adaptação das escolas
vale apenas para a rede municipal. As escolas estaduais, os hospitais do Estado
e a Defesa Civil paulista precisam de resposta equivalente, e o verão não vai
esperar a divisão de competências se resolver. Por isso levamos a proposta
adiante pela Bancada do Clima: o projeto de adaptação climática nas escolas já
foi protocolado em mais de 40 municípios brasileiros.
Os
últimos grandes El Niños nos ensinaram que o custo de não se preparar é sempre
maior que o de se antecipar, e que ele é pago primeiro por quem tem menos.
Desta vez, o aviso veio com meses de antecedência, assinado pelas instituições
científicas do próprio Estado brasileiro, e, a cada boletim, vem mais forte.
Preparar as cidades para o clima que já chegou é a melhor e mais concreta forma
de cuidar de quem vive nelas.
• Seca de rios globais em 2025 foi uma das
piores em 35 anos
O ciclo
global da água está cada vez mais instável, alternando entre escassez e
excesso, e um episódio de El Niño considerado sem precedentes pode intensificar
essa tendência, alertou a Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência da
ONU, nesta quinta-feira (17/09).
Segundo
o relatório Estado Global dos Recursos Hídricos, 2025 esteve entre os anos mais
secos para os rios do planeta nos últimos 35 anos. Mais de um terço das bacias
hidrográficas do mundo registrou vazões abaixo da média histórica, enquanto o
volume de água que corre pelos rios globais atingiu um dos três menores níveis
das últimas três décadas e meia.
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Reservas naturais de água em declínio
O
documento mostra que os recursos hídricos globais vêm se tornando mais escassos
nos últimos anos, com redução das vazões dos rios, retração das geleiras e
queda dos níveis de águas subterrâneas em diversas regiões. O armazenamento de
água nos continentes, que inclui aquíferos, lagos, solos, vegetação, neve e
gelo, está em declínio contínuo há mais de uma década.
A OMM
advertiu que essa tendência tem "sérias implicações futuras", pois
essas reservas funcionam como uma proteção natural contra períodos prolongados
de seca. As mudanças climáticas
provocadas pela atividade humana, o aumento da demanda por água associado ao
crescimento da população mundial e a variabilidade natural do clima estão entre
os fatores que explicam as alterações observadas nos recursos hídricos, segundo
Wayne Jenkinson, diretor da divisão de Hidrologia e Criosfera da organização.
Embora
alguns componentes do ciclo hidrológico, como chuvas, vazão dos rios e umidade
do solo, respondam rapidamente às condições meteorológicas, outros atuam como
reservas de longo prazo. A secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, demonstrou
preocupação especial com a redução dessas reservas mais lentas, como as águas
subterrâneas e as geleiras.
Segundo
ela, esses recursos historicamente ajudavam a evitar que uma estação seca se
transformasse rapidamente em uma crise hídrica.
"Estamos
esgotando essa conta de poupança", afirmou Saulo. "Estamos consumindo
nossas reservas." Em comunicado que acompanhou o relatório, ela destacou
que o armazenamento global de água em continentes vem apresentando uma
tendência persistente de queda desde o período entre 2014 e 2016.
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Águas subterrâneas atingem níveis preocupantes
O
quadro das águas subterrâneas é particularmente preocupante. Segundo o
relatório, quase dois terços dos poços monitorados no mundo apresentaram, em
2025, níveis de água abaixo da média de longo prazo. A Europa Central e
Oriental esteve entre as regiões mais afetadas pela redução dessas reservas,
registrando déficits expressivos em comparação com a média observada entre 2014
e 2024. Poucas outras regiões apresentaram uma deterioração tão acentuada. Em
contraste, grande parte do norte da Europa registrou níveis de águas
subterrâneas superiores à média histórica.
Além da
escassez observada em diversas áreas, algumas bacias hidrográficas apresentaram
excesso de água, especialmente em partes do sul da Ásia, refletindo um ciclo
hidrológico cada vez mais errático e imprevisível, segundo a OMM.
As
geleiras também continuam encolhendo em ritmo acelerado. O ano de 2025 marcou o
quarto período consecutivo de perda significativa de massa de gelo em todas as
regiões monitoradas. A organização alertou que essa tendência poderá aumentar a
insegurança hídrica nas próximas décadas.
Entre
2023 e 2025, as geleiras perderam de forma acumulada cerca de 1.400
gigatoneladas de água. Segundo a OMM, esse volume equivale à quantidade
necessária para encher aproximadamente 560 milhões de piscinas olímpicas ou a
cerca de um terço de toda a retirada anual de água doce realizada no mundo.
