sexta-feira, 18 de setembro de 2026

EL NIÑO: O aviso já foi dado. O que faremos com ele?

Em junho, instituições públicas brasileiras reunidas no Painel El Niño 2026-2027 – entre elas o Instituto Nacional de Meteorologia, o instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, a Agência Nacional de Águas, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais e o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia – publicaram um boletim conjunto com um aviso que merecia mais atenção do que recebeu. Três meses depois, o aviso virou constatação. 

O terceiro boletim do painel aponta 90% de chance de o El Niño atingir a categoria muito forte já entre setembro e novembro deste ano, e a atualização de 10 de setembro, com dados do centro climático da agência americana NOAA, mostra anomalias de temperatura no Pacífico Equatorial acima de 3°C em parte do oceano. O Super El Niño está se instalando, se intensificando, e deve chegar ao verão com força.

O El Niño é o aquecimento anômalo das águas do Pacífico Equatorial, e seus efeitos sobre o Brasil são conhecidos: as temperaturas mais altas em quase todo o território, seca no Norte e no Nordeste, chuvas desorganizadas e acima da média em parte do Sudeste. O boletim lista os riscos para abastecimento de água, segurança alimentar, geração de energia e saúde pública, entre outros. Quem vive em São Paulo consegue traduzir cada item. Sabe o que é uma sala de aula a 34 graus depois do almoço, um pronto-socorro cheio em dia de calor extremo, um bairro inteiro alagado porque a chuva de um mês caiu em uma tarde.

Também sabemos que o calor não se distribui igualmente. Os mapas de temperatura da cidade mostram diferenças de vários graus entre os bairros arborizados do centro expandido e as periferias de asfalto e laje, onde vivem as crianças que estudam nas escolas mais cheias e os idosos que moram nas casas mais quentes. O clima extremo é, antes de tudo, um multiplicador de desigualdades.

Foi com esse diagnóstico que construímos, na Câmara Municipal, a lei de adaptação climática nas escolas, sancionada em 13 de julho como Lei nº 18.511/2026. A maior rede municipal de ensino do país passa a ter diretrizes permanentes para enfrentar o novo clima: telhados verdes, sensores de qualidade do ar, protocolos de proteção para ondas de calor e prioridade de investimento nos territórios mais vulneráveis. A lei não foi escrita para o clima que tivemos, e sim para o que as projeções anunciam. Dois meses depois da sanção, o desafio é de execução. A lei precisa sair do papel antes do verão, começando pelas escolas onde o calor já compromete a aprendizagem. 

A CPI que investigou as enchentes do Jardim Pantanal, da qual fui vice-presidente, aprovou por unanimidade um relatório de 364 páginas com uma conclusão central, as obras pontuais não substituem a recuperação da funcionalidade da várzea do Tietê. As chamadas soluções baseadas na natureza custam menos e duram mais do que a engenharia que tenta confinar a água. O mesmo raciocínio vale para cada vaga de estacionamento convertida em área verde, como propõe projeto que apresentamos em 2025. 

Há, ainda, uma dimensão que ultrapassa o município. A lei de adaptação das escolas vale apenas para a rede municipal. As escolas estaduais, os hospitais do Estado e a Defesa Civil paulista precisam de resposta equivalente, e o verão não vai esperar a divisão de competências se resolver. Por isso levamos a proposta adiante pela Bancada do Clima: o projeto de adaptação climática nas escolas já foi protocolado em mais de 40 municípios brasileiros.

Os últimos grandes El Niños nos ensinaram que o custo de não se preparar é sempre maior que o de se antecipar, e que ele é pago primeiro por quem tem menos. Desta vez, o aviso veio com meses de antecedência, assinado pelas instituições científicas do próprio Estado brasileiro, e, a cada boletim, vem mais forte. Preparar as cidades para o clima que já chegou é a melhor e mais concreta forma de cuidar de quem vive nelas.

