Cantor
gospel propõe usar ONG como ‘laranja’ para receber dinheiro de emenda de irmã
de Edir Macedo
O
empresário e cantor gospel Samuel Modesto tentou usar uma ONG como “laranja”
para a sua empresa receber verba pública, via emenda parlamentar, da deputada
estadual Edna Macedo, do Republicanos de São Paulo, candidata à reeleição e
irmã de Edir Macedo, líder da Igreja Universal. A proposta foi registrada em
áudio gravado durante uma reunião em 23 de maio de 2026, e o Intercept Brasil
obteve a gravação com exclusividade.
Na
conversa, Modesto propõe que a entidade Jesus Cristo Por Um Mundo Melhor, a
JCPM, da zona norte de São Paulo, aceite receber uma verba “muito alta mesmo”.
Como ele é legalmente impedido de receber o recurso de forma direta, o esquema
previa que a ONG embolsasse e repassasse uma parte do valor contratando a
empresa de eventos gospel do cantor, a SGM.
A
manobra tentava burlar a legislação paulista, que só autoriza a destinação de
emendas para entidades privadas que sejam organizações da sociedade civil sem
fins lucrativos – exatamente o perfil da JCPM. Atualmente, cada deputado
estadual de São Paulo pode indicar até cerca de R$ 12 milhões em emendas. Na
prática, é uma fatia do orçamento do estado que os parlamentares controlam e
enviam para onde decidirem.
“Ela
[Edna Macedo] vai me dar a verba e a gente vai distribuir essa verba dentro
daquilo que a gente achar legal, onde a gente vai colocar. Pelo que entendi,
pelo que eu conversei com o rapaz [assessor da Edna], a verba não é pequena. A
verba é muito alta. É muito alta mesmo”, detalhou Modesto na reunião.
Durante
a reunião, Samuel Modesto não chega a detalhar como planejava gastar o dinheiro
da verba de emenda, mas especula possibilidades para “ajudar pobres” comprando
roupa, consultório odontológico e shows na comunidade. Como a empresa dele não
podia receber o recurso diretamente da parlamentar, a ideia era que a SGM seria
subcontratada pela ONG.
O
empresário transita no meio gospel e na própria Igreja Universal. Ele já foi
diretor do prêmio Troféu Talento, um concurso tradicional de músicos cristãos,
e cantou no Gospel Day, evento da Universal patrocinado por emendas de
deputados do Republicanos.
A
justificativa para o repasse milionário seria uma dívida de gratidão. No áudio,
o cantor afirma que ajudou um familiar da deputada e, por isso, seria
retribuído. Ao revelar o nome de sua benfeitora pela primeira vez na reunião,
Modesto se gaba: “É uma deputada muito grande, muito forte. (…) Ela é irmã do
bispo Macedo. Só isso”.
O
histórico mostra que esse fluxo de dinheiro não é novidade. Reportagem do
Intercept publicada em agosto mostrou que Edna destinou R$ 2,2 milhões em
emendas parlamentares para eventos da igreja do irmão. No total, desde 2023,
parlamentares já enviaram pelo menos R$ 16,8 milhões para eventos da Universal.
Os valores foram repassados por meio do Instituto Paulo Kobayashi, o IPK,
entidade que realiza vários eventos da igreja.
Durante
a reunião, os líderes da JCPM reagiram à proposta com cautela, alertando sobre
o risco de envolvimento em corrupção e destacando que decidiriam coletivamente.
Modesto tentou garantir que a contratação seria lícita, mas admitiu a
possibilidade de ter que devolver parte do recurso para a deputada – a clássica
prática de rachadinha.
“Eu não
sei se tem repasse, não falaram nada disso para mim. ‘Olha, eu vou te dar 2
milhões, mas você tem que devolver 400 aqui’. Eu não sei se vai acontecer isso.
Eu não sei de nada. Eu vou ter uma reunião com eles”, ponderou o cantor.
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Amiga do Dark Horse
Para
tentar provar que não tinha interesse em esquemas ilícitos, Modesto citou como
mau exemplo uma antiga conhecida da Igreja Renascer, chamada Karina.
“Foi a
minha amiga na Renascer, nunca mais a vi, sumiu e tal. Aí me liga um fotógrafo
amigo (…) e falou: ‘Rapaz, você viu a Karina? Ela está ferrada’. Então,
aconteceu que ela está envolvida até os dentes, ela foi pega agora com R$ 108
milhões. Acho que está ligada também ao Banco Master. Então, eu acho que tem
coisa que não vale a pena. Aí a gente não vai dormir, a gente não dorme. A
gente tem que ver: ‘olha, até essa página dá para andar, passou dessa página aí
não dá mais’. Eu tenho nome na praça há muitos anos. Vou pegar meu nome e jogar
na lama nessa altura do campeonato? Não dá.”