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El Niño pode agravar secas e enchentes
Saulo
destacou que a deterioração das reservas de água ocorre paralelamente ao
aumento dos desastres relacionados à água. A secretária-geral citou
especialmente o atual episódio de El Niño, que deve ser o mais intenso desde o
início das séries comparáveis de registros, há cerca de quatro décadas.
O
fenômeno corresponde à fase quente de um ciclo climático natural que ocorre de
cada dois a sete anos. Caracteriza-se por temperaturas acima da média na
superfície do Oceano Pacífico e provoca alterações nos ventos e nos padrões de
chuva em diferentes partes do mundo.
"O
fortalecimento do El Niño aumentará o risco de seca em algumas regiões e de
inundações em outras", alertou Saulo. Mesmo antes da intensificação do
fenômeno, os rios já apresentavam vazões consideradas anormais em várias partes
do planeta. A OMM classificou 2025 como um dos três anos mais secos para os
rios nos últimos 35 anos.
Pelo
sétimo ano consecutivo, as bacias hidrográficas com condições consideradas
normais foram minoria. Apenas 36% registraram vazões dentro da média histórica.
Outros 36% apresentaram níveis abaixo do normal, enquanto 21% ficaram acima da
média.
A
organização ressaltou a importância da coleta e do compartilhamento de dados
para acompanhar as mudanças no ciclo da água e advertiu que ainda existem
lacunas significativas de monitoramento em regiões particularmente afetadas.
"O
clima não respeita fronteiras, e isso é especialmente verdadeiro para a
água", afirmou Saulo. Ela defendeu a ampliação do intercâmbio de dados, da
padronização de informações e dos sistemas de alerta precoce.
"A
água que alimenta uma bacia hidrográfica muitas vezes vem de outro país",
observou. "E um desastre relacionado a geleiras em um país pode provocar
devastação em outro, como vimos recentemente na tragédia envolvendo China e
Nepal."
• Clima ameaça espécies da flora de
montanhas na Europa
A flora
nos picos das montanhas europeias se expandiu como consequência das mudanças
climáticas, enquanto, ao mesmo tempo, espécies acostumadas às condições
extremas das altas montanhas estão desaparecendo.
Essa é
a conclusão de cientistas da Universidade de Viena, da Academia Austríaca de
Ciências (ÖAW) e da Universidade de Recursos Naturais e Ciências da Vida
(BOKU), em um estudo foi publicado na revista científica Science.
"Os
dados mostram uma clara correlação entre a extensão do aumento da temperatura
local em determinados picos de montanha e a perda de espécies nesses
locais", explica Johannes Wessely, autor principal do estudo. O quadro do
crescimento da biodiversidade, portanto, não está apenas incompleto, como
também ignora um aspecto crucial dos desenvolvimentos recentes, pontua a
pesquisa.
Até
algumas décadas atrás, as regiões acima da linha das árvores alpinas eram
inabitáveis para muitas plantas. Segundo cientistas, o aumento das temperaturas
desde a década de 1980 suavizou essa fronteira. Como resultado, espécies como o
capim-azul alpino e a arnica conquistaram os picos das montanhas, como havia
sido demonstrado em um estudo de 2018.
Para o
estudo atual, foram analisados dados de longo prazo de áreas monitorada em 62
picos de montanhas europeias. Essas áreas foram monitoradas quatro vezes entre
2001 e 2022 como parte da rede global de monitoramento Gloria – por exemplo, na
montanha de Schrankogel, no Tirol, Áustria, mas também na Suíça, nos Pirineus,
na França e Espanha; e na parte do Cáucaso localizada na Geórgia.
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Ar rarefeito para espécies "especialistas" em alta montanha
A cada
pesquisa, a porcentagem de espécies que não foram encontradas em cada um dos
levantamentos subsequentes aumentou. Espécies adaptadas a locais mais frios
foram particularmente afetadas. Segundo o diretor do projeto, Stefan Dullinger,
essas espécies incluem nomes como o ranúnculo-glacial, o
cerastista-da-flor-solitária e o jasmim alpino.
Os
fatores que causaram a extinção local dessas espécies especializadas em
altitudes elevadas ainda precisam ser investigados mais a fundo. Além do
aumento das temperaturas, outros aspectos que influenciam esse processo
poderiam ser a diminuição da disponibilidade de água, a menor duração da
cobertura de neve e a competição com novas espécies.
Fonte:
Por Marina Bragante, no Le Monde/DW Brasil

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