•        Seca de rios globais em 2025 foi uma das piores em 35 anos

O ciclo global da água está cada vez mais instável, alternando entre escassez e excesso, e um episódio de El Niño considerado sem precedentes pode intensificar essa tendência, alertou a Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência da ONU, nesta quinta-feira (17/09).

Segundo o relatório Estado Global dos Recursos Hídricos, 2025 esteve entre os anos mais secos para os rios do planeta nos últimos 35 anos. Mais de um terço das bacias hidrográficas do mundo registrou vazões abaixo da média histórica, enquanto o volume de água que corre pelos rios globais atingiu um dos três menores níveis das últimas três décadas e meia.

<><> Reservas naturais de água em declínio

O documento mostra que os recursos hídricos globais vêm se tornando mais escassos nos últimos anos, com redução das vazões dos rios, retração das geleiras e queda dos níveis de águas subterrâneas em diversas regiões. O armazenamento de água nos continentes, que inclui aquíferos, lagos, solos, vegetação, neve e gelo, está em declínio contínuo há mais de uma década.

A OMM advertiu que essa tendência tem "sérias implicações futuras", pois essas reservas funcionam como uma proteção natural contra períodos prolongados de seca. As  mudanças climáticas provocadas pela atividade humana, o aumento da demanda por água associado ao crescimento da população mundial e a variabilidade natural do clima estão entre os fatores que explicam as alterações observadas nos recursos hídricos, segundo Wayne Jenkinson, diretor da divisão de Hidrologia e Criosfera da organização.

Embora alguns componentes do ciclo hidrológico, como chuvas, vazão dos rios e umidade do solo, respondam rapidamente às condições meteorológicas, outros atuam como reservas de longo prazo. A secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, demonstrou preocupação especial com a redução dessas reservas mais lentas, como as águas subterrâneas e as geleiras.

Segundo ela, esses recursos historicamente ajudavam a evitar que uma estação seca se transformasse rapidamente em uma crise hídrica.

"Estamos esgotando essa conta de poupança", afirmou Saulo. "Estamos consumindo nossas reservas." Em comunicado que acompanhou o relatório, ela destacou que o armazenamento global de água em continentes vem apresentando uma tendência persistente de queda desde o período entre 2014 e 2016.

<><> Águas subterrâneas atingem níveis preocupantes

O quadro das águas subterrâneas é particularmente preocupante. Segundo o relatório, quase dois terços dos poços monitorados no mundo apresentaram, em 2025, níveis de água abaixo da média de longo prazo. A Europa Central e Oriental esteve entre as regiões mais afetadas pela redução dessas reservas, registrando déficits expressivos em comparação com a média observada entre 2014 e 2024. Poucas outras regiões apresentaram uma deterioração tão acentuada. Em contraste, grande parte do norte da Europa registrou níveis de águas subterrâneas superiores à média histórica.

Além da escassez observada em diversas áreas, algumas bacias hidrográficas apresentaram excesso de água, especialmente em partes do sul da Ásia, refletindo um ciclo hidrológico cada vez mais errático e imprevisível, segundo a OMM.

As geleiras também continuam encolhendo em ritmo acelerado. O ano de 2025 marcou o quarto período consecutivo de perda significativa de massa de gelo em todas as regiões monitoradas. A organização alertou que essa tendência poderá aumentar a insegurança hídrica nas próximas décadas.

Entre 2023 e 2025, as geleiras perderam de forma acumulada cerca de 1.400 gigatoneladas de água. Segundo a OMM, esse volume equivale à quantidade necessária para encher aproximadamente 560 milhões de piscinas olímpicas ou a cerca de um terço de toda a retirada anual de água doce realizada no mundo.

<><> El Niño pode agravar secas e enchentes

Saulo destacou que a deterioração das reservas de água ocorre paralelamente ao aumento dos desastres relacionados à água. A secretária-geral citou especialmente o atual episódio de El Niño, que deve ser o mais intenso desde o início das séries comparáveis de registros, há cerca de quatro décadas.