A
mulher citada pelo cantor é Karina Ferreira da Gama, produtora do filme “Dark
Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, e investigada pela Polícia Civil
de São Paulo por suspeita de desvios em um contrato de R$ 108 milhões com a
Prefeitura de São Paulo para instalação de pontos de Wi-Fi na capital.
A
conexão de Karina com a gestão do prefeito Ricardo Nunes foi revelada em
reportagem do Intercept em dezembro do ano passado.
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Mais de R$ 2 milhões
Segundo
Modesto, foi um assessor da deputada Edna Macedo que sugeriu a busca por uma
ONG de confiança para receber os repasses de emenda. O cantor chegou à JCPM por
intermédio de um amigo guitarrista, Edson Lopes Queiroz, então vice-presidente
da organização.
Ao
contrário dos demais líderes da JCPM, Queiroz defendia que a organização
aceitasse a proposta. Cinco dias antes da reunião de Modesto com a cúpula da
ONG, o guitarrista enviou um áudio à tesoureira da entidade pressionando pela
aceitação do acordo.
“Essa
verba passa de R$ 2 milhões. É muito dinheiro. É a oportunidade de a ONG ganhar
dinheiro, entendeu? É muita grana. (…) Estou até vendo com o Samuel, se caso
não der certo nada, aí eu vou abrir uma ONG com ele. Mas a gente precisava de
um negócio urgente, de uma ONG que já esteja funcionando, aberta, que vai
entrar muito dinheiro. (…) Precisa da ONG só para constar o nome para liberar a
verba, entendeu?”, disse Queiroz.
Aceito
receber e-mails e concordo com a Política de Privacidade e os Termos de Uso.
A
manobra, no entanto, esbarrou na presidente da JCPM, Eliete de Almeida Lima
Delmutti Ramos da Silva. Áudios gravados nos dias seguintes à reunião com
Modesto mostram que ela recusou a proposta do cantor gospel mesmo se o
vice-presidente Queiroz aceitasse.
O
professor Caio César de Medeiros Costa, doutor em Administração Pública e
Governo, do Departamento de Administração da Universidade de Brasília, a UnB,
explica que o acordo fere frontalmente o princípio da impessoalidade – a regra
de que toda escolha na administração pública deve ser baseada no interesse da
sociedade, e não em vantagens pessoais.
“Tem um
desvio de finalidade no uso do recurso, que ao invés de atender ao interesse
público atende ao privado, que nesse caso seria ‘pagar’ a dívida de gratidão da
parlamentar. A contratação deveria atender a critérios objetivos. E sim, esse
princípio tem que ser considerado para qualquer ação envolvendo o poder
público, mesmo que não haja repasse de recurso”, detalhou Costa.
A
avaliação é endossada pelo doutor em Administração Pública Marcelo Marchesini,
professor do Insper. Ele aponta que destinar uma emenda a uma organização com o
objetivo oculto de repassar o dinheiro a terceiros, ou de garantir algum tipo
de retorno, é uma afronta direta à lei.
“Os
processos estão sendo deturpados para gerar um benefício privado claro e está
sendo usado um subterfúgio de enviar para a OSC [Organização da Sociedade
Civil] para se ocultar os verdadeiros beneficiários”, resumiu Marchesini.
A JCPM
informou ao Intercept que nenhuma proposta de Samuel Modesto foi aceita pela
organização. Além disso, a entidade afirmou que Edson Queiroz foi destituído do
cargo de vice-presidente após a reunião.
Por
telefone, Queiroz afirmou ao Intercept que Modesto propôs direcionar uma emenda
parlamentar de Edna Macedo para a ONG. O dinheiro financiaria eventos de música
gospel, especificamente com a compra de equipamentos de som. O
ex-vice-presidente da JCPM, no entanto, alegou que as negociações não passaram
de “só conversa” e que o projeto de criar uma nova entidade sem fins lucrativos
em parceria com Modesto também não foi para a frente.
Todas
as outras pessoas mencionadas no texto foram procuradas pela reportagem, mas
não responderam aos questionamentos. O espaço segue aberto.
Fonte:
Por Thalys Alcântara, em The Intercept

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