O fenômeno corresponde à fase quente de um ciclo climático natural que ocorre de cada dois a sete anos. Caracteriza-se por temperaturas acima da média na superfície do Oceano Pacífico e provoca alterações nos ventos e nos padrões de chuva em diferentes partes do mundo.

"O fortalecimento do El Niño aumentará o risco de seca em algumas regiões e de inundações em outras", alertou Saulo. Mesmo antes da intensificação do fenômeno, os rios já apresentavam vazões consideradas anormais em várias partes do planeta. A OMM classificou 2025 como um dos três anos mais secos para os rios nos últimos 35 anos.

Pelo sétimo ano consecutivo, as bacias hidrográficas com condições consideradas normais foram minoria. Apenas 36% registraram vazões dentro da média histórica. Outros 36% apresentaram níveis abaixo do normal, enquanto 21% ficaram acima da média.

A organização ressaltou a importância da coleta e do compartilhamento de dados para acompanhar as mudanças no ciclo da água e advertiu que ainda existem lacunas significativas de monitoramento em regiões particularmente afetadas.

"O clima não respeita fronteiras, e isso é especialmente verdadeiro para a água", afirmou Saulo. Ela defendeu a ampliação do intercâmbio de dados, da padronização de informações e dos sistemas de alerta precoce.

"A água que alimenta uma bacia hidrográfica muitas vezes vem de outro país", observou. "E um desastre relacionado a geleiras em um país pode provocar devastação em outro, como vimos recentemente na tragédia envolvendo China e Nepal."

•        Clima ameaça espécies da flora de montanhas na Europa

A flora nos picos das montanhas europeias se expandiu como consequência das mudanças climáticas, enquanto, ao mesmo tempo, espécies acostumadas às condições extremas das altas montanhas estão desaparecendo.

Essa é a conclusão de cientistas da Universidade de Viena, da Academia Austríaca de Ciências (ÖAW) e da Universidade de Recursos Naturais e Ciências da Vida (BOKU), em um estudo foi publicado na revista científica Science.

"Os dados mostram uma clara correlação entre a extensão do aumento da temperatura local em determinados picos de montanha e a perda de espécies nesses locais", explica Johannes Wessely, autor principal do estudo. O quadro do crescimento da biodiversidade, portanto, não está apenas incompleto, como também ignora um aspecto crucial dos desenvolvimentos recentes, pontua a pesquisa.

Até algumas décadas atrás, as regiões acima da linha das árvores alpinas eram inabitáveis para muitas plantas. Segundo cientistas, o aumento das temperaturas desde a década de 1980 suavizou essa fronteira. Como resultado, espécies como o capim-azul alpino e a arnica conquistaram os picos das montanhas, como havia sido demonstrado em um estudo de 2018.

Para o estudo atual, foram analisados dados de longo prazo de áreas monitorada em 62 picos de montanhas europeias. Essas áreas foram monitoradas quatro vezes entre 2001 e 2022 como parte da rede global de monitoramento Gloria – por exemplo, na montanha de Schrankogel, no Tirol, Áustria, mas também na Suíça, nos Pirineus, na França e Espanha; e na parte do Cáucaso localizada na Geórgia.

<><> Ar rarefeito para espécies "especialistas" em alta montanha

A cada pesquisa, a porcentagem de espécies que não foram encontradas em cada um dos levantamentos subsequentes aumentou. Espécies adaptadas a locais mais frios foram particularmente afetadas. Segundo o diretor do projeto, Stefan Dullinger, essas espécies incluem nomes como o ranúnculo-glacial, o cerastista-da-flor-solitária e o jasmim alpino.

Os fatores que causaram a extinção local dessas espécies especializadas em altitudes elevadas ainda precisam ser investigados mais a fundo. Além do aumento das temperaturas, outros aspectos que influenciam esse processo poderiam ser a diminuição da disponibilidade de água, a menor duração da cobertura de neve e a competição com novas espécies.

 

Fonte: Por Marina Bragante, no Le Monde/DW Brasil

 

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